Vivemos tempos em que a escola é chamada a ser também um espaço de cuidado, de escuta, de construção de sentido. A saúde mental dos jovens, a inclusão plena e a motivação para aprender tornaram-se dimensões críticas da experiência escolar.
No seu quadro estratégico, a Rede de Bibliotecas Escolares apresenta como um dos eixos de ação o eixo Pessoas que visa:
Garantir que as bibliotecas são organizações que promovem a defesa da dignidade humana e da justiça, o compromisso com a equidade e o valor da diversidade, da democracia e da liberdade.
Para isso são definidas várias linhas de ação e uma delas consiste precisamente em
Induzir dinâmicas que conduzam a comportamentos e estilos de vida responsáveis, promotores de bem-estar (individual, coletivo, ambiental).
Contudo, promover o bem-estar é uma responsabilidade transversal, que atravessa também os restantes eixos de intervenção definidos para as bibliotecas escolares: o eixo Sítios, relativo à infraestrutura; o eixo Saberes, associado à mediação e à aprendizagem; e o eixo Ligações, que valoriza o trabalho em rede, a participação e a construção de comunidade. Todos estes domínios contribuem para o mesmo desígnio: colocar o bem-estar nas preocupações da ação educativa.
Porque o bem-estar importa
O bem-estar é condição para aprender, crescer e florescer e por isso tem de estar sempre presente no que decidimos e desenhamos para os nossos alunos.
A OCDE, no relatório "Nurturing Social and Emotional Learning across the Globe" (2024) [1 e 2], salienta que as competências socioemocionais são cada vez mais reconhecidas como essenciais para o bem-estar e o sucesso global dos alunos, reforçando a necessidade de abordagens educativas integradas e humanizadas.
Entre estas competências incluem-se a autoconsciência, a autogestão emocional, a resiliência, a empatia, a cooperação, o pensamento crítico e ético, a tomada de decisões responsáveis e o sentido de pertença e cidadania. São capacidades que sustentam não apenas a saúde emocional dos alunos, mas também o seu envolvimento com a aprendizagem, com os outros e com o mundo.
De acordo com o EU Youth Report 2024 [3], os jovens identificam o bem-estar mental como uma das suas principais preocupações. O relatório dá conta de um aumento significativo dos desafios de saúde mental entre os jovens, com quase metade a reportar problemas emocionais ou psicossociais no último ano. O documento sublinha a necessidade de políticas públicas mais integradas e eficazes, com especial enfoque na promoção da saúde mental, na criação de ambientes de aprendizagem seguros, na proteção online, na inclusão social e na valorização de estilos de vida saudáveis.
Também o mais recente Eurobarómetro sobre a Juventude Europeia [4] confirma esta tendência. Os alunos não esperam das escolas apenas a transmissão de conhecimento: procuram espaços onde se sintam seguros, respeitados, emocionalmente apoiados e integrados. Cerca de 23% dos inquiridos referem ter preocupações nesta área, exigindo às comunidades educativas respostas que promovam o bem-estar, a escuta e a pertença.
Pela sua ação diária, as bibliotecas escolares afirmam-se como espaços educativos privilegiados para o desenvolvimento das competências socioemocionais. No cruzamento entre saberes, emoções, relações e experiências significativas, promovem ambientes seguros, inclusivos e estimulantes, onde cada aluno pode encontrar o seu ritmo, a sua voz e o seu lugar. Ao aliarem o acesso à informação à mediação humana, ao cuidado e à construção de relações positivas, respondem de forma integrada às necessidades dos alunos, reforçando a saúde emocional, a inclusão e a participação ativa. Contribuem, assim, para uma cultura escolar mais empática, respeitadora e participativa.
Dimensões do bem-estar: uma abordagem integrada
Falar de bem-estar na escola implica reconhecer a sua natureza multidimensional. O bem-estar não se limita à ausência de mal-estar. Pressupõe a existência de condições que favorecem o equilíbrio, a motivação e a realização pessoal e coletiva, abrangendo domínios interligados como o bem-estar físico, emocional, social, cognitivo, digital e ambiental.
Pela diversidade de funções que desempenham, as bibliotecas escolares têm um potencial ímpar para promover uma abordagem integrada ao bem-estar:
🟥Bem-estar físico, ao garantirem espaços agradáveis, acessíveis, confortáveis e adaptados às necessidades de todos os alunos, promovendo hábitos saudáveis;
🟥Bem-estar emocional, ao proporcionarem ambientes seguros, de escuta ativa, de confiança e de valorização da individualidade, onde os alunos podem expressar-se, encontrar apoio, experimentar a calma e o prazer da leitura;
🟥Bem-estar social, ao fomentarem o respeito mútuo, a empatia, a convivência positiva, o diálogo intercultural e o trabalho colaborativo em projetos que valorizam a diversidade e a inclusão;
🟥Bem-estar cognitivo, ao estimularem a curiosidade, o pensamento crítico e criativo, a autonomia na aprendizagem, o acesso à informação de qualidade e o gosto por aprender ao longo da vida;
🟥Bem-estar digital, ao desenvolverem competências de literacia digital e mediática e promoverem um uso crítico, ético e responsável das tecnologias e dos ambientes digitais;
🟥Bem-estar ambiental, ao dinamizarem práticas sustentáveis, incentivando o cuidado com o meio envolvente e a reflexão sobre os impactos das ações individuais e coletivas no planeta.
Uma responsabilidade coletiva
Em 2025-2026, definimos como lema transversal Conhecer & conviver: biblioteca, espaço de bem-estar e vamos trazer a preocupação com o bem-estar para cada projeto, cada mediação, cada prioridade, orientando práticas, relações e decisões ao serviço de uma escola humana, onde todos se sintam bem.
Mas compromisso com o bem-estar não é responsabilidade exclusiva da biblioteca. As questões que acabámos de abordar atravessam toda a vida escolar e envolvem toda a comunidade educativa. A biblioteca, como espaço transversal e integrador, está ao serviço da escola como um todo e só cumpre plenamente a sua missão quando atua em colaboração com professores, direções, técnicos especializados e famílias. O acolhimento e a transformação só acontecem verdadeiramente quando são partilhados.
Neste processo, é igualmente essencial garantir que os alunos sejam protagonistas do seu próprio percurso de aprendizagem e bem-estar. A biblioteca deve envolvê-los de forma ativa, promovendo a participação, a experimentação e a autonomia. Em vez de se limitarem a ser espectadores passivos diante de palestras ou atividades impostas, os alunos devem ser convidados a coconstruir, a escolher e a intervir, sendo reconhecidos como agentes com voz, criatividade e pensamento próprio. O bem-estar só se concretiza plenamente quando cada aluno se sente parte, com poder de ação e pertença no espaço da biblioteca e da escola.
As bibliotecas escolares são, assim, espaços de vida. Mas é necessário ter presente que essa vitalidade acontece através de ações regulares, continuadas e integradas no quotidiano escolar. Não basta uma grande iniciativa ocasional ou uma celebração pontual: o bem-estar constrói-se diariamente, em gestos simples, em práticas consistentes e numa presença constante e significativa.
Ao promoverem o bem-estar nas suas várias dimensões, as bibliotecas contribuem para formar alunos mais inteiros, mais conscientes, mais resilientes e, talvez, mais felizes.
Referências
OECD (2024). Nurturing Social and Emotional Learning Across the Globe: Findings from the OECD Survey on Social and Emotional Skills 2023. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/32b647d0-en
Outubro, mês das Bibliotecas Escolares, convida à reflexão a partir do mote Para além das estantes: IA, bibliotecas e o futuro das histórias. Este tema aborda algumas das questões mais prementes da atualidade e norteia o Fórum RBE 2025, que decorrerá no dia 21.10.2025, na fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa, dedicado ao papel humanista e interventivo das bibliotecas escolares: Bibliotecas Escolares: Humanismo e Intervenção.
Vivemos um tempo de transformações profundas nos modos de vida, que têm implicações diretas na forma de ler, aprender e comunicar. O avanço da inteligência artificial convoca-nos a refletir sobre o que distingue o humano da máquina e a repensar o papel das bibliotecas escolares.
Como podem as bibliotecas escolares afirmar-se, no quotidiano, como espaços integradores sem perder de vista o humanismo?
De que forma podem continuar a promover valores de solidariedade, cidadania e responsabilidade coletiva?
Como cultivar o gosto de saber, valorizando em simultâneo a singularidade de cada indivíduo e a força da intervenção coletiva?
Como reforçar, num cenário de transformação digital acelerada, a relação professor–aluno, garantindo que a tecnologia se coloca ao serviço da humanidade, da socialização e da interação genuinamente humanas?
Este Fórum constitui um momento de reflexão e, também, de celebração do trabalho da Rede de Bibliotecas Escolares e dos seus profissionais — os professores bibliotecários. Numa época marcada pela constante mutação, estes procuram assegurar uma resposta inovadora, consistente e reflexiva. A sua ação traduz-se numa intervenção fundamentada no conhecimento e na colaboração, dando corpo à missão das bibliotecas escolares que consiste em promover a educação, valorizar a cultura, assegurar a inclusão, defender a liberdade intelectual e de expressão.
Mais do que nunca, importa capacitar crianças e jovens para serem empáticos, curiosos, criativos - humanos. É fundamental ajudá-los a desenvolver competências que lhes permitam enfrentar os desafios do presente e do futuro com sentido crítico, responsabilidade e imaginação.
A obrigação e o privilégio de criar estas condições é de todos — comunidade educativa, bibliotecas escolares e parceiros. O desafio é continuar a aprender coletivamente, a gostar de ler, questionar e pensar, pugnando por que “o humano não seja apenas uma memória”¹.
Setembro marca sempre um novo ciclo. É tempo de recomeços e reencontros, de abrir portas a novas oportunidades e desafios. O verão despede-se e o outono aproxima-se, trazendo consigo o regresso à escola, às rotinas, a novos objetivos e aos sonhos renovados.
Pequenos, jovens e graúdos regressam às aulas com entusiasmo e expectativas; os professores reinventam-se, planificam, (re)ajustam caminhos, projetam novos horizontes e convidam as comunidades a abraçar novos desafios. Nas bibliotecas escolares, o movimento recomeça: as portas e janelas de conhecimento estão abertas, apresentam-se atividades, projetos, clubes, sessões com escritores, cientistas, momentos de leitura e, claro, as novidades editoriais estão nos escaparates das estantes da tua biblioteca. Afinal, quem resiste ao prazer de folhear os livros acabados de chegar, de percorrer as estantes em busca de descobertas? Talvez, entre elas, encontremos títulos como...
Durante um passeio à beira-rio, uma menina depara-se com uma placa que anuncia «Labirinto dos Sentidos» e que aponta para um enorme arbusto que nunca antes lhe chamara a atenção. Movida pela curiosidade, ela aventura-se por entre os seus ramos e descobre um trilho oculto. Esta descoberta vai conduzi-la numa jornada pelo misterioso labirinto que é a mente humana. E serão os amigos peculiares que faz ao longo desta expedição que lhe vão dar respostas às suas dúvidas, estimulando-a a ponderar sobre a realidade, as limitações dos sentidos, e as semelhanças entre nós e os outros animais. Um livro fascinante escrito pela filósofa e neurocientista Laura Luz Silva e ilustrado por Ana Luísa Oliveira, para leitores curiosos e aventureiros. [sinopse disponibilizada pela editora]
Uma viagem pelas memórias que evocam o sentimento de "casa": a presença de um animal de estimação, uma tenda para acampar no verão, um lugar seguro e de amor… um direito humano que deveria cumprir-se para todas as pessoas.
Este livro pertence à Coleção Bebé Leitor, e conta como cúmplices os adultos que, com ritmo, entoação, sonoridades, pausas, suspense, gargalhadas ou não, irão (re)ler e (re)folhear cada página.
Atenção... As trincas são bem-vindas, mas só dos mais pequenos!
Torna-te detetive com este livro interativo! Será que consegues descobrir quem é o culpado em cada um dos casos? Põe à prova a tua atenção e perspicácia e resolve os 7 mistérios que temos para ti! Afinal, hoje o detetive és tu!
1. Observa a cena do crime.Quem está por detrás de tudo?
2. Lê os testemunhos. O que escondem os suspeitos?
3. Segue todas as pistas.O que é que pode ter acontecido?
Um livro para crianças, jovens e toda a família! Olhos bem abertos, porque não vai ser canja! [sinopse disponibilizada pela editora]
Sócrates não deixou escrita uma linha que fosse para a posteridade, Charles Darwin não suportava a poesia, Henry David Thoreau acreditava que a leitura de um livro marcava o início de uma era para cada leitor, Fernando Namora dizia que não escrevia para agradar a ninguém e Julian Green fazia-o para não sufocar. Tudo isto e muito mais ficamos a conhecer neste segundo volume de O vício dos livros, onde Afonso Cruz – ciente de que os vícios são difíceis de matar, mas que ao contrário de outros este tem tanto de prazer quanto de benefício – alimenta o leitor com um sem-número de curiosidades literárias, reflexões e memórias, provando que é possível, sim, compreender a vida através da literatura. [sinopse disponibilizada pela editora]
“Sou psicólogo do desenvolvimento evolutivo. Por outras palavras, interesso-me pelos fundamentos biológicos da educação. O impulso para brincar é uma parte significativa dos meios naturais de autoeducação das crianças, pelo que uma parte deste livro é sobre o poder da brincadeira. Ao longo do último meio século, ou mais, temos assistido a uma erosão contínua da liberdade das crianças para brincar, e a consequência disso tem sido um declínio contínuo da saúde mental e física dos jovens.
Se esta tendência se mantiver, corremos o sério risco de produzir gerações futuras de adultos que não conseguem encontrar o seu próprio caminho na vida.” Peter Gray, in Prefácio. [disponibilizado pela editora]
Nora é uma avó (ou, antes, bisavó, mas NÃO TE ATREVAS a chamá-la assim), digamos, original. Agora tem de tomar conta dos (bis)netos, a Aurora, de três anos, e o Artur, de dez. O que os dois não sabem é que ela já foi uma famosa CAÇADORA DE MONSTROS, mas não tardarão a descobrir, pois a (bis)avó começa a receber AMEAÇAS da sua arqui-inimiga, que quer de volta o MAPA DO CAOS que outrora Nora lhe roubou. Mas, para resolver esta desavença, Nora precisa de ir para uma ILHA cheia de monstros e… levar os (bis)netos, que têm sempre FOME e VONTADE DE FAZER CHICHI e outras ESQUISITICES de miúdos! Como achas que esta (bis)avó se vai sair com a sua dupla missão? Se tiveres coragem, lê este livro, mas cuidado: a (bis)avó Nora NÃO ESTÁ PARA BRINCADEIRAS! [sinopse disponibilizada pela editora]
Em Gramática & Pontuação: Guia Prático para Escrever Melhor, o professor Marco Neves descreve as regras essenciais da gramática e da pontuação em português.
É um instrumento de trabalho útil não só para quem escreve, mas também para quem, numa só leitura, deseja conhecer melhor o corpo (as palavras e as regras) e a roupa (a pontuação) do português na sua versão escrita e padronizada. A obra inclui ainda um breve guia para escrever melhor e uma lista de dúvidas. O que é a norma do português? Como escrever frases mais claras? Escrevemos «porque» ou «por que»? Quando e como usar a vírgula? Quando devemos usar a maiúscula? [sinopse disponibilizada pela editora]
Todos os dias, o mesmo caminho para a escola leva-nos até à padaria. Todos os dias, lá está aquela senhora sentada no chão com o bebé pequenino nos braços.
Todos os dias me sinto triste e desconfortável. Desvio o olhar. Choro muitas vezes, em silêncio. Por mais que eu fale com a mamã, fico sem perceber as palavras que ela usa para me explicar as coisas. Todos os dias, o mesmo caminho, o mesmo desconforto, a mesma tristeza. E eu sem dizer nada. E eu sem fazer nada. Gostava de ir por outro caminho.
Um álbum terno e comovente sobre pobreza e injustiça, e os pequenos gestos que podem fazer a diferença. Para que sejamos capazes de encarar a realidade de frente, sem desvios. [sinopse disponibilizada pela editora]
Uma jovem escreve uma carta de agradecimento para a sua professorar primária, que ela nunca esqueceu, refletindo sobre a sua experiência como aluna. À medida que revela episódios da sua infância, é apresentada também a capacidade da professora de canalizar a curiosidade e a energia da menina conseguindo que esta ganhe motivação para aprender e prazer na descoberta do mundo. Um retrato íntimo da relação entre aluno e professor, e das maneiras como os professores podem impactar os seus alunos muito depois de terminado o tempo que passaram juntos, neste caso, apenas um ano. Uma história terna de uma aluna rebelde e da professora que ela nunca esqueceu, que provavelmente tocará o coração de muitas crianças e adultos. [sinopse disponibilizada pela editora]
O que é mesmo a Ciência? Será saber todas as respostas? Memorizar uma montanha de dados? Procurar o conhecimento apenas para resolver problemas concretos?
Philip Ball, o autor deste livro, acredita que a Ciência é algo muito diferente, e que um bom cientista não é aquele que sabe necessariamente todas as respostas, mas alguém capaz de fazer as melhores perguntas, cruzar disciplinas e ser curioso só porque sim.
Editor durante mais de vinte anos na revista Nature, Philip Ball oferece-nos três perguntas simples, através das quais poderemos tornar-nos “cientificamente letrados”, isto é, capazes de pensar de forma construtiva sobre a maioria dos conteúdos de Ciência que se encontram nos currículos escolares e também nas nossas vidas. Fazer estas três perguntas — que se desdobram, comunicam e levam a outras — significa dar os primeiros passos nesta aventura que é a busca do conhecimento. Vamos às perguntas? [sinopse disponibilizada pela editora]
Camões num diário inventado, ou da biblioteca escolar à escrita criativa: (re)descobrir Camões, demonstra que é possível no 1º CEB aprender com Camões pondo em marcha diferenciadas e criativas situações de aprendizagem, convocando-se diferentes níveis de articulação.
No âmbito da comemoração do Centenário de Luís Vaz de Camões (2024-2026), o “Diário Inventado de Camões” apresenta-se como uma intervenção pedagógica desenvolvida entre a biblioteca escolar e a sala de aula, com a participação das famílias, em escolas do 1.º ciclo do ensino básico do Agrupamento de Escolas Martim de Freitas, em Coimbra, envolvendo 112 alunos e 5 docentes. Esta dinâmica colaborativa integrou os domínios da Oralidade, da Leitura, da Educação Literária e da Escrita. No que respeita às áreas de literacia, partiu da literacia da leitura e estendeu-se à literacia da informação e dos média, contempladas no Referencial de aprendizagens associado ao trabalho das bibliotecas escolares.
O propósito foi dar a conhecer Luís Vaz de Camões, apurar dados da sua vida e descobrir a sua obra. Através da leitura orientada de um livro destinado à infância e juventude, intitulado Camões: aventuras e desventuras de um poeta épico, da autoria de Sérgio Franclim, o projeto alargou-se ao aprofundamento de saberes sobre os lugares e culturas que o poeta conheceu e sobre as experiências que viveu. Dos vazios das fontes documentais, nasceu a invenção na escrita, sustentada nos dados recolhidos pelos alunos. Assim, o “Diário Inventado de Camões” transformou-se num espaço de imaginação criativa, mas sempre ancorado em investigação e conhecimento.
As metodologias foram ativas e centradas nos alunos, que, nas diferentes fases de implementação do projeto, leram, pesquisaram, discutiram e escreveram. A professora bibliotecária e as professoras titulares de turma selecionaram as fontes, elaboraram materiais de apoio e tutoriais de pesquisa orientada, distribuíram as tarefas e acompanharam todo o processo de textualização. Os padrões de desempenho explicitados nas Aprendizagens Essenciais de Português para o 4.º ano serviram de enquadramento às atividades, garantindo que os alunos desenvolveram competências de oralidade, ao escutarem e partilharem informação relevante; de leitura, ao interpretarem textos narrativos e descritivos; de educação literária, ao reagirem criativamente às obras lidas; e de escrita, ao planificarem, redigirem textos organizados, coesos e corretos.
Este trabalho encontra-se igualmente alinhado com o programa A Ler Mais e Melhor, promovido pela Rede de Bibliotecas Escolares do Ministério da Educação, Ciência e Inovação que define como eixos de ação a visibilidade da leitura, a leitura orientada, a leitura recreativa, o envolvimento da família e a socialização da leitura. Foi neste quadro que a proposta nasceu: a escrita criativa enraizou-se na leitura de ficção, alicerçou-se na pesquisa de informação e expandiu-se na produção textual colaborativa, em grupo, com recurso às tecnologias digitais. A família foi envolvida com o objetivo de escrever uma página com o seu educando em casa, a partir das páginas já elaboradas e disponíveis num documento partilhado no Google drive.
As produções finais resultaram num e-book e num paginário para exposição, envolvendo toda a comunidade educativa num processo que uniu saber, imaginação e partilha. Em 2025-2026, daremos continuidade ao processo de escrita criativa com novas turmas do 4.º ano de escolaridade e faremos a leitura de excertos do Diário em voz alta, para gravação num podcast, a alojar no site do Programa a Ler mais e melhor do Agrupamento.
O “Diário Inventado de Camões” não se reduz a uma homenagem ao poeta; revela-se uma experiência pedagógica inovadora, que aproxima o passado do presente e demonstra que o cânone literário pode ser um lugar privilegiado de encontro, reflexão e criação desde a infância.
Bernardes, J. A. C. (2022). A oficina de Camões: apontamentos sobre Os Lusíadas. Imprensa da Universidade de Coimbra.
Bernardes, J. A. C. (2024) Camões na Escola: celebrações e desafios, in JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias / Descartável “Educação: Camões na Escola”, n.º 1401 (de 12 a 25 jun.), p. 1-3.
Conde, E., Mendinhos, I., & Correia, P. (Coord.). (2017). Aprender com a Biblioteca Escolar (2ª ed. rev. e aum.). Rede de Bibliotecas Escolares. https://www.rbe.mec.pt/np4/%7B$clientServletPath%7D/?newsId=99&fileName=referencial_2017.pdf
Ministério da Educação. (2018). Aprendizagens Essenciais do Ensino Básico. Direção-Geral de Educação. https://www.dge.mec.pt/aprendizagens-essenciais-ensino-basico
Rio Novo, I. (2024). Fortuna, Caso, Tempo e Sorte - Biografia de Luís Vaz de Camões. Contraponto Editores.
As bibliotecas trabalham numa diversidade de áreas de políticas públicas: educação e cultura, inclusão social, liberdade intelectual e de expressão, literacia digital e da informação e media.
Reconhecendo o seu impacto transversal, a IFLA lançou, em 2020, o Advoc8 que, depois de um período de suspensão, é relançado em junho de 2025.
Advoc8 é uma série mensal que destaca 8 prioridades, mensagens-chave e insights, que posiciona as bibliotecas face a questões emergentes e acontecimentos internacionais. Cada prioridade inclui ligações a materiais úteis ou documentos de referência.
É importante que os profissionais de bibliotecas as tenham em conta no seu trabalho de defesa das bibliotecas, a nível local e nacional.
De acordo com o único número, desta nova série, até agora publicado, destacam-se, a nível mundial, as seguintes áreas prioritárias das bibliotecas.
1. Cortes orçamentais têm impacto real nas comunidades
“Horários de funcionamento mais curtos, menos terminais de computador, um espaço menos acolhedor e coleções mais reduzidas significam menos possibilidades de acesso à informação e ao conhecimento de que as pessoas precisam e têm direito”.
De acordo com o IFLA Regional Advocacy Priorities Survey 2025 (Inquérito 2025 sobre as Prioridades Regionais de Advocacia da IFLA), globalmente, “As principais preocupações das bibliotecas ao refletirem sobre o seu ambiente são financeiras, seguidas de receios quanto à existência de consenso político” (Conclusão #2, p. 6) [3]. Ainda que persistam dificuldades ao nível das relações governamentais, as bibliotecas registam apoio da opinião pública e de parceiros não-governamentais e locais.
2. Crescente censura nos países democráticos
“As bibliotecas devem poder construir e gerir coleções sem interferência política: no cerne do trabalho das bibliotecas está o entendimento de que a liberdade intelectual depende da possibilidade de se envolver com uma ampla variedade de pontos de vista e desenvolver as suas próprias opiniões. Quando há interferência política – nomeadamente através da remoção de livros ou eliminação de arquivos” – diminuem os direitos das pessoas e a sociedade “é provável que seja menos criativa, inovadora, coesa ou democrática”.
3. Educação climática
“As bibliotecas – e suas associações – têm um papel fundamental a desempenhar na mobilização das comunidades diante das mudanças climáticas”. Embora o princípio poluidor-pagador deva ser aplicado, “todos podem desempenhar um papel na construção de resiliência e na ecologização das suas comunidades”.
Este destaque da IFLA evidencia a importância da literacia climática nas bibliotecas e responde ao interesse dos jovens, que têm vindo a exercer pressão no espaço público para que esta área seja uma prioridade política.
De 10 a 21 de novembro decorrerá, no Brasil, a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, COP30, oportunidade para as bibliotecas refletirem e melhorarem a sua comunicação e ação climática, podendo, segundo a IFLA, as associações de bibliotecas ajudar a mobilizá-las em larga escala.
Brevemente, a Rede de Bibliotecas Escolares publicará um artigo sobre o envolvimento das bibliotecas na CCE (Climate Change Education - Educação para as mudanças climáticas), tendo por base dois documentos publicados pela IFLA:
🔺State of Library Engagement in Climate Communication and Education (Estado do Envolvimento das Bibliotecas em Comunicação e Educação Climática) [4], relatório baseado em quase 600 respostas que identifica tendências, recomendações e boas práticas globais. Encomendado pela IFLA a Aaron Redman, especialista independente, é elaborado em parceria com o MECCE (Monitorização e Avaliação de Comunicação e Educação Climática) e visa uma maior envolvimento das bibliotecas e associações de bibliotecas em todo o mundo nestas questões.
🔺How Libraries Engage in Climate Communication and Education (Como é que as Bibliotecas se Envolvem na Comunicação e Educação Climática) [5], resumo da IFLA sobre o relatório de Aaron Redman, que apresenta “recomendações e apelos à ação para promover o envolvimento das bibliotecas na ação climática e que os profissionais de bibliotecas podem usar para impulsionar a sua própria defesa do papel das bibliotecas na sustentabilidade ambiental”.
4. Inclusão digital significativa
“As bibliotecas têm um papel fundamental a desempenhar na concretização da inclusão digital: durante séculos, a missão das bibliotecas centrou-se na disponibilização de acesso ao conhecimento” e, esse saber especializado e experiência, faz delas “uma excelente infraestrutura para uma inclusão digital significativa”.
É importante que os profissionais de biblioteca participem ativamente nas discussões sobre inclusão digital do seu país, demostrando que as bibliotecas funcionam como “infraestruturas públicas digitais e espaços seguros para aqueles que ainda não estão confiantes on-line, e são uma oportunidade alternativa importante de conectividade para todos os outros”.
5. Lugares seguros para refugiados
“As bibliotecas devem ser lugares seguros para os refugiados, não de medo”: porque são refúgio seguro no processo de integração nos países de chegada e no contacto com os seus países de origem.
É isto que está previsto nas Diretrizes da IFLA para Bibliotecas de Apoio a Pessoas Deslocadas, apesar de haver países, como a Suécia (e outros onde esta lei já se aplica), onde houve uma proposta de lei que pretendia obrigar os funcionários públicos, incluindo profissionais de biblioteca, a denunciar às autoridades cidadãos sem documentos. Esta proposta foi rejeitada após forte contestação dos bibliotecários (e outros funcionários públicos) suecos. Do inquérito realizado pelo sindicato DIK, “mais de nove em cada dez bibliotecários rejeitam a proposta de obrigação de denúncia” [6].
6. Serviço público essencial
“As bibliotecas são um serviço público essencial”, pois desempenham um “papel flexível, centrado nas pessoas e transversal (abrangendo tudo, desde a saúde pública até a participação dos cidadãos), eles são uma maneira excecionalmente moderna e empolgante de fornecer os serviços públicos aos quais as pessoas têm direito”.
Este estatuto fundamenta-se nas Diretrizes da IFLA/UNESCO e em legislação nacional, que as posicionam como infraestruturas fundamentais para o acesso universal à informação, educação e cultura. Fazer parte da infraestrutura pública exige proteção legal, financiamento estável e integração explícita nas políticas públicas de inclusão, digitalização, cidadania e coesão social.
📋17 fev. 2024 - Lei dos Serviços Digitais (Digital Services Act – DSA), que regula plataformas digitais de grande dimensão, impondo obrigações de transparência, responsabilidade, remoção de conteúdos ilegais e prevenção de desinformação;
📋1 ago. 2024 - Regulamento Europeu da Inteligência Artificial (Artificial Intelligence Act - AI Act), que estabelece os requisitos e obrigações para fornecedores de IA quanto à sua utilização específica;
📋1 jul. 2025 - Código de Conduta contra a Desinformação para grandes plataformas, obrigando-as a praticas efetivas de combate à desinformação, rotulação, remoção de contas falsas e monitorização de campanhas nocivas.
Contudo, segundo a IFLA, isso não é suficiente para garantir a integridade da informação, é preciso também apoiar as bibliotecas e seus profissionais: “igualmente importante é a forma como desenvolvemos [os bibliotecários] as atitudes e competências da população em geral para valorizar a informação precisa e ser capaz de a identificar”. Só este trabalho, continuado e integrado localmente, pode gerar impacto duradouro nas pessoas e comunidades.
