Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue RBE

Qua | 30.04.25

Uma história com final feliz, graças ao trabalho em rede

Blogue (1) (4).png

No dia 23 de abril celebrou-se o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor. Como é habitual, as bibliotecas escolares assinalaram a data com inúmeras atividades criativas e significativas, envolvendo alunos, professores e comunidades educativas de todo o país. Este ano, um pedido de última hora levou-nos a reunir informação num curto espaço de tempo e o que aconteceu foi mais uma demonstração da força e da agilidade da nossa rede.

Era uma terça-feira aparentemente igual às outras. A equipa da RBE seguia a sua preenchida rotina habitual quando, a meio da tarde, chegou uma pergunta:
“O que vão as bibliotecas escolares fazer para celebrarem o Dia Mundial do Livro?”

Centralmente, não tínhamos nada planeado. Mas sabíamos que, como sempre, as bibliotecas escolares estavam no terreno, com criatividade, empenho e muitas ações preparadas para assinalar a data.

Lançámos então a pergunta às 15h30.
O que aconteceu a seguir foi uma demonstração clara do que significa fazer parte desta rede.

Coordenadores interconcelhios, bibliotecas escolares, professores bibliotecários, equipas incansáveis... todos se mobilizaram de imediato para que a pergunta não ficasse sem resposta.

Às 18h00, três horas depois, já tínhamos informações concretas: atividades muito diversas que envolviam cerca de 16.300 alunos.
Hoje, com os contributos que continuam a chegar, são já mais de 21.000 os alunos contabilizados. E sabemos que ainda faltarão muitos.

Em boa hora surgiu a pergunta! Se, por um lado, nos apanhou sem dados, por outro deu-nos a oportunidade de recolher, sistematizar e divulgar publicamente dezenas de iniciativas que, de norte a sul, celebraram o livro e a leitura com enorme criatividade e sentido de missão.

Entre as muitas ações realizadas, destacamos apenas algumas, a título de exemplo:

📍 Em Alcobaça, os alunos subiram ao palco para defender, com paixão, as suas escolhas de leitura, numa prova oral onde cada palavra contou.

📍 Em Arganil, os livros-objeto ganharam forma e vida, cruzando leitura, educação visual e sustentabilidade.

📍 Em Arouca, quem levou uma flor à biblioteca recebeu um livro surpresa.

📍 Em Azeitão, Setúbal, os alunos “assaltaram” salas de aula com leituras surpresa de poesia, celebrando simultaneamente o livro e o 25 de Abril.

📍 Em Coimbra, uma marcha pela leitura agitou a Baixa com palavras de ordem, música e poesia, numa ligação única entre escola e cidade.

📍 Na Covilhã, design e literatura cruzaram-se com a curadoria de André Letria a visitar as escolas, num projeto em articulação com a biblioteca municipal.

📍 Em Estremoz, um peddy paper literário percorreu fontes e ruas da cidade, homenageando Camões.

📍 Na Moita, as redes sociais também celebraram, com um passatempo interativo e envolvimento da comunidade.

📍 Em Peniche, um livro sobre o património local foi apresentado pelo próprio autor, em parceria com uma aluna ilustradora.

📍 Em Silves, o concurso de leitura que envolve todas as bibliotecas escolares do concelho culminou, no dia 23, com a grande final concelhia, após várias fases de apuramento.

📍 E em tantas outras escolas, houve encontros com autores, sessões de leitura partilhada, feiras do livro, exposições, dramatizações, partilhas intergeracionais, performances, jogos, debates e muito mais.

As bibliotecas escolares celebraram o livro com criatividade, envolvimento e emoção.

E este levantamento, feito em tempo record, que só foi possível graças ao trabalho colaborativo desta rede, está longe de estar completo.

📌 Consulte aqui as atividades reportadas até ao momento.

A história deste dia ficou mais rica porque foi escrita a muitas mãos.

_____________________________________________________________________________________________________________________

Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Seg | 28.04.25

O Direito Universal à Leitura

Blogue (12).png

Falar do direito à leitura é falar do direito à justiça e ao desenvolvimento e do dever de cada biblioteca providenciar a todas as pessoas, no mesmo momento, com o mesmo custo e qualidade, todas as obras. Temos um quadro normativo compatível com este desígnio, principalmente a partir do Tratado de Maraquexe, principal marco desde a invenção do Braille, há 2 séculos atrás. Mas, como é a realidade? Qual é a pegada literária positiva da sua biblioteca escolar, como é que ela tira partido das atuais oportunidades e contribui para minimizar a fome dos livros? 

A.

Na Declaração Universal dos Direitos Humanos, o direito universal à leitura emerge como condição para o exercício de:

  • Liberdade de opinião e de expressão (Artigo 19);
  • Direito à educação (Artigo 26);
  • Direito à vida cultural (Artigo 27).

Estes são direitos universais indissociáveis da leitura, entendida não como mera decifração de palavras, mas como acesso ao pensamento, à cultura, à imaginação, à cidadania e à liberdade. 

Consequentemente, promover políticas públicas de incentivo à leitura, bibliotecas acessíveis e a inclusão digital são formas de defesa dos direitos humanos fundamentais

Quando esse direito é negado - por barreiras físicas, sensoriais, cognitivas ou sociais - estamos a excluir essa pessoa da construção do mundo e do próprio futuro. 

Garantir o acesso à leitura a todas as pessoas, independentemente das suas capacidades ou contextos, também é uma questão de justiça e dignidade humana.

Na era em que informação é poder, a leitura deve ser acessível, em múltiplos formatos e linguagens, porque cada pessoa lê de forma diferente. 

Uma sociedade democrática reconhece que a diversidade dos leitores exige diversidade de meios — livros em braille, áudio, letra aumentada, digital, leitura fácil — e políticas públicas que promovam bibliotecas inclusivas, formação de profissionais sensíveis à diferença e produção cultural acessível.

B.

O desígnio do direito universal à leitura também está consagrado na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, no contexto do exercício dos seguintes direitos: 

  • Acessibilidade (Artigo 9);
  • Educação (Artigo 24);
  • Participação na vida cultural, recreação, lazer e desporto (Artigo 30);
  • Liberdade de expressão e de opinião e acesso à informação (Artigo 21).

A Convenção consagra que “pessoas com deficiência de leitura têm direito a igual acesso a livros, conhecimento e informação, no mesmo momento, custo e qualidade que todas as outras pessoas” (IFLA, 2025) e exige ao Estado a remoção de barreiras físicas, tecnológicas e comunicacionais que impeçam as pessoas com deficiência de aceder à palavra escrita (literária, informativa ou educativa): 

“Os Estados Partes tomarão as medidas apropriadas para assegurar às pessoas com deficiência o acesso, em condições de igualdade com as demais pessoas, ao ambiente físico, aos transportes, à informação e à comunicação, incluindo sistemas e tecnologias da informação e comunicação”.

C.

O Manifesto da Biblioteca Pública (IFLA-UNESCO 2022) consagra às bibliotecas públicas esta responsabilidade:

“Os serviços da biblioteca pública são prestados com base na igualdade de acesso para todos (…). Devem ser oferecidos serviços e materiais específicos para aqueles utilizadores que, por qualquer motivo, não possam utilizar os serviços e materiais regulares – por exemplo, minorias linguísticas, pessoas com deficiência, com fracas competências digitais ou de leitura, ou pessoas hospitalizadas ou detidas”.

O Relatório Mundial sobre a Deficiência 2011, da Organização Mundial da Saúde e Banco Mundial considera que "Pouca informação está disponível em formatos acessíveis, e muitas necessidades comunicacionais das pessoas com deficiência não são atendidas" e recomenda que governos e instituições adotem medidas para assegurar que a informação e a comunicação sejam acessíveis a todos, promovendo a equidade e a participação plena e igualitária na educação, no emprego e comunidades.

Reconhecendo que “menos de 7% dos livros publicados são disponibilizados globalmente em formatos acessíveis, como Braille, áudio e letras grandes, e formatos digitais DAISY [Digital Accessible Information System ou sistema de livros digitais sonoros]” (IFLA, 2018), os Estados-Membros da Organização Mundial da Propriedade Intelectual/World Intellectual Property Organization (OMPI/WIPO), agência especializada das Nações Unidas, adotaram, em 2013, o Tratado de Marraquexe, que visa “Ajudar a acabar com a fome mundial de livros” enfrentada por pessoas com deficiências de leitura impressa - "tem um único objetivo: aumentar o acesso a livros, revistas e outros materiais impressos para pessoas com deficiência de leitura."

O Tratado entra em vigor em 2016 e é ratificado pela UE em 2018, o que o tornou vinculativo em todos os seus Estados-Membros, incluindo Portugal que, obrigatoriamente, introduz alterações na legislação dos direitos de autor. 

Passa a: 

  • Permitir a reprodução e distribuição de obras, cópias, em formatos acessíveis, sem a necessidade de autorização dos detentores de direitos autorais [e que podem ser catalogadas e conservadas no fundo documental da biblioteca];

  • Facilitar a troca transfronteiriça dessas obras entre países signatários.

Por Obras entende-se audiolivros, textos, notações e ilustrações.

O Tratado reconhece a diversidade de necessidades dos leitores com deficiência e garante que todos tenham acesso equitativo à informação e ao conhecimento, o que reforça o compromisso com o direito universal à leitura

Porque as bibliotecas têm um papel fundamental na facilitação do acesso a obras impressas para pessoas cegas e com outras deficiências de acesso a texto impresso, sugere-se a consulta do Guia Prático para Bibliotecários da IFLA para pôr em prática o Tratado. 

No Guia, Penny, Diretora Executiva da União Mundial de Cegos, afirma que “o Tratado de Marraquexe é o desenvolvimento mais significativo na vida das pessoas cegas e com deficiência visual desde a invenção do Braille, há quase 200 anos" porque permite alargar o número de livros a que cada leitor com deficiência tem acesso e encontrá-los em todo o mundo. 

O Guia também faz o mapeamento dos serviços de livros acessíveis, a nível mundial, dos quais cada biblioteca, qualquer que seja a sua tipologia, pode beneficiar e contribuir, como The Accessible Books Consortium Global Book Service para intercâmbio de materiais em formato acessível; Accessible Content ePortal para fins académicos; Bookshare; serviços para grupos linguísticos específicos, como o TifloLibros para textos em espanhol; Hathi Trust e Internet Archive

É importante que o maior número de bibliotecas tire partido do Tratado e acabe com a fome de livros. 

 

Referências

IFLA. (2018). Getting Started: Implementing the Marrakesh Treaty for persons with print disabilities - A practical guide for librarians. https://repository.ifla.org/items/e4d1f9bc-77ac-41e8-8376-f117475d2c42

IFLA-UNESCO. (2022). Manifesto da Biblioteca Pública. https://repository.ifla.org/items/0cd26664-4908-464c-8ade-f355c555730e

WHO. (2011). World Report on Disability 2011. https://www.who.int/teams/noncommunicable-diseases/sensory-functions-disability-and-rehabilitation/world-report-on-disability

WIPO. (2013, June 27). Marrakesh Treaty to Facilitate Access to Published Works for Persons Who Are Blind, Visually Impaired or Otherwise Print Disabled. https://www.wipo.int/wipolex/en/treaties/textdetails/13169


📷 Freepik [imagem gerada com IA]. https://br.freepik.com/imagem-ia-gratis/retrato-de-uma-crianca-autista-num-mundo-de-fantasia_152702844.htm#fromView=search&page=1&position=2&uuid=a5e4e2eb-170d-4046-8aa5-3582ece2fac8&query=imagening+new+planets+and+constellations

_____________________________________________________________________________________________________________________

Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Qui | 24.04.25

Bibliotecas a(tra)tivas

Estantes que convidam a ler

2025-04-24.jpg

Pensar na organização da biblioteca, tornando-a mais atrativa para os seus utilizadores, é algo que se vai mantendo na lista de tarefas de muitos professores bibliotecários. Promover a leitura e aumentar a circulação da coleção, também. Neste artigo, apresentamos algumas sugestões que permitem conciliar ambas.

Dynamic Shelving – o que é?

1743489049175.jpg

Já ouviu falar em dynamic shelving? Esta expressão refere-se a uma técnica de organização e disponibilização mais dinâmica dos livros nas prateleiras ou estantes, em oposição a uma arrumação tradicional baseada apenas na Classificação Decimal Universal (CDU) e na ordem alfabética dos autores. A ideia é simples, mas eficaz: tornar os livros mais visíveis, acessíveis e apelativos para quem entra na biblioteca.

Ao invés de termos apenas filas de lombadas organizadas verticalmente, propõe-se a inclusão de capas voltadas para o leitor, criando pontos de destaque visual que despertam curiosidade e convidam ao toque. Tal como nas livrarias, o objetivo é que o utilizador se sinta estimulado a explorar — mesmo que ainda não saiba o que procura.

Porquê investir em estantes dinâmicas?

Este tipo de abordagem traz múltiplas vantagens. Em primeiro lugar, aumenta a visibilidade dos livros, especialmente daqueles que raramente são requisitados. Ao destacar livros menos conhecidos ou menos procurados, dá-se uma nova oportunidade para que sejam descobertos pelos leitores.

Além disso, estimula a leitura por prazer, através do apelo visual e da surpresa. A disposição dos livros com as capas viradas para fora e a criação de temas inesperados despertam a curiosidade e convidam à exploração livre do acervo.

Esta prática também apoia aprendizagens e projetos pedagógicos, ao permitir que se organizem seleções que complementem conteúdos curriculares ou iniciativas da escola. Estas seleções podem funcionar como recursos úteis para a sala de aula ou como incentivo à pesquisa autónoma.

1743489049192.jpg

Outro benefício significativo é que impulsiona o envolvimento de alunos e professores, abrindo espaço para sugestões e colaborações na escolha dos temas ou dos livros em destaque. Esta participação ativa fortalece o sentido de pertença e torna a biblioteca um espaço mais partilhado.

Por fim, renova a perceção da biblioteca escolar, tornando-a num ambiente dinâmico, acolhedor e atualizado, capaz de responder aos interesses da comunidade educativa e de refletir o que se vive na escola e no mundo.

Condições para o sucesso

É verdade que a implementação desta prática depende de vários fatores — tipologia da biblioteca, espaço disponível, diversidade da coleção — mas, acima de tudo, depende da criatividade e da vontade de experimentar.

Importa, no entanto, assegurar que há espaço físico para estas exposições. Nesse sentido, vale a pena reler o documento da RBE Política de gestão da coleção: linhas orientadoras para a política de constituição e desenvolvimento da coleção. Uma coleção bem gerida — e com desbaste regular — facilita a criação de zonas de destaque que não comprometam a organização geral.

Como começar? Um plano simples em 5 passos

Antes de mais, é útil recordar algumas boas práticas sugeridas por profissionais que já aplicam esta abordagem em bibliotecas escolares e públicas, por exemplo:

  • Agrupar livros por tópicos baseados nos interesses dos alunos, como “super-heróis”, “mistério”, “princesas” ou “histórias assustadoras”;
  • Criar caixas ou cestos temáticos com etiquetas visuais e apelativas para facilitar o acesso dos leitores mais jovens;
  • Envolver os alunos na criação da sinalética e organização dos espaços, promovendo a apropriação da biblioteca;
  • Agrupar livros por tópicos inesperados e divertidos (ex.: "Livros com gatos", "Histórias com finais surpreendentes", "Livros que podiam ser filmes de terror");
  • Utilizar as ilhargas das estantes e áreas de transição como locais privilegiados para destacar livros;
  • Renovar frequentemente as exposições para manter o fator surpresa;
  • Apostar em sinalética clara, apelativa e escrita em linguagem próxima dos alunos.

Tendo em conta estas sugestões e práticas já implementadas em várias bibliotecas escolares, propõe-se o seguinte plano de ação:

  1. Observar: Quais são os interesses dos alunos? Que livros estão a ser pouco lidos? Que géneros ou formatos (romances, banda desenhada, livros informativos, poesia) parecem atrair mais leitores em determinados ciclos de ensino? Existem títulos frequentemente manuseados mas raramente requisitados, que merecem destaque para incentivar o empréstimo?

  2. Planear: Criar um calendário de temas mensais, aproveitando efemérides, projetos da escola ou acontecimentos culturais, pode ser ainda mais enriquecedor se envolver os próprios alunos nesse processo.
    Convidá-los a sugerir temas, a escolher livros para cada exposição ou até a criar materiais de divulgação (cartazes, resenhas, marcadores) transforma esta ação numa oportunidade de colaboração.

  3. Montar: Usar mesas, carrinhos, suportes ou prateleiras acessíveis. Expor livros com a capa voltada para fora é apenas uma das muitas possibilidades criativas ao montar uma exposição dinâmica. Também se pode utilizar pequenos cavaletes para destacar livros em cima de mesas, criar "ilhas" temáticas com adereços relacionados com o conteúdo dos livros, adicionar frases cativantes retiradas das obras, ou até recorrer a QR codes que conduzam a booktrailers, críticas ou entrevistas com os autores. Outra ideia interessante é incluir pequenos cartões com recomendações escritas pelos próprios alunos ou professores, incentivando a partilha de leituras e a descoberta colaborativa.

  4. Divulgar: Promover as seleções em sala de aula, no site da escola, nas redes sociais ou em visitas orientadas pode ser uma excelente forma de alargar o impacto da iniciativa.

  5. Avaliar: Medir o impacto através da monitorização dos empréstimos, da observação do comportamento dos utilizadores e do feedback dos utilizadores.

Ideias de temas para as exposições dinâmicas:

  • Livros que fazem rir
  • Do livro ao ecrã
  • O que andamos a aprender? (ligado ao currículo)
  • Autores portugueses que deves conhecer
  • Sugestões dos alunos

E por que não começar com uma proposta ligada ao 25 de Abril?

“Liberdade de Ler” – livros sobre liberdade, democracia, direitos humanos. (a esse propósito lembramos a publicação Tempo para ler de Abril de 2024: Liberdade: 50 livros para pensar

Vale a pena experimentar

Adotar uma prática de dynamic shelving não exige grandes investimentos nem mudanças estruturais. Exige, isso sim, vontade de transformar a biblioteca num espaço mais apelativo e centrado nos leitores. Cada livro destacado é uma oportunidade para (re)descobrir uma história.

Comece por uma pequena exposição. Observe o efeito. E, acima de tudo, diverta-se a criar pontes entre os livros e os leitores.

Que tal? Vamos experimentar nesta reta final do ano letivo? Partilhe nos comentários!

Referências

  1. Bogan, K. (2023, 8 de março). 3 Essential Dynamic Shelving Tips!. https://ideas.demco.com/blog/3-essential-dynamic-shelving-tips/
  2. South Dakota State Library. (2021). Dynamic Shelving: A Practical Guide for School Libraries. https://library.sd.gov/LIB/SLC/doc/Guide-SDSL-SLDynamicShelving.pdf
  3. Van Orden, J. (2022, 10 de outubro). Dynamic Shelving: A Practical Guide. Don't You Shush Me. https://dontyoushushme.com/2022/10/10/dynamic-shelving-a-practical-guide/
  4. Struckmeyer, A. (2022, 14 de outubro). Dynamic Shelving for School Libraries. Demco Ideas. https://ideas.demco.com/blog/dynamic-shelving-for-school-libraries/
  5. Demco. (2023). Dynamic Shelving with Kelsey Bogan [Webinar]. https://youtu.be/qYBsH_-PHZg?si=QvTxiVADnUQ27EjZ
  6. Fotos: Escola Secundária de Caldas das Taipas, Guimarães

 

_____________________________________________________________________________________________________________________

Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Qua | 23.04.25

Ler é, mesmo, ser livre!

