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Fonte da imagem: https://www.cnedu.pt/content/Programa_DH_final.pdf

Movimentos, partidos políticos e governos discriminatórios, negacionistas e autoritários, inclusive eleitos democraticamente, manifestações e contramanifestações cívicas, feitas à margem das instituições democráticas, uso de redes sociais e algoritmos que propagam desinformação e manipulam indivíduos e nações, são uma realidade.

A necessidade de literacia da informação e media e de educação, tendo por referência a Declaração Universal dos Direitos Humanos 1 e demais tratados legais que a alargam e aprofundam (Convenção Europeia dos Direitos Humanos, Convenção sobre os Direitos Políticos das Mulheres, Convenção dos Direitos da Criança, Declaração dos Direitos do Deficiente Mental…) e a discussão de novos direitos e garantias (sustentabilidade do planeta, privacidade e esquecimento digital, água potável…) é fundamental.

Neste contexto, surge a recente publicação, feita por parte do Conselho Nacional de Educação, do seminário Os Direitos Humanos hoje: 70 anos da Declaração Universal 2, comemorativo dos aniversários 70.º da Declaração Universal e 40.º de adesão de Portugal à Convenção Europeia dos Direitos Humanos, ocorrido em 2018.

Segundo Vital Moreira, comissário das comemorações desta efeméride universal e nacional, Portugal foi um dos países pioneiros a incorporar o conteúdo da Declaração Universal na sua Constituição da República Portuguesa de 1976, que marca a entrada do país na Ordem Internacional dos Direitos Humanos. Este orgulho deve tornar as populações portuguesas “conscientes daquilo que falta realizar, da ideia, mais uma vez, de que nada é irreversível e que os Direitos Humanos se conquistam todos os dias, que não podem ser dados por adquiridos e que estas celebrações devem ser o momento para nos propormos conquistar aquilo que ainda falta”, por exemplo, em matéria de desigualdades sociais e discriminação, assédio e violência sexual e doméstica (p. 29).

Segundo Fernando Rosas, o que é inovador e moderno na Declaração Universal é a especificação detalhada dos direitos individuais e políticos - contra a prisão arbitrária, tortura, exílio forçado e escravatura, direito à presunção de inocência e a julgamento justo e imparcial e direito à circulação – e o alargamento destes aos direitos económicos e sociais – trabalho com direitos, salário igual/ trabalho igual, remuneração equitativa e justa, liberdade sindical, direito à segurança social, à saúde e assistência, à dignidade do nível de vida - e aos direitos à educação e cultura, considerados agora direitos humanos universais (p. 35).

Uma das formas de desconstruir preconceitos e influenciar - “alterar o olhar” - para os direitos humanos é através da arte, tal como faz Filipa Reis, produtora do filme Balada de um Batráquio 3, ouvindo as populações vulneráveis e representando-as, “tentando sempre complexificá-los e nunca os simplificar”, de modo a transmitir a verdade da sua condição, circunstâncias e luta (p. 42).

Um dos problemas que limita o desenvolvimento individual e social e que preocupa as bibliotecas escolares é a desinformação. Num contexto em que a humanidade regista o maior progresso no alcance de níveis de escolaridade e educação em massa e avançada, inclusive a nível tecnológico e digital, o direito à informação e ao conhecimento surge, paradoxalmente, em risco, inclusive em sociedades democráticas desenvolvidas. Paulo Guinote (pp. 66 segs.) identifica causas desta ameaça, por exemplo:

- A sobreinformação e Grandes Dados (Big Data)/ “dataísmo”4 que tem a função de impedir o acesso aos factos e verdade, desempenhando o papel que a censura tinha nas ditaduras do passado 5. As redes sociais multiplicam e fragmentam exponencialmente este processo de comunicação, gerando passividade e indiferença perante a distinção entre verdade e falsidade, que passa a ser eufemisticamente identificada como pós-verdade e notícias falsas - tudo é relativo e efémero, triunfa a fluidez 6. O trabalho de processar informação e dados nesta escala passa a ser confiado a algoritmos, cuja capacidade eletrónica excede o cérebro humano. Aqueles que têm a capacidade de definir os algoritmos, têm o poder de manipular no espírito humano a representação da realidade e de controlar o mundo;

- A sociedade de informação caminha alinhada a uma sociedade de consumo 7, do espetáculo 8 e cultura do entretenimento/ infoentretenimento (Infotainment).

