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Blogue RBE

Qui | 21.04.22

UNESCO: Conhecimento como herança da humanidade

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O relatório global sobre educação da UNESCO, Reimaginar os nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação, considera que é necessário um novo paradigma da educação que permita transformar o mundo, tornando-o mais inclusivo, pacífico e sustentável.

Coloca três questões que exigem reflexão e ação por parte dos profissionais da educação e professores bibliotecários:

A. O que devemos continuar a fazer?

B. O que devemos abandonar?

C. Que necessidades podem ser criativamente inventadas de novo?

 

O resumo deste relatório, elaborado pela IFLA [1], propõe uma quarta questão:

D. Qual é o papel das bibliotecas, bibliotecários e profissionais da informação a imaginar e cocriar este novo contrato social?

Estas questões orientam a abordagem de todos os tópicos do relatório, inclusive do currículo, sobre o qual incidiremos esta reflexão [2] que continua em próximos artigos do blogue da Rede de Bibliotecas Escolares.

O currículo exige uma abordagem crítica, sobre “O que deve ser aprendido” e “O que deve ser desaprendido”, de modo a construir uma base comum de conhecimento que permita reimaginar (construir uma visão futura partilhada) rotinas e práticas para a transição sustentável.

Até 2050, horizonte temporal para pôr em prática as principais ideias do relatório, literacias, numeracia, artes, tecnologias digitais e cidadania, focadas nas alterações climáticas, ciência e direitos humanos, são as principais áreas de trabalho da educação para todos ao longo da vida.

A reconceptualização do currículo leva a considerar simultaneamente o conteúdo (o que) e a forma (competências) como o conhecimento é gerado, documentado, reexaminado e posto em prática.

Neste artigo consideraremos o currículo no seu propósito de justiça, inclusive ambiental, da ecocidadania.

 

“A educação deve capacitar as pessoas para corrigir omissões e exclusões nos conhecimentos comuns e assegurar que é um recurso duradouro e aberto que reflete a diversidade de formas de conhecer e ser no mundo.”

UNESCO, 2021

 

1. Currículos para a co-construção de um modelo de conhecimento justo e reparador

Segundo a UNESCO, historicamente a formação tradicional do conhecimento tem contribuído para “a construção de barreiras/ divisões e reprodução de desigualdades” geradoras de discriminação, ódio e conflitos. Propriedade de uma elite que, através dele, mantém a sua hegemonia nos diversos setores da sociedade, o conhecimento tradicional é intencionalmente incompleto (apresenta “exclusões”) e “requer correções”.

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“Rica tapeçaria de diferentes caminhos para saber e ser” [3].

 

Na sociedade cosmopolita em que vivemos, o conhecimento deve constituir “herança de toda a humanidade” e contribuir para “o enriquecimento e bem-estar coletivo”

Porém, para que reúna as perspetivas epistemológicas de todos, é necessária a cocriação de “justiça epistémica, cognitiva, reparadora”, que exige envolvimento de todos.

Este é um processo libertador, que passa pela discussão crítica de preconceitos, hierarquias e formas de exploração, herdadas e arbitrárias, bem como pela valorização de novas abordagens que alarguem o modelo lógico-verbal de raciocínio, através da crítica, experimentação, criatividade, cooperação, projetos e resolução de problemas.

O currículo decorrente desta visão unificadora do conhecimento é aberto e comum/ partilhado - resulta da interação e envolvimento de todos, não tem limites fixos essenciais - as diversas disciplinas refletem a complexidade do mundo e “nunca é organizado como ‘conhecimento completo’, mas sim informado por um conhecimento que liga diferentes gerações, transmite o património cultural e dá espaço para revisão e atualização.”

A lecionação das suas diferentes áreas deve iniciar-se com enquadramento histórico e diálogo intergeracional e a aprendizagem deve entender-se como re-significação de conteúdos e abordagens.

 

“Ele [o relatório] imagina salas de aula quebrando muros e ligando-se ao mundo lá fora, a escola sendo aberta e flexível e ajudando aprendentes a aceder a recursos sociais, culturais e ambientais mais vastos.”

IFLA, 2022

 

2. Currículos de reconstrução ambiental

Todas as áreas da educação devem preparar os estudantes para responderem à “urgência da sustentabilidade ambiental”, devendo abandonar três ideias centrais da fabricação do conhecimento moderno:

- O mundo é objeto exterior (“lá fora”) ao ser humano, destinado simplesmente a ser conhecido;

- O homem ocupa posição privilegiada (“excecionalismo”), de domínio face aos outros seres;

- O homem tem uma atitude de arrogância perante a natureza - “dono e senhor” (Descartes).

 

“Devemos repensar e reimaginar os currículos” para que os estudantes possam aprender que:

- O ser humano pertence e está ligado aos ecossistemas naturais;

- Deve manter para com eles uma atitude respeitosa e responsável (ética do cuidado);

- Modelos económicos baseados no aumento da produção e consumo são incompatíveis com os limites do planeta e futuro da vida na Terra;

- Há formas de adaptação, mitigação e inversão da crise ambiental que se traduzem na mudança de valores, hábitos, práticas e estilos de vida;

- Os países ricos contribuem em muito maior escala para alterações climáticas irreversíveis e destruição maciça de biodiversidade e os países pobres sofrem desproporcionalmente mais os seus efeitos.

 

“Mudar a forma como discutimos o mundo vivo nos currículos educativos é uma estratégia importante para reequilibrar as nossas relações com o planeta”. Inclui:

- Abordagem intersecional do ambiente (todos os setores em simultâneo);

- “Pensamento crítico e envolvimento cívico ativo”;

- “Conversas intergeracionais sobre práticas relevantes para viver com o planeta, como as que ocorrem em numerosos movimentos liderados por jovens e comunidade”.

 

Porque vivem há milénios em harmonia com a “comunidade natural”, os povos indígenas experienciam o papel insubstituível de cada ser vivo e cultivam a ideia de que cada um só tira da Terra estritamente o que necessita para sobreviver. Podem dar um importante contributo ao reequilíbrio entre “humano e mundo mais do que humano”, evidenciando que “aprendizagem ecológica, intercultural e interdisciplinar” são indissociáveis.

Aprender a cuidar do Planeta significa aprender a cuidar uns dos outros: “Justiça social é inseparável de justiça ecológica”. O cuidado é uma atitude ética que se aprende e tem uma componente afetiva e comunicacional e cognitiva. É importante que o currículo faça uma abordagem profunda, científica e técnica, de como a Terra é documentada e compreendida e de “como estas práticas de conhecimento [objetivo e neutro] se entrelaçam nas práticas da vida neste planeta degradado”.  A ética do cuidado ensina-nos a sentir e a ter consciência da interligação entre todos os seres e o mundo, do seu poder e vulnerabilidade – “Cuidar, cuidar, dar e receber cuidados deve ser incluído nos currículos que nos permitem reimaginar juntos os nossos futuros interdependentes.”

Propondo a “ecologização do setor da educação”, o relatório da UNESCO sugere o alargamento do espaço tradicional de sala de aula, afirmando a possibilidade de a aprendizagem dever ocorrer em sítios naturais - a biosfera é contexto de aprendizagem - espaços construídos e virtuais. Este ecossistema educacional mais vasto pode ser imaginado como “uma grande biblioteca”:

“Podemos imaginar estes novos ambientes escolares como uma grande biblioteca onde alguns estudantes estudam sozinhos, ligados à internet ou não, e outros apresentam o seu trabalho a colegas da turma e professores. Outros estão fora da biblioteca em contacto com as pessoas e mundos fora da escola, possivelmente em lugares longínquos. A biblioteca suporta uma imensa diversidade de situações e tempos espaciais. É um ambiente completamente novo diferente da estrutura habitual da escola e da sala de aula. Esta biblioteca pode ser tomada literalmente ou como uma metáfora. Lembra-nos que os tempos e espaços escolares precisam de servir como portais ligando os alunos com os conhecimentos comuns [partilhados por todos]” [4].

 

Referências

1. International Federation of Library Associations and Institutions. (2022, 24 Jan.). International Day of Education – Libraries Contributing to a New Social Contract for Education [Resumo da IFLA do Relatório Futuros da Educação]. Netherlands: IFLA. https://www.ifla.org/news/international-day-of-education-libraries-contributing-to-a-new-social-contract-for-education/

2. United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization [Comissão Internacional sobre os Futuros da Educação]. (2021, 10 nov.). Reimagining our futures together: a new social contract for education [Part II, Chapter 4, pp. 63-78]. France: UNESCO. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000379381

3. Rede de Bibliotecas Escolares. (2022, 7 abr.). UNESCO: A expansão do direito à educação até 2050. Portugal: RBE. https://blogue.rbe.mec.pt/unesco-a-expansao-do-direito-a-educacao-2579064

4. UNESCO, 2021, p. 97.

 

Fonte das imagens:

1. UNESCO. (2021). “Reimagining our futures together: a new social contract for education [Vídeo]”, in: United Nations. (2022, 24 jan.). Dia Internacional da Educação. EUA: UN. https://www.un.org/en/observances/education-day

2. Hendry, P. (2018, 6 Nov.). Unplash. India: @worldsbetweenlines. https://unsplash.com/photos/oaaRPhOz5Dg

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