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A biblioteca escolar como o terceiro lugar de bem viver 

O sociólogo americano Ray Oldenburg, no livro The Great Good Place [Os grandes e bons lugares] (1989), defende que cada pessoa, para ter uma vida equilibrada, necessita de 3 lugares fundamentais de pertença e de bem-estar:  

  • Casa – local doméstico e privado;  
  • Trabalho – realização de atividade remunerada; 
  • Terceiro Lugar, que não identifica – ambiente propício à conversa e à socialização inclusiva e informal e onde “a vida em sociedade [e em democracia] pode florescer”, proporcionado o sentimento de comunidade.  

O Terceiro Lugar caracteriza-se por ser um espaço  

  • Neutro e democrático – qualquer pessoa pode entrar livremente, sem obrigação ou compromisso, sendo o estatuto social, económico ou académico irrelevante – valoriza-se o contacto com uma diversidade de pessoas e pontos de vista;  
  • Simples e acessível – na arquitetura e decoração,  com um ambiente acolhedor;  
  • Descontraído – não há uma estrutura hierárquica formal como no trabalho, nem tensões e hostilidades; 
  • Próximo – pela localização e facilidade de acesso, propicia o uso regular e espontâneo;  
  • De ligação social – com frequentadores assíduos, um anfitrião que acolhe, cumprimenta e cria continuidade nas relações.  

“Nesses lugares em que as pessoas se encontram e tomam um café ou uma cerveja, as pessoas passam a conhecer-se mais e a construir e a ampliar o capital social. […] O terceiro lugar também ajuda à construção de sociedades de ajuda recíproca. Nele, as pessoas conhecem-se e experimentam uma diversidade de ocupações, de níveis de educação, e nessa diversidade, podem acumular uma grande quantidade de conhecimento”.  

Oldenburg 

O Terceiro Lugar é comum às grandes civilizações e cidades, apresentando diversas tipologias:  

  • Ágora da Antiguidade grega,  
  • Fóruns de Roma clássica,  
  • Praças de Florença,  
  • Pubs de bairro em Londres,  
  • Casas de chá no Japão,  
  • Igrejas, os cafés, os centros comerciais, os ginásios.  

Refletindo sobre este livro e autor, Danielle Raffaele, no seu estudo Cultivar o «terceiro lugar» nas bibliotecas escolares para promover o bem-estar dos alunos, mostra como a investigação recente identifica as bibliotecas – e, em particular, as bibliotecas escolares – como potenciais novos Terceiros Lugares, de bem viver.   

Segundo Raffaele, diversos estudos sublinham que muitos professores bibliotecários procuram fazer da biblioteca escolar esse Terceiro Lugar de que os alunos necessitam para o seu bem‑estar. E de que forma? 

  • Colocando os alunos no centro, atentos às suas necessidades pessoais, sociais, tecnológicas e ambientais, e ajustando o espaço, coleção e serviços em função dessas necessidades.  
  • Flexibilizando regras tradicionalmente rígidas (por exemplo, sobre conversa, alimentação e bebidas) e alargando os horários de funcionamento para antes e depois das aulas. 
  • Facilitando usos não estritamente curriculares da biblioteca: clubes de leitura e de escrita, oficinas de tecnologias digitais ou de cerâmica, encontros com escritores, makerspaces, campeonatos de xadrez e outras atividades educativas, culturais e recreativas. 

Para que os alunos sintam aquele espaço como seu e passam estar, conviver e passar o tempo. 

Segundo a autora, “As bibliotecas… já não são espaços destinados exclusivamente à leitura de livros e à pesquisa, mas também locais de convívio e encontro”. A componente convivencial e humana, a biblioteca como comunidade de pessoas que interagem, aprendem e se influenciam reciprocamente, é cada vez mais destacada em todos os tipos de biblioteca.  

O papel do professor bibliotecário, devidamente qualificado, é fundamental para a criação do Terceiro Lugar porque é ele quem estabelece relações significativas com os alunos, os acolhe, escuta, trata pelo nome próprio, acompanha ao longo do tempo o seu desenvolvimento, transmite segurança e cuidado e orienta para práticas críticas e responsáveis de aprendizagem, leitura e cidadania, em ambiente presencial e online.  

A biblioteca escolar de que é responsável é principalmente um lugar de Trabalho ou um Terceiro lugar? 

Nota:  

Este artigo é o terceiro de uma série de 3 artigos e parte do conteúdo foi apresentado pela Rede de Bibliotecas Escolares no IV Encontro da Rede de Bibliotecas do Baixo Guadiana – BiblioMargens 2026 – subordinado ao tema “Leituras que transformam: o papel social das bibliotecas”

Os artigos anteriores intitulam-se: 

Responsabilidade Social e Bibliotecas Escolares 

Responsabilidade Social das Bibliotecas Escolares – Contributos para um quadro de referência 

Referências 

Fonte da imagem: Gustafsson, S. (1982). People in a café in Paris, France, in autumn 1982. Europeana. https://www.europeana.eu/pt/item/2021009/_6ECD50E17C56109DAC469AD0AC7FAB61

Oldenburg, R. (1989). The Great Good Place
https://raggeduniversity.co.uk/wpcontent/uploads/2025/01/1_x_ThegreatgoodplaceRayOldenburg2nded.-NewYork-compressed.pdf 

Raffaele, D. (2021). Cultivating the ‘Third Place’  in school libraries to support student wellbeing.  https://slav.vic.edu.au/index.php/Synergy/article/view/489 

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