Num tempo em que a leitura enfrenta múltiplos desafios — da fragmentação da atenção à aceleração do consumo informativo — torna-se cada vez mais urgente trabalhar na mediação de leitura juntos dos jovens. É importante aproximar os alunos a uma diversidade editorial e, essencialmente, a livros e revistas literárias que promovam uma relação mais lenta, reflexiva e exigente com o texto. Esta é uma das razões porque, hoje, divulgamos uma revista literária que se tem vindo a afirmar, no panorama editorial português, como um projeto singular – falamos da Revista Mamute, uma revista de não-ficção literária que aposta em textos ensaísticos, criativos e pessoais em formato longo. Ousamos afirmar que se tratam de textos intimistas e intelectualmente desafiadores, cruzando autobiografia, ensaio e reflexão crítica. A grande maioria dos textos partem da experiência individual para pensar questões sociais, culturais e políticas ou outras sobre a(s) nossa(s) vida(s).
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A Revista Mamute foi idealizada por Gonçalo Mira que confessa aos leitores: “(…) até há muito pouco tempo, quase só lia fiação e poesia, escrevia ficção e poesia, fazia crítica literária de ficção e poesia. Foi só recentemente, nos últimos dois anos, talvez, que comecei a ler mais ensaios, a comprar mais livros de não-ficção, e a descobrir a qualidade literária e a criatividade num tipo de texto em particular, bastante popular no mundo anglo-saxónico, o memoir. No fundo são autobiografias de momentos, em que em vez de o autor contar a sua vida, conta só um período: uma experiência qualquer marcante por que passou ou algo que faz parte da sua identidade.
A razão pela qual não há nenhum termo português bem definido para esse tipo de texto talvez se explique pela sua pouca expressão em Portugal. A Mamute pareceu-me logo uma excelente ideia por causa disso: não havia, propriamente, concorrência; ia divulgar novos autores e promover um género literário que quase não se pratica cá; ia dar voz a temas relevantes para pensar o mundo em que vivemos. “
In Revista Mamute. (2021, inverno). Editorial. Mamute, (1), pp. 7–8.
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Uma novidade no panorama cultural português, a revista Mamute publicou o seu primeiro número no inverno de 2021. Foram editados três números. Como muitos leitores não se cruzaram com a revista, acabou por acontecer uma pausa na sua publicação. Os poucos que a acompanhavam lamentaram a sua ausência e sentiram a sua falta. Em maio de 2025, os leitores da Mamute foram surpreendidos com um renascimento: uma segunda série, ligada à editora Livros Zigurate. Gonçalo Mira lançou o desafio a Susana Moreira Marques para, em conjunto, darem uma nova vida à Mamute.
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Neste momento, os leitores deste artigo deverão estar a questionarem-se: porque razão estamos a divulgar uma revista literária de não -ficção junto dos professores bibliotecários?
Para além da qualidade dos textos, da diversidade dos autores e das temáticas, a Mamute pode ser muito útil em contexto de aula, em atividades na biblioteca, no âmbito da literacia da leitura. Em alguns textos, acolhemos ideias que convidam ao diálogo, incentivando o desenvolvimento do pensamento crítico e reflexivo sobre:
• identidade e construção do eu;
• memória(s);
• experiência vivida como fonte de conhecimento;
• relação entre particular e universal;
• ética do testemunho;
• como criar narrativas? Serão as narrativas importantes para a nossa vida?
Ter a Revista Mamute na Biblioteca Escolar é uma oportunidade para os alunos e os professores.
A leitura de livros pode exigir um compromisso temporal mais prolongado, os textos jornalísticos, presenteiam uma leitura mais orientada para atualidade imediata, a revista literária oferece um valor formativo, uma experiência diferente, singular, uma outra forma de ler o mundo. Ao lerem revistas literárias, textos não-ficção, os jovens compreendem que a literatura se resume aos livros de leitura obrigatória, a textos escolares, muitas vezes cristalizados, ou a livros que poderão não ir ao encontro dos seus interesses, pelo contrário, que está disponível outro modo leitura e escrita. Os textos da Mamute possibilitarão o contacto com abordagens que dialogam diretamente com as inquietações do presente.
Ainda a propósito da questão – porque estamos a divulgar uma revista literária de não -ficção junto dos professores bibliotecários? – Acrescentamos que existem algumas razões para que os estudantes e professores encontrem a Revista Mamute na biblioteca escolar:
- Promove leitura profunda e atenta
Num contexto dominado por leituras fragmentadas, oferece textos que exigem concentração, interpretação e permanência. - Desenvolve o pensamento crítico
A sua natureza ensaística e reflexiva desafia os alunos a questionar, argumentar e estabelecer relações complexas entre experiência individual e realidade coletiva. - Aproxima os jovens da produção literária contemporânea portuguesa
Permite contacto com autores vivos, preocupações atuais e linguagens próximas do presente. - Favorece o trabalho interdisciplinar
Os seus textos podem ser mobilizados em múltiplas disciplinas (como por exemplo: Português, Filosofia, História A e História da Cultura e das Artes, Sociologia, Psicologia ou Cidadania e Desenvolvimento) potenciando articulação curricular, reflexão sobre desigualdade, género, pertença, exclusão, trabalho, saúde mental, corpo, família ou transformação social, entre outros temas. - Valoriza a biblioteca como espaço de descoberta intelectual
Ao integrar diversificação de publicações, como por exemplo a Revista Mamute, a biblioteca escolar afirma-se como lugar de pensamento vivo, de mediação cultural e de experimentação leitora.
Cabe aos professores bibliotecários, enquanto mediadores privilegiados entre livro, leitor(a) e escola, dar visibilidade a novos projetos editoriais, divulgando-os junto dos docentes, promovendo a sua leitura e integrando-os em práticas colaborativas e atividades como clubes de leitura, debates, oficinas de escrita autobiográficas entre outros. A biblioteca escolar deve oferecer o acesso à informação, mas também o acesso a diferentes formas de pensamento crítico, reflexivo, humano e humanizador de compreender o mundo.