Identifica consequências: a criação de cidadãos ignorantes e permeáveis ao medo, terreno fértil para o crescimento de líderes autoritários próprios do populismo antidemocrático, anticientífico e que percebe na diferença e no contraditório uma ameaça.

Por conseguinte, Guinote incentiva todos, em particular os professores, a praticarem uma ação de resistência à infantilização de mentalidades, cultivando na escola as hard skills, de que fazem parte as Humanidades (História, Filosofia…) e que permitem interrogar e compreender o contexto e propósito desta tendência, bem como a Memória e o rigor na seleção crítica de fontes, factos, fundamentação de juízos e comunicação.

Nesta comemoração, o Conselho Nacional de Educação reconhece o papel das bibliotecas escolares, representadas pelo Agrupamento de Escolas Ferreira de Castro, Sintra (pp. 96 segs.), cujo “Projeto Educativo estabelece como missão a educação inclusiva, intercultural e plurilinguística de todos os alunos, formando cidadãos autónomos, interventivos e conscientes dos seus deveres e direitos, privilegiando a criatividade, a adaptabilidade e a ousadia” (p. 98). Todas as atividades pressupõem os direitos humanos, apostando na “Equidade para permitir que todos tenham as mesmas oportunidades, dando a cada um o que necessita, tratando as diferenças de forma diferente para que consigam ser iguais” (p. 100).

Nas bibliotecas escolares os direitos humanos são abordados ao nível do currículo, de trabalhos interdisciplinares e na vida do dia-a-dia da escola, através do convívio e apoio a pessoas de diferentes origens, características e condições. Segundo o seu responsável, as bibliotecas escolares “têm um papel fulcral na organização de diversas atividades, em articulação com as diferentes disciplinas e turmas”, como por exemplo, atividades formativas sobre não violência, bullying, igualdade de género, Holocausto, desinformação, liberdade de imprensa, democracia e internet segura. As estratégias adotadas pelo Agrupamento e suas bibliotecas são muito diversificadas: debate de questões de direitos em Assembleia de Turma, alunos mais velhos orientam mais novos (apadrinhamento de alunos…), desenvolvimento de blogues e sítios na internet sobre direitos humanos e sustentabilidade do planeta, depoimentos de alunos feitos com base nas suas vivências e opiniões, debates, jogos, mostras de filmes solidários sobre diferentes temas com alunos de diferentes níveis de ensino, entre outras.

Das múltiplas formas e formatos em que se vivem e refletem os direitos humanos, a comunidade realiza o desígnio transcrito no n.º 2 do artigo 26.º da Declaração Universal: “A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e o reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos, bem como o desenvolvimento das atividades das Nações Unidas para a manutenção da paz.”

 

Referências

1. Organização das Nações Unidas. (1948, 10 de dezembro). Declaração Universal dos Direitos Humanos. https://dre.pt/declaracao-universal-dos-direitos-humanos

2. Conselho Nacional de Educação. (2021, março). Os Direitos Humanos hoje: 70 anos da Declaração Universal https://www.cnedu.pt/pt/publicacoes/seminarios-e-coloquios/1644-os-direitos-humanos-hoje-70-anos-da-declaracao-universal

3. Teles, L. (Dir.); Reis, F. (Prod.). (2016). Balada de um Batráquio. https://vimeo.com/ondemand/baladadeumbatraquio

4. Harari, N. (2020). Homo Deus - História Breve do Amanhã. Porto Editora.

5. Virilio, P. (2007). State of Deception. Verso.

6. Bauman, Z. (2001). Modernidade líquida.

7. Baudrillard, J. (2008). Sociedade de Consumo. Edições 70.

8. Debord, G. (2021). Sociedade do Espetáculo. Antígona.

 

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No início, … bem no início, não foi o verbo. Antes uma imagem. Melhor, um boneco em pasta de papel, articulado, tamanho natural, sentado na cadeira de realizador, na zona dos filmes da biblioteca. Não lhe faltava nada: o chapéu, a bengala, uma bobina, uma claquete, até um foco de luz. Mas ainda não tinha voz. Era necessário animar aquele boneco, dar-lhe alma, fazê-lo comungar do espírito daquele espaço. Foi então que surgiu a ideia de lhe atribuir uma tarefa que, não só o mantivesse ativo, como também ao serviço da biblioteca. Os tempos eram duros, o vírus circulava, poucos clientes apareciam e um agente de marketing vinha mesmo a calhar. Foram definidas as linhas de intervenção: escreveria crónicas regulares, publicaria no Facebook da Biblioteca e faria os desabafos que entendesse deste que mencionasse sempre um livro, um filme ou uma atividade da biblioteca. Como veem, um pacto justo: dava liberdade ao artista, mas simultaneamente impunha-lhe algumas obrigações. Contrato feito. Luz, ação: click! Tirámos fotos (… e o jeito que ele tinha para a câmara, quem diria?!), fizemos revisão de provas e as crónicas começaram a sair, uma, duas, … já vai na 11.ª! Porquê “CC”? Porque em junho de  2020, antes de arrancamos com a 1.ª crónica, criámos um momento de intriga, desafiando os seguidores a identificarem o cronista através dos olhos e as iniciais CC do seu nome. O jogo pegou e já não voltámos atrás: passaria a ser o CC.

Para seguir as crónicas: https://www.facebook.com/becre.sequeira/

 

CC – crónica 11

Imagem1.jpgSaúdo todos os que me leem, vocês são a minha tábua de ligação com o mundo nesta fase de isolamento, fatal para uma alma de artista. Mesmo na condição de imortal, habituámo-nos à exposição, ao palco, às palmas (e assobios), à tela, aos flashes das fotos, às primeiras páginas e é difícil apagar tudo isso e estar aqui sentado na cadeira de realizador. Claro que os livros são boa companhia, mas muitas vezes “ler é maçada”, como dizia Fernando Pessoa. 

Carl_Spitzweg_021.jpegEntão, levanto-me e ando por aí entre as estantes à procura de outra alma. Às vezes encontro-a, como aconteceu há dias com o “Guarda-Livros Jerónimo”. Guarda-Livros Jerónimo? O que é isso? perguntam vocês. Pois, há por aqui uns fantasmas, principalmente à noite, quando… Aeih! Aeih! O que vai aí de histórias! É o que dá estar sozinho! Nada disso, aqui não há fantasmas, repito, aqui não há fantasmas, e este “Guarda-Livros Jerónimo” é o nome que as professoras da casa deram a uma gravura de Carl Spitzweg que têm emoldurada na parede e a quem chamam do seu padroeiro. Segundo me explicaram, o S. Jerónimo é considerado o padroeiro dos bibliotecários e dos livreiros e lá acharam que aquela figura do criado, em cima do escadote a ler em vez de limpar, se encaixava mais com um amante de livros do que aquele teólogo e historiador da antiguidade, S.Jerónimo de Estridão, que ficou conhecido pela sua tradução para o latim da Bíblia e pela sua extrema dedicação ao trabalho intelectual. Quando andam a fazer uma visita guiada aqui na biblioteca, oiço-as sempre dizer com uma pontinha de orgulho: “… e aqui nesta parede, está o nosso padroeiro, o guarda-livros Jerónimo!” Só falta colocarem lá um vaso com flores, mas adiante… a verdade é que eu e o Guarda-Livros Jerónimo estivemos, há dias, em amena cavaqueira e até descobrimos umas coisas que, se não repõem a verdade dos factos e dos nomes (sabe-se lá o que é isso de verdade!), pelo menos acrescentam mais variações e versões. É que aquele “criado-guarda-livros” não gosta lá muito do nome de “Jerónimo” e até acha que, a haver um padroeiro dos bibliotecários, ficaria melhor entregue a S. Lourenço de Roma que foi morto pelos romanos em 258 d. C. por negar-se a entregar a coleção de tesouros e documentos do cristianismo os quais ele estava encarregado de guardar. Bem… eu ouvi-o e não discuto estes direitos quando envolvem mártires de causas, mas julgo que há uma figura da antiguidade clássica mais apropriada: é Calímaco de Cirene, poeta e bibliotecário na grande biblioteca de Alexandria que se encarregou do seu catálogo no século III a.C. Li esta informação no livro “O infinito num junco” da investigadora espanhola Irene Vallejo (em destaque na crónica anterior).

Imagem2.pngAproveitei para ler ao guarda-livros a passagem do livro da estudiosa: “Calímaco é considerado o pai dos bibliotecários. Imagino-o a preencher as primeiras fichas bibliográficas da História – que seriam tabuinhas – e a inventar algum antecedente remoto dos códigos. Talvez tenha conhecido o segredo das bibliotecas babilónicas e assírias e se tenha inspirado nos seus métodos de organização, mas chegou muito mais longe do que qualquer dos seus antecessores. Resolveu problemas de autenticidade e falsas atribuições. Encontrou rolos sem título que era preciso identificar.” (p.150)

Imagem3.pngO texto alonga-se com mais elogios e confesso que fiquei rendido àquela personalidade fascinante do passado. Acho até que ele está mais perto do trabalho real de uma biblioteca (e eu sei do que estou a falar porque bem observo as professoras aqui na sua lida diária). Chegámos a um acordo: o guarda-livros ficava aliviado do peso de “S. Jerónimo” e passava a chamar-se só “Guarda-Livros”, sem a carga do passado. 

Achei justo e quando mais tarde regressei ao meu posto, estava seguro de ter ali um amigo para conversar. Nessa noite, pareceu-me que, algures, num canto da biblioteca, decorria um concílio de sábios onde se esgrimiam nomes para o guarda-livros: “Lourenço! Não, Jerónimo! Calímaco é que é!” Deixei-os debater e fiquei no meu cantinho sem me mexer, nem respirar. Em matéria de fantasmas, como já disse, sou cético, mas pelo sim, pelo não… 

O vosso CC
 

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“Para quem nunca concorreu a este concurso, eu queria dizer que a cultura clássica não é ‘uma seca’; ela ajuda-nos a perceber muitas coisas da nossa própria cultura!”

Estas são as palavras do Rodrigo, um dos alunos premiados nas Olimpíadas da Cultura Clássica do ano letivo passado, registadas no testemunho que gravou para o vídeo de Celebração 2019-20 / Lançamento 2020-21.

Vale a pena revisitar este vídeo para ouvir a voz dos alunos: a sua experiência sobre a descoberta dos mitos gregos que são o mote, em cada ano, para ficar a conhecer um pouco da Antiguidade Clássica. Na sua autenticidade, esta frase toca no ponto essencial: a cultura clássica permite-nos conhecer a nossa!

Por outras palavras, no mesmo vídeo, o Secretário de Estado Adjunto e da Educação, Prof. Doutor João Costa, lembra: “se chegámos ao nível civilizacional e de conhecimento que temos, isso deve-se a o facto de termos tido saberes, construções e idealizações desde a antiguidade clássica que nos levam a ser o que somos hoje”.
É um facto! Muitas das estruturas de pensamento, das formas de arte, dos modelos de organização da sociedade que temos hoje, vão beber ao caminho desbravado pelos Clássicos.

Mas não só: os próprios heróis e personagens fantásticos, fruto da imaginação dos Antigos, estão vivos nas histórias, nos filmes, nos livros que marcam, hoje, o imaginário de crianças e adolescentes! Basta pensar em Cérbero, o monstruoso cão de três cabeças que guardava o mundo dos mortos na mitologia grega, que nos reaparece, com todos os atributos, no cão de três cabeças que Harry Potter e os seus amigos enfrentam na narrativa de J. K. Rowling.

São estas razões e motivação suficientes para que as Olimpíadas da Cultura Clássica tenham tido, mais uma vez, a adesão de escolas de norte a sul do país, neste ano tão difícil que vivemos.

Toda a informação está disponível na página do portal RBE. O calendário dos desafios escritos foi obrigado a sofrer uma atualização: mantêm-se as datas para os escalões A e B (respetivamente 13 e 14 de abril), mas a prova do escalão C, do ensino secundário, foi adiada para o dia 22 de abril, uma vez que os alunos só regressam às escolas a 19.

Quanto aos desafios de artes/ multimédia, já estão disponíveis os formulários para a sua submissão: Para as escolas pertencentes à RBE: no Sistema de Informação; para todas as outras: aqui. Ambos ficam abertos para submissão de trabalhos até 5 de maio.

Espera-se que os trabalhos dos alunos, neste ano letivo, constituam fonte de inspiração para que as escolas que ainda não experimentaram concorrer às Olimpíadas da Cultura Clássica, se inscrevam na próxima edição, de 2021-22!

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Imagem de ar130405 por Pixabay 

 

Greg Landgraf | 1 março 2021

In American Libraries acedido em https://cutt.ly/9xbIanp

Como a pandemia tem limitado os serviços presenciais das bibliotecas este ano, muitas delas estão a contar mais do que nunca com os seus sítios web para prestarem os serviços de que as suas comunidades necessitam e esperam. Mas um sítio web só é útil se permitir aos utilizadores encontrar e fazer o que precisam. A importância crescente dos sítios de bibliotecas na Internet durante a era COVID-19 tem salientado deficiências comuns de usabilidade - e oportunidades.

"Tenho a sensação de que muitas pessoas pensam que a usabilidade vem depois da utilidade", diz Christina Manzo, bibliotecária estudiosa da experiência de utilizador na Universidade de Radford Carilion em Roanoke, Virgínia. "Penso que se tornaram uma e a mesma coisa". Há uma oferta aparentemente interminável de interfaces a competir pela nossa atenção, pelo que os utilizadores estão menos dispostos a suportar um sítio web que não funciona bem.

Manzo diz que a pandemia não mudou as necessidades dos utilizadores, mas amplificou-as. "A exaustão e a frustração estão a apoderar-se das pessoas hoje em dia, porque quase tudo - mesmo ir à mercearia - leva mais tempo e energia", acrescenta ela. Como resultado, os utilizadores podem ser menos pacientes se forem forçados, por exemplo, a refinar as buscas várias vezes a fim de encontrar a informação que procuram.

A pandemia também tem afetado a forma como os utilizadores procuram a informação, diz James Miller, bibliotecário ligado à descoberta e à ciência da Universidade de Hollins em Roanoke, Virgínia, que observa que os estudantes estão a procurar mais frequentemente ajuda online. Os acessos a uma página web que alberga os vídeos da biblioteca duplicaram no Outono passado, e a utilização de conversas em linha e de livros eletrónicos também aumentou. Entretanto, reparou que os downloads de artigos estão em baixa, possivelmente porque os investigadores, cansados, estão a procurar noutro lugar.