Leia no blogue RBE
Sobre liberdade intelectual, de acesso à informação e liberdade de expressão
Outubro está à porta e, com ele, o Mês Internacional da Biblioteca Escolar (MIBE). A RBE assinala sempre este mês, que começou por ser apenas um dia, dia esse que se revelou insuficiente para o entusiasmo das bibliotecas escolares espalhadas por este mundo a que chega a iniciativa da IASL (International Association of School Librarianship). Para as celebrações de cada ano a IASL encontra um tema inspirador e, de cada vez, neste blogue, surge um artigo que, de alguma forma, reflete sobre o tema proposto.
Em 2025 temos: Para além das estantes: IA, bibliotecas e o futuro das histórias.
O tema não pode estar mais na ordem do dia. Depois de algumas leituras que, mais adiante, citaremos, deparámo-nos com um artigo em The Guardian, publicado em março de 2025, em que Sam Altman da OpenAI [1] divulga o conto escrito pelo ChatGPT, em resposta à instrução (prompt): Sê metaficcional, sê literário, fala acerca da IA e do luto e, sobretudo, sê original.
O que a IA produziu foi, a nosso ver, um conto belíssimo que nos deixa a questionar todas aquelas frases sobre a inteligência artificial que repetimos à saciedade, enquanto já vamos utilizando algum do seu potencial e reconhecendo a sua grande utilidade enquanto assistente: “É uma ferramenta de trabalho excelente!”; “É boa a analisar e a sistematizar, mas a sua criatividade é muito limitada.”; “A IA não tem sentimentos nem emoções. Esses continuam a ser apanágio dos humanos.”; “Tudo quanto for gerado por humanos terá cada vez mais valor.” …
Lemos o conto que, em última análise, fala da diferença entre IA e humano e que o faz de uma forma muito triste e bela. A tristeza e o luto, que se saiba, são ou envolvem sentimentos e, como tal, deviam ser apanágio do humano…
(Para escrever este texto assaltou-nos uma necessidade imperiosa de ir buscar papel e um lápis e de escrever à mão, coisa que já raramente fazemos, mas que é reconfortante.)
As histórias sempre caracterizaram a humanidade. Há quem diga que o que verdadeiramente distingue os humanos das outras espécies inteligentes é o seu gosto pelas histórias. Num artigo intitulado Always Winter? Never Christmas? [3], publicado na revista Medium em 3 de setembro de 2025, Kamathome escreve, ao recordar, com ternura e entusiasmo, as Crónicas de Nárnia:
Eu sou feita de livros. Mais do que escolas, talvez até mais do que os meus pais e a pressão das crianças e adultos com quem convivi, os livros que amei fizeram-me a pessoa que sou.
Irene Vallejo em O Infinito num Junco [5] alarga a perspetiva individual para a relação com os outros através das histórias:
Somos os únicos animais que fabulam, que afugentam a escuridão com histórias, que aprendem a conviver com o caos graças aos relatos, que atiçam as brasas das fogueiras com o ar das suas palavras, que percorrem longas distâncias para levarem as suas histórias aos estranhos. E, quando partilhamos os mesmos relatos, deixamos de ser estranhos.
Harari, no ponto 2. da Parte Um: A revolução Cognitiva, do seu livro Sapiens [2], vai mais longe e dedica várias páginas a falar das histórias e do seu papel na evolução humana. Algumas citações que destacamos:
Não há deuses no Universo, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis e justiça fora da imaginação comum dos seres humanos. Tudo isto existe graças às histórias que as pessoas inventam e contam umas às outras.
…
Ao longo dos anos as pessoas teceram uma rede incrivelmente complexa de histórias. As coisas que as pessoas criam através desta rede de histórias são conhecidas nos círculos académicos como «ficções», «constructos sociais» ou «realidades imaginadas». Uma realidade imaginada não é uma mentira, mas algo que suscita uma crença coletiva.
…
As tradições antigas geralmente formulavam as suas teorias em torno de histórias. A ciência moderna usa a matemática.
Quando as histórias passaram a ser escritas em suportes suscetíveis de serem guardados, surgiram as primeiras bibliotecas. Hoje em dia há milhões de bibliotecas que guardam milhões de histórias, muitas das quais também existem na internet. Os bibliotecários são os guardiões dessas histórias. Os professores bibliotecários, em particular, dão o seu melhor para que nenhuma criança cresça sem conhecer o prazer de uma história.
Diz ainda Vallejo [5]:
De alguma forma misteriosa e espontânea, o amor pelos livros criou uma cadeia invisível de gente – homens e mulheres – que, sem se conhecerem, salvaram o tesouro dos melhores relatos, sonhos e pensamentos ao longo do tempo.
Os autores das melhores dessas histórias são pessoas a quem devemos muito, que ajudaram a construir a nossa identidade, nos alargaram o mundo, nos fizeram viver várias vidas no período limitado da vida de cada um.
E agora? Agora que vivemos o princípio de uma nova era? Agora que a nossa inteligência que criou a IA começa a ser questionada por ela? Agora que a IA escreve histórias que talvez nos venham a provocar tanta vontade de as ler como as dos autores, mortos e vivos, que veneramos?
Na revista Medium, o autor Tony Stubblebine desafia os leitores a comentarem o seu texto Como podem os escritores usar a IA para contar histórias humanas? [4]. É verdade que a IA pode ajudar muito, por exemplo, na investigação que é preciso fazer para escrever uma história sobre um assunto, mas será possível garantir que ela não faz o trabalho todo? Num dos comentários ao artigo, Josephis K. Wade escreve:
A IA pode construir um muro tecnicamente perfeito, mas não conhece a sensação de tocar na pedra fria, nem tem a memória das mãos que o construíram. O poder da tua história não está nos dados que apresenta, mas na fusão desses dados com a tua experiência vivida. Não te limitaste a apresentar informação; construíste um mundo em torno de uma verdade e convidaste o leitor a habitá-lo. É um ato de criação, não de geração.”
Confessamos que este comentário nos dá algum conforto, mas só até nos lembrarmos outra vez do conto do ChatGPT. Jeanette Winterson, que também escreveu acerca do conto em The Guardian de 12 de março de 2025 [6], afirma na sua conclusão:
Os humanos quererão sempre ler o que outros humanos têm para dizer, mas, quer se goste quer não, os humanos viverão rodeados de entidades não biológicas. Modos alternativos de ver. E talvez de ser. Precisamos de perceber que isto não é apenas tecnologia. A IA é treinada com os nossos dados. Os humanos também são treinados com dados – a nossa família, os amigos, a educação, o ambiente, o que lemos ou vemos, tudo são dados.
A IA lê-nos. Agora é tempo de nós lermos a IA.
Muito sabiamente, neste mês de outubro de 2025, a IASL convida os professores bibliotecários a olharem, pensarem e interrogarem-se “para além das estantes”.
Melhor ou pior, sabemos o que fazer com as histórias que temos nas estantes. O que não temos ainda claro é o que fazer com a IA. Com uma IA que escreve histórias, boas histórias. Sabemos apenas que tem de ser formativo, educativo, nunca trivial. E, já agora, criativo. E que ajude a contar histórias em que o humano seja mais do que uma memória.
Que o MIBE 2025 constitua uma oportunidade para lermos, questionarmos, pensarmos. Se este artigo puder ajudar, tanto melhor!
A biblioteca escolar a marcar a rentrée no AE de Fernão do Pó
A rentrée escolar no Agrupamento de Escolas de Fernão do Pó, no Bombarral, foi assinalada por dois acontecimentos de grande simbolismo, que revelam o papel da biblioteca escolar como espaço de encontro, de aprendizagens integradas e de dinamização cultural: a inauguração do Ponto Biblioteca na EB1 do Pó e a apresentação do mural “Ilustrar Camões”, realizado pelos alunos do 3.º ano da EB1 do Bombarral. Ambos os momentos espelham a força do trabalho colaborativo, a articulação com o currículo e a mobilização de sinergias entre diferentes atores educativos e culturais.
