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Blogue RBE

Qua | 10.08.22

Makerspaces em bibliotecas: bem-estar e muitas outras vantagens

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Recentemente, a propósito do Novo Encontro Juventudes, [1] que apresentou dados que retratam os jovens de hoje, ficou clara a necessidade de trabalhar de forma sustentada o bem-estar dos alunos. Este surge atualmente como um fator importante para o desenvolvimento das suas competências socio-emocionais e académicas sendo significativo na prevenção da depressão, do suicídio, da automutilação, do abuso de substâncias nocivas, de comportamentos antissociais (incluindo o bullying, a violência e o ódio)… Todos estes, problemas evidenciados no estudo acima referido.

No artigo Bem-estar & biblioteca escolar, tinha-se já colocado em evidência o importante papel que as bibliotecas escolares são chamadas as desempenhar na promoção do bem-estar dos alunos. Ao trabalhar regularmente áreas como mentes e corpos saudáveis, proteção contra o bullying, segurança online, respeito pela diversidade, escolhas responsáveis, construção de relacionamentos positivos, entre tantas outras, a biblioteca está a responder ao que dela se espera quando se preconizam, no quadro estratégico Bibliotecas Escolares: presentes para o futuro [2], “dinâmicas que conduzam a comportamentos e estilos de vida responsáveis, promotores de bem-estar (individual, coletivo, ambiental)”.

Além de serem espaços seguros, acolhedores e relaxantes, as bibliotecas escolares proporcionam simultaneamente ambientes de aprendizagem estimulantes e flexíveis. Com a vasta quantidade de informação e tecnologia disponível, as bibliotecas tornam-se lugares onde a criatividade, a inovação e a colaboração estão omnipresentes. Todas estas características são potenciadoras de bem-estar.

Nesse sentido, a criação de makerpaces tem-se revelado bastante vantajosa, no apoio ao bem-estar dos alunos desenvolvendo o que Jackie Child [3] propõe como os 3Rs: resiliência, relacionamentos e rebelião, sendo que rebelião, apesar da conotação negativa que pode adquirir, representa aqui a possibilidade de quebrar regras, usar a criatividade, “sair da caixa”, inovar – habilidades tão relevantes quando se trata de preparar o futuro.

O makerspace congrega também os “4Cs” das competências do futuro [4] - Criação, Comunicação, Colaboração e Crítica (pensamento crítico): os alunos são convidados a utilizar uma multiplicidade de ferramentas para criarem algo novo, o que requer criatividade, pensamento crítico, e resolução de problemas. Para terem sucesso, é indispensável trabalharem em colaboração e terem a capacidade de comunicar uns com os outros, transmitindo e defendendo as suas propostas enquanto trabalham em conjunto, procurando tornar palpável o que imaginaram.

Quando se envolvem nas múltiplas atividades e oportunidades oferecidas por um makerspace, os alunos descontraem-se e divertem-se, aproximando-se de estados de felicidade. É um ambiente que não é ameaçador e onde podem concretizar/ experimentar/ testar as suas ideias. Têm oportunidade de ir até onde quiserem e de se perdoarem por não serem perfeitos: falhar torna-se parte da diversão. Podem explorar, mexer e enfrentar novos desafios, sem a pressão de terem que ter um bom desempenho (como acontece frequentemente quando respondem a testes de avaliação), sem medo de correrem riscos.

Aliás, uma das aprendizagens importantes a promover é que do fracasso pode advir uma grande aprendizagem. Não podemos esquecer que aprender por tentativa e erro era já valorizado pelos nossos avós quando ensinavam que “fazer e desfazer, tudo é aprender” e punham nas mãos do aprendiz as ferramentas para a experimentação.

Resolverem problemas e desafios, ao criarem e tentarem fazer as coisas funcionarem,  também lhes dá confiança no sucesso e realização pessoal.

Dar objetivos aos alunos e permitir que as suas  paixões sejam exploradas responde a uma necessidade humana inata. As bibliotecas contribuem, deste modo, para que estes recuperem a sua curiosidade e criatividade, qualidades que Sir Ken Robinson (2007) considera indispensáveis à sobrevivência da humanidade. [5]

Nos makerspaces, ao mesmo tempo que se promove o bem-estar e competências socio-emocionais, o desenvolvimento cognitivo é estimulado, uma vez que se fornecem desafios e oportunidades para resolver problemas e para isso será necessário, em cada momento, recorrer a todo o conhecimento anterior de que o aluno dispõe, atingindo-se assim aprendizagens profundas.

 

Referências

[1] Sagnier, Laura e Morell, Alex, coord. (2021). Os jovens em Portugal, hoje: Quem são, que hábitos têm, o que pensam e o que sentemhttps://www.ffms.pt/FileDownload/37b88b8d-4953-4748-901d-0793f898dfb6/os-jovens-em-portugal-hoje

[2] Portugal. Rede de Bibliotecas Escolares (2021). Bibliotecas Escolares: presentes para o futuro. Programa Rede de Bibliotecas Escolares: Quadro estratégico: 2021-2027. https://rbe.mec.pt/np4/file/890/qe__21.27.pdf

[3] Child, Jackie (2018) School libraries enhancing student wellbeing. https://www.scisdata.com/connections/issue-105/school-libraries-enhancing-student-wellbeing

[4] Novak, Staci (2019) The effects of a makerspace curriculum on the 4C's in education. https://scholarworks.uni.edu/cgi/viewcontent.cgi?article=1908&context=grp

[5] Robinson, K (2007) TED talk: Do schools kill creativity?, https://www.youtube.com/watch?v=iG9CE55wbtY&t=3s

[6] Foto por Amélie Mourichon em Unsplash


Republica-se o artigo de 09.12.2021

Ter | 09.08.22

Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação: evidências e temas em 2021

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O Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação 2021-2025 - Portugal contra o racismo [1] organiza-se em dez áreas de intervenção, das quais a segunda, Educação e Cultura, é foco de ação por parte da Rede de Bibliotecas Escolares, com base em duas medidas:

2.2. Disponibilizar recursos pedagógicos que promovam uma educação para a igualdade e a não discriminação - parceria com o Alto Comissariado para as Migrações (ACM);

2.7. Promover o conhecimento de livros, sem discriminação de pessoas ou grupos e reforçar propostas pedagógicas de abordagem à leitura, às artes e à cultura, integradas no currículo - parceria com o Plano Nacional de Leitura (PNL).

Do levantamento de dados em 2021, concluiu-se que 168 bibliotecas escolares desenvolveram atividades no âmbito do Plano contra o Racismo, envolvendo total de 37.369 crianças e jovens.

Estas atividades, algumas das quais incluem o projeto Todos Juntos Podemos Ler [2], subordinam-se a diferentes temas com nível de participação heterogéneo:

- Direitos Humanos – 18.325 crianças e jovens;

- Racismo – 9.273 crianças e jovens;

- Pessoas com deficiência – 4.602 crianças e jovens;

- Crise dos refugiados – 1.850 crianças e jovens;

- Igualdade de género, violência doméstica e no namoro – 1.361 crianças e jovens;

- Pessoas ciganas – 1.354 crianças e jovens;

- Holocausto – 604 crianças e jovens.

A distribuição destas atividades nas bibliotecas escolares do país é desigual:

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A celebração de datas internacionais é a estratégia de advocacia mais usada pelas bibliotecas escolares para abordar o racismo e a discriminação e é importante porque gera consciencialização e ação, contribuindo para reforçar aspirações universais da humanidade e orientar o desenvolvimento e governação globais e locais.

As datas internacionais mais celebradas pelas bibliotecas escolares são, por ordem decrescente de adesão:

- 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos;

- 20 de novembro, Dia Internacional dos Direitos das Crianças;

- 20 outubro, Dia Mundial de Combate ao Bullying;

- 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres;

- Dia Internacional da Mulher;

- 3 de dezembro, Dia Internacional da Pessoa com Deficiência [3];

- 21 de maio, Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento;

- 16 de novembro, Dia Internacional para a Tolerância;

- 27 de janeiro, Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

Há efemérides menos conhecidas que as bibliotecas celebram, por exemplo, Dia das Meias Trocadas que assinala a inclusão das pessoas com Síndroma de Down.

As iniciativas sobre Direitos Humanos focam também, de forma significativa, o tema da empatia como resposta ao discurso de ódio, bullying e violência.

Esta abordagem justifica-se porque a prática de crimes de ódio e bullying/ ciberbullying, na vida real e redes sociais, sobretudo contra minorias ou pessoas vulneráveis, tem vindo a aumentar em todo o mundo:

- A Fundamental Rights Agency, tendo realizado o primeiro inquérito ao nível da União Europeia sobre experiência de crime na população, conclui que “Mais de um em cada quatro europeus foi vítima de assédio e 22 milhões foram fisicamente agredidos num ano. Mas as vítimas de crimes normalmente não relatam as suas experiências” com medo de represálias por parte dos agressores [4];

- O relatório da Comissão Europeia 2021 estima que cerca de 50% das crianças sofreram pelo menos um tipo de cyberbullying num universo de mais de 6.000 jovens de 10 a 18 anos, entre junho a agosto de 2020. Nos 11 países europeus incluídos no relatório, 44% das crianças que sofreram ciberbullying antes do confinamento dizem que esta prática foi mais frequente durante o confinamento [5];

- Em 2019 a UNICEF apresentou um estudo, envolvendo trinta países, no qual conclui que um em cada três jovens diz ter sido vítima de ciberbullying e um em cada cinco crianças disse ter faltado à escola por este motivo e por violência [6].

Como prevenir a prática destes crimes e ajudar as vítimas - e a comunidade - a conhecer e a lutar pelos seus direitos para que a escola seja um lugar seguro e todos possam respeitar-se e realizar os seus sonhos, é um desafio ao qual a biblioteca escolar responde através da leitura/ escrita e literacia dos media e informação.

Histórias, notícias, obras de arte e situações experienciadas são ponto de partida para o diálogo e participação: Porque é que dizes isso? Conheces alguma história sobre esse(a) tema/ palavra? O que gostaste ou não gostaste? O que devemos manter ou mudar?

 

Referências

1. Presidência do Conselho de Ministros. (2021, 28 jul.). Resolução do Conselho de Ministros n.º 101/2021 - Diário da República n.º 145/2021. https://dre.pt/dre/detalhe/resolucao-conselho-ministros/101-2021-168475294

2. Rede de Bibliotecas Escolares. (2022). Todos juntos podemos ler. https://www.rbe.mec.pt/np4/TodosJuntosPodemosLer.html

3. Nações Unidas. (2021, 3 dez.) Dia Internacional das Pessoas com Deficiência. https://www.un.org/en/observances/day-of-persons-with-disabilities

4. Fundamental Rights Agency. (2021, 19 Feb.). Violence and harassment across Europe much higher than official records. https://fra.europa.eu/en/news/2021/violence-and-harassment-across-europe-much-higher-official-records

5. European Commission. (2021). How children (10-18) experienced online risks during the Covid-19 lockdown - Spring 2020. https://publications.jrc.ec.europa.eu/repository/handle/JRC124034

6. UNICEF (2019, 3 set.). UNICEF poll: More than a third of young people in 30 countries report being a victim of online bullying. https://www.unicef.org/press-releases/unicef-poll-more-third-young-people-30-countries-report-being-victim-online-bullying

7. Fonte da imagem: UNESCO. (2021). Comemorações e aniversários. https://en.unesco.org/commemorations

 

Republica-se o artigo de 02.02.2022

Seg | 08.08.22

Redesenhar o papel do professor na escola e na comunidade

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De acordo com o relatório Education at a Glance 2021 1, as condições de trabalho dos professores e o investimento público são fatores fundamentais para a qualidade e equidade da educação.

Os salários dos recursos humanos das escolas, particularmente professores e diretores, são a maior despesa pública em educação. Poderiam ser fonte de atração pelos profissionais, mas em Portugal, de acordo com a Portugal Country Note 2021 2, evidenciam desigualdade e são reduzidos face às elevadas qualificações que exigem.

Na OCDE os salários aumentam com a progressão na carreira e número de anos de ensino - em 2020 os salários dos professores, do pré-escolar ao secundário, com qualificações máximas e no topo da carreira eram 86% a 91% superiores aos educadores/ professores com qualificações mínimas e no início de carreira. Em Portugal a desigualdade salarial pode atingir 116%, embora a maioria dos professores receba vencimentos intermédios.

Na OCDE, entre 2005 e 2020, os salários de professores com 15 anos de experiência e qualificações mais frequentes, aumentaram 2% (ensino básico) a 3% (ensino secundário), apesar da crise financeira de 2008, mas em Portugal diminuíram 6%. O número de horas letivas anuais é mais reduzido em Portugal do que na OCDE – a grande variação ocorre no pré-escolar: em 2020 os educadores trabalharam menos 104 horas – mas este fator por si dificilmente justifica a não atualização salarial.

Outro dos problemas é o envelhecimento docente que, segundo o relatório, pode colocar “muitos governos sob pressão para recrutar novos professores”. A idade aumenta com o nível de ensino e, em Portugal, a média de idades é superior aos países da OCDE – em 2019, 44% dos professores do 1.º e 2.º ciclos tinham 50 anos e a média da OCDE é 33%.

Em Portugal, o Conselho Nacional de Educação estima que até 2030 mais de 50 mil docentes (metade dos do quadro) poderão aposentar-se 3 e tem apelado à “integração urgente de mais professores no sistema para obviar a falta que já se faz sentir, possibilitando ao mesmo tempo o rejuvenescimento dos quadros e o aumento da estabilidade dos docentes nas escolas” 4. Em março solicitou que o Plano de Recuperação e Resiliência contemplasse verba para formar e atrair mais professores.

Acresce a esta situação a falta, em Portugal, de candidatos para cursos superiores de Educação: em 2021 entraram apenas 1100 e muitos não serão professores - o número de estudantes inscritos nestes cursos caiu cerca de 70% desde o início do século: passaram de 51.224 em 2001/ 2002 para 13.781 o ano passado 5. Este fator expressa a pouca atratividade e reconhecimento social da profissão. Um estudo da OCDE de 2018 evidencia que as perceções dos professores sobre o valor da profissão docente são reduzidas, designadamente em Portugal: 6 a 9% dos professores “concordam” ou “concordam totalmente” que a sua profissão é valorizada na sociedade (a média da OCDE é 26%) 6.

Para além de baixos vencimentos e falta de valorização social, as dificuldades em ingressar e progredir (existência de quotas) na carreira pode desmotivar estes profissionais e novos candidatos.

Para tornar os sistemas educativos capazes de alcançar maior qualidade e equidade em situações de crise pandémica, climática ou outras, a OCDE e a Education International, federação global de sindicatos de professores, estabeleceu um conjunto de 10 princípios 7 que podem orientar a cooperação internacional e local das autoridades, organizações e profissionais da educação na procura de soluções para a recuperação e crescimento na educação e sociedade.

Nos múltiplos papeis que a escola e a comunidade reservam aos professores – facilitadores, pares, líderes, mentores, tutores… - é importante que saibam, rápida e constantemente, atualizar-se, adaptar ensino e estratégias de aprendizagem a novas circunstâncias, responder a necessidades sociais e emocionais, desenvolver experimentação e micro-inovações/ estruturas de aprendizagem, fomentar uma cultura de aprendizagem. Por conseguinte, o documento sublinha que “O bem-estar dos professores é parte integrante do bem-estar dos alunos”, tendo “efeito nos resultados dos alunos” e da escola, devem ser “plenamente reconhecidos, recompensados e valorizados” e é necessário “rever condições de trabalho dos professores, a fim de identificar áreas que precisam ser melhoradas”.

De acordo com este documento, no futuro, os países devem preparar-se para desenvolver três tipos de ensino em simultâneo, de modo a garantir a continuidade da aprendizagem dos alunos: na escola (especialmente importante nos primeiros anos), híbrida e digital. A OCDE admite a construção de uma infraestrutura de aprendizagem à distância, segura, coerente, interoperável (pode funcionar com outras soluções) e multimodal (com ferramentas de aulas virtuais, aprendizagem em linha, tutoria inteligente, educação televisiva, radiofónica e de comunicação social) com recursos e experiências de aprendizagem para dentro e fora da escola, que permita variedade de oportunidades e inclua canais de retorno eficazes entre professores, alunos, líderes escolares e comunidade – a sua criação e avaliação deve envolver todas as partes interessadas, sobretudo professores e deve conter contribuições e curadoria da comunidade de aprendizagem em linha (crowd-sourcing/ crowd-curation). Considerando os efeitos da pandemia, propõe ainda “a criação de uma estratégia sistémica para aprendizagem dos professores com base em lições da pandemia”.

 

Referências

1. Organisation for Economic Co-operation and Development. (September 16, 2021). Education at a Glance 2021: Executive Summary. https://www.oecd-ilibrary.org/sites/b35a14e5-en/index.html?itemId=/content/publication/b35a14e5-en

2. Organisation for Economic Co-operation and Development. (September 16, 2021). Education at a Glance 2021: Portugal - Country Note. https://www.dgeec.mec.pt/np4/%7B$clientServletPath%7D/?newsId=1278&fileName=EAG_2021_Country_Note_Portugal_em_l_ngua.pdf

3. Conselho Nacional de Educação. (julho, 2019). Regime de Seleção e Recrutamento do Pessoal Docente da Educação Pré-escolar ao Ensino Secundário. https://www.cnedu.pt/content/noticias/estudos/Estudo_Selecao_e_Recrutamento_de_Docentes.pdf

4. Conselho Nacional de Educação. (dezembro, 2020). Estado da Educação 2019. https://www.cnedu.pt/content/edicoes/estado_da_educacao/EE2019_Digital_Site.pdf

5. Público. (2 de outubro, 2021). Número dos que estudam para ser professor caiu 70% desde o início do século. https://www.publico.pt/2021/10/02/sociedade/noticia/numero-estudam-professor-caiu-70-desde-inicio-seculo-1979559

6. Organisation for Economic Co-operation and Development. (23 de marco, 2018). TALIS 2018 Results: Teachers and School Leaders as Valued Professionals (vol. 2). https://www.oecd.org/education/talis-2018-results-volume-ii-19cf08df-en.htm

7. Organisation for Economic Co-operation and Development; Education International. (2021). Principles for an Effective and Equitable Educational Recovery. https://www.oecd.org/education/ten-principles-effective-equitable-covid-recovery.htm

Fonte da imagem: Organisation for Economic Co-operation and Development. (2021). Principles for an Effective and Equitable Educational Recovery. https://www.oecd.org/education/ten-principles-effective-equitable-covid-recovery.htm

 

Republica-se o artigo de 18.10.2021

Sex | 05.08.22

Bem-estar & biblioteca escolar

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De acordo com a Organização Mundial da Saúde, "A saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade". Os conceitos de saúde mental incluem o bem-estar subjetivo, a perceção de autoeficácia, a autonomia, a competência, a dependência intergeracional e o reconhecimento da capacidade de realizar o seu potencial intelectual e emocional. Foi também definida como um estado de bem-estar aquele em que os indivíduos reconhecem as suas capacidades, são capazes de lidar com as tensões normais da vida, trabalhar produtiva e frutuosamente e dar um contributo às suas comunidades.

