por Lurdes Dias, Professora Bibliotecária, AE de Penacova
A minha ligação à biblioteca escolar confunde-se, quase, com a própria história da minha vida profissional. Nasceu no ano letivo de 1995-1996, quando, enquanto Diretora de Instalações, apresentei uma candidatura ao então Instituto de Inovação Educacional. O objetivo era simples apenas na aparência: transformar a biblioteca num verdadeiro centro de recursos educativos, um espaço vivo, capaz de inspirar mudança e renovar práticas pedagógicas.
A resposta da comunidade escolar às transformações realizadas foi calorosa e encorajadora. Ainda assim, foi um episódio inesperado que me revelou, com absoluta clareza, o lugar onde queria permanecer enquanto professora. Em maio de 1996, organizei um encontro com José Saramago para alunos do 12.º ano. Durante noventa minutos, a biblioteca deixou de ser apenas uma sala com livros e tornou-se um território de descoberta, escuta e pensamento. Na atenção silenciosa dos alunos, na autenticidade das perguntas, na generosidade do escritor e na intimidade criada naquele encontro, percebi o verdadeiro poder educativo daquele espaço informal de aprendizagem. Foi aí que compreendi que a biblioteca podia transformar vidas.
Se o amor pela leitura e pela literatura me levou até à biblioteca escolar, a chegada da Internet veio redefinir o meu percurso. Em 1997, com o Programa Internet na Escola da UARTE (Unidade de Apoio à Rede Telemática Educativa), surgiu na biblioteca um computador ligado ao mundo. Um momento que me despertou para a urgência de aprender, de compreender as novas linguagens digitais e, sobretudo, de explorar aquilo a que hoje chamamos Literacia da Informação e dos Media (MIL). Pressentia que o novo ecossistema digital iria alterar profundamente a forma como os jovens aprendiam, comunicavam e construíam conhecimento.
Sem o saber, caminhava em sintonia com um movimento maior, que culminaria na criação da Rede de Bibliotecas Escolares – um dos projetos mais sólidos, visionários e transformadores alguma vez lançados no sistema educativo português. Em 1997, tive o privilégio de coordenar a integração da biblioteca de uma escola secundária do concelho do Seixal nessa rede. Entrei, então, numa comunidade de aprendizagem que nunca mais abandonei e à qual continuo profundamente orgulhosa de pertencer.
Começou aí um percurso de formação contínua em torno das chamadas “novas literacias”. Um caminho feito de aprendizagem permanente, experimentação, inovação e reinvenção pedagógica. As rápidas transformações tecnológicas trouxeram desafios, inquietações e momentos de dúvida, mas também um profundo sentido de realização pessoal e profissional. Nunca procurei formação por obrigação administrativa ou para progressão na carreira. Procurei-a sempre por convicção: pela necessidade de acompanhar a mudança e contribuir para uma escola pública mais preparada, mais inclusiva e mais significativa, onde as funções pedagógicas da biblioteca ganham uma importância e centralidade crescentes.
Tal como as aprendizagens se sucederam, os caminhos fizeram-se e, em 2025, por diversas razões, rumei de Setúbal para a região de Coimbra. Pensei em regressar ao quotidiano mais tranquilo e previsível de uma docente de Português, para o qual a minha licenciatura me tinha capacitado. Mas, ao ficar colocada numa escola da periferia, em que a biblioteca era ainda uma sala com documentos em armários fechados, à margem de toda a transformação operada pela Rede de Bibliotecas Escolares, não consegui ignorar a situação e voluntariei-me para ajudar à mudança, culminando na elaboração de uma candidatura à rede nacional, assumindo, a par com a gestão, a coordenação daquele projeto.
Repetia-se o entusiasmo! Também agora as mudanças foram recebidas com aprovação e entusiasmo pela comunidade e, paulatinamente, com a colaboração de um grupo de professores inovadores, com a dedicação de duas assistentes operacionais e com o apoio constante de diferentes coordenadoras interconcelhias, fomos transformando a biblioteca num espaço informal de aprendizagem de todos e para todos, alicerçado na liberdade, na colaboração, na inovação e na partilha de saberes.
