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Quando o tempo aprende a dizer adeus — e Camões embarca outra vez 

Há títulos que já são, por si sós, uma promessa. A Partida das Naus – Quando o Tempo Aprende a Dizer Adeus é um desses casos. Quando o lemos pela primeira vez, antes de saber o que estava por detrás, ficámos um momento parados. Quem escreveu isto tem catorze ou quinze anos? Sim. Tem. 

Diana Filipe Soares Nunes, aluna do 9.º ano da Escola Secundária Júlio Dantas, em Lagos, venceu o Prémio Conhecer Camões — Categoria E, Escalão I — na edição 2025-2026. O prémio foi instituído pela Estrutura de Missão para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Luís de Camões, com o propósito de promover o conhecimento e a compreensão da obra camoniana e de incentivar a produção artística por ela inspirada. Distingue trabalhos de alunos do 3.º ciclo e do ensino secundário em múltiplas categorias e formatos — podcasts, vídeos, recursos analógicos, esculturas. Diana ganhou na escrita. E o que escreveu merece ser lido com atenção. 

A obra nasce de um projeto interdisciplinar entre Português e Matemática, desenvolvido pelas turmas D e G do 9.º ano. A ideia, em traços largos, é esta: quatro jovens embarcam na armada de Vasco da Gama e percorrem, com olhos do século XXI, os episódios que Camões imortalizou em Os Lusíadas. Até aqui, poderíamos estar perante mais uma reescrita escolar da epopeia — e não haveria nada de errado nisso. Mas o projeto vai mais longe: ao longo da viagem, os protagonistas são interpelados por enigmas matemáticos que estruturam a narrativa e impelem o leitor à descoberta progressiva da obra. Para avançar na história, é preciso pensar. O leitor não é passivo — é cúmplice.. 

Com cerca de 120 páginas ainda em revisão, a obra é já, em si mesma, uma afirmação: de que a escrita pode ser rigorosa e imaginativa ao mesmo tempo, de que a Matemática e a Literatura não vivem em andares separados do edifício do conhecimento, de que ficção, história e pensamento lógico-dedutivo podem coexistir com rara elegância numa página escrita por alunos do 9.º ano. 

Vale a pena sublinhar o que isto significa no contexto mais amplo deste ano. As comemorações dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões têm multiplicado iniciativas de homenagem. O que Diana fez é diferente: não homenageou Camões, dialogou com ele. As novas gerações, quando lhes damos condições e liberdade, não se limitam a receber passivamente a herança literária que lhes deixamos — reinterpretam-na, reinventam-na, fazem-na dizer coisas que ela ainda não tinha dito. Este texto é prova disso. É um ato de renovação, não de reverência. 

O mérito desta conquista pertence, antes de mais, aos professores que conceberam e conduziram um projeto com esta ambição — e à aluna que o habitou com talento e dedicação. São eles o centro desta história. Mas uma escola onde este tipo de projeto acontece é também, quase sempre, uma escola onde há uma cultura de leitura construída pacientemente, em múltiplos espaços e por muitas mãos. A biblioteca faz parte dessa paisagem — não necessariamente no primeiro plano, mas raramente ausente. 

Parabéns a Diana Nunes pelo talento e pela coragem de embarcar numa viagem tão exigente. Parabéns à Escola Secundária Júlio Dantas, à sua direção e aos professores que conceberam e acompanharam este projeto — em particular aos das turmas D e G do 9.º ano, que souberam criar condições para que a imaginação e o rigor coexistissem. E parabéns à biblioteca da escola, pelo papel que certamente desempenhou no percurso desta aluna — mesmo que esse papel raramente apareça nos diplomas. 

Que esta distinção seja, para Diana, o primeiro marco de um caminho longo. E que Os Lusíadas continuem a embarcar — em cada geração que os souber ler de novo. 

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