Os problemas de saúde mental, que se agravam em termos globais, afetam a sociedade como um todo, e não apenas um pequeno segmento isolado. São, portanto, um grande desafio ao desenvolvimento global, sendo a saúde mental crucial para o bem-estar geral dos indivíduos, das sociedades e dos países. [1]

A Rede de Bibliotecas Escolares está consciente de que as escolas podem ter um grande impacto na saúde emocional e no bem-estar dos alunos e que isso pode levar não só a melhores resultados escolares, como também a uma maior probabilidade de aqueles crescerem e se tornarem adultos, com uma vida feliz e satisfeita. Por essa razão definiu, no eixo PESSOAS do seu Quadro Estratégico Bibliotecas Escolares: presentes para o futuro, uma linha de ação a desenvolver: Induzir dinâmicas que conduzam a comportamentos e estilos de vida responsáveis, promotores de bem-estar (individual, coletivo, ambiental).

Assim, importa dirigir o olhar para a forma como as bibliotecas escolares podem ter, na escola, um papel decisivo na promoção do bem-estar dos alunos, sobretudo nos tempos que vivemos, ainda a lidar com uma pandemia de consequências imprevisíveis.

Eis alguns dos seus contributos:

As bibliotecas são um lugar seguro, onde os alunos podem encontrar consolo e proteção. Historicamente, sempre foram vistas como espaços confortáveis, relaxantes, acolhedores, inclusivos e seguros, livres das expetativas e pressões do tempo, da família, do recreio e da sala de aula. Locais onde os alunos podem ir para descontrair, conhecer, conversar, estudar, fazer, brincar ou apenas fugir do clima extremo! Também um lugar onde não há problema em ficar sozinho - afinal, ler é uma atividade solitária e silenciosa.

As bibliotecas proporcionam informações e recursos que ajudam a aumentar a consciencialização sobre questões de saúde mental, combater os estigmas e oferecer apoio aos alunos. Os livros são parte integrante do kit de primeiros socorros em saúde mental que os jovens devem ter à sua disposição. Por um lado, as bibliotecas escolares disponibilizam livros de não ficção e de autoajuda que explicam as causas e os sintomas de algumas das principais questões que afetam o bem-estar hoje e que sugerem estratégias práticas que ajudam os jovens a cuidar de si mesmos e apoiar os outros. Por outro lado, existe igualmente uma grande variedade de obras de ficção que contribuem para aumentar a consciencialização, encorajar a discussão, reduzir os estigmas e ajudar os alunos a desenvolver a compreensão real de uma variedade de questões comuns de saúde mental.

As bibliotecas promovem a leitura como uma prática associada a um maior bem-estar e resiliência. A pesquisa tem mostrado que ler por prazer pode aumentar a autoestima, reduzir os sintomas de depressão, ajudar a construir melhores relações com os outros, melhorar o sono e reduzir a ansiedade e o stress.

Os livros e a leitura são uma ótima forma de escapar ao stress, à perturbação e ao isolamento, mas também oferecem outros benefícios de bem-estar, como ajudar os jovens leitores a encontrarem modelos para admirar e imitar, contribuindo para construir a sua resiliência e desenvolver empatia. No entanto, a grande atenção dada aos conteúdos curriculares, faz frequentemente com que a leitura por prazer seja desvalorizada nas escolas, sendo claramente papel da biblioteca trazer essa matéria para a agenda.

As bibliotecas trabalham com os alunos áreas relacionadas com a saúde, por exemplo, a importância de uma alimentação saudável, do exercício físico, como se proteger contra o bullying, manter a segurança online, promover a inclusão, respeitar a diversidade, entre tantas outras questões.

As bibliotecas desenvolvem as competências digitais e levam a uma melhor literacia em saúde dos alunos. A Organização Mundial da Saúde enfatizou a importância da educação em saúde e o seu potencial para apoiar melhores resultados de saúde individual e coletiva. Para isso é fundamental que os jovens dominem a literacia dos media para que possam avaliar efetivamente a credibilidade dos sítios e das informações sobre saúde que encontram em-linha e, assim, evitar equívocos potencialmente perigosos.

A bibliotecas disponibilizam recursos para uma variedade de iniciativas de bem-estar: jogos, legos, quebra-cabeças, makerspaces e atividades artesanais para os alunos realizarem durante os intervalos. Quando eles se envolvem neste tipo de atividades, relaxam, socializam e divertem-se. Essas atividades divertidas e informais proporcionam aos alunos um sentimento de pertença e promovem uma sensação de bem-estar durante o agitado dia escolar.

As bibliotecas têm uma equipa de apoio. Os professores bibliotecários e, frequentemente, os assistentes de biblioteca, estão sempre disponíveis para aquelas conversas acidentais que acontecem nos intervalos, ou durante a procura de livros, ou durante a realização de trabalhos, que, muitas vezes, podem ajudar a esclarecer os problemas de um aluno ou mesmo constituir aquele ouvido de que ele necessita para se sentir melhor.