2025-04-23.png

Todos os anos, em abril, mais propriamente a 23 de abril, celebramos o Dia Mundial do Livro. A este propósito recordamos que a UNESCO instituiu o Dia Mundial do Livro em 1995. A data foi escolhida por ser um dia importante para a literatura mundial, uma vez que foi a 23 de abril de 1616 que Miguel Cervantes faleceu, no mesmo dia de 1899, nasceu Vladimir Nabokov e é neste dia que é celebrado o nascimento de William Shakespeare, que também se acredita ser a data do seu falecimento.

Este ano, a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) associa o Dia Mundial do Livro às comemorações dos 50 anos do 25 de abril de 1974. "Ler é Ser Livre" é o mote que inspira não só o cartaz, mas também de todas as celebrações, promovidas pela DGLAB ao longo do mês de abril. A Rede de Bibliotecas Escolares associa-se, subscrevendo o mote. Porque sabemos que Ler é, mesmo, ser livre!

A ilustração do cartaz é da autoria de Rachel Caiano, distinguida com menção honrosa no Prémio Nacional de Ilustração 2024. Estão todos convidados a juntarem-se a esta celebração! 

Neste Dia Mundial do Livro, a DGLAB oferecerá mais de 100 livros, incentivando o acesso à leitura e reforçando o seu compromisso com a democratização da cultura.

Celebrar este dia é incentivar a promoção do livro e da leitura, difundir a importância da literatura como um pilar essencial na edução e na cultura dos povos.  Recordemos um pequeno Manifesto pela Leitura, escrito por Irene Vellejo, que tanto nos têm encantado com reflexões preciosas sobre os livros e o poder da leitura.

img1 (4).jpg

Os livros, veículos da nossa memória, capazes de transformar o futuro, não surgiram de uma inspiração repentina, foram uma invenção desejada e procurada. Muitas mentes de diversos séculos trabalharam para a melhorar, explorando engenhosas possibilidades. O desejado suporte para a escrita devia ser ao mesmo tempo pequeno, leve, flexível, fácil de transportar e — nos melhores sonhos — também duradouro.

“Os livros são refúgios da memória, espelhos onde nos olhamos para podermos ser mais parecidos com aquilo que desejamos ser. Estes frágeis universos são a nossa for a nossa força.

Somos seres entretecidos de relatos, bordados com fios de vozes, de história, de filosofia e de ciência, de deis e lendas. Por isso, a leitura vai continuar a cuidar de nós se nós cuidarmos dela. O que nos salva não pode desaparecer. Os livros recordam-nos, serenos e sempre dispostos a abrir-se perante os nossos olhos, que a saúde das palavras está enraizada nas editoras, nas livrarias, nos clubes de leituras partilhadas, nas bibliotecas, nas escolas. E aí que imaginamos o futuro que nos une.”

_____________________________________________________________________

img2 (4).jpg

São muitos os livros que nos falam sobre livros. Já conhecem – O que vem a ser isto? – A História de um objeto surpreendente. (Imprensa Nacional & Pato Lógico, 2021)

“Os livros fazem uma espécie de magia: transportam ideias e emoções da cabeça do autor para a cabeça do leitor. Portanto, a primeira coisa de que um livro precisa é de um autor. “

img3.png

“Os livros criam-se devagar, avançando um pouco de cada vez, mas chega finalmente o dia em que o autor vê a sua ideia transformada em realidade e já a pode espalhar pelo mundo.”

_____________________________________________________________________

img4 (3).jpg

Um Vestido Curto de Festa (2020), de Christian Bobin, editado pelo Barco Bêbado é um livro que elogia a escrita e a leitura. É um livro singular. 

“O livro escreve-se sob o teu olhar. A leitura é contemporânea de quem a lê. O leitor e o autor avançam ao mesmo tempo no éter das paixões. (…) Para que serve ler? Para nada, ou quase nada. É como amar, como jogar. E como rezar. Os livros são como rosários de tinta negra, cada conta rolando entre os dedos, palavra após palavra. E o que é realmente rezar? É silenciar-se. Afastar-se de si no silêncio. Talvez seja impossível. (…)”

 

 

 

 

_____________________________________________________________________

Neste dia visite livrarias, bibliotecas escolares e municipais, partilhe leituras, ofereça livros, divulgue os livros de que mais gosta e comece a ler um novo livro.

_____________________________________________________________________

Deixamos-lhe algumas sugestões: 

img5 (4).jpg

” Incontornável para todos os que gostam de livros, esta aclamada obra de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren, publicado originalmente em 1940, é um prodígio raro, um clássico vivo sobre os vários níveis de leitura e a forma de os alcançar – desde a leitura elementar, passando pela leitura sistemática, profunda e introspetiva, até à leitura rápida.

Aqui, o leitor terá a oportunidade de intensificar o prazer da leitura, aprender a avaliar (ou não) um livro pela capa, fazer uma análise pormenorizada do conteúdo, desenvolver uma leitura crítica aprofundada e extrair de forma eficaz a mensagem que o autor deseja transmitir.

Como Ler Um Livro inclui resumos, esquemas e instruções sobre diversas técnicas de leitura, adaptadas a cada género literário, desde peças de teatro a poesia até filosofia e ciências sociais. 

Além disso, oferece excelentes recomendações de obras imperdíveis e testes que permitem avaliar o progresso em termos de capacidade de leitura, compreensão e rapidez. (…)  Esta obra conduz-nos por uma agradável viagem pelo mundo da leitura e explora as razões fundamentais pelas quais devemos ler.” [sinopse da editora]

_____________________________________________________________________

img6 (3).jpg

“Este livro é uma carta de amor aos livros.

Desafiámos 28 autores a escreverem um texto original sobre um livro que os tenha marcado: aquele livro a que voltamos muitas vezes, aquele que nos fez descobrir a leitura, aquele que nos acompanhou numa viagem ou que simplesmente nunca nos saiu da cabeça.

São esses livros que estão em O Que Lêem os Escritores, numa partilha única e generosa de escritoresleitores com leitores que querem sempre descobrir novos escritores, e com todos os que compreendem o impacto que um livro pode ter na nossa vida. “[sinopse da editora]

_____________________________________________________________________

img7 (5).jpg

“Já te aconteceu, em conversas com amigos, contarem as mesmas histórias vezes sem conta? Conversar pode ser só isso: revisitar lugares antigos com alguém. Mas uma conversa — mesmo quando parece que não estamos a dizer nada de novo — pode levar-nos também a lugares onde nunca tínhamos estado antes, lugares onde chegámos simplesmente porque continuámos juntos.

Este livro traz algumas perguntas para a mesa da conversa. Por exemplo: como podemos criar esse espaço de conversa quando ele ainda não existe? Por que é tão fácil conversar com umas pessoas e mais difícil com outras?

Conversar faz parte de sermos humanos, e a forma como conseguimos comunicar é uma parte muito importante de nos sentirmos bem com o mundo. Conversar não resolve tudo, mas é fundamental para fazermos o caminho em conjunto. “[ sinopse da editora] 

_____________________________________________________________________

img8 (4).jpg

” Quando o escravo Jim ouve rumores de que será vendido a um homem de Nova Orleães e para sempre separado da mulher e da filha, decide esconder-se na ilha de Jackson e conceber um plano.

Inesperadamente, vê aparecer o jovem Huck Finn, que acaba de fingir a própria morte para escapar às mãos do pai violento. Mais de um século depois de Mark Twain ter escrito As Aventuras de Huckleberry Finn, elas são agora retomadas por Percival Everett, que lhes muda o ponto de vista. Quem é Jim? Quais as suas paixões? E até onde está disposto a ir para vingar os seus? James é uma reinvenção brilhante de um clássico da literatura mundial, ferozmente divertido e provocador, e uma lição notável sobre o poder da linguagem, pelas mãos de um dos mais aclamados autores norte-americanos da atualidade. [sinopse da editora] 

_____________________________________________________________________

img9.png

 “Esta banda desenhada adorável capta, com exatidão, o que se sente quando se está totalmente apaixonado pelos livros de capa dura. E pelos livros de capa mole! E pelos ebooks! E por livrarias! E por bibliotecas!

Book Love — Para quem adora ler! é um presente, em forma de livro de banda desenhada, feito à medida de gente bebericadora-de-chá, cheiradora-de-páginas, bibliófila-acumuladora-de-livros.

O estilo da banda desenhada de Debbie Tung reconhece-se imediatamente e traz com ele gargalhadas, enquanto transmite, na perfeição, os pensamentos e hábitos de quem é livrólico.

_____________________________________________________________________

img10 (2).jpg

 “Este é o terceiro de cinco ou seis volumes a publicar, que compilam toda a ficção curta de Camilo Castelo Branco, mantendo uma ordem cronológica de publicação. (…) Pela primeira vez o leitor contemporâneo poderá ter acesso a uma obra fundamental e eminentemente moderna, que reúne o percurso literário de um génio cujo trabalho tocou todos os estilos vigentes na sua época: gótico, romantismo, ultra-romantismo e realismo. Camilo escreveu igualmente sobre tudo, usando humor, drama e um domínio da língua portuguesa único no panorama das letras lusas. Escritor prolixo, a sua obra revela até que ponto dominava as escolas e os géneros, o que lhe permitia satirizá-los e subvertê-los, usando-os de igual modo para estabelecer uma forma de comunicação com o leitor, mas subvertendo-os para o deixar entregue a um fio condutor que o arranca das amarras da narrativa tradicional.” [sinopse da editora]

_____________________________________________________________________

img11 (4).jpg

“A história fora da caixa nasceu no dia em que o Xavier desceu do alto do seu castelo para procurar um remédio para a tristeza da mãe.

Mas este é só o princípio desta história...

Com dragões, princesas, um ogre, sete anões, a Bruxa Má e a Branca de Neve, entre tantas outras personagens dos contos infantis, esta história desafia os limites da imaginação, num texto que é uma carta de amor a uma mãe. “[ sinopse da editora] 

_____________________________________________________________________

img12 (3).jpg

“Todos os dias me sinto triste e desconfortável. Desvio o olhar. Choro muitas vezes, em silêncio. Por mais que eu fale com a mamã, fico sem perceber as palavras que ela usa para me explicar as coisas. Todos os dias, o mesmo caminho, o mesmo desconforto, a mesma tristeza. E eu sem dizer nada. E eu sem fazer nada. Gostava de ir por outro caminho.” [sinopse da editora] 

_____________________________________________________________________

img13 (4).jpg

"A vida no nosso planeta como nunca a viu.

Seis astronautas orbitam a Terra a bordo de uma nave espacial, a fim de recolher dados meteorológicos e de realizar experiências científicas.

Acima de tudo, porém, observam.

Juntos, contemplam o nosso silencioso planeta, que lhes oferece, tudo no simples passar de um dia, um espetáculo infinito, uma de beleza de cortar a respiração.

Contudo, mesmo tão distantes do mundo, os seis astronautas não conseguem escapar à sua constante influência.

Chegam notícias da morte de uma mãe, trazendo pensamentos de regresso e de saudades de casa. A fragilidade da vida humana torna-se um tema central nas suas conversas, nos seus medos e nos seus sonhos.

Apesar de tão longe da Terra, nunca antes se haviam sentido tão protetores dela, tão parte dela. Começam a refletir: o que será a vida sem a Terra? O que será a Terra sem a humanidade? “ [ sinopse da editora] 

_____________________________________________________________________

img14 (2).jpg

TRINCAS, o MONSTRO devorador de livros, trincou tanto que saiu do seu próprio livro, e agora está a provocar o caos em histórias bem conhecidas.

Cuidado!

_____________________________________________________________________

img15 (3).jpg

O Poder Transformador da Literatura. Baseando-se na sua vasta experiência pessoal, trabalho com clientes e pesquisa aprofundada, Bijal Shah oferece uma abordagem prática para organizar uma lista de leitura que se adapta a cada estado de espírito e ocasião. Este livro traça a evolução da leitura terapêutica, destacando o papel crucial de escritores influentes, como os estoicos, na popularização desta prática. Através de histórias comoventes de clientes que enfrentaram variados desafios durante a vida, Bijal Shah demonstra como a leitura pode ser uma fonte de conforto e transformação.  Para além de explicar o funcionamento da biblioterapia, Shah fornece uma lista abrangente de livros, de A a Z, para todos os gostos e necessidades incluindo vários títulos de autores portugueses/nacionais, exclusivamente escolhidos e pensados para esta edição. É uma celebração vibrante da leitura, convidando o leitor a ver os livros como uma ferramenta essencial. Prepare-se para uma viagem enriquecedora que mudará a sua forma de ver a leitura e, possivelmente, a sua vida. “[sinopse da editora] 

_____________________________________________________________________

img16 (4).jpg

"Nesta obra absorvente, inteligente e divertida, a reconhecida psicoterapeuta britânica Philippa Perry explica o que é realmente importante e que tipo de comportamentos devemos evitar ou fomentar no relacionamento com os nossos filhos. Em vez de desenhar o plano "perfeito", Perry oferece-nos uma visão geral de como pais e filhos podem alcançar um bom relacionamento. Cheio de conselhos sábios e saudáveis, este é o livro que todos os pais quererão ler e que todos os filhos agradecerão que os seus pais leiam também. “[ sinopse da editora]

_____________________________________________________________________

img17 (3).jpg

"(…) Em A Geração Ansiosa, o psicólogo social Jonathan Haidt revela os dados sobre a epidemia de doenças mentais em adolescentes que atingiu, ao mesmo tempo, muitos países. De seguida, investiga a natureza da infância, incluindo a razão pela qual as crianças precisam de brincar e de explorar sozinhas para se tornarem adultos capazes e felizes. Haidt mostra como a infância baseada na brincadeira começou a declinar na década de 1980 e como foi substituída, no início dos anos 2010, com a chegada da infância baseada no telemóvel. Apresenta mais de uma dúzia de mecanismos de como esta grande reconfiguração da infância interferiu no desenvolvimento social e neurológico das crianças, abrangendo tudo, desde a privação do sono à fragmentação da atenção, dependência, solidão, contágio social, comparação social e perfecionismo. O autor explica por que razão as redes sociais prejudicam mais as raparigas do que os rapazes e porque é que os rapazes têm vindo a retirar-se do mundo real para o mundo virtual, com consequências desastrosas para si próprios, suas famílias e sociedade. (…) Descreve os passos que os pais, professores, escolas, empresas de tecnologia e governos podem dar para acabar com a epidemia de doenças mentais e restaurar uma infância mais humana. (…) Não nos podemos dar ao luxo de ignorar as suas descobertas sobre a melhor forma de proteger os nossos filhos – e nós próprios – dos danos psicológicos de uma vida baseada no telemóvel.”  [sinopse da editora]

______________________________________________________

* Júlia Martins

Acredita no poder da leitura. Dar a ler é um desafio que gosta de abraçar. É leitora e frequenta, de forma assídua, Clubes de Leitura. Saiba mais

______________________________________________________

Leia outros artigos da série
Imagem23.png

_____________________________________________________________________________________________________________________

Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Ter | 22.04.25

IFLA: Novos líderes e programas de liderança 

2025-04-22.jpg

Enquadramento

Mais do que uma análise de programas; Aprendendo a Liderar: Uma Análise Global da Prática no Terreno das Bibliotecas evidencia o dinamismo e a resiliência do setor das bibliotecas em todo o mundo, que se apresenta como fonte de inovação, capacitação e transformação social. 

O Relatório é um marco importante na biblioteconomia porque é a primeira publicação da IFLA centrada exclusivamente em programas de liderança e porque mapeia a paisagem global do desenvolvimento de competências de liderança em bibliotecas, museus, arquivos e áreas da cultura.

Os resultados reforçam a noção de que o investimento em formação em liderança está diretamente ligado ao crescimento institucional e pessoal

Este artigo estrutura-se em 2 momentos: 

A. Programas de liderança: tendências-chave e recomendações
B. Perfil das novas lideranças 

A. Programas de liderança: tendências-chave e recomendações 

1. Abordagem pedagógica 

O modelo híbrido é o formato mais comum de formação – “híbrido (67%), presencial (21%) e online (9%)” – e prevê-se uma crescente procura para tornar a formação mais acessível e flexível, bem como mais contextualizada, adaptada às necessidades e recursos locais. 

A combinação entre sessões presenciais e atividades online amplia o alcance geográfico dos programas, e permite integrar diferentes estilos de aprendizagem e ritmos individuais, democratizando o acesso ao desenvolvimento profissional.

Recomenda “Continuar a apoiar e a expandir os modelos híbridos e online de formação, para acomodar diversas preferências de aprendizagem e localizações geográficas”.

A democratização do acesso à formação (inclusão) também se verifica no facto de a maioria ser suportada por bolsas de estudo, patrocínios ou gratuita.

2. Interdisciplinaridade 

A liderança num contexto global e digital, baseia-se na interdisciplinaridade e colaboração entre instituições e profissionais, mostrando um entendimento cada vez mais interdisciplinar da liderança, aspeto fundamental numa era em que informação e cultura estão intrinsecamente interligadas.

Recomenda “Expandir a formação em liderança para incluir profissionais fora das funções tradicionais de biblioteca, como arquivistas, profissionais de museus e especialistas em tecnologia, promovendo uma abordagem mais inclusiva e interdisciplinar à liderança”. 

Esta é uma perspetiva inovadora, que reconhece no líder o poder de construir redes colaborativas amplas e resilientes. 

3. Inovação curricular

Ao nível do currículo da oferta formativa, o Relatório evidencia a diversificação de temas: 

  • Clássicos, como “Liderança e Gestão (88%);
  • Emergentes, como Advocacia e Envolvimento Comunitário (71%), Planeamento Estratégico (64%) e Gestão da Mudança (55%), Gestão de Projetos (53%), Inovação (53%), Diversidade e Inclusão (35%), Tecnologia (32%)”, 

indicando um esforço claro para formar líderes com visão holística e competências multidimensionais

Recomenda “Integrar temas emergentes, como literacia digital, inteligência artificial nas bibliotecas e privacidade de dados, nos currículos dos programas, a par dos temas tradicionais”, antecipando, de forma crítica, os desafios que as bibliotecas enfrentam num mundo cada vez mais digital e interconectado e construindo resiliência.

4. Avaliação 

O Relatório evidencia que há um compromisso com a avaliação de impacto e com a monitorização dos resultados dos programas de formação em liderança. 

Globalmente verifica-se

  • Recolha sistemática de feedback dos participantes,
  • Medição da progressão de carreira, 
  • Análise das competências adquiridas, 

o que evidencia uma cultura de accountability, responsabilização dos responsáveis pelos resultados destes programas, garantindo transparência, avaliação e melhoria contínuas com base em objetivos claros.

Esta dimensão é fundamental para validar a eficácia dos programas e assegurar que os investimentos em formação resultam em mudanças concretas nas práticas profissionais e na cultura organizacional. 

E quais são os métodos de avaliação de aprendizagens mais usados? 

A autoavaliação é o mais comum, implementado em 56% dos programas, seguido de avaliações baseadas em projetos, 52%; avaliadores internos e externos são usados em 36% e 18% dos casos, respetivamente e exames e questionários são os menos comuns, 15%. 

Os dados revelam que a maioria dos inquiridos (59%) observou que os participantes assumiram novas responsabilidades ou funções após completarem o programa: 

“Um dos resultados mais encorajadores é o feedback positivo dos participantes, com a maioria a reportar [autoavaliação] um aumento na confiança e a melhoria de competências profissionais e capacidades de liderança mais desenvolvidas. Além disso, muitos assumiram novas funções ou responsabilidades após a conclusão da formação, refletindo os benefícios concretos destes programas na formação dos futuros líderes do setor bibliotecário” e a sua eficácia. 

A liderança apresenta-se como ferramenta de transformação do percurso profissional individual e das dinâmicas organizacionais das bibliotecas.

Os objetivos/finalidades destes programas confirmam-no, ao pretenderem desenvolver competências práticas de: 

  • Desenvolvimento de Liderança (74%),
  • Inovação (24%),
  • Colaboração e Networking (23%),
  • Envolvimento Comunitário e Advocacia (9%). 

Mostram como são centrais na transformação, inovação e adaptação das bibliotecas aos desafios de um ambiente informativo em rápida mudança.

5. Redes de networking e de mentoria

Um dos objetivos-chave dos programas de liderança, indicados pelos seus responsáveis, é a Colaboração e Networking (23%), precedido por Desenvolvimento de Liderança (74%) e Inovação (24%). 

Este é também um dos benefícios mais relatados pelos participantes (61%), precedido por Aumento da Confiança nos Seus Papéis (76%) e Melhoria de competências profissionais (73%). Desenvolvimento de Novas Competências reúne 59% das respostas. 

Recomenda “Aumentar as oportunidades de networking profissional, como programas de mentoria e projetos colaborativos, garantindo que o desenvolvimento da liderança se estenda para além da formação formal”. 

Recomenda também "Promover uma maior colaboração entre associações bibliotecárias internacionais e regionais para partilhar boas práticas, criar programas conjuntos de liderança e proporcionar oportunidades de networking transfronteiriço para líderes emergentes”.

É um aspeto inovador das novas lideranças, encará-las como um processo relacional e contínuo, de fortalecimento de laços entre líderes, a nível local e global, baseado na troca de experiências, na partilha de boas práticas e no apoio mútuo entre profissionais

Também é importante que estes programas tenham uma maior vertente prática e participativa, podendo incluir oficinas com envolvimento de todos os participantes. 

Neste contexto, apresenta a recomendação: “Dar maior ênfase a competências práticas e aplicáveis, como gestão de projetos, permitindo que os participantes apliquem de imediato os conhecimentos adquiridos nos seus contextos profissionais”.

Refere ainda programas de formação inspiradores que incluem mentoria personalizada e aprendizagem entre pares.

B. Perfil das novas lideranças 

O Relatório traça ainda o perfil das novas lideranças no setor das bibliotecas, da informação e da cultura: 

  • Orientado para a inovação e a transformação;
  • Valoriza simultaneamente várias áreas de conhecimento e dialoga com pessoas e comunidades de diferentes culturas;
  • Digitalmente competente;
  • Colabora e cria redes de apoio, mentoria e aprendizagem contínua, tirando partido da inteligência coletiva; 
  • Decide baseado na avaliação de resultados e presta contas da sua ação (accountability); 
  • Comprometido com a equidade, a inclusão e a justiça social; 
  • Foco estratégico e pensamento a longo prazo;
  • Sabe adaptar estratégias a novos contextos (resiliência). 

Concluindo

O relatório Aprendendo a Liderar decorreu da análise de 66 programas de formação em liderança, de associações da IFLA e de voluntários/indivíduos, de diferentes regiões, apresentados por inquérito (outubro e novembro de 2024). 

Apresenta a liderança como elemento estruturante da capacidade das bibliotecas se adaptarem às transformações tecnológicas e sociais do século XXI

Através de uma abordagem abrangente, revela como as bibliotecas estão a evoluir, de simples centros de informação, para instituições ativamente envolvidas na inovação, advocacy e capacitação comunitária e global.

Referência

Saleh, E. & Alsereihy, H. & Ismail, H. & Hassan R. (2024, Dec.). Learning to Lead: A Scan of Global Library Field Practice. https://repository.ifla.org/items/497fac92-7b01-42ca-a93f-0f81d0719070

_____________________________________________________________________________________________________________________

Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Seg | 21.04.25

5 formas de incluir a escrita na promoção da leitura

por Elana Gordon*

2025-04-21 blogue.jpg

Por vezes, a escrita é pouco valorizada na educação para a literacia. Estas estratégias ajudam a promover as competências de leitura e escrita dos alunos em simultâneo.

Ao longo dos anos, a leitura tem permanecido no centro das atenções das conversas sobre literacia, enquanto a escrita tem sido frequentemente relegada para segundo plano. Mas uma das ferramentas mais poderosas que temos no ensino da literacia é a reciprocidade entre a leitura e a escrita. Como Natalie Wexler partilha no seu artigo “To Boost Learning, Weave Writing Activities In Regular Instruction”, não podemos escrever profundamente sobre tópicos que desconhecemos.

A escrita é expressiva e, portanto, dá-nos um meio para aprofundarmos a nossa compreensão do que lemos. Frequentemente, no trabalho de intervenção em literacia, estamos tão concentrados em melhorar os resultados da leitura que chegamos a ignorar as capacidades de escrita dos alunos.

Estas cinco estratégias oferecem formas rápidas de melhorar a aprendizagem dos alunos, bem como de desenvolver a sua escrita através de ensino e prática explícitos. Pode utilizá-las em qualquer contexto de intervenção.

Ditado de frases

A primeira estratégia é uma variação das frases ditadas que são frequentemente utilizadas. Depois de os alunos lerem um texto, o ditado de frases pode permitir-lhes praticar a utilização de vocabulário específico, estrutura de frases ou padrões fónicos.

O contributo dos alunos pode variar consoante o apoio necessário para elaborar a frase. Neste caso, o professor ditará, ou dirá, uma frase que pode incluir um padrão fónico específico, algumas palavras que incluem padrões de revisão, uma palavra específica do vocabulário que os alunos estudaram ou uma estrutura específica, como uma conjunção.

Estas decisões de ensino são intencionais, permitindo que os alunos não só escrevam sobre a sua leitura, mas também pratiquem competências fonéticas ou desenvolvam frases mais complexas que incluam vocabulário elaborado.

Conclusão de frases

Uma segunda estratégia que permite que os alunos demonstrem a compreensão de um texto envolve a utilização de uma frase nuclear, ou um tronco, e depois completar a frase utilizando as conjunções porque, mas e assim.

É importante ensinar aos alunos como estas três conjunções diferem nos significados que transmitem. Uma forma de reforçar esta estratégia é fornecer partes de frases pré-escritas e pedir aos alunos que as associem à conjunção correta.

Esta estratégia desafia os alunos a pegarem na informação que aprenderam e a explicarem-na de três formas diferentes. Para exemplos deste tipo de escrita, um bom recurso é The Writing Revolution, de Judith Hochman e Natalie Wexler.

Expansão de frases

A expansão de frases é outra estratégia que permite aos alunos demonstrarem a sua compreensão e, ao mesmo tempo, desenvolverem as suas capacidades de escrita. Dê aos alunos um tema (o quem? ou o quê?) do texto e peça-lhes que expandam a frase, fornecendo o onde?, quando?, porquê? e como?, para acrescentarem pormenores à sua escrita.

Cada tarefa deve permitir uma maior compreensão do texto e, ao mesmo tempo, desenvolver a capacidade dos alunos de introduzirem detalhes, o que cria uma frase mais complexa e dinâmica.

Um suporte para este tipo de escrita envolve fornecer alguns dos elementos, a partir dos quais os alunos podem construir. Ao mesmo tempo que os alunos acrescentam pormenores e expandem as suas frases, estão também a recordar a informação que aprenderam com o texto.

Iniciadores de frases

Uma quarta estratégia que utilizo são os iniciadores de frases que introduzem uma forma mais sofisticada de compor os enunciados. À medida que os alunos se sentem mais à vontade para diversificarem as suas estruturas frásicas, podem passar a redigir a frase completa.

Algumas possibilidades incluem pedir-lhes que incluam um aposto darem mais pormenores ou explicações. Outra opção poderá ser começar por uma oração subordinada. Neste exercício, os alunos estão a conjugar os seus conhecimentos sobre os conteúdos com o desenvolvimento das suas capacidades de escrita.

Redução de parágrafos

Uma estratégia final que utilizo é pedir aos alunos que escrevam uma frase utilizando a redução de parágrafos ou encontrando a essência do texto que leram. Peço-lhes que descubram o “quem” ou “o quê” mais importante do parágrafo ou do texto e depois acrescentem a coisa mais importante que aconteceu para criarem uma frase de 10 a 15 palavras que resuma a informação essencial de um parágrafo ou texto.

 

A literacia é uma fusão de competências de leitura e de escrita. Ambas as áreas têm de ser desenvolvidas para que os alunos sejam bem-sucedidos. Todas estas cinco estratégias podem apoiar os alunos na sua capacidade de compreensão, tendo a escrita como resultado expressivo, num contexto de ensino-aprendizagem. Pode aumentar ou dificuldade de cada tarefa, dependendo das diferentes necessidades dos seus alunos.

A escrita deve fazer parte de todas as aulas e a utilização destas cinco estratégias permite-nos integrar a leitura e a escrita, de modo a que ambas as áreas estejam interligadas sempre que um aluno se envolve com um texto.

O texto deste artigo foi traduzido e publicado com a autorização da Edutopia:

Gordon, E. (2024, 12 de setembro). 5 Ways to Include Writing in Reading Intervention. Edutopiahttps://www.edutopia.org/article/developing-early-literacy-skills-preschool.

📷 Designed by stories / Freepik

Elana Gordon

Elana Gordon é uma especialista em ensino da leitura K-6 na Warren Park Elementary School em Cicero, Illinois. Como bolsista da Fundação Goyen 2023-24, Elana defende e partilha estratégias de ensino que promovem práticas estruturadas de alfabetização. Trabalha na área da educação há 24 anos e é certificada em LETRS (Language Essentials for the Teachers of Reading and Spelling), que é recomendado pela International Dyslexia Association (IDA). É embaixadora do Capítulo de Illinois da The Reading League e membro da Illinois Early Literacy Coalition, um grupo que defende que todas as crianças aprendam a ler através de um ensino baseado em evidências. Elana é a criadora de um podcast interno no seu distrito escolar chamado The Road to Reading (O caminho para a leitura), que se centra na forma como os professores estão a alinhar o ensino com a ciência da leitura e na partilha das mudanças nas práticas pedagógicas dos professores.

Nota: © Excecionalmente, por se tratar de uma tradução que careceu de autorização, este trabalho tem todos os direitos reservados.

_____________________________________________________________________________________________________________________

Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Qua | 16.04.25

PesquisOAz 2025

1 (6).png

O PesquisOAz, campeonato de pesquisa, seleção e avaliação de fontes de informação em linha, cumpriu, em abril de 2025, a 6.ª edição para alunos e a 2.ª edição para professores, mantendo-se as entidades promotoras, nomeadamente as bibliotecas escolares do concelho de Oliveira de Azeméis, o CFAE AVCOA, a Biblioteca Municipal Ferreira de Castro, a Rede de Bibliotecas Escolares e a Câmara Municipal de Oliveira de Azeméis.

Imagem2 (1).png

Desta feita, o campeonato contou com o alargamento ao 1.º ciclo, o qual vinha a ser ponderado há já duas edições. No total, participaram 6 765 alunos na fase de escola, envolvendo bibliotecas escolares de 32 escolas pertencentes a 19 Agrupamentos de Escolas, distribuídos pelos concelhos de Arouca, Espinho, Oliveira de Azeméis, Santa Maria da Feira, São João da Madeira e Vale de Cambra. Verificou-se um crescimento significativo a nível de alunos, de escolas, de agrupamentos de escolas e de concelhos. Assim, o 1.º ciclo, por estar a iniciar, registou apenas 272 participantes, mas o 2.º ciclo surge com 2 660 participantes, o 3.º ciclo com 2 805 e o ensino secundário com 1 028 participantes. Nos 4 escalões, a prova final apurou alunos de 9 Agrupamentos de Escolas distintos, dos 19 participantes.

Como habitualmente, todos os alunos receberam formação com o apoio dos Professores Bibliotecários e/ou os docentes de TIC que se articularam entre si, integrando-se esta componente formativa e as provas na avaliação da disciplina de TIC. Os Professores Bibliotecários trabalharam, de facto, de forma estreita com esses docentes, numa aplicação estruturada do referencial Aprender com a Biblioteca Escolar.

Com o crescimento do projeto, foi decidido manter em definitivo o formato de participação singular e totalmente em linha. Contudo, com a emergência da IA e as transformações que introduz nos modelos de pesquisa de informação, a equipa de trabalho, após avaliação da atual edição, decidiu reformular o modelo do campeonato para o próximo ano letivo, de forma a acomodar as novas realidades e necessidades de formação dos alunos, mantendo o presente modelo apenas para o 1.º ciclo.

Como sempre, o site especificamente criado para o projeto (https://pesquisoaz.wixsite.com/index) congrega provas, tutoriais e informações acerca do campeonato, tanto para alunos como para professores.

Imagem1 (2).png

Foi mantido o modelo de trabalho da 1.ª edição para docentes, com webinar que, este ano, contou com a participação on line de Adelina Moura e com a presença de Marco Bento, no auditório da Escola Secundária Ferreira de Castro, em Oliveira de Azeméis, versando a temática da IA na escola e na biblioteca escolar. A este momento inicial seguiram-se 3 sessões formativas assim resultando num Curso de Formação de 12 horas, acreditado em modalidade b-learning, no decurso do qual foram vários os desafios lançados aos docentes. Inscreveram-se 43 docentes de Agrupamentos de Escolas distintos, com conclusão da formação a 10 de abril.

Tal como nos anos anteriores, os alunos vencedores do PesquisOAz serão anunciados e receberão os prémios no Palco das Letras, gala anual em que o município de Oliveira de Azeméis distingue e atribui prémios a diferentes indivíduos que se salientaram em diversos domínios ou a projetos com relevância no concelho.

Referências
📷 Cartazes do campeonato elaborados com recurso à Inteligência Artificial

_____________________________________________________________________________________________________________________

Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Ter | 15.04.25

Livro "O Verde do Azul – À Descoberta das Algas"

2025-04-16.png

Enquadramento

A IFLA (International Federation of Library Associations and Institutions), voz global das bibliotecas e parceira das Nações Unidas, estabelece como princípio fundamental que o “direito e o acesso à informação é transformador” (Declaração de Lyon, 2014), pois capacita as pessoas e impulsiona o desenvolvimento sustentável.

Na Agenda 2030 a importância do acesso à informação está expressa em 19 metas e as bibliotecas desempenham um papel fundamental porque fazem a entrega da informação a todas as pessoas, através de um trabalho de proximidade e regular.

No mesmo sentido, o Quadro Estratégico da Rede de Bibliotecas Escolares 2021 – 2027 (Bibliotecas Escolares: Presentes par ao futuro  considera a sustentabilidade um dos valores centrais das bibliotecas escolares.

1. Sobre o livro

O Verde do Azul – À Descoberta das Algas, da autoria de Maria de Fátima João (texto) e de Maria Eduarda Mendes e Paulo Evandro Júnior (ilustração), é um livro de literatura infantojuvenil ilustrado, com versões em português e em inglês.

Felicita-se esta publicação pelo rigor científico - conta com a revisão de uma equipa vasta de cientistas da GreenCoLab - e qualidade estética e pedagógica e porque é um livro necessário:

  • Preenche um vazio na coleção das bibliotecas escolares – são raros os livros sobre o tema; 
  • Aborda um tema sobre o qual domina, no contexto educativo e na opinião pública, um certo silêncio/invisibilidade, desinteresse (— Algas? A sério? —, pergunta a Luísa ainda surpreendida), desconhecimento e desinformação;
  • A transformação do futuro passa pela incorporação da sua mensagem no dia a dia de todas as pessoas e na Agenda comum.

É importante que seja lido com a biblioteca escolar no quotidiano e em projetos como LER fora da escola ou Escola a Ler… E se gerem conversas e troca de ideias espontâneas que podem incluir personalidades significativas da comunidade: surfista, cientista, jogador de futebol, pescador, pintor…

Ajuda explorá-lo de forma alargada, sob formas práticas muito diversas, nas quais todos podem encontrar algo do seu agrado, por exemplo:

  • Clube de leitura dos ODS (1 ODS/mês) concretizado em muitas bibliotecas escolares (ONU, 2019). 
  • Inquérito escolar “Algas? A sério? Para quê?” com plano de intervenção comunitário;
  • Reportagem fotográfica legendada com haikus, poemas, microcontos… escritos com tintas naturais e de baixo custo extraídas de pigmentos de algas secas;
  • Ciência cidadã, usando aplicações digitais (eg. iNaturalist) para fotografar, identificar, georreferenciar e contabilizar espécies de algas observadas, principalmente as que não fazem parte das espécies endógenas;
  • Introdução de algas num dos pratos da ementa semanal com avaliação do valor nutritivo, da pegada ambiental e do desperdício alimentar da inovação.

A. O contexto da história

O livro parte de um cenário de experiência direta, sensorial, das crianças e jovens com as algas, a natureza:

Tocam nas algas e sentem a textura. Umas são macias, outras mais ásperas, e até encontram algas que parecem esparguete, longas e fininhas. As cores também chamam a atenção…

A turma de alunos, orientada pela professora Paula, de Ciências, faz uma visita de estudo a uma praia. Esta experiência, que se desenrola como uma aventura em que todos são cientistas investigadores , envolve brincadeira, descoberta e observação de macroalgas, através de um passeio a pé na praia e de um mergulho no mar.
Partir da ligação à natureza é importante porque, nos países industrializados, as crianças passam cada vez menos tempo ao ar livre. Este desapego e indiferença tem consequência para a saúde e bem-estar e gera desinteresse em compreender os desafios ambientais e inação/ passividade: como sentir falta e cuidar de algo com que não temos relação/ que não conhecemos?

Partir de uma experiência familiar e prazerosa, ativa memórias e saberes prévios e suscita a participação, tornando a aprendizagem significativa e profunda:

— O ano passado fui à praia com os meus avós e a praia estava cheia de algas verdes e castanhas. Imensas! — exclama o Algas, levantando muito os braços. — Porque é que aparecem tantas algas na praia?

Esta abordagem dá sentido ao conhecimento científico e estimula o interesse e o gosto por aprender.

B. Apresenta uma compreensão holística das algas

O livro aproxima o conhecimento científico/académico (universidades) da educação e das artes (escola), dos consumidores (empresas), dos cidadãos/opinião pública (sociedade) e dos saberes ancestrais (património da humanidade), conjugando análise/fundamentação científica, observação/vivência prática, consumo sustentável e sabedoria popular.

As algas merecem a nossa compreensão, reconhecimento, preservação e desenvolvimento pelo seu valor:

  • Cultural e identitário: pelas memórias que evocam e que fazem parte da nossa identidade pessoal e coletiva:

É a [alga] Erva-patinha. Os meus avós são dos Açores e fazem umas tortas tradicionais com ela. São uma delícia! — responde o Algas [valor nutritivo e gastronómico].

  • Estético: pela beleza, mistério e fascínio com que nos tocam e emocionam – seres incríveis, de todos os tamanhos e feitios – e expandem a imaginação/criatividade - no livro os alunos criam um nickname/persona/avatar inspirado na alga favorita: Pedro - o Algas, Luísa - Selmis (alga Tetraselmis), Margarida - Lorela (alga Chlorella), Manuel – Kelpo (alga Kelp).

