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Ser Professora Bibliotecária é um prazer e uma missão

Desde que me conheço que nutro uma profunda ligação com os livros e com a escrita. Comecei, desde muito cedo, a frequentar as bibliotecas escolares, onde gostava de estudar ou, simplesmente, entreter-me com um bom livro. Em 2010, criei o blogue Histórias Soltas Presas Dentro de Mim, no qual partilho as minhas leituras, acompanhadas de apreciações críticas, bem como textos da minha autoria.  Sou uma leitora “compulsiva”, com um leque de leituras muito diversificado, incluindo literatura infantil e juvenil, o que me facilita o aconselhamento de leituras aos alunos. 

A minha relação com as bibliotecas escolares, em termos profissionais, começou enquanto professora da equipa, durante dois anos, em que as horas que passava na Biblioteca me pareciam sempre escassas. Porém, foram suficientes para me despertar a curiosidade por esta função, que sempre considerei de suma importância. Agradava-me animar leituras, pensar em atividades, expor trabalhos, divulgar leituras e sentia que era ali que gostaria de trabalhar, o que me incentivou a fazer um Mestrado em Ciências Documentais. 

Em 2017, iniciei as minhas funções como professora bibliotecária nas Bibliotecas Escolares do Agrupamento de Escolas do Fundão. Só nesse momento soube, efetivamente, de todas as responsabilidades que este cargo me exigia, o compromisso constante, envolvendo tempo, dedicação, formação contínua, capacidade de gestão e liderança, trabalho colaborativo e empatia. A coordenação das bibliotecas escolares, cargo que assumi desde 2021, implica a articulação com diversos intervenientes da comunidade educativa, promovendo a literacia da informação, o gosto pela leitura e o desenvolvimento de competências essenciais para o sucesso escolar dos alunos.  

Nem tudo é um “conto de fadas” e, no nosso dia a dia, deparamo-nos com muros, com inseguranças, com “Adamastores” que nos fazem sentir pequeninos. Nem sempre se dá o devido valor às bibliotecas, ou se aproveita tudo o que estas podem oferecer, sobretudo no que concerne a um trabalho de articulação. A primeira batalha foi a constituição de uma equipa com elementos dos vários departamentos, que conseguissem levar os projetos e atividades, propostas pela RBE, PNL e outras estruturas, e implementá-las. Ganha esta batalha, reconhecida a Biblioteca com grandes projetos vencedores, como o Metamorfoses, o Ler + Ciência nas suas três áreas, o Media@ção, o Escola a Ler, entre múltiplos outros projetos criados na e com a nossa biblioteca escolar.  

Outro momento crítico foi a pandemia por Covid-19, durante ao qual a biblioteca teve de se adaptar, não prescindindo do empréstimo de livros, através de um “takeaway” e da criação de uma página web da biblioteca em linha, disponibilizando recursos educativos abertos para docentes e alunos, partilhas de leituras enviadas pela comunidade, tutoriais, práticas de ensino à distância e visitas virtuais pelas estantes da biblioteca e museus.  

Outro “Adamastor” que enfrentamos todos os dias, é o desinteresse de grande parte dos alunos pela leitura, para o qual contribuem as novas tecnologias, as múltiplas atividades extracurriculares e a falta de hábitos e incentivo à leitura por parte dos familiares. É preciso pensar e pôr em prática atividades que devolvam aos alunos o interesse pela exploração deste vasto oceano de conhecimento, de desenvolvimento de competências, de entretenimento, de viagem, que é o mar das palavras que cada livro proporciona. E como conseguir uma façanha que se diria “digna de grandes heróis”? É um sem fim de atividades: os baús itinerantes, as leituras dramatizadas, as histórias contadas, as conversas com autores, os clubes de leitura, a partilha de leituras, a aquisição e divulgação constante de livros, entre múltiplas outras que não cabem nestas escassas linhas em que já me alonguei. 

O maior de todos os “Adamastores” é a atribuição de funções “extra”, que nem sempre são da competência do professor bibliotecário e que tiram tempo ao que é, realmente, importante. Gerimos a Comunicação (site e redes do Agrupamento), o GPS (Gabinete de Promoção do Sucesso), a OPTL (Ocupação Plena de Tempos Letivos – através da Ludoteca, do campo de jogos e da Biblioteca) e integramos várias equipas de trabalho. Mas há “Adamastores” que se tornam nossos aliados e que confluem num trabalho mais articulado. 

Apesar de todos estes e outros constrangimentos, o sonho prossegue com ânimo, quer em momentos de grande agitação, quer em oceanos mais calmos e intimistas. Estamos ali para educar, ensinar, motivar e, se necessário for, apoiar com o esclarecimento de dúvidas, a apresentação de novas ferramentas…, ou apenas uma palavra de incentivo, de amizade ou escuta. 

 Num tempo em que a informação circula a uma velocidade vertiginosa e a desinformação se alastra com uma facilidade preocupante, o papel do professor bibliotecário assume uma importância fulcral. Muito mais do que um guardião de livros ou um mediador entre os leitores e o fundo documental, o professor bibliotecário é hoje um agente educativo fundamental na construção de uma escola mais crítica, mais informada e mais inclusiva. 

A biblioteca escolar, enquanto espaço vivo de aprendizagem, diálogo e descoberta, torna-se num verdadeiro laboratório de cidadania. Aqui, todos os alunos, independentemente das suas origens, capacidades ou contextos, encontram um lugar de pertença, onde podem desenvolver competências nas diversas literacias, estimular o pensamento crítico e a autonomia. A presença e o trabalho do professor bibliotecário são, nesse sentido, determinantes. É ele quem guia, inspira, escuta e desafia os alunos a irem mais além, a questionarem o que leem, a validarem fontes, a reconhecerem diferentes perspetivas e a usarem a informação de forma ética e responsável. 

O meu trabalho centra-se também numa colaboração constante e ativa com professores e alunos na criação de percursos de aprendizagem mais ricos, interdisciplinares e inovadores, sempre com o intuito de ver a biblioteca escolar não apenas como um repositório de saberes, mas como um espaço de formação integral, onde se cultivam valores, se cruzam culturas e se semeia o futuro.    

por Célia Gil
Professora bibliotecária
Agrupamento de Escolas do Fundão

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  1. Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
  2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
  3. Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.

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