Maria Nuccilli, programadora web na Biblioteca da Universidade Estadual de Wayne em Detroit, relata o aumento da utilização do website em toda a linha. Na última semana do semestre de Outono de 2020, o LibGuides da biblioteca teve 6.300 visitas, contra 3.900 no mesmo período do ano anterior. "Mesmo agora que a biblioteca está parcialmente aberta, as pessoas continuam mais do que nunca a funcionar em linha", diz Nuccilli, o que demonstra a importância de interfaces eficazes. Ela observa também que a percentagem de utilizadores que acedem a sítios web através de dispositivos móveis aumentou, tornando o design reativo - que permite uma fácil visualização em ecrãs mais pequenos - mais importante do que nunca.

 

Acessibilidade e legibilidade

Um fator crítico no design da experiência do utilizador (EU) em sítios web é a acessibilidade para pessoas com deficiências visuais e outras limitações. Por exemplo, conteúdos em movimento, intermitentes ou a piscar podem apresentar obstáculos aos utilizadores com distúrbios de défice de atenção ou de processamento visual, enquanto o insuficiente contraste de cores entre o texto e o fundo pode tornar o conteúdo ilegível para utilizadores de baixa visão.

As Directrizes de Acessibilidade de Conteúdo da Web do World Wide Web Consortium são impressionantemente completas; muitas instituições sintetizaram-nas em diretivas fáceis de implementar e incluíram-nas nas suas próprias diretrizes de acessibilidade. Para começar, Jaci Wilkinson, responsável pela área de descoberta e experiência do utilizador nas Bibliotecas Bloomington da Universidade de Indiana, sugere obter uma demonstração de tecnologia de leitura de ecrã para ver em primeira mão como ela funciona com o seu website - ou pelo menos rever os tutoriais do YouTube para obter uma compreensão mais concreta das suas capacidades.

Nuccilli recomenda a utilização de extensões de browser que assinalem problemas de acessibilidade, como Axe ou Siteimprove. "Eles mostram frequentemente pequenas coisas que farão uma grande diferença", diz ela. Outras ferramentas, como a Verificação do Contraste de Cor, podem ajudar a avaliar se uma combinação de cores será legível por pessoas com deficiência de visão a cores ou que estejam a ler um site num ecrã a preto e branco.

Manzo, que realizou testes de usabilidade numa variedade de websites de bibliotecas, diz que "muitas entrevistas a utilizadores mencionam especificamente a linguagem" como um desafio EU. Alguns utilizadores acham termos como "pesquisa" vagos, por exemplo, enquanto os não-bibliotecários podem não estar familiarizados com termos como "empréstimo interbibliotecas".

Wilkinson diz que escrever especificamente para a web - onde as pessoas tendem a fazer o scan (uma leitura de varrimento) em vez de ler palavra a palavra - melhora a legibilidade de um site. E características como a informação carregada na interface inicial, listas de tópicos, e subtítulos claros ajudam os leitores a encontrar a informação que procuram, de acordo com um relatório do Grupo Nielsen Norman.

"Um princípio orientador é encontrar o utilizador onde ele está, quer seja para descobrir onde colocar um botão ou que tipo de terminologia utilizar", diz Nuccilli. "Não creio que exista um site de biblioteca perfeito, e não se pode fazê-lo uma vez e considerá-lo pronto indefinidamente". Isso significa que a constante incorporação de feedback do pessoal da biblioteca e dos utilizadores é fundamental para manter um sítio web com boa usabilidade.

 

Soluções de teste

"Quando tudo fechou em março, as nossas prioridades mudaram imediatamente, e precisávamos de fornecer informação aos utilizadores o mais rapidamente possível", recorda Nuccilli. Em circunstâncias normais, ela realizaria semanalmente testes breves e presenciais de usabilidade ao introduzir novos serviços. Durante a pandemia, no entanto, conta mais com o feedback de bibliotecários e dados do Google Analytics e Springshare (a plataforma digital por detrás de LibGuides e LibAnswers) para avaliar até que ponto os novos serviços estão a ir ao encontro das necessidades dos utilizadores.

