retalhos

“Deixo palavras, levo caminhos” 

por Maria Emília Polaco, Professora Bibliotecária, ES Diogo de Gouveia de Beja (AE nº1 de Beja)

A vida reparte-se por ciclos, cujas fronteiras são por vezes de uma perturbadora nitidez. O último talvez seja este: o que delimita a fase em que nos resta administrar acauteladamente uma sabedoria amealhada. 
Fernando Namora, in ‘Jornal sem Data’

Entro na biblioteca e observo o que me rodeia com um olhar diferente — nostalgia, talvez, por pensar que estou prestes a deixar o lugar que me fez tão feliz ao longo dos últimos dezasseis anos. Afinal, a minha vida de professora foi aquilo por que tantos trabalhadores anseiam e, na maior parte das vezes, não encontram: realização profissional plena. Passaram mesmo quarenta e quatro anos? 

Como vou agora preencher os meus dias sem a rotina que lhes deu luz? Ensinar a gostar de ler em voz alta, assistir ao despertar da vontade de escrever? Sentar-me à volta da mesa, que inundei de livros no dia anterior, e ajudar cada jovem na sua escolha, desafiá-los a um livro diferente — sim, um poema, Beatriz, porque não? Ensiná-los a fazer uma excelente apresentação oral, a pesquisar ali, na nossa biblioteca, dirigi-los para um mundo de conhecimento à distância de um clique. 

Como vou esquecer os infinitos passeios pelos cafés, pelo jardim, pelo supermercado, pelos lugares mais improváveis, com ruidosos grupos que não conseguiam conter o entusiasmo perante a expectativa de ler em voz alta em público? As leituras com sotaque que deleitavam audiências? As visitas aos lares de idosos, contrariando a monotonia dos seus dias com contos entoados por vozes jovens, capazes de os fazer voltar atrás no tempo? 

Apresentar-lhes escritores, radialistas, comunicadores, jornalistas, conferencistas, professores — tanta gente que ajudou a enriquecer as suas vidas. Quantos jovens procuram não apenas livros, mas palavras capazes de acalmar o tumulto interior da adolescência! 

Acreditei que a comunidade estudantil aprenderia com o cinema — e não me enganei. Ver e debater um bom filme, comendo pipocas que alguns levavam escondidas, é iniciar uma viagem intemporal pela imaginação, conhecendo épocas históricas, personagens, realidades e culturas sem fim. 

“Devíamos ter mais aulas assim, professora!”, repetiam sempre no final, deixando em mim uma satisfação ímpar. 

Fica também o meu enorme prazer pelas atividades ligadas às artes visuais — o desenho, a pintura, a escultura — em apresentações, projetos, exposições e, até, edição de livros. 

A paixão pela música ficará na lembrança de todos os jovens que participaram nas tantas manhãs musicais celebradas no Dia Mundial da Música: o piano dos Andrés, um deles hoje músico; o violino da Ana, hoje violinista; a guitarra do Martim; a viola do Pedro, hoje médico; o acordeão do Ricardo, economista numa empresa em Amesterdão; o djembe do Aírton… E vozes, tantas vozes: a do André, hoje barítono no País de Gales; a do Francisco, que esteve no The Voice; a da Inês, de quem ainda não sei até onde chegará. 

Enfim, deixei palavras e caminhos, mas é incomensurável aquilo que levo comigo para o percurso de um futuro próximo. 

Pensarão, agora, que de alguma coisa não terei gostado. Claro que sim. Tive de realizar tarefas que me deram menos satisfação, mas a vida não é talhada à nossa medida; há apenas que aceitar e lidar com o menos satisfatório. É também sobre isso que falo com os jovens: o futuro — preparar, aconselhar, acalmar ansiedades. 

Dizia muitas vezes que “a biblioteca tem tudo”. Para lá iam estudar, fazer trabalhos, ler e conviver; isolar-se em momentos menos bons; procurar um Benuron, medir a tensão, encostar-se um pouco num dia mais atribulado; pedir uma água, um café, um caramelo “para estimular as células cerebrais”; amenizar um desgosto; encontrar, simplesmente, um ombro disposto a ajudar — que o diga a D. Manuela, minha incansável companheira de trabalho

E, nesta imparável viagem no tempo, volto a Lisboa, ao dia em que me despedi da Faculdade de Letras e ouvi do professor de Teoria da Literatura, última cadeira do curso, as seguintes palavras: 

“Agora que terminaram uma fase da vossa vida, e sei que muitos de vós serão professores, faço-vos lembrar a responsabilidade que vos é confiada. Ensinem muito e bem, escutem cada um — por detrás de um aluno há uma pessoa — e, sobretudo, levem a cultura aos jovens, particularmente aos lugares onde ela menos chega. Esse é o maior desafio que vos lanço.” 

Obrigada, Professor Salvato Telles de Menezes. Essas palavras ecoaram em mim toda a vida. Encontrei na biblioteca escolar o lugar certo para cumprir esse desafio: levar a cultura onde ela não chega. 

Talvez Fernando Namora tivesse razão: o homem precisa de sentir que a sua vida tem significado. Talvez seja isso que levo comigo destes anos todos — a certeza de que educar foi dar significado aos dias. 

Parto da biblioteca como quem fecha, lentamente, uma porta ao final da tarde. Ficam as mesas, as estantes, o rumor baixo das páginas folheadas, mas levo comigo os rostos e as vozes de centenas de jovens que, sem o saberem, escreveram também a minha história. 

Deixo palavras, levo caminhos. 

por Maria Emília Polaco 
Professora Bibliotecária 
Escola Secundária Diogo de Gouveia de Beja 
Agrupamento de Escolas nº1 de Beja 

One comment on ““Deixo palavras, levo caminhos” 

  1. Querida amiga Mila

    É mesmo verdade que já passaram 44 anos para ti e para mim 42? Parece que foi que partimos para Londres com todos os sonhos e ilusões de quem estava a começar!
    Continuámos as duas no caminho escolhido.

    Dou-te os Parabéns por um percurso lindo e pela professora que és e sempre serás, pois acredito, tal como tu, que ser professora não termina em nunhuma de nós.
    Que percurso lindo e que memórias criaste nos alunos e em todos os que seguiram o teu trabalho!
    Algumas vezes mostrei aos meus alunos, videos publicados da “tua” Biblioteca e apresentel a minha amiga professora bibliotecária, com admiração devo dizer!

    Outra aventura de vida se avizinha. Faz com ela o que te fizer mais feliz.
    Um grande abraço.

    Isabel João

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *