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Blogue RBE

Sex | 28.11.25

Toolkit News Integrity in AI Assistants: um guia para compreender e melhorar as respostas da IA às notícias

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Em outubro de 2025, a BBC e a União Europeia de Radiodifusão (EBU) divulgaram o relatório News Integrity in AI Assistants: An International PSM Study, que analisa a forma como os assistentes de IA respondem a perguntas sobre a atualidade. (Veja a súmula no blogue RBE). 

Em paralelo, publicaram o News Integrity in AI Assistants Toolkit, um recurso prático concebido para ajudar jornalistas, programadores, educadores e o público em geral a compreender como estas ferramentas funcionam e onde falham.

O Toolkit nasce, assim, da análise detalhada de mais de 3.000 respostas produzidas por sistemas como ChatGPT, Copilot, Gemini e Perplexity, permitindo identificar modos concretos através dos quais os assistentes podem deformar, omitir ou distorcer informação jornalística.

Para além de apresentar as principais falhas, o documento define os quatro elementos que caracterizam uma boa resposta sobre notícias - precisão, contexto, distinção entre factos e opiniões e fontes - e estabelece uma linguagem comum para descrever problemas e comparar desempenhos entre diferentes modelos.

Enquanto o relatório evidencia a persistência de erros com impacto informativo, o Toolkit oferece um guia estruturado para reconhecer, classificar e corrigir esses erros, disponibilizando definições claras, exemplos reais e critérios de avaliação consistentes. O seu objetivo é, por isso, duplo: explicar o que deve ser uma boa resposta sobre notícias e mostrar, com rigor, os erros mais frequentes, oferecendo ferramentas de análise para a sua identificação e correção.

Trata-se de um instrumento pensado não só para o setor dos media, mas também para a formação: ao tornar visíveis os limites e modos de falha da IA, reforça a importância da literacia mediática e algorítmica e apoia escolas e bibliotecas na promoção de um uso mais informado e crítico destas tecnologias.

O que é uma “boa” resposta de um assistente de IA?

O toolkit estabelece quatro critérios essenciais para avaliar a qualidade de uma resposta de um assistente de IA a uma pergunta sobre a atualidade.

1. Precisão

Os factos apresentados devem ser corretos, atualizados e consistentes. Nomes, datas, números, decisões políticas, consequências e relações causais devem refletir a melhor informação conhecida e/ou o conteúdo das fontes citadas.

2. Contexto

Uma resposta fiável deve incluir os elementos essenciais para que o leitor compreenda o tema: enquadramento, perspetivas relevantes, nível de incerteza e explicação de conceitos quando necessário.

3. Distinção entre factos e opiniões

Os assistentes de IA tendem a misturar declarações opinativas com factos, atribuindo, por vezes, interpretações próprias ou juízos de valor a personalidades ou instituições. Uma boa resposta deve separar claramente factos, análises e opiniões.

4. Fontes 

O utilizador deve poder verificar a informação. O toolkit destaca que as fontes devem ser relevantes, acessíveis, atualizadas e corretamente atribuídas, evitando ligações inoperacionais ou um problema recorrente relacionado com links inexistentes ou inventados.

Como falham os assistentes? Uma taxonomia de erros

Para melhorar a qualidade das respostas dos assistentes de IA a perguntas sobre notícias, é necessário identificar com precisão os problemas que devem ser corrigidos. 

O documento organiza esses problemas numa taxonomia de failure modes,  estruturada a partir dos quatro elementos que definem uma boa resposta,  discriminados acima. 

Cada categoria tem a sua secção própria, onde se explica por que é importante, se descrevem os tipos de falhas possíveis e se apresentam exemplos recolhidos no estudo BBC/EBU. 

Salienta-se que, não sendo a taxonomia exaustiva,  funciona como um guia prático que mostra, de forma sistemática, as muitas formas como os assistentes podem errar, permitindo diagnosticar problemas, orientar melhorias técnicas e apoiar iniciativas de literacia mediática.

1. Precisão- A resposta do assistente deve ser precisa, com referência à verdade sobre factos, opiniões e outras informações ou na forma como transmite o conteúdo de uma fonte citada. Alguns dos problemas mais frequentes:

🟥Factos inventados (alucinações) ou mal contextualizados;
🟥Falta de fidelidade às fontes;
🟥Informação ou afirmação desatualizada;
🟥Representação cronológica incorreta;
🟥Representação causal incorreta;
🟥Generalizações incorretas ou inadequadas;
🟥Representação incorreta de entidades e relações;
🟥Falhas de raciocínio ou lógica.

2. Erros em citações

A exatidão das citações diretas é fundamental para a exatidão global. Atribuir palavras exatas a uma pessoa implica responsabilidade legal e exige um nível de precisão muito superior ao da simples paráfrase. 

Esta subsecção identifica o que caracteriza uma boa utilização de citações (reprodução literal das palavras, atribuição correta e apresentação clara como citação) e apresenta as quatro formas principais de falha identificadas:

🟥citações inventadas;
🟥citações alteradas;
🟥atribuições incorretas;
🟥ausência de marcação adequada das citações.

Algumas das respostas analisadas chegaram a inventar declarações atribuídas a líderes políticos ou a jornalistas, apresentando-as como factuais.

3. Falta de contexto

Uma boa resposta de um assistente de IA não depende apenas de factos corretos, mas também de informação suficiente e relevante para que o utilizador compreenda plenamente o tema. Uma resposta pode ser tecnicamente verdadeira, mas enganadora por falta de enquadramento, omitindo elementos essenciais que alteram a leitura da notícia. 

Por isso, os assistentes devem incluir o enquadramento necessário, as perspetivas essenciais e o nível adequado de certeza ou incerteza dos factos apresentados. 

Muitas das falhas observadas no estudo resultam de omissões importantes, pontos de vista ignorados ou informação irrelevante, que podem tornar uma resposta tecnicamente verdadeira mas enganadora. 

As três formas mais comuns de erros de contexto são: 

🟥omissão de factos essenciais;
🟥omissão de perspetivas relevantes;
🟥inclusão de informação fora do tópico. 

4. Distinção entre factos e opinião

As principais falhas dos assistentes, neste domínio, prendem-se com:

🟥Falhas em sinalizar adequadamente a opinião;
🟥Atribuição enganadora ou incorreta de uma opinião.

As respostas devem clarificar se as informações que apresentam são factos ou opiniões e devem vir acompanhadas da atribuição adequada e precisa. 

Foram, também, identificadas falhas relacionadas com a editorialização e as fontes.

A - Editorialização inadequada ou enganosa

Os assistentes de IA, por vezes, introduzem juízos de valor ou interpretações em nome próprio, sem aviso explícito, gerando respostas que parecem factuais mas que, na realidade, contêm um tom editorial.

Tal situação pode levar o utilizador a atribuir essas opiniões às organizações noticiosas citadas, comprometendo a imparcialidade e a confiança do público, pelo que uma resposta responsável deve separar claramente informação factual de qualquer formulação interpretativa, identificar sempre a origem das opiniões e sinalizar explicitamente quando há comentários que não provêm das fontes. 

B - Problemas de fonte

Esta é a categoria com maior incidência, sendo os erros mais frequentes:
🟥ausência total de fontes;
🟥links inventados ou irrelevantes;
🟥fontes desatualizadas;
🟥utilização de conteúdos satíricos como se fossem factuais;
🟥fontes com fraca credibilidade;
🟥referência a artigos que não contêm a informação atribuída.

Este último problema é especialmente grave, pois cria a ilusão de verificação sem permitir qualquer auditoria real.

O Toolkit enfatiza que respostas fiáveis devem apoiar todos os pontos essenciais em fontes relevantes, acessíveis e verificáveis, claramente atribuídas e adequadamente descritas.

O Toolkit como instrumento formativo

O Toolkit dirige-se a empresas tecnológicas, organizações de media, investigadores e público em geral, fornecendo um guia estruturado para compreender o que distingue uma boa resposta de IA e quais os erros mais frequentes neste tipo de sistemas. 

Ao sistematizar critérios de qualidade e uma taxonomia de falhas, torna-se um recurso essencial para formação: apoia jornalistas e educadores na análise crítica das respostas produzidas por assistentes de IA, fornece às escolas orientações e recursos para reforçar a literacia mediática e algorítmica e contribui para capacitar cidadãos capazes de navegar com maior segurança no ecossistema informativo contemporâneo.

Relevância para o trabalho das bibliotecas escolares

O toolkit é uma ferramenta preciosa para o campo educativo em geral, e para o trabalho a desenvolver pelas bibliotecas escolares em particular, porque permite:

🔺mostrar como funcionam os assistentes de IA;

🔺compreender por que razão as respostas rápidas podem ser incompletas ou erradas;

🔺treinar a identificação de erros factuais, falhas de raciocínio e distorções;

🔺reforçar o ensino da verificação de fontes e da leitura crítica;

🔺apoiar projetos de literacia da informação e dos media em bibliotecas e nas salas de aula.

Assim, constitui um recurso particularmente útil para reforçar projetos de literacia mediática já em curso nas bibliotecas escolares, do ensino superior e públicas. A sua taxonomia de erros e os exemplos reais que apresenta podem ser integrados de forma direta em iniciativas da RBE como o  ProLiteracias, o PÚBLICO na Escola e o LIDERA e em todo o trabalho a desenvolver para responder ao referencial Aprender com a Biblioteca Escolar, pois promove competências de análise de notícias, verificação de fontes e confronto de perspetivas. 

Num momento em que milhões de utilizadores recorrem diariamente a assistentes de IA para obter respostas rápidas, o News Integrity in AI Assistants Toolkit  permite tornar visíveis as limitações destes sistemas e reforçar a cultura de verificação que sustenta uma sociedade informada.

Ao exigir rigor, transparência e fontes fiáveis, este toolkit aponta para um futuro em que a IA poderá ser usada de forma responsável, apoiando de forma efetiva o jornalismo, a educação e o pensamento crítico. Mais do que um instrumento técnico, é um contributo essencial para uma cidadania informada, pois capacita os utilizadores para questionarem o que leem, avaliarem a credibilidade da informação e resistirem à desinformação. Em última análise, trata-se de reforçar os alicerces de uma sociedade democrática, onde o acesso a informação rigorosa e a capacidade de a interpretar criticamente são condições indispensáveis para a participação consciente e para a preservação de um espaço público plural e transparente.

Referências

BBC & European Broadcasting Union. (2025). News integrity in AI assistants: An international PSM study. https://www.bbc.co.uk/mediacentre/documents/news-integrity-in-ai-assistants-report.pdf

BBC & European Broadcasting Union. (2025). https://www.ebu.ch/files/live/sites/ebu/files/Publications/MIS/open/EBU-MIS-BBC_News_Integrity_in_AI_Assistants_Toolkit_2025.pdf








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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Qui | 27.11.25

Sem revistas para jovens: um desafio para a literacia mediática

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Nas nossas deambulações pelas páginas das bibliotecas escolares deparámo-nos com uma questão tão simples quanto decisiva.

Depois de analisarmos como os assistentes de IA tratam a atualidade informativa — e de concluirmos, com base no estudo internacional da BBC e da EBU, a urgência de formar os nossos jovens para um consumo crítico de informação jornalística proveniente de fontes acreditadas —, poderíamos supor que o caminho passaria, naturalmente, por reforçar o contacto direto com publicações de qualidade.

As bibliotecas escolares estão mobilizadas para isso: promovem jornais escolares, desenvolvem projetos de literacia mediática, criam oportunidades para que os alunos leiam, comparem, verifiquem e discutam notícias reais.

No panorama atual, existem recursos muito relevantes: o Expressinho, suplemento do semanário Expresso, que continua a ser publicado em formato papel e digital; e as Notícias PÚBLICO na Escola para a sala de aula, recentemente disponibilizadas pelo projeto PÚBLICO na Escola, que oferecem semanalmente conteúdos  jornalísticos on-line atualizados e pensados para o trabalho pedagógico.

Contudo, mesmo com estes contributos importantes, sobressai uma limitação séria no mercado editorial português: faltam revistas de atualidade dirigidas especificamente a crianças e jovens, com regularidade, acessibilidade e enfoque pedagógico consistente.

Uma reflexão recente da Biblioteca da EBS de Caminha evidencia bem este vazio, que empobrece o ecossistema informativo dos mais novos e dificulta o trabalho das escolas.

Num momento em que tanto se exige às novas gerações em termos de leitura crítica, contacto com fontes fidedignas e compreensão informada do mundo, esta ausência torna-se especialmente preocupante.

A criação de mais uma publicação periódica juvenil, em papel, rigorosa, acessível e orientada para a atualidade será, sem margem para dúvida, um verdadeiro serviço público.

O paradoxo do regresso das revistas juvenis em papel
por Paulo Bento, Professor Bibliotecário do Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha

capa.jpgCom a proibição do uso de telemóveis na escola, os alunos do 2º ciclo que visitam regularmente a Biblioteca da EBS de Caminha regressaram a (bons) hábitos entretanto perdidos, como o da consulta e leitura de revistas em papel, paradoxalmente quando estas estão a desaparecer.

É o caso da Visão Júnior, a única revista portuguesa de informação dirigida a crianças e jovens entre os 6 e 14 anos, fundada em 2004, que foi recentemente descontinuada na sequência da falência da editora Trust in News e cujo último número saiu em maio deste ano.

O mesmo destino, e na mesma altura, teve a SuperInteressante, outra revista que agradava aos mais novos, que também assinámos por muitos anos. Já para não falar da Quero Saber, uma revista de Ciência dirigida aos jovens, que entre 2010 e 2018 foi comercializada, até que foi também descontinuada, e mesmo do Nosso Amiguinho, publicação de origem brasileira e ligada a uma confissão religiosa (sem ser propriamente confessional no seu conteúdo), que chegou a ter uma edição portuguesa com larga implantação nas nossas escolas do ensino básico. 

Todas estas publicações juvenis em papel desapareceram, pelo que apesar de não ser dirigida especificamente a este público, resta a National Geographic — com as suas reportagens sobre o mundo natural, ilustradas com belas fotografias — e, sobretudo, o recurso a edições passadas das publicações acima referidas, felizmente guardadas no arquivo da Biblioteca, que revivem agora nas mãos de novos leitores.

 

Nota:

Este artigo foi publicado originalmente no site das Bibliotecas Escolares do Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha: https://bibcouraminho.webnode.pt/products/o-paradoxo-do-regresso-das-revistas-em-papel/

Leia também:

Qua | 02.11.22

Porque é que devemos ler jornais nas escolas?

5 formas de envolver os alunos

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Qua | 26.11.25

Concurso Ensaio Filosófico 11.ª Edição – Resultados

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 Uma parceria Associação de Professores de Filosofia/Rede de Bibliotecas Escolares

Assinalando-se a 20 de novembro o Dia Mundial da Filosofia [1] - celebrado pela UNESCO, desde 2002, na terceira quinta-feira do mês de novembro – divulga-se o ensaio premiado com Menção Honrosa na 11.ª edição do Concurso Ensaio Filosófico no Ensino Secundário [2].

