por Manuela Barbosa, Professora Bibliotecária do Agrupamento de Escolas de Escariz
A vida é feita de retalhos. Ponto a ponto, a manta tece-se e as peças encaixam-se, revelando, por fim, o sentido de cada uma delas. Para entender a minha manta, tenho de regressar à infância.
Cresci numa aldeia em Castelo de Paiva, uma “maria-rapaz” feliz entre sete irmãos, dividida entre a liberdade de subir às árvores e a responsabilidade de ser a irmã mais velha. Um dia, a caminho da venda da T’Isabel, avistei uma grande carrinha Citroen cor de laranja, diferente de todos os veículos que já tinha visto até então. A medo, lá me aproximei e entrei. [Acreditem: se eu fechar os olhos, consigo voar até esse momento mágico e reviver cada sensação!] Um feixe de luz entrava pela fresta da janela e, suspensa no ar, a poeira fazia lembrar o pó de fada acabado de ser lançado num encantamento. O cheiro intenso a papel e a madeira entranhava-se na pele e quase se podia saborear. Percorri com o olhar as estantes, onde os livros se encontravam meticulosamente organizados, e fiquei encantada com o facto de saber que podia levar os livros emprestados, sem pagar! Tinha descoberto a Biblioteca Itinerante.
Tornei-me professora do 1.º ciclo e os livros foram sempre a minha bússola pedagógica. Podiam faltar manuais, mas nunca as histórias. Mais tarde, um breve encontro com as bibliotecas escolares, numa altura em que a RBE dava ainda os seus primeiros passos, despertou em mim um “bichinho” que ficou latente durante anos, enquanto trabalhava na cidade.
O desejo de regressar às raízes - ao cheiro da terra e ao trato simples das pessoas - trouxe-me a Escariz, uma pacata freguesia do concelho de Arouca. É aqui que, há três anos, assumo o desafio de ser Professora Bibliotecária. Sou a única num Agrupamento relativamente pequeno, mas composto por escolas dispersas pelo território. Volta e meia lá vou eu com o carro atulhado com os adereços para o «Ases na leitura e escrita», com a «Maleta de histórias», com as caixas do «10 Minutos a Ler», com os livros para as feirinhas… e por caminhos serpenteados, ladeados de floresta autóctone e de campos verdejantes, chego às escolas onde me aguardam pequenos seres ávidos e curiosos, sedentos de histórias e de aventuras. E a magia acontece!
O meu maior receio -o ensino secundário -revelou-se, afinal, uma surpresa feliz. A experiência de ser mãe de duas jovens adultas deu-me a linguagem e a sensibilidade necessárias para criar pontes com estes alunos.
A vida de Professora Bibliotecária é uma tarefa inacabada, exigente, mas profundamente recompensadora. Não o faço sozinha: tenho a sorte de contar com uma equipa dedicada e o apoio incondicional da minha “patroa”, a Dona Inês, uma assistente operacioanl que é também amiga, companheira e o meu melhor “arquivo humano” - daqueles que funcionam mesmo sem internet.
É por isso que, em Escariz, sou feliz!
Todos conhecem a “Professora Manuela da Biblioteca” e eu, embora nem sempre saiba os nomes de todos, já lhes sei os rostos de cor!
por Manuela Barbosa
Professora Bibliotecária
Agrupamento de Escolas de Escariz
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- Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
- Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
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