  • Ambiental: as algas são as principais responsáveis pela produção de oxigénio, garantindo o equilíbrio dos oceanos e do Planeta e servem de alimento e abrigo a muitas espécies, contribuindo para preservação da biodiversidade:  — Super-heroínas? Elas têm poderes mágicos? — pergunta a Selmis. — Podemos dizer que sim. As algas trabalham muito para cuidar do ecossistema. Produzem oxigénio na água, servem de alimento para muitos animais, como caranguejos, peixes e tartarugas, e são a base da cadeia alimentar nos oceanos, o que significa que muitos animais dependem delas para viver.

  • Económico: são ricas em proteínas, vitaminas e sais minerais, contribuindo para a produção eficiente de alimentos, medicamentos e cosméticos, fertilizantes e adubos e tintas naturais e de baixo custo:

Quem é que já comeu gelatina vegetal? — pergunta a professora. Alguns alunos levantam a mão. — Então já comeram algas!

C. Ética da proteção/cuidado e participação ativa

A aventura na praia e no mar capacita os visitantes a não recolherem amostras e a não destruírem o meio ambiente, a casa (lit. Casa ou Eco: ambiente, lugar onde se habita), a serem responsáveis e guardiões da natureza, deixando-a conforme emprestada, protegendo-a e melhorando-a e às espécies/populações que a ela pertencem:

os alunos observam a professora a retirar da água, com todo o cuidado, um punhado de algas verdes.

Capacita-os para desenvolverem uma cidadania crítica e empática perante todos os seres que habitam o Planeta: 

— Parem de destruir as algas! Estão a destruir o alimento dos peixes! [diz o Algas].

E para serem embaixadores, multiplicando e divulgando experiências como esta:

os alunos rumam à escola, entusiasmados e ansiosos para partilharem com a família e os amigos o que aprenderam nesta aventura.

E a liderarem processos de criação e implementação de soluções de reparação da natureza e de sustentabilidade. 

2. Sobre a importância das histórias e da leitura

É importante que o grupo de alunos, com cadernos nas mãos, protagonistas desta história, sejam desafiados a contar/ler/escrever as próprias histórias ou textos, apropriando-se, de forma aprofundada e crítica, da mensagem/conhecimento do livro e assumindo uma voz ativa na transformação.

Factos/ informação científica ou números/ estatísticas (abstratos e descontextualizados) não melhoram a compreensão nem o sentido de agência/ participação, segundo a Psicologia Cognitiva e a Neurociência. É importante virem associados a histórias humanas/ significativas, que os traduzam em experiências reais, com mensagens acessíveis e que criem identificação e envolvimento emocional com os cidadãos.

As histórias têm poder de fascínio e espanto, tendo potencial para serem infinitamente recontadas, constituindo importante ferramenta de marketing/ advocacy. Expandem o pensamento e a imaginação individual e coletiva, são fator de ligação entre pessoas, ajudando a construir/ fortalecer comunidades e a desenvolver o espírito de colaboração que tem o poder de alcançar os maiores desígnios da humanidade.

Foi uma aventura repleta de aprendizagem, respeito pela natureza e, sobretudo, de amor pelo nosso Planeta. Afinal, cuidar das algas e dos oceanos é um presente que damos a nós próprios e ao Planeta. Cada um pode fazer a diferença.

Nota de agradecimento

Este artigo serviu de base à apresentação do livro O Verde do Azul – À Descoberta das Algas feita pela Rede de Bibliotecas Escolares, a 11 de abril, no 1st International Congress on Algae Biotechnology, organizado pela GreenCoLab e PROALGA, em Lisboa.

A Rede de Bibliotecas Escolares agradece à GreenCoLab - Associação Oceano Verde (Universidade do Algarve) e à PROALGA - Associação Portuguesa dos Produtores de Algas o convite e hospitalidade. 

Outros artigos

📷 PROALGA & GreenCoLab. (2025, 9-11 April). 1st International Congress on Algae Biotechnology. https://algaebiotechnology.pt/ 

_____________________________________________________________________________________________________________________

Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Sex | 11.04.25

Con.Raízes 2025: Jovens Influencers Digitais promovem os seus concelhos

Blogue (1).jpg

No passado dia 20 de março de 2025, Alter do Chão foi palco de uma experiência única que uniu criatividade, inovação digital e identidade local.

O projeto Con.Raízes, distinguido pela RBE no âmbito da candidatura Ideias com Mérito, desafiou os jovens a assumirem o papel de influencers digitais para promover o seu concelho.

O encontro, que decorreu na Escola Profissional de Alter do Chão, em parceria com o Hotel Vila Galé, contou com a participação ativa de várias equipas que, ao longo de semanas, prepararam campanhas publicitárias inovadoras para valorizar produtos e património local.

Criatividade e Digitalização ao Serviço do Território

36ec38e8-3f85-42ed-b3b6-1a65f4691db4 - Fátima Manuel Caeiro Bonzinho.jpeg

O evento arrancou com uma calorosa receção e a atuação da Escola de Música de Alter do Chão, que trouxe um toque cultural ao início da jornada. Seguiram-se as apresentações dos projetos, em que cada equipa teve direito a 10 minutos em palco para defender e promover a sua campanha publicitária. Estas campanhas foram construídas ao longo de vários meses e envolviam vídeos, podcasts, fotografias, newsletters e dramatizações, tendo sido utilizadas diversas plataformas digitais.

Com um ambiente dinâmico e entusiasta, os jovens demonstraram um profundo envolvimento com os seus projetos. Muitas equipas optaram por destacar produtos regionais, tradições e locais emblemáticos, utilizando estratégias típicas de marketing digital e storytelling para atrair e cativar audiências. O uso de redes sociais e conteúdos multimédia desempenhou um papel fundamental, permitindo a disseminação das campanhas para além do evento.

Numa breve síntese, deixamos aqui o convite para visitarem o site conjunto, onde está partilhada a memória conjunta dos trabalhos realizados. Assim, destacamos os seguintes pontos:

  • AE Marvão/ AE Castelo de Vide - através de um trabalho conjunto, promoveram as belezas das ruas de Castelo de Vide e Marvão;
  • AE Nisa - promoveu o fantástico Queijo de Nisa;
  • AE Crato - apresentou um projeto sobre o queijo também.
  • AE Gavião - promoveu a Feira Medieval de Belver;
  • AE Ponte de Sor - destacou as potencialidades do Air Summit, em Ponte de Sor;
  • AE Mora/ AE Avis - um trabalho conjunto, onde apresentaram a oferta turística dos dois concelhos, em torno da Barragem do Maranhão;
  • AE Estremoz - um trabalho partilhado entre alunos de 1º  e 2 º ciclos, onde os Bonecos de Estremoz estiveram em destaque; 
  • AE Elvas 1 / AE Elvas 2 / AE Elvas 3 - em projeto conjunto dos três agrupamentos, construíram e apresentaram a rota dos museus de Elvas;
  • EPDRAC - na sua apresentação, defendeu o mundo rural, através apologia da agricultura, do cante alentejano e do cavalo lusitano;
  • AE Alter do Chão - o seu projeto versou sobre a riqueza patrimonial/ monumental do concelho.

Partilha e Aprendizagem Colaborativa

Após um coffee break de interação e troca de ideias, a manhã prosseguiu com mais apresentações e a partilha de diferentes abordagens na criação de conteúdo digital. A diversidade dos projetos evidenciou o talento dos participantes e a capacidade de adaptação às novas linguagens da comunicação digital.

O almoço proporcionou um momento de confraternização, sendo que a atividade cultural prevista para a parte da tarde não foi possível realizar, devido ao estado do tempo. O evento encerrou com um balanço muito positivo e o reconhecimento do trabalho dos jovens, que mostraram grande criatividade e empenho ao longo de toda a iniciativa.

Impacto e Futuro do Con.Raízes

Foi importante promover a consciencialização para as novas formas de comunicação difundidas pelas novas realidades do universo digital - que urge conhecer, nas suas estratégias e técnicas, para melhor as compreender - e, a partir daqui, obter a capacitação para uma maior literacia mediática, capaz de distinguir factos de opiniões, verdades de manipulações. Aliar ao futuro, com a noção da importância do passado, para também o  valorizar, foi possível através deste projeto e, como tal, o Con.Raízes não só incentivou os participantes a experimentarem o universo do marketing digital e da influência nas redes sociais, como também despertou um olhar atento sobre a importância de promover e preservar as raízes locais. 

Através da plataforma online criada para o projeto, as campanhas continuarão a ser divulgadas, reforçando o impacto da iniciativa para além do evento.

O sucesso do Con.Raízes em Alter do Chão reflete a importância de projetos que combinam educação, tecnologia e cultura local. Fica a certeza de que estes jovens influencers digitais continuarão a dar voz ao património e identidade do seu território, levando os seus concelhos a novos horizontes digitais.

No próximo ano, o Con.Raízes será organizado pelo Agrupamento de Escolas de Avis!
Novos projetos, novas inspirações e a mesma vontade de celebrar as nossas raízes. Estamos prontos para continuar esta viagem pelo que nos torna únicos?

_____________________________________________________________________________________________________________________

Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Qua | 09.04.25

Democracia em tempos de algoritmos

2025-04-09.pngA IA está cada vez mais presente nas nossas vidas e na sociedade, influenciando os conteúdos que vemos nas redes sociais, nas pesquisas na internet e, de forma geral, moldando o nosso acesso à informação. Se, por um lado, o processamento e a análise de dados pela IA permitem avanços significativos em várias áreas do conhecimento, por outro lado, essa mesma tecnologia apresenta novos desafios que implicam a utilização do nosso discernimento e sentido crítico.