Intitula-se, Pode a inteligência artificial conhecer? Uma análise sobre o estatuto epistémico da IA e é da autoria de Jaime Borralho, do Agrupamento de Escolas 2 de Beja, tendo sido orientado pela professora Marcela Dantas da Silva.

O ensaio pode ler-se na integra na página da APF (Associação de Professores de Filosofia)[3], mas partilhamos um excerto:

“Os recentes avanços tecnológicos possibilitaram a criação de sistemas de inteligência artificial generativa de texto, o que tem levantado questões quanto às suas capacidades.

O presente ensaio investiga o estatuto epistémico destes sistemas, questionando se podem realmente conhecer, tal como nós humanos. Para tal, procedeu-se a uma análise comparativa entre a forma como estes programas funcionam e a definição tradicional do conhecimento como crença verdadeira justificada. Argumenta-se que a inteligência artificial não pode ter conhecimento, para além de não constituir uma fonte confiável de conhecimento”.

Apesar da decisão do júri de apenas atribuir um prémio, este ensaio é exemplo dos objetivos que se pretendem alcançar com o Concurso:

  • Promoção do interesse pela escrita e reflexão filosóficas;
  • Valorização da disciplina de Filosofia na formação geral dos alunos do ensino secundário;
  • Consolidação de competências em literacia da informação;
  • Divulgação do trabalho desenvolvido nos agrupamentos de escolas/escolas do ensino secundário.

Como habitualmente, a cerimónia de entrega do prémio ao aluno vencedor decorreu no Dia Mundial da Filosofia (20.11.2025). A Escola D. Manuel I, Beja, foi anfitriã da cerimónia e, nela, estiveram presentes os representantes da APF, Catarina Vale e da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), Isabel Nina, que felicitaram o aluno vencedor. Estiveram ainda presentes o Vice-Diretor, Pedro Martinho e o Presidente do Conselho Geral de Escola, Sérgio Filipe, o Presidente da Câmara Municipal, Nuno Ferro, o antigo Vereador da Educação, José Velez, muitos alunos, professores e elementos da comunidade educativa [4].

Na Cerimónia foi ainda lançada a 12.ª edição do Concurso 2025/2026 [2] que conta  com uma atualização do regulamento e modelo orientador, documentos enviados às escolas aquando do lançamento do concurso.

A Rede de Bibliotecas Escolares agradece, aos professores bibliotecários das escolas que pretendam candidatar-se ao Concurso, o acompanhamento e apoio prestado aos alunos, nomeadamente nos aspetos da  literacia da informação: qualidade das fontes, preferência por fontes primárias ou especificamente filosóficas, elaboração de citações e referências bibliográficas, entre outros aspetos.

Referências

  1. (2025). Dia Mundial da Filosofia. Associação de Professores de Filosofia. https://apfilosofia.org/dia-mundial-da-filosofia/?fbclid=IwAR1cU6lKlRhOD-ZBjsgl31sb-FX1S35XUzgF1olN_KOCvXAKaVxpP7t4GoY
  2. (2025). Ensaio Filosófico no Ensino Secundário. Rede de Bibliotecas Escolares. https://www.rbe.mec.pt/np4/EnsaioFilosofico.html
  3. (2025). Concurso Ensaio Filosófico no Ensino Secundário - Ensaios vencedores do concurso. Associação de Professores de Filosofia. https://apfilosofia.org/ensaio-filosofico/
  4. Escola D. Manuel I. (2025) Concurso de Ensaio Filosófico. Instagram https://www.instagram.com/reel/DRS6YLbDC6-/

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Ter | 25.11.25

Livros para todos os gostos

por Aurélia Azevedo, Professora Bibliotecária da Escola Básica de Ribeirão, Vila Nova de Famalicão

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Sou professora bibliotecária há 25 anos. Sempre acreditei que a cultura é que nos salva. Para isso acontecer é essencial dotar os jovens de “armas “que lhes permitam ter opinião própria e pensar pela sua cabeça.

A fórmula secreta é, sem dúvida, a aposta na leitura. As bibliotecas escolares que coordeno têm sido reconhecidas como espaços essenciais para a aprendizagem ao longo dos anos, fornecendo recursos, serviços e apoio aos alunos, professores e comunidade educativa. Recentemente requalificada, a Biblioteca da Escola Básica de Ribeirão respira um ambiente renovado que reflete a mudança, a criatividade e a abertura para experiências educativas diversificadas. Promover a paixão pelos livros e pela leitura tem sido o lema da equipa que coordeno.

Em articulação com os docentes de Português tem-se feito uma caminhada em que todos os alunos são motivados /desafiados/obrigados a ler um livro e a apresentá-lo em contexto de sala de aula. Esta estratégia permite a construção de um património cultural comum e assegura que jovens provenientes de diferentes origens partilhem referências, textos e imaginários da nossa memória coletiva. O aluno que leu um livro e partilha a sua experiência de leitura com os restantes alunos da turma está a trabalhar de forma integrada o seu desenvolvimento pessoal, social, cultural e linguístico.

O envolvimento dos alunos no enriquecimento do fundo documental diversificado, sugerindo títulos que correspondem aos seus interesses, reforça uma relação de pertença e estimula a leitura. É muito importante este envolvimento para que os alunos se identifiquem, envolvam-se e se comprometam com as sugestões dadas.

Temos adotado uma política de diversidade textual que vai ao encontro dos diferentes perfis de leitores da nossa área educativa: alguns abrem livros como quem escancara uma janela; outros, como quem fecha uma porta por dentro. Há os que percorrem páginas com sofreguidão — quase ansiosos por uma epifania. E há quem leia devagar, sem pressa, como se temesse que o fim dissipe aquilo que só começa no intervalo das frases. O leitor de fantasia procura mundos mais justos. O leitor gótico prefere os mundos que se quebram com elegância. O romântico quer amar como ninguém ousou. O intelectual quer compreender e ir mais além. O leitor triste, esse não quer nada — só que alguém o entenda, mesmo que nunca o veja.

A leitura por prazer é assim estimulada e é uma forma essencial para formar leitores autónomos, leitores que leem porque querem, e não apenas por obrigação. Garantir o acesso a obras de qualidade ao mesmo tempo que se respeita as preferências individuais é um direito dos alunos e uma responsabilidade da biblioteca escolar. Atenta à inovação e à integração de outras competências, a biblioteca também se destaca com um serviço diversificado projetos, palestras, concursos e exposições que promovem, não apenas o saber convencional, mas também as competências essenciais, como a literacia digital, dos média, fílmica e informacional. Eventos como encontros com escritores, feiras do livro e iniciativas associadas a diferentes projetos e parcerias, proporcionam aos alunos a oportunidade de expressarem as suas opiniões, defenderem ideias e desenvolverem habilidades críticas e democráticas.

Num mundo em constante mudança, a Biblioteca Escolar continua a reinventar-se, incorporando novas tecnologias e metodologias, sem nunca perder o seu compromisso com a inclusão, a equidade e o acesso ao saber. O seu impacto é visível nas histórias de sucesso de tantos alunos que ali encontraram apoio, motivações e ferramentas para crescer.

Assim, é justo reconhecer e valorizar o papel insubstituível da Biblioteca Escolar de Ribeirão, desejando que continue a ser, por muitos anos, um lugar de encontro, partilha e crescimento para toda a comunidade educativa.

Aurélia Azevedo
Pofessora Bibliotecária da Escola Básica de Ribeirão
Vila Nova de Famalicão

 

 

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  1. Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
  2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
  3. Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.

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Seg | 24.11.25

Integridade da informação em assistentes de IA: um alerta global

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Em outubro de 2025, a BBC e a União Europeia de Radiodifusão (EBU) divulgaram o relatório internacional News Integrity in AI Assistants: An International PSM Study [1], um dos mais abrangentes estudos sobre a forma como os principais assistentes de inteligência artificial - ChatGPT, Copilot, Gemini e Perplexity - respondem a perguntas sobre notícias e atualidade.

O estudo envolveu 22 entidades de serviço público de media, de 18 países e 14 línguas, e analisou 2.709 respostas geradas nas versões gratuitas dos assistentes. Cada resposta foi avaliada por jornalistas, segundo cinco critérios: exatidão, fontes, distinção entre factos e opiniões, editorialização e contexto

O relatório de 2025 confirma o que a BBC já identificara na investigação de 2024: os assistentes de IA ainda não são/ continuam a não ser um meio fiável para obter notícias, mesmo quando parecem seguros e convincentes.

Erros persistentes

Comparando com o estudo anterior da BBC (2024), os resultados revelam melhorias, mas confirmam que os erros continuam a ser generalizados e sistémicos:

🟥45% das respostas apresentaram pelo menos um erro grave;

🟥81% tinham algum tipo de problema;

🟥31% mostravam falhas graves de sourcing, com ausência, má utilização ou falsificação de fontes;

🟥20% continham erros factuais;

🟥14% não forneciam contexto suficiente para uma leitura correta da informação.

Entre os quatro assistentes avaliados, o Gemini registou o pior desempenho, com 72% de respostas com erros de fonte, o dobro do ChatGPT, Copilot e Perplexity.

Os exemplos recolhidos pelos jornalistas das organizações participantes ilustram a diversidade e a gravidade dos erros encontrados.

Entre os mais recorrentes, destacam-se os casos de informação desatualizada (como respostas em maio de 2025 que ainda identificavam Francisco como Papa, apesar da eleição de Leão XIV semanas antes) ou de erros factuais que distorcem acontecimentos e decisões políticas (como a afirmação de que Donald Trump teria aplicado tarifas a bens contendo fentanil, quando, na realidade, as tarifas não recaíam sobre produtos com essa substância, mas  eram uma resposta à alegada falta de ação do Canadá e México no combate ao tráfico).

Também foram detetadas citações inventadas ou alteradas, em que os assistentes atribuem frases a personalidades ou instituições sem qualquer base verificável. Um dos exemplos citados no relatório mostra uma resposta em que o então primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau é falsamente citado como tendo dito “uma guerra comercial estúpida”, expressão que nunca proferiu.

Outro padrão preocupante é o uso indevido de conteúdos satíricos ou promocionais, apresentados como se fossem factuais. Um dos casos analisados envolveu a utilização, pelo assistente Gemini, de uma rubrica humorística da Radio France como fonte para uma notícia séria sobre Elon Musk, sem indicar o caráter humorístico do conteúdo.

A estes problemas soma-se um tom de confiança excessiva, típico das respostas geradas por IA. Mesmo quando a informação é incorreta ou incompleta, os textos são apresentados com a segurança e a estrutura de uma notícia acabada, o que reforça uma ilusão de autoridade e dificulta a perceção do erro por parte do leitor.

Em muitos casos, o assistente não admite dúvida nem reconhece a incerteza dos factos, optando antes por preencher lacunas com suposições plausíveis, um comportamento que os investigadores descrevem como “sobre-confiança algorítmica”.

Risco de desinformação e perda de confiança

O relatório sublinha uma contradição preocupante e com fortes implicações sociais: embora muitos utilizadores acreditem na fiabilidade das respostas dadas por IA, estas continuam longe de garantir informação rigorosa.

De acordo com o estudo, mais de um terço dos adultos britânicos confia plenamente na precisão das respostas fornecidas por assistentes de IA, subindo essa percentagem para quase metade entre os menores de 35 anos. Este dado revela um fenómeno de confiança acrítica num tipo de tecnologia que ainda comete erros graves, não reconhece as suas limitações e tende a apresentar as respostas com um tom de certeza absoluta.

As consequências dessa confiança mal atribuída vão muito além do erro informativo:

🟥42% dos inquiridos afirmaram que passariam a confiar menos no meio de comunicação original se encontrassem erros num resumo gerado por IA. Ou seja, a responsabilidade pelo erro é partilhada, mesmo quando a falha é do assistente, o que agrava o risco reputacional para os órgãos de comunicação social.

🟥As respostas automáticas baseadas em IA estão também a desviar leitores dos meios de comunicação tradicionais, reduzindo consumo de fontes jornalísticas de referência. A Financial Times registou uma quebra de 25% a 30% no número de leitores que acedem às suas notícias através de motores de pesquisa, após a introdução das respostas “answer-first” geradas por IA.

Esta mudança de comportamento dos utilizadores traduz-se numa transformação profunda na forma como a sociedade acede à informação: os assistentes de IA privilegiam respostas diretas e instantâneas, dispensando a leitura integral das notícias, a verificação das fontes e a análise de diferentes perspetivas. Assim, o leitor deixa de ser um agente ativo na consolidação da sua compreensão do mundo para se tornar um mero recetor de respostas prontas, frequentemente simplificadas ou enviesadas.

O relatório alerta que, se nada for feito, este modelo pode enfraquecer a diversidade informativa e reduzir o contacto com fontes credíveis, criando um ecossistema de informação menos transparente, mais superficial e mais vulnerável à desinformação.

Perante esta realidade, os autores defendem que as empresas tecnológicas devem ser responsabilizadas pelo impacto informativo e social dos seus produtos, e que a literacia mediática e digital deve ser reforçada como linha de defesa essencial da cidadania informada.

Mudanças urgentes

O relatório propõe quatro linhas de ação:

1. Responsabilização das empresas de IA, com correção dos erros , sobretudo os de precisão e fontes.

2. Controlo editorial dos editores e produtores de conteúdos sobre a utilização das suas publicações por assistentes de IA.

3. Criação de normas e mecanismos de regulação que assegurem qualidade, rastreabilidade e visibilidade dos conteúdos de confiança.

4. Reforço da literacia em IA, ajudando os cidadãos a compreenderem limites, riscos e potencial destas tecnologias.

A EBU lançou, em simultâneo, o Toolkit “News Integrity in AI Assistants”, que identifica boas práticas e erros típicos dos assistentes no tratamento de notícias, e que visa apoiar tanto os programadores de IA como os profissionais dos media.

Educação e literacia: o papel das bibliotecas escolares

As conclusões deste estudo ecoam de forma direta no campo educativo. Num tempo em que muitos jovens e adultos obtêm respostas rápidas através de assistentes de IA, é essencial reforçar o contacto direto e regular com fontes jornalísticas fidedignas, promovendo o hábito de ler notícias completas, identificar as suas origens e compreender como são construídas.

O acesso direto ao jornalismo profissional (nacional e internacional, impresso e digital) é uma forma de combater a superficialidade informativa que caracteriza as respostas automáticas. Ler um artigo, seguir o desenvolvimento de uma história, comparar diferentes meios e pontos de vista são práticas que exigem tempo, atenção e pensamento crítico, precisamente as competências que as bibliotecas escolares ajudam a desenvolver.

Formar leitores críticos implica, portanto, mais do que ensinar a verificar informação: exige fomentar o gosto por explorar fontes originais, compreender a linguagem jornalística e reconhecer o valor do rigor e da transparência.

É nesse sentido que se inscreve o trabalho desenvolvido pelas bibliotecas escolares no âmbito dos jornais escolares, designadamente em parceria com o projeto PÚBLICO na Escola, que tem contribuído para aproximar alunos e professores do jornalismo de qualidade, estimulando o pensamento crítico, a redação de conteúdos jornalísticos diversos e a leitura da atualidade.