Para além das estantes: um recanto para ler, descobrir e crescer
Na receção aos alunos da EB do Pó, foi inaugurado o Ponto Biblioteca, um espaço criado para responder a uma necessidade há muito sentida: garantir que os alunos têm acesso imediato e autónomo a livros, jogos e outros recursos educativos, sem depender da circulação temporária de mini coleções ou conjuntos itinerantes. A candidatura apresentada à Rede de Bibliotecas Escolares e o apoio da direção e da autarquia foram decisivos para transformar este sonho em realidade.
Colorido, acolhedor e confortável, com um conjunto de títulos apelativos e diversificados, o Ponto Biblioteca foi, ainda antes da sua inauguração oficial, espontaneamente apropriado pelos alunos que, de regresso à escola, foram descobrindo livremente, com entusiasmo, os novos títulos e os jogos apelativos que o espaço oferece. Este gesto inicial é revelador daquilo que se pretende: que o Ponto Biblioteca seja vivido como extensão natural da sala de aula e, ao mesmo tempo, como espaço de lazer, de liberdade e de escolha.
A cerimónia de inauguração contou com a presença de alunos, docentes, pais e encarregados de educação, do Presidente da Comissão Administrativa Provisória do Agrupamento de Escolas Fernão do Pó, do Vereador da Educação e da Coordenadora Interconcelhia das Bibliotecas Escolares. Iniciou com um momento de leitura partilhada do livro Senão…!, de Alice Bassié, dinamizado pela professora bibliotecária, numa celebração simples mas profundamente significativa da palavra e da imaginação. Outro momento marcante da inauguração do espaço foi a oferta de um conjunto de livros por uma encarregada de educação, simbolizando a assunção da corresponsabilidade das famílias no percurso leitor das crianças.
O Ponto Biblioteca não se limita a ser um novo espaço físico; representa um passo seguro na concretização dos objetivos da RBE: equidade no acesso, estímulo à autonomia dos leitores em formação, valorização do prazer de ler e desenvolvimento de literacias múltiplas. É também expressão de uma estratégia de proximidade que coloca os recursos nas mãos dos alunos, promovendo práticas regulares e consistentes de leitura.
Um mural, muitos saberes: colaboração e criatividade em torno de Camões
Durante o ano letivo de 2024/2025, os alunos do 3.º ano da EB1 do Bombarral desenvolveram o projeto Ilustrar Camões, no âmbito do Plano de Recuperação das Aprendizagens e das comemorações dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões.
Este projeto teve início com um encontro com Vanda Pinto e Olga Neves, autora e ilustradora, respetivamente, do livro Conta-me um clássico. Depois do trabalho em torno de excertos da epopeia e de obras adaptadas, em sala de aula, os alunos, sob a orientação da artista Olga Neves, (re)leram e ilustraram excertos ou momentos d’Os Lusíadas relativos à viagem de Vasco da Gama, de que resultou a criação de um mural coletivo. A obra final retrata, através do olhar criativo dos alunos do 1.º ciclo, algumas das peripécias da viagem de Vasco da Gama à Índia, reinterpretadas de forma surpreendente, vibrante e colorida.
Este mural não é apenas um exercício artístico; tornou-se um espaço de encontro entre literatura, arte e memória cultural, dando corpo a uma experiência partilhada que valoriza a expressão criativa e a apropriação simbólica de um dos maiores textos fundadores da identidade portuguesa.
Uma escola aLer Mais e Melhor
Desde o ano letivo de 2023/2024, o Agrupamento de Escolas de Fernão do Pó integra o programa aLer mais e melhor, reforçando o compromisso com uma escola que coloca a leitura no centro do percurso dos alunos. Esta integração tem permitido desenvolver iniciativas que ultrapassam os limites da sala de aula, envolvendo a comunidade educativa e criando oportunidades para que a leitura se torne prática viva, prazerosa e transformadora.
A abertura do ano letivo, no Bombarral, revelou o modo como a biblioteca escolar continua a ser um lugar de encontro e de futuro: encontro entre gerações e linguagens, e futuro porque prepara os alunos para um mundo em que ler, interpretar e criar são competências essenciais para viver plenamente.
O início do ano letivo faz-nos repensar a biblioteca escolar e os aspetos que fazem com que ela seja diferenciadora, significativa e transformadora para os alunos e suas comunidades.
Este artigo tem em conta elementos-chave - e mitos - sobre a biblioteca escolar: o lugar, os livros e conteúdos, os serviços e atividades, o posicionamento ético e a advocacia. Apresenta ainda sugestões para a tornar mais visível e relevante.
A imagem que o ilustra corresponde à Biblioteca da Escola Secundária Scotts Ridge de Connecticut (EUA), nomeada Biblioteca Escolar Nacional do Ano de 2025 pela AASL (American Association of School Librarians). Nas palavras da sua representante:
“Acreditamos que as bibliotecas escolares são um santuário para a leitura, a descoberta, a assunção de riscos e, mais importante ainda, a conexão. A cultura de “Fail Forward” (Falhar para Avançar) da aScotts Ridge estimula a criatividade e a curiosidade colaborativa, beneficiando os nossos alunos e funcionalidade citação. Seacelerando a aprendizagem” [2].
1. O lugar
“A biblioteca é um espaço público, aberto a todos e onde as pessoas não precisem de justificar a sua presença” [3].
Isto significa que há um número significativo de pessoas que a procuram para estar, (con-)viver e habitar, desenvolvendo em relação a ela um sentido de propriedade, de pertença.
Isto só é possível quando este lugar se constrói com as pessoas, a comunidade, a partir de experiências que os livros, o conhecimento e a cultura - que ele dispõe - proporcionam.
Este lugar permite que as pessoas tomem consciência e afirmem a sua identidade, se desenvolvam, convivam e interajam com informações e conteúdos, experiências e outras pessoas e vidas diferentes, tendo uma experiência física de democracia e ação conjunta e construindo um sentido de comunidade.
2. Os livros e conteúdos
A biblioteca proporciona o acesso a recursos e experiências, físicas e digitais, “que informam, entretêm, consolam, desafiam e inspiram as pessoas, fazendo com que se sintam representadas. Isto significa disponibilizar tudo, desde arte, música e eventos até, claro, livros. A biblioteca também deve criar oportunidades de maravilhamento e admiração. Atender a toda a gama de emoções e necessidades através de conteúdos envolventes, diversificados e acessíveis [e através da forma como estes são apresentados] é central numa biblioteca moderna” [3].
2.1 Ambiente de informação saudável
A biblioteca proporciona um ambiente de informação saudável, disponibilizando uma rica oferta de informações para todos e uma equipa de profissionais com competências e curiosos, prontos para valorizar e procurar conhecimento diversificado, confiável e rigoroso. Por isso, a regulação dos media criados pelas grandes empresas de tecnologias, que amplificam conteúdos irrelevantes ou prejudiciais, não é suficiente, são necessárias políticas de apoio às bibliotecas.
2.2 Agência
Para além de ser lugar para reflexão silenciosa a partir de livros e outras fontes, a biblioteca ativa o conteúdo dos livros, trabalhando diligentemente com a sua informação e dados para impulsionar o conhecimento científico, que se transforma em resultados do mundo real. A biblioteca é lugar de ação, dinamismo e participação.