Num processo contínuo de melhoria, ao longo dos anos, procurei construir pontes entre a biblioteca e as diferentes áreas disciplinares, trabalhando colaborativamente com professores de várias áreas, concebendo projetos de complementaridade e enriquecimento do currículo. Mas também se conceberam e se desenvolveram projetos e atividades culturais e pedagógicas que procuravam ir além dos conteúdos curriculares, promovendo o crescimento pessoal, o pensamento crítico e o sucesso educativo dos alunos. As iniciativas integradas no Plano Anual de Atividades assentavam sempre em valores humanistas e numa visão ampla da educação: formar cidadãos ativos, conscientes, responsáveis e capazes de enfrentar a complexidade e imprevisibilidade do mundo contemporâneo – competências que hoje reconhecemos no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória.
Mas havia uma realidade que me inquietava: nem todos os alunos participavam nessas dinâmicas. Mais do que uma dificuldade de monitorização, isso representava, para mim, uma questão de justiça e equidade. A escola pública não pode deixar ninguém à margem.
Foi essa preocupação que, a partir de 2020, impulsionou uma nova etapa. Aproveitando as oportunidades criadas pelo Plano de Ação para o Desenvolvimento Digital das Escolas (PADDE), coordenei uma mudança estratégica na ação da biblioteca escolar. O objetivo passou por garantir maior articulação, continuidade e abrangência das atividades desenvolvidas, assegurando que todos os alunos pudessem beneficiar delas.
Este processo continua em construção e só tem sido possível graças ao apoio da RBE, ao compromisso da Direção, das estruturas intermédias de coordenação educativa e supervisão pedagógica, bem como à colaboração de diretores de turma e docentes de diferentes áreas disciplinares.
Mais recentemente, continuei a aceitar os desafios lançados pela RBE, que sempre entendi como oportunidades para reinventar práticas e construir dinâmicas de aprendizagem alinhadas com as competências essenciais do século XXI. Cada iniciativa tornou-se um espaço de experimentação, colaboração e crescimento, onde a biblioteca escolar assumiu um papel cada vez mais central na vida educativa do agrupamento.
A participação no projeto Weiwe(R)BE consolidou esse caminho. Mais do que fortalecer práticas já existentes, permitiu aprofundar a integração curricular da biblioteca e estreitar a colaboração com docentes de diferentes áreas — das Ciências às Línguas Estrangeiras, do Português à Cidadania. O envolvimento de todas as turmas dos anos definidos como público-alvo só foi possível graças ao trabalho articulado entre os dois professores bibliotecários do agrupamento, numa verdadeira lógica de equipa e partilha.
A monitorização contínua das práticas confirmou a relevância do percurso seguido e impulsionou novos horizontes. Em 2024, esse trabalho viu o seu reconhecimento reforçado através do apoio do Programa Proliteracias, que possibilitou, entre outras conquistas, a criação de uma equipa de quatro docentes capacitados para implementar o Programa de Literacias do agrupamento. Ganhámos uma equipa, mas, com ela, multiplicaram-se também os desafios, as responsabilidades e a ambição de chegar mais longe, intensificando, por exemplo, a abordagem da Literacia dos Media e a Literacia da IA neste nosso programa.
Como acontece com tantos professores bibliotecários, sinto, muitas vezes, que os dias não chegam para tudo aquilo que a biblioteca escolar pode ser e fazer dentro da escola, da comunidade. Há sempre mais projetos para concretizar, mais alunos para acompanhar, mais portas para abrir e caminhos a percorrer.
Por isso, tornou-se evidente a necessidade de reforçar a equipa da biblioteca escolar com profissionais preparados para colaborar na implementação destes programas e desafios. Alguns passos já foram dados, mas é indispensável ir mais longe, se quisermos garantir a sustentabilidade e o futuro deste trabalho que, mais do que organizar livros ou atividades, ajuda diariamente a formar cidadãos.