"No tempo pré-pandemia, havia circulação e muitas microtransações no serviço de referência e em sessões de instrução que podiam conduzir a ideias para melhorar a usabilidade", diz Miller. Quem se ocupa da circulação de estudantes, por exemplo, poderia notar que os alunos estavam a ter problemas em entrar nas suas contas. "Essas interações não puderam acontecer este ano, por isso é mais difícil definir os problemas que os utilizadores estão a ter".

Para contrariar isto, o bibliotecário de proximidade e outros funcionários da biblioteca reuniram-se com grupos e clubes de estudantes através do Zoom para perguntar como utilizam a biblioteca e se encontram algum obstáculo. A biblioteca utilizou este feedback para dar prioridade à informação no sítio web. Quando um estudante mencionou que encontrar teses e dissertações era difícil, por exemplo, a biblioteca criou uma ajuda para isso.

"De certa forma, a pandemia tornou os testes mais fáceis porque os utilizadores não precisam de estar no edifício", diz Miller. "Há menos necessidade de preparação e os estudantes estão confortáveis em linha, porque têm feito isso nas suas aulas".

A utilização de múltiplos métodos para testar, misturando testes clássicos de usabilidade com métodos de guerrilha (onde os utilizadores são abordados em vez de recrutados) pode ser apropriada neste cenário. Miller aplicou e publicou investigação sobre uma abordagem baseada em métodos mistos aos testes de usabilidade, que combina técnicas para avaliar e melhorar a usabilidade (tais como grupos de foco, análise de analytics, prototipagem e testes de primeiro clique) em todas as fases de desenvolvimento de um sítio. Esta abordagem pode fornecer uma imagem mais completa das necessidades dos utilizadores e aumentar a resiliência face a eventos como a pandemia.

 

Fazer melhoramentos

Um primeiro passo importante: explorar perspetivas para além das suas próprias. "Como bibliotecário, você conhece o seu sistema e as suas limitações", diz Manzo. "Um novo utilizador não tem o benefício dessa perspetiva - eles apenas sabem se o website não está a devolver a informação de que necessitam".

A criação de um punhado de personas - descrições de pessoas fictícias que representam os principais grupos de utilizadores do seu sítio - pode ajudar os bibliotecários a manter múltiplas perspetivas em mente. As personas incluem geralmente um nome, cargo e responsabilidades, e características demográficas, bem como objetivos de utilização do sítio e do ambiente em que está a ser utilizado. "Estar consciente da informação que é mais útil para diferentes grupos pode realmente permitir aos bibliotecários satisfazer muitas necessidades dos utilizadores sem desperdício de informação", diz Manzo.

As personas devem ser apoiadas por dados de pesquisa e análise dos utilizadores. Uma vez criadas, não só moldam decisões sobre que informação satisfaz a mais vasta gama de necessidades, mas também identificam quaisquer lacunas de informação.

Os exercícios de categorização de cartões também podem ser uma prática útil para a organização de websites, diz Manzo. Os utilizadores escolhem cartões físicos com temas ou etiquetas de menu e organizam-nos em grupos que fazem sentido para eles. O avaliador pode definir categorias para os utilizadores ordenarem os cartões, ou deixar que os utilizadores criem as suas próprias. Em alguns casos, os utilizadores recebem também cartões em branco para incluir informação que desejam no sítio web, mas que não está representada nos cartões que lhes foram dados. Nuccilli ajudou a lançar várias iniciativas no Wayne State, incluindo uma nova versão do espaço de arquivo online para a Biblioteca Walter P. Reuther, que alberga os arquivos de trabalho do campus. "Estamos super gratos por já termos passado muito tempo a observar os utilizadores, porque isso nos deu uma estrutura sobre a qual nos podemos apoiar", diz Nuccilli. Devido ao foco especializado da biblioteca, fazê-lo exigiu um recrutamento cuidadoso de participantes e coordenação com o pessoal de referência da Reuther. "Mas foi valioso porque quando ficaram à distância", diz ela, "fomos capazes de proporcionar uma melhor experiência de investigação".

