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Blogue RBE

Sex | 24.09.21

Centenário de Paulo Freire II: A escola deve intervir na realidade

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Em setembro comemora-se o centenário de nascimento do humanista e pedagogo brasileiro Paulo Freire (19 de setembro de 1921 – 1997), fonte de inspiração quando se pensa a educação e a escola – e a biblioteca – em ligação a um propósito social, de libertação e emancipação, individual e coletivo, face à opressão/ autoritarismo e mentira/ desinformação.

Da experiência de educação de adultos ao Plano Nacional de Alfabetização, cuja implementação inicia em 1964 e à sua vasta obra, da qual se destaca Pedagogia do Oprimido, de 1974, há três ideias que destacamos porque podem ajudar à valorização da escola – e da biblioteca – na comunidade e à recuperação. Ontem, apresentamos uma dessas ideias, hoje, damos continuidade.

“Quero aprender a ler e a escrever”, disse uma analfabeta do Recife, ‘para deixar de ser sombra dos outros.’” 1

O modelo de educação contextualizado proposto por Paulo Freire, apresentado na publicação de ontem, é libertador porque incentiva a ação transformadora baseada na reflexão crítica (praxis) que visa a superação das formas de desumanização/ desigualdade e de manipulação/ alienação, bem como a emancipação/ autonomia e realização.

Na atualidade a disseminação de desinformação na internet, que põe em causa democracia, liberdades e saúde pública, faz com que os media seja um campo essencial de alfabetização e crítica. No contexto de utilização em massa da televisão, afirma Freire: “Como educadores e educadoras progressistas não apenas não podemos desconhecer a televisão mas devemos usá-la, sobretudo, discuti-la. Não temo parecer ingênuo ao insistir não ser possível pensar sequer em televisão sem ter em mente a questão da consciência crítica. É que pensar em televisão ou na mídia em geral nos põe o problema da comunicação, processo impossível de ser neutro. Na verdade, toda comunicação é comunicação de algo, feita de certa maneira em favor ou na defesa, sutil ou explícita, de algum ideal contra algo e contra alguém, nem sempre claramente referido2.

Porque incentiva e acelera a consciencialização e exercício de direitos e deveres, a equidade e justiça social, a escola contribui para o bem comum e possui um propósito político – “Ninguém pode estar no mundo e com os outros de forma neutra. Não posso estar no mundo de luvas nas mãos constatando apenas. A acomodação em mim é apenas caminho para a inserção, que implica decisão, escolha, intervenção na realidade” 3. Apresenta propostas pedagógicas cooperativas, que mobilizam parcerias adaptadas à vida dos alunos - famílias, autarquia, bibliotecas municipais e instituições culturais, outras escolas e universidades, organizações não governamentais, media e outras empresas – e que reforçam o seu envolvimento na sociedade (escola cidadã).

Na perspetiva freiriana o professor é um mediador que cria ambientes/ contextos em que todos se sentem acolhidos para participar, partilhando opiniões, inquietações, frustrações, desejos e esperanças. Mais do que dar respostas, o papel do professor é gerar questões/ dúvidas, propor desafios, provocando a curiosidade – “Como professor devo saber que sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino” 4 - e a necessidade de aprender – “Quando entro em uma sala de aula devo estar sendo um ser aberto a indagações, às perguntas dos alunos, a suas inibições; um ser crítico e inquiridor, inquieto em face da tarefa que tenho – a de ensinar e não a de transferir conhecimento” 5.  

 

Referências

1. Freire, P. (1967). Educação como prática de liberdade https://cpers.com.br/wp-content/uploads/2019/09/5.-Educa%C3%A7%C3%A3o-como-Pr%C3%A1tica-da-Liberdade.pdf

2. Freire, P. (1996). Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. https://cpers.com.br/wp-content/uploads/2019/09/9.-Pedagogia-da-Autonomia.pdf

3. Ibid.

4. Ibid.

5. Ibid.

 

Fonte da imagem: “Mural de Paulo Freire na Faculdade de Educação e Humanidades da Universidade do Bío-Bío, Chile”.Wikipedia, a enciclopédia livre. https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Freire#/media/Ficheiro:Painel.Paulo.Freire.JPG