Este artigo foi adaptado a partir de Mental health, wellbeing & the school library [2]

 

Referências

1 - World Health Organization. (2003) Investing in MENTAL HEALTH. https://www.who.int/mental_health/media/investing_mnh.pdf

2 – Reed, Denise (2021. Mental health, wellbeing & the school library. https://preplibs.wordpress.com/mental-health-wellbeing-the-school-library/

Imagem by Kelly Sikkema on Unsplash

 

Republica-se o artigo de 09.11.2021

Qui | 04.08.22

Um, dois, três... Uma história por mês

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Um, dois, três... uma história por mês é o nome do projeto que a biblioteca escolar Dr. Marques Crespo, do Agrupamento de Escolas de Estremoz, está a desenvolver com 12 alunos dos 2º, 3º e 4º anos, todas as quartas-feiras, das 9.15h às 10.45h, no âmbito do projeto (Re)ler com a Biblioteca Escolar, financiado pela Rede de Bibliotecas Escolares, e que se integra igualmente no projeto mais amplo aler+ 2027.

Com esta atividade, pensada no âmbito do Plano de recuperação de Aprendizagens (Escola + 21/23), a biblioteca pretende que os alunos consolidem conteúdos curriculares e desenvolvam o gosto pela leitura e escrita.

Em outubro, os alunos trabalharam o livro "O livro laranja do outono" de Sophie Coucharrière, Hervé Le Goff.

Com este livro, os alunos tiveram oportunidade de falar sobre esta estação do ano, recordar os meses do ano, elaborar o alfabeto de outono, imaginar quadras e pesquisar provérbios de outono.

Em novembro, foi a vez de o mediador cultural, Miguel Horta, desenvolver com os alunos uma sessão de promoção da leitura muito apreciada por todos. Ao longo do mês, ainda houve tempo para exploração do livro "Uma bolota prodigiosa" de Ana Ventura.

Durante as sessões, os alunos leram em voz alta, “brincaram” com as sílabas e as letras da palavra bolota, descobrindo novas palavras. Com elas, construíram pequenos textos que no final apresentaram às turmas.

Em dezembro, devido aos feriados, só houve uma sessão. Aí, os alunos fizeram uma avaliação muito positiva, frisando que: “As atividades são fixes”, “É bom ler”, “Foi muito divertido trabalhar com o Miguel”, “Ele tem livros muito giros”, "Gostei de inventar histórias”, “Queremos vir mais vezes para a biblioteca”…

O segundo período iniciou-se com um poema de Eugénio de Andrade “O inverno”. Os alunos leram o poema, gravaram podcasts e desenharam o Senhor inverno, acompanhado de uma chuva de palavras sobre o inverno.

Todos os trabalhos podem ser vistos em:

A LER + | BEsAEEstremoz

A professora Bibliotecária

Isabel Moreira

 

Republica-se o artigo de 28.01.2021

Qua | 03.08.22

Algoritmos e Inteligência artificial: A cada um a sua bolha?

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Definida de forma muito simples, a Inteligência Artificial (IA) é a capacidade que os dispositivos eletrónicos têm de funcionar de maneira semelhante ao pensamento humano.

Outro termo que é referido sempre que se fala de IA é algoritmo. Um algoritmo é um conjunto ordenado de instruções, operações, etapas e processos que permitem desenvolver uma tarefa específica ou encontrar uma solução para um problema. Por exemplo, se pensarmos em alguém que nunca fez um avião de papel e tivermos de lhe dar instruções escritas precisas para que seja capaz de o construir, sem outra ajuda, estamos a criar um algoritmo. Este tipo de operação mental é muitas vezes designado como pensamento computacional, mesmo quando o seu objeto não é um programa informático, mas é sobretudo para a programação que ele é essencial. Quando as crianças são iniciadas no código, por exemplo usando o Scratch, elas aprendem a exercitar este tipo de pensamento.

Quando falamos em algoritmos associados à IA, estamos a referir-nos a conjuntos de instruções extremamente complexas que permitem a um software a resolução autónoma de problemas. E quando, para resolver determinado problema, existem diversos caminhos, é preciso combinar algoritmos com dados.

Na realidade tecnológica atual, é produzida e armazenada diariamente uma quantidade imensa de dados. Existem sistemas muito complexos para organizar, analisar e interpretar estes big data. Por exemplo, quando acedemos a uma loja virtual à procura de determinado produto, os dados desse acesso (onde acedemos, por onde lá chegámos, quanto tempo lá permanecemos, o que fizemos a seguir, …) ficam armazenados. Com essas informações, existem algoritmos orientados para nos mostrar outros produtos semelhantes, quer estejamos ainda na página da loja virtual, quer em forma de publicidade, quando já saímos dela.

Processos semelhantes acontecem quando as redes sociais nos apresentam uma seleção de conteúdos personalizada, ou quando as plataformas de streaming nos fazem sugestões que nos são especificamente dirigidas. Daí a utilização que o termo bolha passou a ter, para designar a realidade digital em que cada um vive.

A bolha delimita, coloca o nosso horizonte demasiado próximo e, muitas vezes, não nos deixa ir mais além. Quando assim é, há ameaças ao nosso conhecimento do mundo, do outro, do diverso, do diferente. A nossa capacidade de pensar criticamente fica, ela própria, comprometida. Criam-se microclimas favoráveis à proliferação de teorias da conspiração, ideias antidemocráticas, discursos de ódio e toda a espécie de atentados ao pensamento racional e ao respeito pelos direitos humanos.

No entanto, e sobretudo enquanto educadores, a nossa perspetiva não pode ser nunca fatalista. Não se trata de uma situação irremediável e o primeiro passo para minimizar os efeitos adversos e tirar proveito das inúmeras oportunidades é ter consciência do funcionamento destes processos.

A IA não se limita a criar uma bolha para cada um de nós. Ela é responsável por progressos notáveis que se tornaram tão rotineiros que já não os apreciamos enquanto novidades, como levar-nos pelo caminho mais rápido ao nosso destino, ordenar-nos as fotos por local onde foram tiradas, por temas ou por pessoas, organizar os nossos emails em secções e decidir o que é spam, ou obedecer aos nossos pedidos verbais para acender a luz, ligar uma máquina, informar sobre o tempo, …

A IA está também na base da aprendizagem automática ou machine learning, em que as máquinas criam os seus algoritmos para elaborarem regras a partir de dados fornecidos por humanos. Um exemplo disto são os sistemas de tradução fornecidos por diversas plataformas que têm melhorado muito devido ao cruzamento de milhões de exemplos de traduções reais que se encontram na web.

