No final do ano letivo, o diretor chamou-me e contou-me que, apesar de ter aberto concurso para a designação de professor bibliotecário, não tinha sido possível colocar ninguém. A escola teria, por isso, de preencher o lugar recorrendo aos docentes nela colocados.
Na sua opinião, eu era a pessoa certa: tinha o perfil adequado, gostava de ler e estava sempre disponível para novos desafios.
Aceitei.
E agora? Por onde começo?
É assim que muitos professores chegam à biblioteca escolar: com vontade de fazer um bom trabalho, alguma curiosidade e muitas perguntas. Alguns acabam por descobrir uma função tão exigente quanto gratificante e por permanecer nela, ano após ano, com dedicação e entusiasmo.
Se acaba de chegar, seja muito bem-vindo à família das bibliotecas escolares. Ficamos muito contentes por o receber e por podermos contar consigo nesta rede feita de pessoas que aprendem, colaboram e crescem em conjunto.
Este texto é para si. Não encontrará aqui todas as respostas — isso seria impossível —, mas encontrará um ponto de partida e alguns caminhos para não se sentir perdido.
Primeiro: não está sozinho
A Rede de Bibliotecas Escolares integra o Departamento de Promoção da Leitura da EduQA, I. P., e cria condições para que as comunidades educativas disponham de bibliotecas capazes de responder aos desafios da educação e das escolas.
A ligação entre a RBE e as escolas é assegurada pelos coordenadores interconcelhios das bibliotecas escolares. Se ainda não conhece o coordenador que acompanha o seu concelho, procure saber quem é e estabeleça contacto. Será uma referência importante para esclarecer dúvidas, conhecer orientações, identificar oportunidades de formação e aproximar-se dos restantes professores bibliotecários do território.
Procure também os colegas que desempenham esta função no agrupamento e no concelho. As bibliotecas escolares trabalham em rede e muito do que inicialmente parece difícil torna-se mais simples quando se partilham perguntas, recursos, experiências e soluções.
Dentro da escola, converse com a direção, com a equipa da biblioteca, com os assistentes técnicos ou operacionais que nela trabalham e, se for possível, com quem anteriormente exerceu a função.
Não tem de descobrir tudo sozinho. Nem de saber tudo no primeiro dia.
Antes de fazer, conheça e escute
Quando se chega a uma biblioteca escolar, é tentador começar imediatamente a preencher o calendário: exposições, concursos, efemérides, encontros, semanas temáticas e muitas outras atividades.
Resista, por alguns dias, a essa tentação.
Antes de decidir o que fazer, procure perceber onde chegou. Conheça a escola, os alunos, os projetos em curso e as necessidades identificadas pela comunidade. Consulte os documentos orientadores do agrupamento e procure saber que lugar ocupa neles a biblioteca. Informe-se sobre o trabalho anteriormente realizado, os projetos que devem continuar e os compromissos já assumidos.
Depois, observe a biblioteca como quem a visita pela primeira vez:
- O espaço é acolhedor, acessível e adequado a diferentes utilizações?
- Os alunos conhecem a biblioteca e os seus serviços?
- Quem a frequenta? Quem raramente entra?
- O horário responde às necessidades da escola?
- A coleção está organizada, atualizada e acessível?
- O catálogo está disponível e é utilizado?
- Existem recursos adequados às diferentes idades, interesses, línguas e necessidades?
- Que equipamentos existem e em que condições se encontram?
- A biblioteca tem uma presença em linha estruturada e útil?
- Quem integra a equipa e como estão distribuídas as responsabilidades?
- Com que docentes, estruturas e parceiros poderá trabalhar?
Escute também os alunos, os docentes e os restantes utilizadores. Pergunte-lhes o que procuram, o que valorizam, o que sentem que falta e o que poderia levá-los a utilizar mais a biblioteca.
Não é necessário resolver imediatamente tudo o que encontrar. Este primeiro diagnóstico serve para reconhecer o que já funciona bem, distinguir o urgente do importante e escolher, de forma fundamentada, os primeiros passos.
Afinal, o que se espera de um professor bibliotecário?
Ser professor bibliotecário é muito mais do que gerir livros ou dinamizar atividades. É exercer uma função docente especializada, com intervenção na organização da escola, nas aprendizagens dos alunos e na construção de uma comunidade mais leitora, informada, crítica e participativa.
O documento Professor bibliotecário: um profissional em ação identifica cinco dimensões complementares da função: liderança, desenvolvimento profissional, ação pedagógica, gestão e serviços, e práticas e avaliação.
Não encare estas dimensões como uma lista de tarefas que tem de dominar imediatamente. Leia-as como um mapa para um percurso que agora começa.
Liderar é construir relações
O professor bibliotecário participa na definição das prioridades educativas da escola e contribui para que a biblioteca seja reconhecida como uma estrutura pedagógica.
Essa liderança não depende de fazer tudo sozinho nem de organizar a iniciativa mais vistosa. Constrói-se através da capacidade de escutar, apresentar propostas fundamentadas, mobilizar pessoas, criar relações de confiança e demonstrar como a biblioteca pode ajudar a responder às necessidades da escola.
A articulação com a direção, o Conselho Pedagógico, os departamentos, os conselhos de docentes, os diretores de turma e outras estruturas é essencial. Não se trata apenas de lhes contar o que a biblioteca fez, mas de participar nas decisões e de construir trabalho em conjunto.
Comece por estabelecer relações. Os projetos virão depois.
Não precisa de saber tudo — precisa de continuar a aprender
A gestão de uma biblioteca escolar mobiliza conhecimentos muito diversos: leitura e literatura, currículo, literacias da informação e dos media, tecnologias digitais, inteligência artificial, organização da coleção, comunicação, avaliação e gestão de projetos, entre outros.
É natural que algumas destas áreas sejam novas.
Identifique aquilo que mais precisa de aprender e procure formação, orientação e colaboração. Participe nas reuniões e comunidades de prática promovidas pela RBE, pelos coordenadores interconcelhios e pelas redes locais. Observe o trabalho de outros professores bibliotecários, faça perguntas e partilhe também aquilo que vai descobrindo.
O desenvolvimento profissional faz parte da função. Não é sinal de fragilidade reconhecer que ainda não se sabe; é sinal de profissionalismo procurar aprender.
Formar leitores capazes de compreenderem o mundo
A leitura deve ocupar um lugar central na ação da biblioteca escolar.
Isso não significa apenas assinalar datas, organizar concursos ou convidar autores. Estas iniciativas podem ser importantes, mas não substituem práticas regulares, continuadas e adequadas às diferentes idades e percursos.
Importa criar condições para que os alunos leiam por prazer e para aprender, conversem sobre o que leem, escrevam com diferentes finalidades, desenvolvam a oralidade e encontrem nos livros formas de compreender melhor a si próprios, os outros e o mundo.
Este trabalho começa cedo, acompanha os alunos ao longo da escolaridade e procura chegar também aos que leem menos, revelam maiores dificuldades ou ainda não encontraram livros capazes de os conquistar.
A leitura literária, as artes, a cultura e o património abrem espaço ao conhecimento, à imaginação, à sensibilidade e ao encontro com diferentes histórias, identidades e modos de viver. Através deles, a biblioteca ajuda a formar leitores mais atentos, empáticos, autónomos e participantes.
Sempre que possível, trabalhe com os docentes desde o planeamento. Identifique conteúdos, competências e dificuldades em que a biblioteca possa acrescentar valor. Mais do que receber uma turma para uma atividade isolada, procure construir percursos de aprendizagem articulados com o currículo.
Formar cidadãos capazes de se orientarem no ecossistema informacional
Os alunos vivem num ambiente marcado pela abundância de informação, pela desinformação, pelos algoritmos, pelas redes sociais e pela inteligência artificial.
Saber utilizar ferramentas já não chega. É necessário compreender como a informação é produzida, selecionada, apresentada, recomendada e difundida.
A biblioteca deve ajudar os alunos a formular perguntas, pesquisar, selecionar e comparar fontes, reconhecer critérios de credibilidade, distinguir factos de opiniões, identificar intenções e produzir e comunicar informação de forma ética e responsável.
Este trabalho deve abranger todos os níveis de ensino, ser progressivamente mais complexo e estar articulado com o currículo. Sempre que possível, professor bibliotecário e docentes planeiam, ensinam e avaliam em conjunto.
Mais do que responder a cada nova ferramenta com uma atividade ocasional, importa formar alunos capazes de pensar antes de aceitar, partilhar ou produzir conteúdos — com ou sem inteligência artificial.
Gerir para que tudo isto seja possível
A ação pedagógica depende das condições que a sustentam.
O professor bibliotecário deve conhecer e cuidar do espaço, da coleção, do catálogo, dos equipamentos, dos serviços, da equipa, do orçamento e da presença digital da biblioteca. Tudo deve ser organizado em função dos utilizadores e das aprendizagens que se pretende promover.
Observe se o espaço é acolhedor, acessível e suficientemente flexível para permitir diferentes formas de leitura, trabalho, criação, colaboração e lazer. Verifique se os horários, as regras e a organização facilitam ou dificultam a utilização da biblioteca.
A coleção física e digital deve ser conhecida, tratada, atualizada e divulgada. Deve responder às diferentes idades, interesses, línguas e necessidades existentes na escola, oferecendo simultaneamente qualidade, diversidade e oportunidades de descoberta.