Uma técnica que será sempre útil: fazer perguntas continuamente. Como diz Manzo, "a boa notícia sobre a usabilidade é que a curiosidade não lhe custa nada".

 

Melhoramentos que não exigem grande sobrecarga de trabalho

Muitas destas abordagens exigem um grande investimento de tempo e energia e as medidas de segurança necessárias em caso de pandemia podem tornar algumas impossíveis, pelo menos por agora. Mas passos mais pequenos podem aumentar significativamente a usabilidade de um sítio. Algumas possibilidades incluem:

- Dê prioridade aos seus objetivos. "Mapeie como obterá o máximo impacto com a aplicação mais inteligente do esforço", diz Wilkinson.

- Avalie perguntas de chat, visualizações das FAQ e pesquisas de tendências. Miller diz que estas revelarão as necessidades de informação do utilizador que devem receber mais destaque no website.

- Comunique regularmente com o pessoal da biblioteca que trabalha diretamente com os utilizadores. "Muitas ideias vêm de colegas e das questões que surgem quando as pessoas trabalham no balcão de referência", diz Wilkinson.

- Torne mais fácil para os utilizadores obter ajuda. "Quando eu estava a trabalhar numa pequena biblioteca, todas as nossas páginas de erro tinham o meu endereço de correio eletrónico", diz Manzo. Embora isso possa não ser apropriado para todas as bibliotecas, um fórum ou uma caixa de reclamações em destaque pode ser uma alternativa eficaz.

- Aplique a tecnologia de forma criativa. "Fizemos uma sala de estudo virtual em Zoom com dois bibliotecários e os nossos estudantes ", diz Miller. O corpo docente também foi rodando ao longo do dia para responder a perguntas.

- Utilize os recursos de novas formas. Wayne State utiliza o LibAnswers para as suas FAQ e os bibliotecários referenciam-no frequentemente quando ajudam os estudantes. "Percebemos que, em vez de colocar informação COVID no nosso sítio web de forma estática, poderíamos usar a nossa conta LibAnswers para umas FAQ COVID, tornando-as visíveis quando precisamos delas e escondendo-as quando não precisamos", diz Nuccilli.

 

GREG LANDGRAF é coordenador de comunicação e marketing nas Bibliotecas da Universidade de Georgetown em Washington, D.C., e um colaborador regular de American Libraries.

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O GILM – Grupo Informal sobre Literacia Mediática organiza a 9.ª edição da iniciativa 7 dias com os media, que irá decorrer entre os dias 3 e 9 de maio de 2021.

Cidadãos e instituições - escolas, bibliotecas, associações, clubes, meios de comunicação social, plataformas digitais, universidades, famílias… - são convidados a criar uma ação (workshop, webinar, vídeo, apresentação, podcast, jogo, etc.) sobre o uso dos media e os seus efeitos na vida individual e coletiva. Atendendo ao contexto provocado pela pandemia Covid-19, o GILM sugere como temas centrais desta edição: a infodemia, a desinformação e as desigualdades sociais e digitais. Podem, no entanto, ser abordados outros temas, desde que se enquadrem no âmbito da iniciativa.

Num período em que os ecrãs se tornaram omnipresentes nas nossas vidas, é fundamental refletir sobre a importância que os media assumem no quotidiano, o modo como ajudam a formar opiniões e contribuem para a construção da perceção que temos do mundo e sobre aquilo que nos dão – ou não - a conhecer. Lançando o mote para esta reflexão, a iniciativa 7 dias com os media ajuda-nos a desenvolver um olhar crítico sobre a forma como usamos os media e como, através deles, comunicamos e nos expressamos.

Associe-se à semana dos media fazendo o registo da sua iniciativa na página do evento.

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