O projeto LIDERA constitui, neste contexto, uma iniciativa estruturante da RBE. Promove o desenvolvimento de competências de leitura crítica e de análise de notícias, explorando diferentes formatos e géneros jornalísticos. Através de sessões de capacitação para mediadores, o LIDERA incentiva o debate, a verificação de fontes e o questionamento das mensagens mediáticas, incluindo as produzidas ou mediadas por IA.

Também várias das atividades disponíveis no portal RBE (Aprender com a Biblioteca Escolar: Saber usar os media) apoiam escolas e docentes na implementação de projetos de literacia mediática, orientando o trabalho com os alunos na análise de notícias, no confronto de perspetivas e na identificação de desinformação.

As bibliotecas escolares, enquanto espaços de aprendizagem e de confiança, devem assumir este papel crucial: apoiar os alunos na diferenciação entre respostas geradas automaticamente e análises construídas de forma crítica, favorecendo um conhecimento mais sólido e sustentado.

Ao promoverem o contacto com o jornalismo de qualidade e a leitura informada da atualidade, as bibliotecas contribuem para formar cidadãos mais exigentes, informados e conscientes.

Num mundo mediado por algoritmos, ler bem e ler nas fontes certas continua a ser a melhor forma de pensar melhor.

Referências

[1] BBC & EBU (2025). News Integrity in AI Assistants: An international PSM study. newsintegrity.org/home

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Sex | 21.11.25

COP 30: integridade da informação, mudança climática e o papel das bibliotecas

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Fonte: https://www.youtube.com/@COP30BrasilAmaz%C3%B4nia

 

A 30.ª Conferência das Partes (COP30) sobre Mudanças Climáticas (UN, 2025, 10-21 Nov.) que decorre em Belém, Brasil, traz pela primeira vez para a Agenda de Ação duma COP a questão da integridade da informação, representada por um Enviado Especial próprio. 

A 12 de novembro publica a Declaração sobre a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas (GIIICC, 2025), assinada por mais de uma dezena de países, que se comprometem a combater a desinformação e a promover informações precisas e baseadas em evidências sobre o clima: “as Partes devem promover a educação, a capacitação e o acesso à informação para aumentar a conscientização pública e fomentar a participação pública na ação climática” (GIIICC, 2025).

 

1. A correlação entre integridade da informação e mudança climática 

No discurso da abertura da conferência, o presidente Lula lembrou a importância de combater o negacionismo: 

"Na era da desinformação, os obscurantistas rejeitam não só as evidências científicas, mas também os progressos do multilateralismo. Eles controlam algoritmos, semeiam ódio e espalham o medo. Atacam as instituições, a ciência e as universidades. É momento de impor uma nova derrota aos negacionistas” (Ferreira, 2025). 

A desinformação alimenta o extremismo político, mina a democracia e coloca vidas em risco.  

Segundo Guilherme Canelas, Diretor de Políticas Digitais da UNESCO e responsável pela Iniciativa Global sobre Integridade da Informação Climática, “O conhecimento e a informação são partes centrais da ideia de poder (de transformar a sociedade). Se não há integridade da informação, ou seja, se não é possível confiar na informação sobre mudanças climáticas, é muito difícil agir sobre isso do ponto de vista individual” (ONU News, 2025). 

Afirma Frederico Assis, Enviado Especial: “A gente não sabe porque os algoritmos nos enviam determinados tipos de conteúdo e não é raro que esses algoritmos potencializem o alcance de conteúdos desinformativos, que podem ser conspiratórios, manipuladores, usar meias-verdades, usar táticas sofisticadas para passar uma mensagem que não é verdadeira” e greenwashing (ONU News, 2025).

Canelas, a propósito da hipótese, “talvez o que se espalhe mais rápido sejam os conteúdos carregados de emoção” (ONU News, 2025), reitera que o Fundo da Iniciativa Global para a Integridade da Informação deve ser aplicado na investigação das formas de distribuição de desinformação por meio de jornalismo de investigação e de pesquisa: quem a financia, porque se espalha mais rapidamente, etc. 

Por entre os principais porta-vozes é muito clara a ideia de que a desinformação é intencional, lucrativa, muito bem planeada e estruturada e tem uma estratégia muito bem feita por parte das Big Tech (Apple, Google, Amazon, Microsoft e Meta) que estão por detrás dela. Se não se compreender profundamente este fenómeno, há um risco efetivo de interferência nas decisões dos Estados, na crise climática e na democracia. 

 

2. Integridade da informação sobre mudanças climáticas e o papel das bibliotecas 

Tomar a Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas como tema chave da Cimeira é uma oportunidade para as bibliotecas reforçarem e alargarem o seu papel no âmbito de acesso, inclusivo e significativo:  

🟥à literacia digital, da informação e media; 

🟥à educação e comunicação sobre o clima; 

🟥à literacia científica; 

🟥à participação em políticas públicas no setor. 

 

As bibliotecas escolares promovem este acesso de forma contínua e abrangente, na comunidade, colocando no centro das Ações para o Empoderamento Climático (ACE) as crianças e jovens, que contam com o apoio do professor bibliotecário, da escola e do poder local. 

Exemplos de ações dos alunos (RBE, 2023, p. 43): 

🟥Proibir na escola a venda e utilização de garrafas de plástico e disponibilizar pontos de abastecimento gratuito de água

🟥Políticas de utilização limitada de papel nas escolas.

🟥Visitas de estudo com transportes mais amigos do ambiente, como a bicicleta

🟥Sessões de esclarecimento e discussão sobre crise climática, para consciencializar e tornar crianças e jovens e a comunidade mais ativas e responsáveis.

Este serviço público que as bibliotecas escolares prestam promove a consciencialização, transforma a perceção pública sobre a urgência da ação climática e o papel das instituições e dos governos e facilita a adoção de medidas de mitigação e adaptação que contribuem para a resiliência e o empoderamento climático. 

 

3. “Chega de greenwashing. (…) Ninguém pode negociar com a física”, diz o SGNU

A Declaração sobre a Integridade da Informação sublinha que a urgência da crise climática exige ação dos Estados e envolvimento e mobilização amplas de todos os setores da sociedade e dos cidadãos, inclusive dos jovens e “requer acesso a informações consistentes, confiáveis, precisas e baseadas em evidências”. 

Os seus signatários devem promover a integridade das informações sobre mudança do clima a nível internacional, nacional e local, em conformidade com: 

🟥Os direitos humanos; 

🟥O princípio 10 da Declaração do Rio (1992) - “A melhor forma de tratar as questões ambientais é assegurar a participação de todos os cidadãos”; 

🟥Os princípios da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (1992), que estabelecem Responsabilidades Comuns, mas Diferenciadas (princípio poluidor – pagador) entre Estados; 

🟥O Acordo de Paris (2015).

 

“Nunca estivemos tão bem preparados para reagir.

(…) O que ainda falta é coragem política.

(…) Os combustíveis fósseis ainda recebem subsídios enormes – dinheiro dos contribuintes.

(…) Muitas corporações estão lucrando recordes com a devastação climática

(…) Precisamos agir mais rápido e juntos.

(…) Esta COP deve impulsionar uma década de aceleração e resultados concretos” (COP 30, 2025),

diz António Guterres no seu discurso da Cimeira de Líderes de Belém. 