A biblioteca deve também apoiar os utilizadores no acesso, na seleção e na avaliação da informação. A sua presença em linha não pode limitar-se à divulgação de atividades: deve prolongar no digital os serviços prestados no espaço físico e facilitar o acesso à leitura, à pesquisa e a recursos criteriosamente selecionados.
Uma biblioteca bem organizada não é um fim em si mesma. É a condição para que mais pessoas possam ler, aprender, pesquisar, criar e participar.
Fazer da biblioteca um lugar de todos
Observe quem utiliza a biblioteca, mas também quem não entra nela.
Procure perceber que obstáculos — físicos, culturais, linguísticos, sociais ou emocionais — podem estar a afastar alguns alunos. Reveja os espaços, os recursos, as regras e as propostas à luz da diversidade real da escola.
Uma biblioteca inclusiva cuida da forma como recebe, comunica e se relaciona. Oferece diferentes possibilidades de participação, respeita ritmos e necessidades e cria condições para que todos possam ler, aprender, expressar-se e sentir que aquele espaço também lhes pertence.
O bem-estar não exige necessariamente mais um projeto. Está presente na organização e na estética do espaço, na acessibilidade dos recursos, na qualidade das relações, na segurança dos ambientes físicos e digitais e na possibilidade de cada pessoa encontrar um lugar para ler, trabalhar, conversar ou simplesmente estar.
Avaliar para melhorar
Desde o início, pense em como saberá se o trabalho realizado está a produzir resultados.
Não espere pelo final do ano para procurar números, trabalhos, opiniões ou outros indícios do impacto da biblioteca. Defina objetivos claros e recolha evidências simples, mas significativas, ao longo do processo.
Quantos alunos participaram é uma informação útil, mas não chega. Importa perceber o que aprenderam, o que mudou, que dificuldades persistem, que públicos não foram alcançados e o que deve ser melhorado.
O Modelo de Avaliação da Biblioteca Escolar poderá ajudá-lo a conhecer as diferentes áreas de intervenção da biblioteca, a planear a avaliação e a integrar os seus resultados na autoavaliação da escola.
Avaliar não é apenas prestar contas. É compreender para decidir melhor.
O que fazer, então, nas primeiras semanas?
Cada escola e cada biblioteca têm uma história própria, mas poderá começar por:
- reunir com a direção e clarificar expectativas, prioridades e condições de funcionamento;
- contactar o coordenador interconcelhio;
- conhecer a equipa e distribuir responsabilidades;
- consultar os documentos da escola e o trabalho anteriormente desenvolvido;
- conhecer os espaços, a coleção, o catálogo, os equipamentos e os serviços;
- identificar projetos, parcerias e compromissos em curso;
- ouvir alunos, docentes e outros utilizadores;
- estabelecer ligação com as estruturas pedagógicas;
- identificar duas ou três necessidades que exijam uma resposta mais rápida;
- definir objetivos possíveis e formas simples de acompanhar os resultados;
- preparar um plano de ação realista, articulado com os objetivos da escola.
Não precisa de transformar tudo no primeiro período. Um plano mais pequeno, coerente e concretizável será mais útil do que uma longa lista de atividades que dificilmente produzirá mudanças duradouras.
É no quotidiano que se constrói o essencial
Uma biblioteca dinâmica não é necessariamente aquela que apresenta o calendário mais preenchido ou realiza a iniciativa mais espetacular.
As celebrações, exposições, concursos e encontros podem ter grande valor, mas não substituem o trabalho regular de promoção da leitura, formação para as literacias, apoio ao currículo, organização dos serviços e acolhimento dos utilizadores.
É no quotidiano que se constrói o essencial:
- no aluno que encontra um livro capaz de o conquistar;
- na turma que aprende a formular uma pergunta e a procurar respostas;
- no docente que passa a reconhecer a biblioteca como parceira;
- no jovem que começa a avaliar uma informação antes de a partilhar;
- no aluno recém-chegado que encontra livros, pessoas e propostas em que se sente incluído;
- na comunidade que reconhece a biblioteca como um lugar seu.
Não é o brilho de um dia. É a luz de todos os dias.
É hora de começar
Já sabe que não tem de fazer tudo de uma vez e que não tem de o fazer sozinho.
Conheça a biblioteca e a escola. Escute os seus utilizadores. Procure o coordenador interconcelhio. Trabalhe com a equipa e com os outros docentes. Escolha por onde começar. Defina objetivos possíveis. Observe os resultados e melhore o que for necessário.
E, pelo caminho, explore o Portal RBE, onde encontrará orientações, recursos, propostas, formação e práticas que poderão apoiar o seu trabalho.
Bem-vindo à Rede de Bibliotecas Escolares.
Bom trabalho!