Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Já se encontra disponível o relatório da 1ª fase do estudo Crianças e internet: usos e representações: a família e a escola, coordenado por Ana Nunes de Almeida, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, comissária  e interveniente na conferência "Infância, Crianças e Internet," a decorrer na Gulbenkian .
Para a realização do estudo foi aplicado um questionário a  3039 crianças e jovens dos 1º, 2º e 3º ciclos do ensino básico, maioritariamente entre os 10 e os 15 anos de idade. Estiveram envolvidas 50 escolas, públicas e privadas, pertencentes às 5 Direcções Regionais de Educação.
Um estudo fundamental para o conhecimento e reflexão sobre o uso da Internet no meio familiar e na escola, do qual citamos, aqui, algumas notas conclusivas:

A introdução das novas tecnologias de informação e comunicação no quotidiano das crianças é um facto incontornável. Os resultados do inquérito ilustram um quase universal acesso ao computador com ligação à internet. Contudo, apesar desta notável inovação que parece atingir largas franjas de população infantil, descobrem-se alguns sinais de diferença no interior da tendência marcante. Na perspectiva das crianças, e apesar da presença e até por vezes abundância de equipamentos na escola (ex.: nº de computadores, nº computadores ligados à internet, existência de banda larga), os usos da internet no processo de ensino-aprendizagem ficam bem aquém do retrato desenhado pelas estatísticas oficiais ou pelos testemunhos recolhidos junto dos próprios dirigentes dos estabelecimentos de ensino. No campo educativo, as crianças dizem usar pouco a internet na sala de aula, na relação com a escola ou com os professores; muito raramente é introduzida no ensino de disciplinas curriculares que não as TIC ou a Área de Projecto. A internet é utilizada sobretudo como complemento ou enriquecimento de tarefas e de trabalhos escolares que, antes, se faziam sem ela. Na escola, na sala de aula, a navegação na net é directivamente feita sob encomenda (do professor), enquadrada em objectivos pré-definidos, com restrições de tempo. A exploração a céu aberto, o deambular nómada e sem horário entre sites e conteúdos, o ensaio experimental de novas competências ou funcionalidades podem certamente em alguns casos ocorrer na escola, aliás sobretudo fora das aulas. Porém, estas actividades concentram-se, por excelência, no espaço extra-escolar.
A casa é, assim, um lugar estratégico de aprendizagens – onde a internet constitui não só um recurso educativo, mas também informativo, lúdico e comunicacional. A partir de casa a criança entra no espaço global, exercitando-se como indivíduo activo, decisor e investigador por conta própria, tirando partido e construindo o seu lugar na cultura de pares. (…). É muito expressiva a parcela de inquiridos que afirma ter aprendido a navegar “sozinho”; por outro lado, a esmagadora maioria das crianças declara ser a pessoa que mais a usa a internet em casa, como também se considera auto-suficiente na gestão dos seus canais de comunicação e informação, nas modalidades de descoberta e visita de páginas Web.
Fora da escola continua a jogar-se muita da aquisição da literacia digital, dos seus usos mais sofisticados, gratificantes e multifacetados; e também a modernidade da condição infantil. Daí o facto de as formas mais persistentes de clivagem digital continuarem a actuar a partir de casa, distinguindo crianças escolarizadas, cujos pais são eles próprios consumidores intensivos destes bens e serviços, utilizadores profissionais e competentes de novas TIC, os quais as iniciam e acompanham no seu uso, das crianças com origens sociais desfavorecidas, residentes em áreas não-urbanas do País, cujos pais mais dificilmente suportam (ou compreendem) a relevância da compra do acesso doméstico à internet (a que se somarão as deficiências de cobertura dos serviços de acesso à internet por parte dos diversos operadores comerciais). E daí a urgência de a escola repensar o lugar e o estatuto da internet no sistema de ensino-aprendizagem, de modo a proporcionar a todas as crianças, no espaço escolar, os seus diversificados níveis de domínio. (…) Se a escola, para além do acesso, não oferecer a todos os seus alunos esse uso de qualidade e plurifacetado estará a vedar às crianças com origens familiares desfavorecidas o acesso a novas oportunidades de aprendizagem, de consolidação de competências digitais criativas e, até, de integração na cultura dominante de pares.

Crianças e internet: usos e representações: a família e a escola >>



RBE


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Twitter



Perfil SAPO

foto do autor