3. Os serviços e atividades
A biblioteca deve disponibilizar um conjunto de serviços que respondam às necessidades e expectativas das comunidades que serve e criar um ambiente de diversidade e inclusão que reúna, num mesmo lugar, pessoas com diferentes necessidades e expectativas. Para o efeito, deve escutar atentamente as comunidades e trabalhar em parceria no desenvolvimento dos seus serviços.
3.1 Parcerias
A biblioteca não é um espaço sagrado, nem os seus profissionais são salvadores que podem sozinhos fazer tudo o que ela exige. A autossuficiência da biblioteca é um mito. A biblioteca é, a priori, uma rede em expansão.
Formar parcerias é uma forma de aumentar o nosso impacto. Podemos orgulharmo-nos das contribuições que trazemos para as parcerias – as nossas competências, os nossos espaços, as nossas coleções, os nossos valores – enquanto celebramos o quanto elas podem ir mais longe quando combinadas com o que os outros podem trazer” [4]. Quando a biblioteca se limita a confiar em si própria diminui o seu alcance e estagna.
4. Os valores que fundamentam o acesso equitativo à informação e à cultura
A biblioteca toma decisões a partir das necessidades da sua comunidade e de um conjunto de valores e princípios éticos universais, como inclusão, equidade e diversidade, acesso aberto à informação, agência, responsabilidade social e veracidade.
A biblioteca adota um compromisso com a diversidade de pontos de vista (dando voz a opiniões e atores marginalizados), a inclusão, o acesso equitativo e a integridade da informação, não permitindo conteúdos discriminatórios e não apoiando todas as opiniões indiscriminadamente.
No passado “Muitos grupos não sentiam – e talvez ainda não sintam – que a biblioteca é um lugar para eles”, pelo que é necessário “refletir de forma muito mais crítica sobre se as nossas atividades são realmente acessíveis e acolhedoras para todos. Isso pode significar muitas coisas, desde pensar na forma como os nossos edifícios e serviços são projetados” [4], até às práticas de curadoria, aos livros e a outras fontes de informação. Este aspeto é tanto mais sensível quanto “em algumas partes do mundo, há crescentes esforços para politizar as bibliotecas e seus acervos, atacando-as por armazenarem livros que não se encaixam na visão individual” [4].
Por estes motivos, “Quando as bibliotecas afirmam ser neutras, ignoram a realidade de que cada decisão sobre a coleção e que cada interação de referência ou cada programa oferecido é uma escolha. A verdadeira neutralidade é um mito [“não é neutra” [4], corresponde a uma decisão não expressa de dar visibilidade às vozes mais poderosas] que corre o risco de minar os princípios de inclusão, equidade e verdade que as bibliotecas aspiram defender. (…) embora tradicionalmente se defenda que a biblioteca deve ser ‘neutra’ e aberta a todas as ideias e opiniões, na prática essa neutralidade absoluta é impossível e até arriscada” [4].
5. Advocacia
O responsável pela biblioteca deve dar visibilidade e marcar presença, física e digital, em todos os setores e atividades da vida pública e não apenas na educação e cultura, por muito que se canse de ouvir, “Não esperava encontrar alguém das bibliotecas aqui” [5]…
“Como o trabalho em torno das bibliotecas e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável sublinhou, as bibliotecas têm um papel a desempenhar em muitas áreas diferentes onde os governos e outros dirigentes estão a tentar fazer a diferença na vida e nas sociedades” [5].
As bibliotecas são fundamentais para a concretização de políticas públicas e a construção do futuro. “O desafio, então, é fazer com que stakeholders de outras áreas sintam o mesmo” [5] e, espontaneamente, pensem nelas como parceiros.
Exemplos de ações que os profissionais das bibliotecas podem pôr em prática:
“Ser aventureiro, ir a conferências e reuniões organizadas por terceiros nas quais acredita que as bibliotecas devem ser reconhecidas. Não basta apenas participar dos nossos próprios eventos profissionais! Leve folhetos, vista T-shirts ou sweatshirts [da biblioteca], faça perguntas, certifique-se de que o maior número possível de pessoas ouve a palavra ‘bibliotecas’” [5].
“Ser envolvente. Não se limite a dizer coisas às pessoas; peça-lhes que pensem por si mesmas sobre como se imaginam trabalhando com bibliotecas ou como as bibliotecas podem apoiá-las a atingir seus objetivos. Se estiverem com dificuldades, amplie a pergunta – pergunte-lhes a importância da informação e do conhecimento” [5].
“Encontrar defensores. Pode ser poderoso trazer pessoas de fora da biblioteca para (bons) eventos sobre bibliotecas, ou simplesmente pedir que escrevam um artigo ou blog” [5].
A regularidade com que o faz determina a eficácia destas ações e o reconhecimento da biblioteca.
Por fim, abra a porta da biblioteca, durante o maior tempo possível e deixe entrar e estar os leitores.
O discurso de visão (Vision Talk) da UNESCO sobre o tema da Semana da Aprendizagem Digital 2025 [3], IA e o futuro da educação: Disrupções, dilemas e orientações, foi proferido a 2 de setembro, numa sessão aberta, disponível online, por Stefania Giannini, Diretora-geral adjunta para a Educação da UNESCO, linguista e antiga ministra da educação italiana - a programação completa e ligações de acesso encontra-se na página do evento [1].
Iniciou-se a partir de um avatar representativo da oradora (imagem supra), à qual a própria, em presença e de viva-voz, deu continuidade. Este detalhe simboliza a intersecção entre a presença humana e a mediação tecnológica que a IA (Inteligência Artificial) introduz no ambiente educativo global.
Destacam-se aspetos do seu discurso:
A. A educação é uma história de rutura, de revolução
Há cerca de 5000 anos, a invenção da escrita transformou a memória em texto, que pode ser armazenado, partilhado e perpetuado no tempo, impulsionando a transmissão de conhecimento e o desenvolvimento humano. Há 600 anos, a imprensa de Gutenberg democratizou o acesso à leitura e ao conhecimento. Há 3 anos, o ChatGPT tornou a IA generativa acessível, inaugurando uma nova era de produção e interação textual automatizada global.
“A IA torna-se um novo ator na educação. Pela primeira vez na História a tecnologia deixa de ser silenciosa. Ela está a responder (…) nunca para de ingerir, digerir e gerar informação” e – ao contrário dos humanos - não se cansa.
A IA é “tutora, professora, companheira” dos estudantes - este último papel pela função que quotidianamente desempenha no combate à solidão e saúde mental.
B. Dilemas morais e políticos da IA
O discurso de Giannini enfatizou dilemas centrais que não devem traduzir-se em falsas escolhas porque a verdade está algures entre os extremos:
🟥A IA melhora ou enfraquece as competências dos alunos? Devemos restringir o uso de IA para proteger o desenvolvimento cognitivo dos alunos?
🟥Capacita ou substitui os professores?
🟥Como lidar com os impactos ambientais dos centros de dados que armazenam a informação dos sistemas de IA? Há centros de dados que consomem mais energia e água do que países inteiros.
🟥Tecnologias de IA aumentam a desigualdade, digital e em todos os setores da vida humana?
As evidências sobre os benefícios de IA são confusas e os riscos são realmente muito relevantes. Os desafios morais e políticos residem no equilíbrio entre inovação e proteção dos valores humanos fundamentais.
C. IA deve ser centrada no ser humano e apoiar o desenvolvimento sustentável
De acordo com a visão da UNESCO, a IA deve ser “equitativa, segura e ética em todo o mundo”.
Sem acesso a eletricidade, a infraestruturas digitais sustentáveis, a conectividade significativa e a dispositivos acessíveis, crianças e jovens serão deixados para trás, como se fossem inúteis à sociedade.