Assim, no contexto atual, é fundamental que todos nós desenvolvamos a capacidade de questionar, analisar e refletir criticamente sobre as mensagens que recebemos, produzimos e partilhamos. A 13.ª edição da Operação 7 Dias com os Media, que decorrerá de 3 a 9 de maio de 2025, sob o mote “IA, Eu Penso!”, promove a reflexão sobre como podemos, coletivamente, assegurar que o avanço da IA seja acompanhado por um fortalecimento do pensamento crítico, promovendo uma sociedade mais informada, equitativa, consciente e livre. Esta iniciativa, promovida pelo Grupo Informal sobre Literacia Mediática (GILM), convida, portanto, a desenvolver iniciativas e conteúdos que explorem dois eixos essenciais: a Inteligência Artificial (IA) e o Pensamento Crítico.

A Rede de Bibliotecas Escolares está a preparar a participação das bibliotecas escolares nesta Operação. Para além das sessões formativas propostas (Oficina interativa a distância: IA: Upgrade ou Game Over?, para alunos do Ensino Secundário e  Workshop para bibliotecas escolares: Inteligência artificial e pensamento crítico , para docentes) pretende-se também promover uma reflexão crítica sobre temas emergentes e fundamentais para a cidadania contemporânea (ver sugestões de atividades).

Entre estes temas destaca-se a forma como a política está a ser transformada pela tecnologia. A Inteligência Artificial (IA), aliada ao poder das redes sociais e das tecnologias digitais, está a mudar não apenas o que pensamos, mas sobretudo o modo como pensamos sobre política.

Num mundo hiperconectado, onde algoritmos filtram a informação a que temos acesso e conteúdos manipulados circulam com facilidade, torna-se urgente desenvolver uma consciência crítica sobre o impacto da IA nos processos democráticos.

Considerando que em breve decorrerão importantes eleições em Portugal, é particularmente relevante que os jovens — muitos dos quais a aproximarem-se da idade em que se tornam eleitores — sejam capazes de reconhecer as estratégias de influência mediadas pela IA e de analisar criticamente a informação política que consomem.

A biblioteca escolar, enquanto espaço privilegiado de formação para a literacia informacional e mediática e para o pensamento crítico, assume aqui um papel essencial. É neste contexto que se propõe trabalhar com os alunos, desafiando-os a refletir sobre a influência da tecnologia na democracia.

Neste artigo, analisamos os principais desafios e oportunidades que a IA traz para o espaço político atual — focando especialmente o contexto europeu — e algumas sugestões práticas para refletir sobre estes temas na biblioteca. No âmbito do Referencial Aprender com a biblioteca escolar, disponibilizamos também, hoje, uma proposta de atividade para alunos do Ensino Secundário especificamente sobre esta temática: Entre bots e votos: quem manda em quem?.

O poder invisível do microtargeting: quando cada voto é tratado como único

A utilização de IA em campanhas eleitorais tornou-se uma ferramenta poderosa de microtargeting — a capacidade de enviar mensagens políticas altamente personalizadas a segmentos específicos do eleitorado. Esta abordagem permite que os candidatos falem diretamente aos interesses, valores e preocupações dos indivíduos, muitas vezes sem que estes se apercebam da segmentação.

Ao analisar grandes volumes de dados (big data) provenientes de redes sociais, pesquisas online e outras fontes digitais, os algoritmos conseguem identificar preferências, medos, comportamentos e interesses individuais. Munidas destas informações, as campanhas políticas moldam estratégias de comunicação dirigidas, adaptando os seus discursos, mensagens e propostas a cada perfil, aumentando significativamente a probabilidade de influenciar decisões de voto e moldar opiniões de forma quase invisível.

Na Europa, temos visto vários exemplos relevantes:

  • No referendo do Brexit (Reino Unido, 2016), a empresa Cambridge Analytica utilizou perfis psicológicos de milhões de eleitores para personalizar mensagens políticas e influenciar votações.

  • Em França, nas eleições presidenciais de 2017, assistiu-se ao uso de estratégias de microsegmentação de dados para adaptar mensagens políticas a diferentes públicos nas redes sociais.

  • Na Alemanha, os especialistas vêm alertando para o uso crescente de tecnologias baseadas em IA, incluindo campanhas de desinformação e manipulação digital, como ameaças sérias às eleições

Embora o microtargeting torne as campanhas mais eficazes e permita uma comunicação política mais direcionada, levanta questões éticas importantes que merecem atenção. A desigualdade de acesso à informação surge quando apenas alguns grupos recebem determinadas mensagens, distorcendo a igualdade de oportunidades no debate público. A opacidade dos métodos usados torna difícil para os eleitores saberem como e por que razão estão a ser alvo de determinadas comunicações. Além disso, esta prática contribui para a fragmentação do debate público, pois cada cidadão é exposto a narrativas diferentes, comprometendo a existência de uma esfera pública comum onde se possam confrontar ideias de forma aberta e transparente.

Questões para reflexão:

Design sem nome.jpg

Se cada eleitor recebe uma mensagem política diferente, ainda partilhamos um debate público comum?

Como garantir a transparência nas campanhas digitais?

Deepfakes: a nova fronteira da manipulação política

Outra tecnologia impulsionada pela IA que levanta desafios sérios à política contemporânea são os deepfakes — vídeos, áudios ou imagens manipulados que recriam com realismo impressionante figuras públicas, podendo induzir em erro o público e comprometer a confiança nas fontes de informação. Graças aos avanços nos algoritmos de geração de conteúdo, estas manipulações tornaram-se cada vez mais difíceis de detetar, o que representa um risco acrescido para a integridade dos processos democráticos. A facilidade com que um deepfake pode ser partilhado nas redes sociais amplia o seu impacto, permitindo que informação falsa ou enganadora se propague rapidamente antes de ser desmentida.

  • Em França, durante as eleições europeias de 2024, circularam vídeos manipulados com recurso a inteligência artificial (deepfakes), visando influenciar a perceção pública de figuras políticas proeminentes.

  • Na Europa, existem preocupações crescentes sobre o impacto de deepfakes nas campanhas eleitorais, embora até ao momento os exemplos mais discutidos se refiram sobretudo a riscos previstos e menos a casos documentados de grande escala.

No atual contexto, teme-se que a proliferação de deepfakes corroa gravemente a confiança do público nos conteúdos audiovisuais e, por extensão, no próprio debate democrático. Quando os cidadãos não conseguem distinguir entre o que é real e o que é fabricado, instala-se um clima de desconfiança generalizada em relação à informação disponível. Este fenómeno, conhecido por "crise de autenticidade", pode reduzir a eficácia da comunicação política legítima, dificultar a formação de opiniões fundamentadas e enfraquecer a participação cívica. Assim, o impacto dos deepfakes não se limita a episódios isolados de desinformação, mas ameaça a própria qualidade e estabilidade do processo democrático.

Questões para reflexão:

Design sem nome.jpgSe não pudermos confiar no que vemos ou ouvimos, como protegemos a verdade na esfera pública?

Que estratégias educativas podem ajudar a reconhecer e combater os deepfakes?


Algoritmos e redes sociais: a criação de bolhas informativas

As redes sociais utilizam algoritmos para filtrar e priorizar o conteúdo que cada utilizador vê, com base nos seus interesses, comportamentos anteriores e padrões de interação. Estes algoritmos procuram maximizar o tempo de permanência dos utilizadores nas plataformas, apresentando-lhes conteúdos que reforcem as suas preferências e visões de mundo. Como resultado, criam-se as chamadas bolhas de informação ou câmaras de eco, ambientes digitais onde predominam opiniões semelhantes e onde as ideias divergentes têm pouca visibilidade.

Casos documentados na Europa:

  • Nas eleições para o Parlamento Europeu (2024), foram identificadas campanhas organizadas de desinformação — como as operações "False Façade", "Portal Kombat" e "Doppelgänger" — que procuraram manipular o contexto informativo e polarizar o debate político.

  • Na Roménia, durante a eleição presidencial de 2024, surgiram denúncias de campanhas coordenadas de desinformação, sobretudo através do TikTok, levantando sérias preocupações sobre a integridade do processo eleitoral.

As bolhas informativas reforçam crenças existentes, pois expõem os utilizadores apenas a ideias e opiniões que confirmam as suas visões prévias, reduzindo a abertura à diversidade de perspetivas. Este isolamento informativo limita a capacidade de questionar, ponderar e confrontar diferentes pontos de vista, enfraquecendo o pensamento crítico e a capacidade de debate argumentativo. Como consequência, o contacto com perspetivas divergentes diminui significativamente, prejudicando o debate democrático plural e dificultando a construção de consensos sociais alargados, essenciais à vitalidade das democracias.

Questões para reflexão:

Design sem nome.jpgComo podemos incentivar o contacto com opiniões divergentes?

Que competências devem ser desenvolvidas para uma literacia digital crítica?


A biblioteca escolar, enquanto espaço de literacia, é chamada a contribuir para as reflexões que levantamos ao longo do artigo e para a formação de cidadãos informados, conscientes e participativos.

Ao incentivar os alunos a questionarem as fontes de informação, a analisarem criticamente os conteúdos que consomem e partilham e a debaterem ideias de forma fundamentada, a biblioteca contribui para o fortalecimento da democracia e para a construção de uma sociedade mais consciente e plural.

Sugere-se também que as bibliotecas escolares partilhem informações e incentivem momentos de reflexão e diálogo sobre estes temas entre os docentes, promovendo a integração transversal da literacia informacional e mediática e congregando vontades neste Ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital

Refletir e debater: IA e democracia

Para promover o debate sobre este tema nas bibliotecas escolares, propõe-se a visualização e análise dos seguintes vídeos:

Questões para debate:

Design sem nome.jpgComo está a tecnologia a transformar a política?
Que estratégias podem ser adotadas para proteger a democracia na era da IA?
Que papel podem ter os jovens na promoção da literacia informacional de mediática e do pensamento crítico?


Referências

📷 Imagem criada com ChatGPT e Canva

_____________________________________________________________________________________________________________________

Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Pág. 1/2