23.06.2026.png
retalhos

A manta de retalhos: o caminho até à biblioteca

A vida é feita de retalhos. Ponto a ponto, a manta tece-se e as peças encaixam-se, revelando, por fim, o sentido de cada uma delas. Para entender a minha manta, tenho de regressar à infância.

Cresci numa aldeia em Castelo de Paiva, uma “maria-rapaz” feliz entre sete irmãos, dividida entre a liberdade de subir às árvores e a responsabilidade de ser a irmã mais velha. Um dia, a caminho da venda da T’Isabel, avistei uma grande carrinha Citroen cor de laranja, diferente de todos os veículos que já tinha visto até então. A medo, lá me aproximei e entrei. [Acreditem: se eu fechar os olhos, consigo voar até esse momento mágico e reviver cada sensação!] Um feixe de luz entrava pela fresta da janela e, suspensa no ar, a poeira fazia lembrar o pó de fada acabado de ser lançado num encantamento. O cheiro intenso a papel e a madeira entranhava-se na pele e quase se podia saborear. Percorri com o olhar as estantes, onde os livros se encontravam meticulosamente organizados, e fiquei encantada com o facto de saber que podia levar os livros emprestados, sem pagar! Tinha descoberto a Biblioteca Itinerante.

Tornei-me professora do 1.º ciclo e os livros foram sempre a minha bússola pedagógica. Podiam faltar manuais, mas nunca as histórias. Mais tarde, um breve encontro com as bibliotecas escolares, numa altura em que a RBE dava ainda os seus primeiros passos, despertou em mim um “bichinho” que ficou latente durante anos, enquanto trabalhava na cidade.

O desejo de regressar às raízes - ao cheiro da terra e ao trato simples das pessoas - trouxe-me a Escariz, uma pacata freguesia do concelho de Arouca. É aqui que, há três anos, assumo o desafio de ser Professora Bibliotecária. Sou a única num Agrupamento relativamente pequeno, mas composto por escolas dispersas pelo território. Volta e meia lá vou eu com o carro atulhado com os adereços para o «Ases na leitura e escrita», com a «Maleta de histórias», com as caixas do «10 Minutos a Ler», com os livros para as feirinhas… e por caminhos serpenteados, ladeados de floresta autóctone e de campos verdejantes, chego às escolas onde me aguardam pequenos seres ávidos e curiosos, sedentos de histórias e de aventuras. E a magia acontece!

O meu maior receio -o ensino secundário -revelou-se, afinal, uma surpresa feliz. A experiência de ser mãe de duas jovens adultas deu-me a linguagem e a sensibilidade necessárias para criar pontes com estes alunos.

A vida de Professora Bibliotecária é uma tarefa inacabada, exigente, mas profundamente recompensadora. Não o faço sozinha: tenho a sorte de contar com uma equipa dedicada e o apoio incondicional da minha “patroa”, a Dona Inês, uma assistente operacioanl que é também amiga, companheira e o meu melhor “arquivo humano” - daqueles que funcionam mesmo sem internet.

É por isso que, em Escariz, sou feliz!

Todos conhecem a “Professora Manuela da Biblioteca” e eu, embora nem sempre saiba os nomes de todos, já lhes sei os rostos de cor!

por Manuela Barbosa
Professora Bibliotecária
Agrupamento de Escolas de Escariz


Retalhos (3).png
  1. Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
  2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
  3. Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *