XII Seminário Da Arte de Ler a viagem: nenhuma viagem termina na última página
Depois de um primeiro dia dedicado à reflexão em torno da leitura e da viagem, o segundo dia do XII Seminário Da Arte de Ler… a viagem conduziu-nos ao Agrupamento de Escolas de Cister, que acolheu os participantes para a realização das seis oficinas de formação. Foi um momento em que o diálogo deu lugar à experimentação, à partilha de práticas e à construção colaborativa de conhecimento, graças à disponibilidade e ao empenho da comunidade educativa que nos recebeu.
Na sessão de encerramento, a Diretora do Agrupamento de Escolas de Cister, Professora Manuela Lourenço, partilhou uma reflexão que retomou a profunda ligação entre ler e viajar.
Encerramos, neste momento a XII viagem da Arte de Ler.
Efetivamente – e esta ideia foi bastante declinada nas diferentes comunicações – há uma proximidade, uma intimidade, poderíamos dizer, entre a leitura e a viagem. A viagem é metáfora perfeita da leitura, a leitura é espelho perfeito da viagem.
Quando abro um livro e mergulho na sua leitura, sou Frodo a caminho de Mordor, sou o Rei Artur em Tintagel, sou Anna Karenina na estação de comboios, apanho o expresso da Patagónia, corro o risco de ser vítima no expresso do oriente, experimento o sal e o sol, a chuva e a escuridão, ondas alterosas, quedas e voos, o medo e a euforia, a curiosidade ao virar da página, o deslumbramento perante a chegada ao destino. E como nas viagens, cada livro que se termina é já o princípio de outro
Quando viajo, leio e releio as informações do bilhete, consulto vezes sem conta o horário de partida, questiono placars informativos, placas sinalizadoras, direções. Cada destino é um livro que escrevemos para nós mesmos, arquivado na biblioteca da nossa memória, passível de ser relido a cada postal que nos cai inadvertidamente nas mãos, a cada cheiro, a cada som, a cada variação de luz. Ficam em nós impressões que a memória desperta. São perguntas semelhantes, servem a mesma inquirição, quando dizemos onde é que eu li isto, ou onde é que eu vivi isto, que rua era aquela, que página era aquela, foi ali naquela frase que vi, foi naquela praça que li… Do avião, quando perscruto a tela que se desenha abaixo dos meus olhos, leio os primeiros sinais do lugar de que me aproximo, o pináculo de uma igreja, a torre de um castelo, o serpentear minúsculo de um rio, o verde-esmeralda de uma ilha que assim é conhecida, a neve no topo da montanha, os lagos recortados na plano infinito. Em viagem, tudo é leitura.. a vida é um livro que lemos ininterruptamente.
A leitura e a viagem fundem-se. Não se faz a mala, a mochila, o saco, sem incluir o livro, ou os livros, não se aproveita a calma das praças sombrias sem um livro, não se pode estar na praia sem um livro, nem à lareira, nem no sofá, aconchegados por uma manta quentinha, enquanto lá fora, o vento viaja também entre as ruas estreitas e as árvores frondosas. Para muitos de nós, viajantores, leitorantes, se é para ir sem livro, mais vale não ir.
E que dizer dos livros viajeiros, aqueles que se perdem, aqueles que se encontram, aqueles que adormeceram durante anos, décadas e séculos, que alguém acorda, belos adormecidos, que se revelam cheios de vida, surpreendentes e reiniciam a sua viagem. Quantos e quantos livros viajaram para serem a biblioteca de Alexandria? A nossa biblioteca. Quantos nos faltam, porque se perderam e viajam por aí…
Quantas viagens se fazem por causa de livros? A identidade de certos lugares está profundamente ligada aos livros que os imortalizaram: Castilha La Mancha é terra do Quixote, Dublin é lugar de Ulisses, Londres é lugar de um detetive, Cornualha é lugar dos 5, Paris é uma festa por causa de Hemingway, a utopia e distopia são lugares que vemos de olhos fechados por causa de um livro.
Quantos livros nos levam aonde não fomos ou não podemos ir: ao centro da terra, ao fundo do mar, à Islândia e ao Polo Norte, à Patagónia e ao deserto de Atacama…
Poderíamos viajar na linguagem de maneira inovadora… Em vez de perguntarmos “Que livro estás a ler?”, dizer antes “que livro apanhaste?”, ou “que viajas agora?”. Que viagem me recomendas?
Confúcio dizia que todos temos duas vidas, que a segunda começava quando percebemos que só temos uma, discordo… temos tantas quantas os livros/viagens que lemos/fazemos.
Estas palavras recordam que ler e viajar são experiências que se alimentam mutuamente e que nenhuma delas se esgota no momento da chegada.
O XII Seminário Da Arte de Ler… a viagem encerrou, mas permanecem as ideias, os encontros, as práticas partilhadas e o compromisso de continuar a construir, nas bibliotecas escolares e nas escolas, novos percursos de leitura.