No âmbito do IV Encontro da Rede de Bibliotecas do Baixo Guadiana — BIBLIOMARGENS 2026, decorrido em Vila Real de Santo António, no dia 26 de maio 2026, subordinado ao tema «Leituras que transformam: o papel social das bibliotecas», a Biblioteca Municipal António Vicente Campinas (VRSA) apresentou a comunicação «A Biblioteca em Ação: Leitura, Mediação e Transformação Social», dando a conhecer dois dos seus projetos educativos, intitulados «Da Leitura à Ação» e «Modos de Ver», implementados nas escolas em estreita articulação com as Bibliotecas Escolares do concelho.
Ambos idealizados por este serviço e enquadrados na oferta educativa do município de VRSA, os projetos ilustram, por via de abordagens distintas, o papel das bibliotecas enquanto espaços de aprendizagem, reflexão e participação, partilhando de uma mesma convicção: que a leitura e a mediação cultural se constituem como ferramentas fundamentais para compreender o mundo, desenvolver o pensamento crítico e promover uma cidadania mais consciente e participativa.
Num contexto social marcado pela complexidade dos desafios contemporâneos, as bibliotecas assumem um papel cada vez mais relevante na formação integral dos cidadãos, criando oportunidades para que crianças e jovens possam não só desenvolver hábitos de leitura, mas também de questionamento, diálogo e construção de conhecimento a partir das suas experiências e dos diferentes modos de interpretar a realidade.
Da leitura à ação: ler para transformar a realidade do dia a dia
Desenvolvido por Helena Vitória, o projeto «Da Leitura à Ação», direcionado ao 2º ciclo, articula a promoção da leitura com a educação para a cidadania e para o desenvolvimento sustentável.
Em torno dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), os participantes são convidados a explorar obras literárias que servem de ponto de partida para a reflexão sobre temas sociais e ambientais relevantes. As sessões desenvolvem-se em três momentos distintos, mas complementares — leitura, sensibilização e atividade prática — procurando transformar a experiência de leitura numa oportunidade de participação ativa.
As atividades que tiveram lugar neste último ano letivo centraram-se em questões relacionadas com a proteção da vida terrestre, o bem-estar animal e a responsabilidade individual e coletiva perante os desafios da sustentabilidade. A leitura de obras como Eu sou o Nico…, de Maria do Rosário Proença, Posso ser o teu cão?, de Troy Cummings e Como funciona a professora, de Susanna Mattiangeli e Chiara Carrer, permitiu abordar temas como a empatia, a valorização profissional docente, a adoção responsável e o respeito pelos animais. Através de jogos, desafios e dinâmicas participativas, os alunos foram incentivados a relacionar as histórias com situações concretas do seu quotidiano, refletindo sobre a forma como pequenas ações podem contribuir para mudanças significativas.
Esta relação entre leitura e intervenção revela-se particularmente eficaz na promoção de atitudes de responsabilidade e envolvimento cívico, sendo que os resultados observados demonstram que a literatura pode constituir um poderoso instrumento de sensibilização e transformação, estimulando não apenas o gosto pela leitura, mas também a capacidade de agir de forma consciente perante os problemas da comunidade e do mundo.
Modos de ver: aprender a olhar para aprender a pensar
Complementando esta dimensão de cidadania ativa, Miguel Godinho concebeu o projeto «Modos de Ver», uma oficina de literacia visual dirigida aos alunos dos 2.º e 3.º ciclos do ensino básico.
Partindo da obra e do pensamento de John Berger e do livro Faz Diferença, de Jacinto Lucas Pires, a iniciativa procura desenvolver competências de observação, interpretação e pensamento crítico através da análise de imagens, obras de arte, fotografias e textos.
A proposta assenta na ideia de que ver não é um ato passivo. A forma como interpretamos aquilo que observamos é influenciada pelos nossos conhecimentos, emoções, experiências e crenças. Como tal, aprender a olhar implica também aprender a questionar.
Ao longo das sessões, os participantes são convidados a observar, discutir e interpretar diferentes materiais visuais, confrontando perspetivas e descobrindo que uma mesma imagem pode suscitar múltiplas leituras. A reflexão coletiva torna-se, assim, um exercício de construção de significado e de valorização da diversidade de pontos de vista.
Num tempo em que a informação circula (e é consumida) de uma forma cada vez mais rápida, muito por via de imagens e conteúdos visuais, a literacia visual assume uma importância crescente. Desenvolver a capacidade de analisar criticamente aquilo que se vê constitui uma competência essencial para a compreensão da realidade e para o exercício de uma cidadania informada.

As Bibliotecas como espaços de mediação e pensamento
Apesar das diferenças temáticas e metodológicas, os dois projetos convergem num objetivo comum: criar experiências educativas significativas que possam promover a participação, a reflexão e a construção de conhecimento.
Tanto no projeto «Da Leitura à Ação» como em «Modos de Ver», a biblioteca surge como um espaço de mediação cultural onde a leitura promove a cidadania, a arte, a ética e a compreensão do mundo. Mais do que transmitir conteúdos, estas iniciativas pretendem estimular perguntas, fomentar o debate e desenvolver competências que permitam aos participantes interpretar a realidade de forma autónoma e crítica.
Esta abordagem evidencia a evolução das bibliotecas enquanto agentes educativos e culturais capazes de responder aos desafios do século XXI, promovendo diferentes formas de literacia e contribuindo para a formação de cidadãos mais conscientes, participativos e preparados para enfrentar os desafios e a complexidade do mundo contemporâneo.
Leituras que transformam
As experiências apresentadas pela Biblioteca Municipal António Vicente Campinas constituem assim exemplos da forma como estes projetos podem ultrapassar os limites tradicionais da promoção do livro, assumindo-se como instrumentos de desenvolvimento pessoal, social e cultural.
Ao aproximar os jovens da literatura, da arte e da reflexão crítica, estas iniciativas demonstram que ler também é aprender a observar, a compreender e a agir.
Por isso mesmo, e embora a promoção da leitura permaneça uma missão fundamental das bibliotecas, importa, cada vez mais, criar condições para que os leitores possam desenvolver competências de análise, reflexão e intervenção, tornando-se cidadãos críticos e participativos. Será esse, hoje em dia, o maior desafio das Bibliotecas.
por Miguel Godinho e Helena Vitória
Biblioteca Municipal Vicente Campinas / Divisão de Cultura e Educação
Câmara Municipal de Vila Real de Santo António