“Se os sistemas de IA não forem equitativamente acessíveis e treinados com dados culturalmente representativos e com idiomas que reflitam a diversidade cultural, aprofundam-se as desigualdades globais”.
A IA deve ser culturalmente relevante e funcionar para todos - pessoas, idiomas, comunidades e países – pelo que é preciso construir e adaptar localmente modelos de IA.
D. Segurança de dados
A privacidade e a proteção dos direitos dos alunos é inegociável. “Precisamos de padrões globais de segurança para que as ferramentas de IA nas escolas sejam transparentes, responsáveis e livres de preconceito, o que não é o caso atual”.
E. Professores não são substituíveis
A IA deve apoiar - e não substituir - os professores. É preciso investir nas suas competências e carreiras para que eles possam usar a tecnologia com sabedoria e para o melhor, garantindo que professores e alunos navegam na IA de forma crítica, criativa e ética.
Entre 27 a 29 de agosto, em Santiago (Chile), realizou-se a primeira cimeira internacional de alto nível dedicada exclusivamente ao tema dos professores, World Summit on Teachers 2025 [4]. Organizada pela UNESCO e Nações Unidas, reuniu chefes de Estado, ministros, especialistas, sindicatos e associações para discutir o estatuto, os desafios e as políticas de valorização da profissão docente e dela resultou o Consenso de Santiago [5] para reverter a escassez mundial de professores e empoderar a profissão docente.
A Cimeira alertou, entre outros, para os seguintes aspetos:
🟥“As mais recentes avaliações internacionais e regionais alertam para uma tendência global preocupante: os resultados de aprendizagem estão estagnados ou mesmo retrocedendo em áreas-chave, especialmente em leitura e matemática. Esses desafios não se limitam a uma região específica: há uma erosão generalizada das competências fundamentais em diferentes sistemas de ensino no mundo” (Nota Concetual).
🟥40 milhões de jovens a mais completam o ensino secundário em comparação com 2015 (Relatório de Monitoramento da Educação Global 2024/2025, da UNESCO), pelo que, até 2030, é necessário contratar mais 44 milhões de docentes para garantir o acesso universal à educação primária e secundária. A falta de docentes e o aumento da taxa de abandono da profissão docente afeta todas as regiões do mundo, especialmente Ásia e África [6].
🟥Destacando o papel essencial da socialização na educação, Sampaio da Nóvoa exortou na Cimeira “a UNESCO e os Estados Membros a reconhecer a relação docente-estudante como um património comum da humanidade e farol de relacionamento, num contexto de crescente transformação digital, que deve estar ao serviço da humanidade sem pôr em causa o papel essencial da socialização e interação humana na educação” [7].
F. Solidariedade global e padrões compartilhados
“Nenhum país pode enfrentar esta rutura/revolução sozinho. É preciso cooperação internacional para definir padrões de segurança para desenvolvimento de um currículo de IA e para trocar conhecimentos sobre metodologias e pedagogias emergentes”.
O desafio e convite da UNESCO é claro: “Precisamos do que a IA não tem: imaginação, coragem, ambição e ação coletiva”.
Também pode gostar de ler no Blogue RBE…
Sobre as interseções entre IA, educação e bibliotecas escolares:
UNESCO. (2025, 28 Ago.). World Summit on Teachers Live: Sessions on valorizing the teaching profession and partnerships. https://www.youtube.com/live/Kk419q4mQvs
Nota: Pode aceder-se à comunicação de António Sampaio da Nóvoa a partir dos 33 minutos e 18 segundos.
A celebração dos 25 anos da biblioteca escolar da Escola Básica de Ribeirão, Vila Nova de Famalicão, levou-nos a uma breve reflexão sobre a sua importância na vida de toda a comunidade educativa.
Percebemos que ao longo dos seus 25 anos, a biblioteca escolar tem sido muito mais do que estantes e livros: tem sido um Mundo de descobertas, aprendizagem e imaginação. Ao longo deste tempo, a biblioteca contribuiu para formar leitores, incentivou a criatividade e apoiou o desenvolvimento de milhares de alunos.
Enquanto profissional e leitora, um dos livros que sempre nos acompanhou foi “Como um Romance”, de Daniel Pennac. Nesse livro o autor fala da importância da leitura e aborda a relação entre leitores e livros. Defende que a leitura deve ser um prazer, e não uma obrigação, e propõe os famosos "direitos inalienáveis do leitor": o direito de não ler, o direito de saltar páginas, o direito de não acabar um livro, o direito de reler, o direito de ler não importa o quê, o direito de amar os “heróis dos romances”, o direito de ler não importa onde, o direito de saltar de livro em livro, o direito de ler em voz alta, o direito de não falar do que se leu.
Para nós ler é um direito, não um dever. A biblioteca escolar é o espaço onde os alunos descobrem histórias que os transformam, sem imposições, com liberdade, com prazer…
Paulo Freire é outro autor que nos tem acompanhado. O autor, no livro “A Importância do Ato de Ler”, destaca que a leitura vai muito além da simples descodificação de palavras: ela é um ato de compreensão do Mundo. Para ele "ler o mundo precede a leitura da palavra", ou seja, antes de aprendermos a ler textos, já interpretamos a realidade à nossa volta. Defende também que a leitura deve ser crítica e libertadora, permitindo que o leitor compreenda a sua própria realidade e atue para transformá-la. Valoriza a experiência de vida do leitor e a leitura como um instrumento de emancipação social. Refere ainda que a biblioteca escolar pode aplicar essa visão incentivando uma leitura que não seja apenas mecânica, mas que ajude os estudantes a refletir sobre suas vidas, questionar o mundo e agir sobre ele. Para o autor “Ler não é apenas juntar letras, é enxergar a vida com novos olhos e compreender o mundo para transformá-lo."
A Biblioteca Escolar na Atualidade:
Desafios e Transformações
A biblioteca escolar sempre esteve ao serviço dos alunos, dos pais dos alunos, da comunidade escolar…. Sempre se pautou por ser um espaço humanista, orientado por pessoas, para pessoas, não querendo que a biblioteca seja um mero espaço para guardar livros….
A biblioteca escolar acompanhou as diferentes políticas educativas, contribuiu para os diferentes planos de melhoria, foi-se reinventando para acompanhar as exigências dos alunos.
Com a era digital, a Biblioteca Escolar transforma-se num centro de conhecimento dinâmico, promovendo não só a leitura, mas também a pesquisa, a criatividade, o pensamento crítico, respondendo à atualidade, nomeadamente: apoio no processo ensino-aprendizagem - além dos livros físicos, a biblioteca escolar oferece acesso a plataformas digitais, e-books; inclusão e acessibilidade: espaços adaptados, recursos diversos, garantem que todos os alunos possam usufruir do conhecimento; fomento à leitura crítica: a biblioteca estimula a reflexão sobre os conteúdos lidos, tornando os alunos mais conscientes e participativos; tecnologia e inovação: contamos com material informático (computadores, tabletes…) e outras ferramentas para incentivar a aprendizagem interativa.
Desafios e Oportunidades
Hoje todos reconhecemos a importância da biblioteca escolar na vida dos alunos, mas continuamos a enfrentar desafios como a necessidade constante de atualização do acervo, o incentivo à leitura num mundo digital, a valorização do professor bibliotecário como mediador do conhecimento.
O professor bibliotecário (e a sua equipa) faz com que a biblioteca escolar seja vista como um lugar vivo de descobertas, que acompanha as mudanças e desperta nos alunos o prazer pelo conhecimento.
Ribeirão, 06 de maio de 2025 A Diretora: Elsa Carneiro