A análise preditiva é outra das possibilidades oferecidas pela IA e consiste na capacidade de identificar a probabilidade de resultados futuros com base em dados algorítmicos estatísticos e técnicas de machine learning. A área da saúde é um dos exemplos em que esta análise é aplicada.

O papel das bibliotecas escolares e outras na formação dos seus utilizadores para tomarem consciência destes processos, evitando as ameaças e tirando partido das oportunidades, é inquestionável. Há até investigadores que defendem que esta é uma área de tal modo importante que deveria tornar-se independente da literacia digital e da informação, para se designar literacia algorítmica.

Num artigo publicado no n.º 40 da revista em linha ITAL (Information Technology and Libraries), intitulado Algorithmic literacy and the role for libraries, Ridley e Pawlic-Potts defendem que 

A literacia algorítmica é um meio de compreender este novo conjunto de regras e de promover as aptidões e capacidades para que as pessoas possam utilizar algoritmos e não serem utilizadas por eles. As bibliotecas têm tradicionalmente defendido a tecnologia acessível e a sua utilização eficaz. A ubiquidade da tomada de decisões algorítmicas e o seu profundo impacto na vida quotidiana torna o reconhecimento e promoção da literacia algorítmica um novo desafio crítico e imperativo para as bibliotecas de todos os tipos.

Nesse mesmo artigo, os autores mencionam exemplos de programas, destinados ao público escolar ou ao público em geral, que visam o conhecimento e a formação na área dos algoritmos e da Inteligência Artificial: The Algorithmic Literacy Project (algorithmliteracy.org/) and A.I. For Anyone (https://aiforanyone.org).

Para as bibliotecas escolares, mais importante do que discutir se esta espécie de literacia se deve autonomizar ou não, o que importa é que as questões que lhe dizem respeito façam parte do programa de literacias que cada agrupamento/ escola deve elaborar sob a alçada da biblioteca. Os professores bibliotecários serão dos mais habilitados para o fazer, enquadrados pelos documentos orientadores da Rede de Bibliotecas Escolares.

O referencial Aprender com a biblioteca escolar, estabelece, na área da literacia dos media, quatro descritores em que este tema é abordável. Transcrevem-se aqui os referentes ao ensino secundário:

6. Seleciona criteriosamente produtos mediáticos, com base no seu valor e noutros critérios relevantes, assumindo-se como um consumidor esclarecido.

7. Reconhece o uso de procedimentos avançados de segurança e de proteção como uma exigência inerente a uma boa utilização dos media, exercendo conscientemente os seus direitos e deveres online.

8. Age responsavelmente em situações onde a ética na comunicação foi transgredida (conteúdos lesivos ou impróprios, cyberbullying, sexting, roubo de identidade, ...).

9. Usa as bibliotecas para explorar as potencialidades dos media como fontes de conhecimento e cultura, criar conteúdos e participar construtivamente nas redes de comunicação global.

Na mesma área, nas Estratégias de operacionalização, sugere-se:

  • Análise sobre:

 – Informação divulgada pelos media (campanhas, documentários, programas de rádio ou de TV, artigos de jornais, …), com base em fatores relevantes como: veracidade, coerência, interesse público, completude, abrangência, diversidade de públicos, informação vs manipulação, modo como a técnica é usada para se atingir determinado tipo de público, modo como se influenciam escolhas e opiniões, ...

– Mensagens e valores veiculados pelos media (questões sociais e éticas: classes sociais, género, raça, ideologia, crenças, estereótipos, papéis, personagens, ...).

Em Bibliotecas Escolares: presentes para o futuro. Programa Rede de Bibliotecas Escolares: Quadro estratégico: 2021-2027, no eixo Saberes, estabelece-se, na linha de ação 3

Assegurar abordagens integradas das literacias da informação, dos media e digital, perseguindo o desenvolvimento do pensamento crítico, das capacidades de resolução de problemas e de comunicação e do uso ético, eficaz e criativo da informação, media e tecnologia.

E no eixo Pessoas, linha de ação 3

Induzir dinâmicas que conduzam a comportamentos e estilos de vida responsáveis, promotores de bem-estar (individual, coletivo, ambiental).

Temos, assim, sustentação para capacitar os alunos para a compreensão das características do mundo digital em que vivem e para o exercício do pensamento crítico que os levará a expandir ou mesmo a transpor os limites de qualquer bolha.

 

Referências

1. Ridley, M., & Pawlick-Potts, D. (2021). Algorithmic Literacy and the Role for Libraries. Information Technology and Libraries, nr. 40(2). https://doi.org/10.6017/ital.v40i2.12963

2. DeAngelis, S. Artificial Intelligence: How Algorithms Make Systems Smart. WIRED. https://www.wired.com/insights/2014/09/artificial-intelligence-algorithms-2/

3. The Algorithm Literacy Project. https://algorithmliteracy.org/

4. A.I. For Anyone. https://www.aiforanyone.org/

5. Portugal. Rede de Bibliotecas Escolares (2017) Aprender com a Biblioteca Escolar: Referencial de aprendizagens associadas ao trabalho das bibliotecas escolares na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário.https://www.rbe.mec.pt/np4/%7B$clientServletPath%7D/?newsId=99&fileName=referencial_2017.pdf

6. Portugal. Rede de Bibliotecas Escolares (2021). Bibliotecas Escolares: presentes para o futuro. Programa Rede de Bibliotecas Escolares: Quadro estratégico: 2021-2027. https://rbe.mec.pt/np4/?newsId=890&fileName=qe__21.27.pdf

Foto de Marc Sendra Martorell em Unsplash

 

Republica-se o artigo de 07.12.2021

Ter | 02.08.22

Porque é que os alunos devem escrever em todas as disciplinas

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A escrita melhora a aprendizagem, consolidando a informação na memória de longo prazo, explicam os investigadores. Além disso, eis cinco atividades de escrita interessantes para desenvolver em todas as disciplinas.

Para Kyle Pahigian, professora de matemática do 10.º ano numa escola em Massachusetts, uma aula sobre triângulos congruentes não começa com calculadoras e transferidores. Em vez disso, a professora distribui um mapa do tesouro aos alunos e pede-lhes para escreverem direções detalhadas para chegarem ao tesouro enterrado, usando pontos de referência como um guia.

