A 21 de abril de 2026, o auditório do Centro Cultural Convento de S. José, em Lagoa, encheu-se de uma energia simultaneamente familiar e incomum: a energia própria de quem exerce um direito pela primeira vez com a consciência plena do que isso significa. Mil seiscentos e oito alunos, do 1.º ciclo ao ensino secundário, tornaram-se por um dia eleitores — e fizeram-no com uma seriedade e uma exuberância que desmentem qualquer ceticismo sobre a capacidade das novas gerações para habitarem o espaço democrático.
A iniciativa “Miúdos a Votos”, da Rede de Bibliotecas Escolares, propõe um exercício que é, simultaneamente, simples na forma e profundo na intenção: replicar, com rigor, todas as etapas de um processo eleitoral real, tendo o livro como candidato e o leitor como eleitor soberano. Da campanha à contagem de votos, passando pelo recenseamento e pelo ato solene da votação, os alunos de Lagoa percorreram cada momento com o empenho de quem sabe que está a aprender algo que ficará. E os números confirmam-no: 1396 votos válidos, uma taxa de participação de 86,8%, com apenas seis votos em branco e quarenta nulos. São dados que qualquer assembleia de adultos subscreveria com orgulho.
Mas os números, por si só, dizem pouco. O que este projeto revela, antes de mais, é a qualidade do trabalho pedagógico desenvolvido durante meses pelas bibliotecas do concelho — um trabalho silencioso, continuado, que transforma o livro num pretexto para pensar o mundo e o voto num ato de escolha informada e fundamentada. Os quatro livros vencedores — Coelho vs Macaco, de Jamie Smart, no 1.º ciclo; Avozinha Gângster, de David Walliams, no 2.º ciclo; A Criada, de Freida McFadden, no 3.º ciclo; e Culpados: Culpa Minha, de Mercedes Ron, no secundário — não são apenas títulos eleitos. São retratos de comunidades de leitores com sensibilidades próprias, com gostos construídos, com critérios.
O programa do dia soube articular duas dimensões que demasiadas vezes são tratadas como separadas: a palavra como fruição estética e a palavra como intervenção cívica. A primeira mesa redonda, moderada pela professora bibliotecária Clélia Pereira, reuniu a escritora Andreia Salgueiro, o escritor e poeta Pedro Freitas — O Poeta da Cidade — e o ilustrador Carlo Giovani, numa conversa sobre a urgência de dotar as crianças de ferramentas literárias e estéticas para lerem e intervirem no mundo. A plateia jovem não se limitou a ouvir: as suas perguntas foram incisivas, reveladoras de uma curiosidade intelectual que só se cultiva quando a biblioteca escolar funciona, de facto, como espaço vivo de pensamento e de encontro.
A segunda mesa trouxe ao palco o presidente da Assembleia Municipal de Lagoa, José Águas da Cruz, o presidente da Câmara Municipal, Luís Encarnação, e a vereadora da Educação, Ana Martins — moderados pelo jornalista Rui Santos, da Lagoa Informa. O que se seguiu foi algo mais do que uma sessão informativa: foi um debate maduro sobre sustentabilidade do território, identidade local e representatividade juvenil nos processos de decisão. O Município de Lagoa demonstrou, de forma concreta, que escutar genuinamente as gerações mais jovens não é um gesto simbólico — é uma escolha política com consequências reais.

Neste percurso, a biblioteca afirma-se pelo que sempre foi, quando funciona no seu melhor: uma infraestrutura de mediação entre o leitor e o texto, entre o presente e a memória cultural, entre a escola e a comunidade. É ela que cria as condições para que um livro se torne candidato e um aluno se torne eleitor consciente. É ela que transforma o ato de votar num ato de leitura, e o ato de ler num exercício de cidadania. “Miúdos a Votos” é, em última análise, um projeto da RBE sobre o que as bibliotecas escolares fazem todos os dias — e que raramente recebe o reconhecimento que merece.
Parabéns à comunidade educativa, aos professores bibliotecários e ao Município de Lagoa. Este foi um dia de referência — e uma prova de que o futuro da cidadania democrática se constrói hoje, com livros, com votos e com a voz livre dos jovens.
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