Confesso que a primeira vez que vi aquela página não esperava o que encontrei.
Há trabalhos que chegam e ficam. Não porque sejam tecnicamente perfeitos — embora este o seja, à sua maneira —, mas porque tocam em qualquer coisa que já estava lá, à espera de ser nomeada. A banda desenhada Um Gesto Simples, de Lara Isabel dos Santos Pereira Duarte, aluna do 12.º ano de Artes Visuais da Escola Secundária Poeta António Aleixo, em Portimão, é um desses casos. Venceu o 1.º Prémio do concurso “A Minha Vida aos Quadradinhos” — escalão B, edição 2025-2026 do projeto READ ON Portugal — e, honestamente, depois de ver o trabalho, percebe-se porquê.
A história cabe numa página. Nove vinhetas, um metro, duas mulheres que não partilham língua nem história. Uma delas deixa cair uma laranja. A outra devolve-a. E é tudo. Ou melhor: é tudo o que acontece no plano da ação. No plano do que a obra diz, é uma outra conversa.
A laranja não é um elemento neutro. No léxico simbólico da história da arte e da literatura, a laranja é o Mediterrâneo, é a partilha, é o gesto que precede a palavra. Lara percebeu-o intuitivamente, ou com a sabedoria adquirida de quem lê e olha muito — e tomou uma decisão que define a página inteira: pintou-a a cor de laranja. Só ela. O resto é preto, branco, tinta de nanquim, hachuras cuidadosas. Quando se percebe o que fez (e demora um segundo, aquele segundo bom em que o olho ainda não avisou o cérebro), é difícil não sorrir. Não porque seja um truque. Porque é a decisão certa, tomada com a convicção de quem sabe o que está a fazer. Pintá-la a cor é dizer: isto é o que importa. Sem legenda. Sem explicação.
O tema desta edição do concurso era Humanismo e Interculturalidade. É o tipo de tema que convida ao discurso grandioso, à dissertação sobre fronteiras e identidades e o encontro do outro, com maiúsculas. Lara recusou tudo isso e comprimiu o mundo inteiro numa página, num metro, entre duas mulheres de mundos diferentes que se entendem sem precisar de partilhar o mesmo idioma. Há uma vinheta com escrita árabe e a tradução em rodapé: Desculpa. Obrigada. É o único texto de toda a história. É suficiente.
O READ ON Portugal existe precisamente para criar condições para que este tipo de trabalho aconteça. Promovido pela Rede de Bibliotecas Escolares em parceria com o Agrupamento de Escolas Carlos Gargaté, o projeto desafia jovens dos 12 aos 19 anos a ler, a escrever, a ilustrar, a participar em festivais de literatura em Portugal e na Europa. A banda desenhada é uma das suas apostas, não como atividade de ocupação de tempos livres, mas como linguagem artística com a mesma seriedade e a mesma exigência de um conto ou de um poema. É bom que assim seja. Porque quando os jovens percebem que podem dizer coisas verdadeiras através de uma página desenhada, às vezes dizem-nas melhor do que de qualquer outra forma.
A biblioteca da escola teve, com certeza, o seu papel neste percurso, como tem, quase sempre, quando um aluno chega a um concurso assim. Não é um papel que se veja muito, nem que peça reconhecimento. É o papel de quem põe o livro certo à frente da pessoa certa, na hora certa, e depois se afasta.
Parabéns à Lara. Pelo talento, claro, mas também pela coragem de contar uma história que começa com uma queda e acaba com a humanidade intacta. Parabéns à Biblioteca da Escola Secundária Poeta António Aleixo pelo ecossistema que tornou isto possível. E bem-haja ao READ ON Portugal por continuar a perguntar aos jovens o que têm a dizer e por levar a sério as respostas.
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