«Não digo diretamente aos alunos “Hoje vamos estudar teoremas sobre triângulos congruentes”», disse Pahigian. «Em vez disso, pretendo que eles sintam que estão a experimentar e a fazer alguma coisa que sabem fazer bem.» Muitas vezes, os alunos sentem-se intimidados com a matemática, pelo que transformar a atividade num exercício de escrita alivia a tensão associada à introdução de conceitos difíceis, disse ela.

Na aula de matemática da professora Pahigian, a escrita regular é utilizada como uma estratégia de aprendizagem que lhe permite perceber como os seus alunos pensam. «Gosto de fazer pequenos exercícios de escrita quando estamos a lidar com definições», disse Pahigian. Em vez de dizer aos alunos o que é um polígono, por exemplo, opta por lhes mostrar um conjunto de políginos e um de não polígonos, perguntando-lhes «O que notam? Que diferenças veem?» Os alunos passam alguns minutos a anotar as suas respostas e depois juntam-se em grupos para compararem soluções.

«É muito interessante e divertido ver o que eles escreveram, porque consigo perceber as dúvidas. Consigo perceber o processo», disse Pahigian.

Um estudo recente esclarece porque é que a escrita é uma atividade com tantos benefícios, não apenas em disciplinas que habitualmente associamos à escrita, como a língua materna ou história, mas em todas as áreas. O professor catedrático Steve Graham e os seus colegas, do Arizona State University's Teachers College, analisaram 56 estudos procurando perceber os benefícios da escrita em ciências, estudos sociais e matemática, e descobriram que a escrita «melhorava seriamente a aprendizagem» em todos os níveis de ensino. Além de os exercícios escritos servirem para o professor avaliar se os alunos compreenderam ou não as matérias, o processo da escrita também melhora a capacidade de os alunos recordarem informação, fazerem conexões entre diferentes conceitos e sintetizarem informação de outras formas. De facto, a escrita não é apenas uma ferramenta para avaliar a aprendizagem, ela também a promove.

 

CONSOLIDAÇÃO DAS APRENDIZAGENS

Porque é que a escrita é eficaz? «Escrever sobre os conteúdos melhora a aprendizagem, consolidando a informação na memória de longo prazo», explicam Graham e os seus colegas, descrevendo um processo conhecido como o efeito de recuperação. Como a investigação anterior demonstrou, a informação esquece-se rapidamente se não for reforçada, e a escrita ajuda aos alunos a reterem na memória o que aprenderam.

É o mesmo mecanismo cognitivo que explica porque é que praticar através de testes é eficaz. Num estudo de 2014, os alunos que realizaram testes práticos nas aulas de ciências e de história obtiveram mais 16 pontos percentuais nos exames finais do que aqueles que apenas estudaram. «Praticar a recuperação da informação estudada recentemente aumenta a probabilidade de o aluno recuperar essa informação no futuro», disseram os investigadores do estudo de 2014.

Escrever sobre um tópico também ajuda os alunos a processar a informação a um nível mais profundo. Responder a perguntas de escolha múltipla ou de resposta curta pode ajudar a recuperar informação factual, mas registar os pensamentos no papel ajuda os alunos a avaliar ideias diferentes, levando-os a ponderar a importância de cada uma e a considerar a ordem em que devem ser apresentadas, escrevem Graham e os seus colegas. Ao fazê-lo, os alunos podem estabelecer novas conexões entre ideias, conexões que podem não ter estabelecido quando apreenderam a informação inicialmente.

 

UMA FERRAMENTA METACOGNITIVA

Os alunos acreditam, frequentemente, que compreenderam um assunto, mas se lhes for pedido para escreverem sobre ele e para o explicarem, podem ser reveladas lacunas na compreensão. Uma das estratégias de escrita mais eficazes que Graham e os seus colegas descobriram foi o recurso à metacognição, em que é pedido aos alunos não apenas para recuperarem informação, mas também para aplicarem o que aprenderam em contextos diferentes, refletindo sobre os múltiplos ângulos de uma opinião ou fazendo previsões baseadas no que sabem. Por exemplo, em vez de apenas lerem sobre os ecossistemas nos manuais escolares, os alunos podem escrever sobre o impacto que eles próprios causam, analisando a quantidade de lixo que o seu agregado familiar produz ou o impacto ambiental da produção dos alimentos que consomem.

 

5 ESTRATÉGIAS DE ESCRITA PARA UTILIZAR EM QUALQUER DISCIPLINA

Eis uma variedade de ideias que os professores partilharam com a Edutopia nos últimos anos sobre o modo de incorporar a escrita numa grande variedade de disciplinas.

Diários «Pergunto-me»: Na escola primária de Crellin, em Oakland, Maryland, os professores encorajavam os alunos a fazerem perguntas, através da atividade «Pergunto-me», promovendo a aprendizagem para além da sala de aula. Depois da visita a um celeiro e um jardim locais, por exemplo, Dave Miller apercebeu-se de que as perguntas dos seus alunos do 5.º ano sobre animais e plantas ultrapassavam em muito o tempo que ele tinha para lhes responder; por isso, pediu-lhes para escreverem sobre o que não tinha ficado claro para eles ou sobre curiosidades, o que o ajudou a planificar futuras aulas e experiências.

«Se eles não se perguntam “Como poderíamos sobreviver na Lua?” esse assunto nunca será explorado», disse Dana McCauley, a diretora de Crellin. «Mas isso não significa que devam parar de fazer perguntas, porque a interrogação leva ao pensamento fora da caixa, desenvolvendo o espírito crítico. É ao tentarem perceber e ao refletirem sobre o que estão a fazer, que tudo se associa.  É aqui que toda a aprendizagem acontece, onde todas as conexões começam a ser feitas.»

Diários de viagem: Todos os alunos na Normal Park Museum Magnet, uma escola básica com 3.º ciclo, em Chattanooga, Tennessee, criaram um diário de viagem para registar as suas aprendizagens. Estes diários incluíam não apenas gráficos, desenhos e organizadores gráficos, mas também enunciados escritos que refletem a aprendizagem dos alunos relativamente a um assunto.

Quando o professor do 5.º ano Denver Huffstutler iniciou uma unidade sobre ciências da terra, pediu aos alunos para se imaginarem exploradores à procura de um novo mundo com vida sustentável. Nos seus diários de viagem, os alunos mantiveram registo de tudo o que estavam a aprender, desde o impacto de catástrofes provocadas pelo Homem até aos seus desenhos e cálculos para um foguetão tripulado capaz de atingir planetas distantes.