 

Referências

COP 30. (2025, 6 nov.). Esta COP deve impulsionar uma década de aceleração e resultados: discurso do Secretário-Geral da ONU na Cúpula de Líderes de Belém. 30.ª edição da Conferência das Partes. https://unfccc.int/news/this-cop-must-ignite-a-decade-of-acceleration-and-delivery-un-secretary-general-address-to-belem

Ferreira, R. (2025, 12 de nov.). Integridade da informação ganha destaque inédito nas negociações climáticas. COP30 Brasil 2025. https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30/integridade-da-informacao-ganha-destaque-inedito-nas-negociacoes-climaticas

GIIICC. (2025, 12 Nov.). Declaration on Information Integrity on Climate Change. Global Initiative for Information Integrity on Climate Change. https://www.unesco.org/sites/default/files/medias/fichiers/2025/11/2025.11.12%20-%20COP%2030%20-%20%20Declaration%20on%20Information%20Integrity%20on%20Climate%20Change_final_ok.pdf?hub=780

Carvalho, F. (2025, 12 nov.). Declaração histórica firmada na COP30 prioriza combate à desinformação climática. Organização das Nações Unidas News. https://news.un.org/pt/story/2025/11/1851513

RBE. (2023). Transformar a educação: dá voz às tuas ideias! Rede de Bibliotecas Escolares. https://www.rbe.mec.pt/np4/%7B$clientServletPath%7D/?newsId=3387&fileName=2023.01.05___tes.pdf

  1. UN. (2025, 10 – 21 Nov.) UN Climate Change Conference - Belém, November 2025. United Nations. https://unfccc.int/cop30

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0

Qui | 20.11.25

Celebrar a filosofia para melhor pensar e questionar o mundo atual

por Júlia Martins*

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Hoje é Dia Mundial da Filosofia

Em 2002 a UNESCO instituiu o Dia Mundial da Filosofia, como resultado de uma necessidade da humanidade, cada vez mais urgente, a de refletir sobre os acontecimentos atuais, fomentando o pensamento crítico, criativo e contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz. Desde então, todos os anos, na terceira quinta-feira de novembro, celebra-se o Dia Mundial da Filosofia, uma iniciativa da UNESCO que reconhece a relevância da filosofia para o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo. 

A filosofia nasce do espanto. Inquieta-nos. Ensina-nos a questionar. A olhar atentamente e a escutar. A analisar e a compreender o mundo de forma profunda — competências essenciais no século XXI, marcado pela rápida transformação tecnológica e pelo crescimento exponencial da informação. Cada vez mais, a filosofia desempenha um papel essencial na nossa construção como pessoas, mas essencialmente enquanto cidadãos ativos e participativos. Neste sentido, a filosofia exercita-nos a averiguar, a examinar criticamente argumentos, a distinguir entre factos e opiniões, a identificar pressupostos implícitos e a questionar conclusões aparentemente óbvias, assim como as fontes da informação disponibilizada. Assim, a filosofia contribui significativamente para que cada um de nós se questione, de modo a compreender melhor o mundo atual, onde a informação circula com rapidez e nem sempre é fiável.

No contexto escolar, o desenvolvimento do pensamento crítico prepara os alunos para serem cidadãos informados, capazes de tomar decisões conscientes, de questionar narrativas e de interagir de forma ética com a sociedade. Em tempos de desinformação, polarização e avanços tecnológicos rápidos, a filosofia é uma necessidade social. Urge ensiná-la. Divulgá-la. Praticá-la. O exercício constante do pensamento crítico deve ser o lema: pensar antes de agir, avaliar a validade das informações, interrogar algoritmos e inteligências artificiais, ponderar os limites éticos e compreender a complexidade das sociedades contemporâneas.

Naturalmente, tudo isto não se aprende apenas nas aulas de Filosofia. É aqui que as bibliotecas escolares podem, e devem, desempenhar um papel crucial. Elas são espaços essenciais para a promoção do pensamento crítico, oferecendo acesso à informação diversificada, à leitura (incluindo leitura reflexiva), à pesquisa autónoma e ao desenvolvimento de diferentes literacias.

Na concretização deste propósito, elas podem:

1. Organizar debates e clubes de filosofia, fomentando o questionamento e a argumentação

2. Disponibilizar recursos sobre ética, ciência, tecnologia e Inteligência Artificial, permitindo que os alunos confrontem diferentes pontos de vista

3. Ser laboratórios de literacia digital e mediática, onde se aprende a usar ferramentas como a IA de forma responsável.

A biblioteca escolar é um espaço de aprendizagem crítica, alinhando-se com os objetivos do Dia Mundial da Filosofia.

Celebrar a Filosofia é, assim, uma oportunidade para comemorar o pensamento crítico em todas as idades. Nas escolas, nas salas de aula e nas bibliotecas, esta celebração deverá transformar-se em ação: ler, discutir, questionar e criar ferramentas de pensamento crítico, livre e autónomo. Num mundo em que a Inteligência Artificial se torna cada vez mais presente, estas competências não são apenas desejáveis, são essenciais para que todos possam usar esta ferramenta da forma mais adequada e eficiente.

Para celebrar a Filosofia leia livros de filosofia. Aqui ficam algumas sugestões: 

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Alice, curiosa e ansiosa, é uma rapariga do seu tempo: inquietam-na as alterações climáticas e o futuro da Humanidade. Procura referências para agir, um lema que a oriente.

Atravessando séculos e civilizações à procura de respostas, Alice embarca numa fascinante viagem pelo País das Ideias: dialoga com Sócrates e entra na caverna de Platão, escuta Buda, conhece Montaigne, Descartes, Voltaire e Nietzsche, e deita-se no divã de Freud. A cada novo encontro, toma consciência que as ideias, longe de serem conceitos estéreis e separados de nós, são o que nos permite compreender o mundo e mudá-lo.

Da Roma antiga à Viena do início do século XX, de Platão a Confúcio, Alice no País das Ideias não é apenas uma aventura intemporal pela história do pensamento: num mundo cada vez mais polarizado, é um convite à reflexão, uma ode à dúvida e à liberdade de pensar - e à liberdade de mudar de ideias.” [sinopse disponibilizada pela editora]

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Publicado pela primeira vez em Itália em 1958 e assinado sob o pseudónimo joyceano Dedalus, Filósofos em Liberdade marcou a surpreendente estreia de Umberto Eco num género que o próprio definiu como «ensaio ligeiro». O livro, que pode ser lido como uma hilariante introdução em verso à história da filosofia e também como um jogo para iniciados, teve origem nas caricaturas que Eco desenhava durante as conferências de filosofia que frequentou na sua juventude. A estas caricaturas acrescentou posteriormente os «pequenos poemas» que as acompanham nesta edição. Embora sempre os tenha considerado meros divertimentos, também insistia no seu absoluto rigor científico.

«Brincar sim, mas seriamente» é o lema do autor no prólogo escrito muitos anos depois para a publicação de um volume já assinado com o seu nome, a que se juntou uma série de textos sobre Marcel Proust, James Joyce e Thomas Mann (por quem sentia uma autêntica devoção), e ainda vários apêndices escritos ao longo de décadas que abordam outras questões, igualmente sérias, com a mesma e quase necessária leveza. “[sinopse disponibilizada pela editora]

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“Afinal, o que é a filosofia? É o que aqui se pergunta a alguns protagonistas da sua história — Platão, Aristóteles, Agostinho, Kant, Wittgenstein e Heidegger —, sem, contudo, se pretender fazer história da filosofia. A filosofia é uma actividade que procura descobrir a verdade sobre «as coisas», «o mundo», os «outros», enfim, sobre «si próprio». Não se tem, por isso, uma filosofia. Faz-se filosofia.

A filosofia é uma possibilidade. E aqui começa já um problema antigo. Não é a possibilidade menos do que a realidade? Não é o possível só uma ilusão? Mas não será o sonho, a ilusão, como dizia Valéry, o que nos distingue dos animais? Toda a pergunta está em tensão para uma resposta. Uma não existe sem a outra. Fazer a pergunta «o que é a filosofia?» é já, de algum modo, percorrer o caminho de uma resposta possível.” “[sinopse disponibilizada pela editora]

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“Bem-vindos ao planeta Terra!

O mundo pode parecer muito confuso, sobretudo se acabámos de aqui chegar. Para melhor compreendê-lo, vamos explorar o nosso planeta e ver como vivemos. Estes apontamentos são um guia para essa viagem...

Escrito por Oliver Jeffers nos dois primeiros meses de vida do seu filho, e procurando explicar-lhe as várias coisas que achava que ele precisava de saber, este é um livro vivo e afectivo sobre o modo como o planeta e os seres humanos devem ser amados e respeitados.”

[sinopse disponibilizada pela editora]

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1507-1 (3).jpg“Número 7 da Rue de Grenelle: o endereço é burguês, os moradores são gente rica e tradicional. Tudo parece um quadro em que não há movimento: cristalizado, bem organizado, eterno. Mas há duas pessoas que parecem não encaixar.

Para começar, temos Renée, que parece a porteira clássica: baixota, rezingona e sempre pronta a fechar a porta na cara de alguém. Na verdade, estamos na presença de uma observadora perspicaz, ora terna, ora ácida, e uma autodidata que esconde bem o seu verdadeiro eu: uma grande apaixonada por livros e arte.

E depois temos Paloma, a filha mais nova da família Josse, que destoa dos pais e da irmã. De tal modo, que se impõe um desafio terrível: ou descobre algum sentido para a vida, ou comete suicídio no dia em que fizer treze anos. Mas, enquanto a data não chega, mantém dois conjuntos de anotações pessoais e filosóficas, os Pensamentos profundos e o Jornal do movimento do mundo: são os relatos das suas experiências íntimas e da vida no prédio.

As duas filósofas, Renée e Paloma, estão inteiramente entregues ao olhar sobre aquelas pessoas tão diferentes delas, àquele mundo onde parecem não pertencer. Mas, um dia, chega um novo morador ao bairro. Kakuro Ozu, um alegre senhor japonês, poderá bem ser o terceiro elemento de um trio perfeito, redentor, que salvará Renée e Paloma da mediocridade e dos espinhos da vida.” [sinopse disponibilizada pela editora]

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Mais de 200 conceitos chave da filosofia ocidental explicados com imagens compreensíveis, frescas e inovadoras, que de um modo acessível iluminam processos mentais de grande complexidade e abstração. De Tales a Derrida, passando por Schopenhauer, por fim a filosofia ao alcance de todos”

[sinopse disponibilizada pela editora]

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“De acordo com Byung-Chul Han, uma das mais inovadoras vozes filosóficas surgidas na Alemanha, o Ocidente está a tornar-se uma sociedade do cansaço.

Segundo este autor germano-coreano, qualquer época tem as suas doenças caracte- rísticas. Houve uma época bacteriana, que terminou com a descoberta dos antibióticos.

A época viral foi ultrapassada através das técnicas imunológicas, apesar dos periódicos receios de uma pandemia gripal.

O início do século XXI, do ponto de vista patológico, seria sobretudo neuronal. A de- pressão, as perturbações de atenção devidas à hiperatividade e a síndroma do desgaste profissional definem o panorama atual.” [sinopse disponibilizada pela editora]

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“Edição comemorativa dos vinte anos da tradução integral da Ética a Nicómaco. Um livro fundamental para a cultura do Ocidente. Ética a Nicómaco trata da felicidade como projeto essencial do ser humano. Das virtudes, da sensatez, do que se pode e do que se deve fazer. Trata da possibilidade de se existir de acordo com as escolhas que fazemos. De se ser autónomo, de viver com gosto. Trata da procura do prazer pelo prazer – e do prazer pela honra. Da justiça. Das formas de vida que levam à felicidade. Da procura do amor. É um livro fundamental para a cultura do Ocidente.” [sinopse disponibilizada pela editora]

 

 

 

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* Júlia Martins

Acredita no poder da leitura. Dar a ler é um desafio que gosta de abraçar. É leitora e frequenta, de forma assídua, Clubes de Leitura. Saiba mais

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Qua | 19.11.25

Escrita autêntica na era da IA

por Jen Roberts*

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A colaboração e a escolha podem ajudar os alunos a descobrirem os fundamentos da boa escrita sem dependerem da ajuda da IA.

Atualmente, os professores têm um novo desafio: conceber ou reformular a pedagogia da escrita tendo em conta a existência da inteligência artificial (IA) generativa. Claro que podemos adicionar uma cláusula aos nossos programas que proíba o uso da IA para escrever. Podemos lembrar aos alunos a política de honestidade académica e ameaçá-los com a atribuição de um zero nas tarefas. No entanto, tive mais sucesso ao alterar parte da minha pedagogia da escrita centrando-me em práticas que conduzem naturalmente a uma escrita mais autêntica.

5 estratégias para obter textos autênticos dos alunos

Embora a IA tenha trazido um foco renovado para a importância da escrita autêntica, sempre foi a base de uma boa pedagogia da escrita garantir que os alunos tragam a sua voz e pontos de vista para os seus projetos de escrita. Estas são algumas das estratégias que atualmente funcionam bem na minha sala de aula.

1. Grupos de escrita

Primeiro, torne a revisão por pares uma parte normal da sua prática em sala de aula. Um protocolo robusto de feedback entre pares, seja como prática contínua ou como etapa para todos os principais processos de escrita, beneficia os alunos de várias formas e vale a pena ser implementado por si só.

Eu uso grupos de escrita com os meus alunos há anos, mas recentemente descobri que eles também servem como um dissuasor útil para a utilização da IA generativa. Quando os alunos sabem que a sua escrita será partilhada com os colegas, discutida e criticada de forma construtiva, eles mesmos fazem os rascunhos. Ainda não vi nenhum aluno tentar passar a escrita da IA como sua para os colegas. Quando estou a rever um trabalho de um aluno e vejo muitos comentários úteis dos colegas, considero isso mais um sinal da autenticidade da escrita.

Outra vantagem do tempo consagrado à escrita em grupo é que me dá a oportunidade de ver quais são os alunos que não têm um rascunho pronto para partilhar. Estes são os alunos com maior risco de desonestidade académica na sua escrita. Quando um aluno tem dificuldades com uma tarefa de escrita, é mais provável que tente fazer batota utilizando a IA generativa. Os alunos que não cumprem o prazo para a entrega do rascunho ao seu grupo de escrita precisam de mais apoio e de uma intervenção direta o mais rapidamente possível.

2. Escrita colaborativa

Escrever com um colega é muitas vezes intelectualmente mais desafiante do que escrever sozinho. Também proporciona algum apoio integrado e reflete a forma como muitos adultos escrevem no local de trabalho. Quase qualquer tipo de escrita académica pode ser feita em equipa: ensaios, contos, relatórios de laboratório, editoriais e trabalhos de investigação funcionam bem como projetos de escrita colaborativa.

Considero que os meus alunos escrevem excelentes textos ao trabalharem com um colega. Quando os meus alunos do último ano estudam Hamlet, uma história de duas personagens modernas que discutem sobre a peça torna-se um substituto para um ensaio, e os meus alunos do nono ano escrevem histórias sobre as redes sociais quando estudamos literacia digital. Ao trabalharem juntos num texto, têm de discutir o conteúdo e tomar decisões em conjunto, o que torna o processo de escrita cognitivamente mais complexo para ambos.

Além disso, posso ouvir essas conversas. Normalmente, deixo os alunos escolherem os seus parceiros de escrita. Quero que se sintam à vontade uns com os outros. Às vezes, peço-lhes que redijam separadamente e depois sintetizem e combinem as suas ideias; outras vezes, escrevem juntos desde o início. A parceria com um colega é motivadora por si só, pois eles gostam de conversar sobre o seu trabalho conjunto. A taxa de entrega é maior, pois sentem-se responsáveis uns pelos outros. E, para ser sincero, é bom ter apenas metade dos trabalhos para corrigir.

3. Proporcionar a possibilidade de escolha

Penso que os alunos tendem a utilizar mais a IA quando não estão pessoalmente envolvidos na tarefa. Se não se importam com o que está escrito, por que se darão ao trabalho de escrever eles próprios? Quando podem escolher o tema da sua composição, envolvem-se muito mais no conteúdo do que produzem. Permitir que os alunos escrevam sobre assuntos pelos quais já demonstram interesse resulta em textos melhores e mais autênticos.

Por exemplo, os meus alunos escolhem um tema nas notícias para acompanhar todos os anos. Eles selecionam-no no outono e relatam o que está a acontecer na sua notícia várias vezes durante o ano. Os temas variam de notícias internacionais a assuntos da cultura pop — a minha única exigência é que seja algo em que estejam interessados. Esses relatórios e apresentações refletem sempre a sua voz, as suas opiniões e as evidências das suas pesquisas, porque eles se importam com o assunto.

4. Conteúdo exclusivo

A minha escola tem a sorte de ter um espaço que usamos como galeria de arte. No semestre da primavera, os nossos alunos de arte expõem os seus melhores trabalhos e eu levo sempre os meus alunos a ver a exposição. Enquanto lá estamos, eles escolhem duas obras de arte totalmente originais, tomam notas sobre elas e, em seguida, escrevem um pequeno ensaio em que as comparam. Mesmo a ferramenta de IA mais atualizada não tem conhecimento da arte criada pelos alunos da minha escola. Deste modo, posso mostrar aos meus alunos que os conceitos de humor, simbolismo e tema se cruzam da literatura à arte, ao mesmo tempo que lhes dou um tema autêntico sobre o qual escrever.

5. Edição da IA

A minha ideia mais recente para promover a escrita autêntica é dar aos alunos um rascunho da tarefa escrito pela IA, exigir que eles alterem pelo menos 50% do texto e pedir que adicionem evidências das leituras do curso. Também exigi que adicionassem pelo menos cinco comentários para explicarem o que alteraram e porquê. Essa tarefa foi muito bem-sucedida. Os meus alunos experimentaram um tipo diferente de processo de escrita, debateram-se produtivamente com o que manter e o que alterar e desenvolveram uma profunda compreensão de quão mau pode ser um texto gerado por IA.

Ao tornar os grupos de escrita, a colaboração entre pares, a escolha e o conteúdo único uma parte regular do nosso currículo de escrita, consegui garantir que os meus alunos realizassem projetos de escrita mais autênticos e reduzir as probabilidades de considerarem entregar textos gerados por IA.

Fazer com que começassem a partir de um rascunho gerado por IA foi um ato de desespero para evitar fraudes de última hora no final do semestre, mas acabou por ser ainda melhor do que o esperado.

Essas estratégias estão a incentivar gentilmente os meus alunos a adotarem práticas de escrita autênticas, ao mesmo tempo que os ajudam a aprimorar as suas habilidades de escrita, para que fiquem ainda menos tentados a entregar trabalhos escritos por IA como se fossem seus.

 

O texto deste artigo foi traduzido e publicado com a autorização da Edutopia:

Referência

Roberts, J. (2025, 25 de fevereiro). Authentic Writing in the Age of AI. Edutopia. https://www.edutopia.org/article/teaching-authentic-writing-age-ai 

 

*Jen Roberts

É professora de inglês do ensino secundário certificada pelo Conselho Nacional, com mais de 25 anos de experiência no ensino de Língua Inglesa e Ciências Sociais, do 7.º ao 12.º ano. É coautora do livro Power Up: Making the Shift to 1:1 Teaching and Learning e inovadora certificada pelo Google for Education desde 2011. Os seus interesses incluem o ensino da literacia e o uso da tecnologia para tornar o ensino mais eficiente e eficaz. Escreve no blogue https://www.litandtech.com/ .

 

Nota: © Excecionalmente, por se tratar de uma tradução que careceu de autorização, este trabalho tem todos os direitos reservados.

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Ter | 18.11.25

Bibliotecas Escolares: Motores de Inovação, Inclusão e Cidadania

por Ana Paula Sousa Azevedo, Diretora do Agrupamento de Escolas Oliveira Júnior, S. João da Madeira

Bibliotecas Escolares Motores de Inovação, Inclu

 

As bibliotecas escolares ocupam, no meu entender, um lugar absolutamente estratégico, na escola pública. Enquanto diretora tenho tido a oportunidade de testemunhar de perto que estes espaços se afirmam como motores de inovação pedagógica, lugares de liberdade e territórios privilegiados para a formação integral dos nossos alunos.

Através de experiências concretas percebi como a biblioteca escolar vai muito além do empréstimo de livros e vejo o seu impacto na formação integral dos alunos, na inovação pedagógica e na promoção de literacias que são essenciais à cidadania.

É também um local essencial de inclusão, onde cada aluno encontra reconhecimento e possibilidades de crescimento, independentemente da sua origem ou percurso.

Quero destacar a vontade de retomar o projeto Leituras com Direção, no qual a direção visita escolas da Educação Pré-escolar (EPE) e do 1.º ciclo com momentos de leitura animada. Estas visitas criam laços afetivos com os livros e com as crianças, fortalecendo comunidades educativas mais humanas e colaborativas, e cultivando o prazer de ler desde cedo.

Num tempo marcado pela inteligência artificial, é fundamental valorizar as bibliotecas escolares, pois formam cidadãos críticos, criativos e participativos. Investir nelas é investir nos alunos, na escola pública e no futuro da democracia.

Quero muito que as nossas bibliotecas escolares continuem a ser espaços abertos de conhecimento e partilha, motores de mudança e pontos de encontro e de sonho.

Ana Paula Sousa Azevedo

Diretora do Agrupamento de Escolas Oliveira Júnior, S. João da Madeira

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Seg | 17.11.25

Um novo ponto de encontro com a leitura

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Inauguração do Ponto biblioteca da EB1 dos Arcos, em Estremoz

No passado dia 31 de outubro, a Escola Básica dos Arcos, em Estremoz, inaugurou o seu Ponto biblioteca, um espaço que se afirma como mais uma porta aberta ao prazer de ler, à curiosidade e à descoberta do conhecimento.
Este novo Ponto biblioteca resulta de uma colaboração exemplar entre a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), o Município de Estremoz e a Junta de Freguesia dos Arcos, numa conjugação de esforços que reforça o compromisso de todos com a promoção da leitura e das literacias desde o 1.º ciclo.

O espaço foi pensado para acolher as crianças num ambiente acolhedor e funcional, onde os livros convivem com outros recursos de aprendizagem e com atividades que estimulam a imaginação, o pensamento crítico e a cooperação. A sua instalação vem aproximar a biblioteca do quotidiano da escola e da comunidade, valorizando o papel da leitura na formação integral dos alunos.

A inauguração contou com a presença de representantes das três entidades parceiras, professores, pais e alunos, que celebraram o momento com leituras partilhadas, pequenas dramatizações e o entusiasmo característico de quem descobre um novo lugar de encontro com as histórias e com os outros.

Com este novo Ponto biblioteca, Estremoz dá mais um passo na construção de uma rede de escolas leitoras e participativas, onde cada biblioteca, por mais pequena que seja, é um centro de cultura, de afetos e de aprendizagem para todos.

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