Atividades informais de escrita:

A escrita pode assustar, por isso os professores da Escola University Park Campus recorreram a atividades informais de escrita, diariamente, para dar voz aos alunos, promover a sua autoestima e competências de pensamento crítico. Uma estratégia utilizada em toda a escola, em todas as disciplinas.

«O mais importante para mim é que não existe censura e as atividades não são demasiado estruturadas», disse o professor de ciências do 7.º ano, James Kobialka. «Trata-se de eles registarem as suas próprias ideias, e depois serem capazes de interagir com essas ideias, alterá-las e revê-las se não estiverem corretas.»

Por exemplo, quando os alunos de Kobialka estavam a aprender sobre a conservação da massa, não começou por definir o conceito, mostrou-lhes uma imagem e perguntou-lhes «O que notam sobre os átomos de ambos os lados? Como podem explicar isso?». Os alunos anotaram as suas observações, e a turma chegou a uma definição. «A partir daí», disse o professor, «depois de se chegar a um consenso, peço a alguém para escrever no quadro e iremos falar dos conceitos-chave.»

Revistas criadas por alunos:

Na aula de álgebra de Alessandra King, os alunos criaram uma revista com dezenas de artigos sobre a aplicação da matemática ao mundo real. Para cada artigo, os alunos selecionaram uma fonte primária  ̶  um artigo da revista Scientific American, por exemplo  ̶  leram-no com atenção e escreveram um resumo. Os alunos escreveram sobre uma grande variedade de assuntos, desde o método Gerrymandering a fractais nos quadros de Jackson Pollock, até às capas de invisibilidade.

«Uma escrita eficaz aclara e organiza os pensamentos, e o ritmo lento da escrita é propício à aprendizagem, porque permite que os alunos raciocinem com atenção para se certificarem de que estão certos antes de proferirem os seus pensamentos», escreveu King. «Os estudos demonstraram que a escrita é essencial especificamente para as aulas de matemática; por exemplo, parece que a capacidade de um aluno explicar os conceitos por escrito está relacionada com a capacidade de os compreender e aplicar.»

Escrita criativa:

Os ex-professores Ed Kang e Amy Schwartzbach-Kang incorporaram a narração e a escrita criativa nas aulas de ciências que integram os programas OTL (Ocupação de Tempos Livres). Por exemplo, pediram aos alunos para imaginarem uma criatura que pudesse viver num habitat local, o rio Chicago, no caso. De que cor seria? Que características o ajudariam a sobreviver e a defender-se? Como caçaria as suas presas? Os alunos escreveram uma história sobre a criatura que imaginaram, combinando conceitos de ciências com a narrativa criativa.

«Há dados científicos que sustentam que se devem usar histórias para ajudar as crianças a envolverem-se com o conteúdo e a criarem significado pessoal», explicou Kang, que tem um doutoramento em neurociências. «Ouvir factos estimula principalmente as duas áreas do cérebro de processamento da linguagem. Contudo, ao ouvirmos uma história, partes adicionais do cérebro são ativadas; zonas que envolvem os nossos sentidos e movimentos motores ajudam os ouvintes a “sentir” as descrições.»

 

O artigo «Porque é que os alunos devem escrever em todas as disciplinas» foi originalmente publicado no sítio Edutopia. Texto traduzido livremente a partir do inglês.

 

Referência

Terada, Y. (2021). Why Students Should Write in All Subjects. https://www.edutopia.org/article/why-students-should-write-all-subjects

 

Republica-se o artigo de 27.10.2021

Seg | 01.08.22

Em agosto, desligar é palavra de ordem

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No final de junho, vemos partir os nossos alunos. A maioria para férias, com regresso anunciado, outros para voos mais altos, com reencontro, em algum momento, nas esquinas da vida.

Nessa altura, é com alívio que os vemos seguir. Estamos cansados das suas vozes, da sua inesgotável energia, no fim de um ano de trabalho exigente, em que diariamente os acolhemos, lhes demos respostas, lhes provocamos questões, os ouvimos… Ah! Que bem sabe o silêncio, nessas horas!

Colocada em pausa a nossa missão educativa, dedicamos o mês de julho ao trabalho de gestão, tantas vezes adiado ao longo do ano, graças à prioridade pedagógica:

- É a altura de catalogar finalmente aqueles novos exemplares que ainda não tínhamos conseguido tratar… 

- E se alterássemos um pouco a disposição da biblioteca? Aproveitamos as limpezas de verão, os livros fora da estante…

- Também há que contar e prestar contas… O que fizemos? O que deixamos por fazer?

- O que temos de melhorar? Como podemos fazê-lo? Talvez fosse de alterar alguns procedimentos…

Enfim, com um sem número de tarefas absorventes, chegamos rapidamente ao final do mês. Missão cumprida!

Eis-nos em agosto e agora a grande tarefa que nos espera é parar. Deixar de pensar em prioridades, programas, projetos, atividades e assuntos afins… verdadeiramente, apartar-nos do que ao trabalho diz respeito. 

Há tempo agora, para praticar exercício físico, desportos radicais… para pegar naqueles livros que ficaram a aguardar, ultrapassados pela leitura infantojuvenil obrigatória. Enfim, há tempo para o dolce far niente que ajudará a retemperar energias.

Também os canais de comunicação da Rede de Bibliotecas Escolares abrandarão o seu ritmo. Ao longo deste mês de agosto, republicar-se-ão artigos que poderão ter passado despercebidos, devido à velocidade da vida diária, e que se acredita poderem ter interesse. A seleção destes artigos obedece a dois critérios: apresentação de conceitos ligados à educação e às bibliotecas e divulgação de iniciativas/ projetos/ atividades das bibliotecas e que poderão inspirar ações futuras. Continuarão sempre por aqui, caso pretendamos voltar.

No entanto, iremos agora tirar partido do período de férias para abrandar e desligar. Olhar para outros referentes, recuperar a iniciativa e a inspiração. Recomeçaremos em setembro com o entusiasmo e as ideias renovadas que sempre caracterizam as bibliotecas escolares.

 

Boas férias!