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Blogue RBE

Qui | 12.02.26

UNESCO: Bibliotecas motores-chave da inclusão digital

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O 3.º Relatório Temático do IFAP (Information for All Programme) - UNESCO, Rede Global de Bibliotecas e Impacto Local: Um Roteiro Político para Construir um Futuro Digital Inclusivo [1], elaborado com a IFLA, insere-se na Coligação Dinâmica do IGF (Internet Governance Forum) sobre Medição da Inclusão Digital das Nações Unidas, que procura desenvolver métricas e políticas baseadas em evidências para reduzir desigualdades digitais. 

Estima que haja 2,6 mil milhões de pessoas sem ligação à internet e um aumento da desigualdade digital: “80% das pessoas nos países de alto rendimento têm acesso à Internet, em comparação com apenas 35% nas economias de baixo rendimento” (p. 5). Sem ligação à internet, não podem aceder a oportunidades de educação, de emprego e de outros aspetos da vida quotidiana. 

Tornando-se urgente a redução da exclusão digital, destaca o papel das bibliotecas, “parceiras essenciais” (termos do relatório) que oferecem infraestrutura comunitária de confiança para promover a acessibilidade digital para todos. Devem ser valorizadas “tanto pela sua capacidade de alcançar as pessoas onde elas estão [trabalho de proximidade], quanto pela sua capacidade única de transformar a conectividade em inclusão digital significativa” (p.10).  

A definição de inclusão digital adotada - “o acesso equitativo, significativo e seguro para utilizar, liderar e conceber tecnologias digitais, serviços e oportunidades associadas para todas as pessoas, em todo o lado” - (p.5) - sublinha que não basta estar ligado, é preciso poder usar e participar na cocriação do ecossistema digital.

2,8 milhões de bibliotecas em todo o mundo - públicas, nacionais, académicas, escolares, comunitárias e muitas outras – e esta rede global abrange mais de 1,6 milhões de profissionais e de meio milhão de voluntários

As bibliotecas existem há séculos, são confiáveis e souberam adaptar-se à era digital: “Alargaram as suas funções - oferecendo acesso à Internet, competências digitais e recursos em linha (por exemplo, Recursos Educacionais Abertos (REA) e uma variedade de serviços digitais) - e estabeleceram também parcerias sólidas com governos para ajudar a ligar as comunidades a informação pública e serviços essenciais” (p. 3).

O Relatório explora 6 Áreas Centrais de Política que permitem às bibliotecas desempenhar um importante papel na aceleração da inclusão digital e no desenvolvimento sustentável. 

1. Acesso significativo, acessibilidade económica e divisão de género

O acesso à Internet é um facilitador fundamental dos direitos humanos (Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, 2011) e “As bibliotecas apoiam o acesso significativo, proporcionando um ambiente favorável à utilização eficaz da informação para o desenvolvimento pessoal e comunitário. Elas permitem o acesso à Internet para aqueles que não têm condições financeiras para isso e promovem o desenvolvimento de competências digitais nas suas comunidades” (p. 8).

2. Literacia digital e desenvolvimento de capacidades

O Relatório reconhece “os vastos esforços globais liderados pelas bibliotecas para promover competências digitais” e o acesso inclusivo (p. 6), fundamentais para uma variedade de profissões, não apenas as tecnológicas. 

3. Colaboração entre múltiplas partes interessadas [multi-stakeholder]

“Com fortes laços comunitários e uma tradição de promoção do acesso à informação, as bibliotecas estão numa posição ideal para atuar como impulsionadoras da colaboração inclusiva em torno do acesso digital”, articulando governo, setor privado, sociedade civil e academia (p. 14). 

4. Confiança e segurança no ambiente digital

Destaca a necessidade de reforçar políticas de responsabilização por discriminação, desinformação, violência online e perda de privacidade, sem que disso resulte a diminuição da liberdade de expressão e acesso à informação online. 

5. Preservação da integridade da informação

“Um ambiente informacional saudável requer investimento para garantir o máximo fluxo de informação diversa e verificada para uma população que valorize e tenha competências para reconhecer essa informação verificada. As bibliotecas estão excelentemente posicionadas para desempenhar ambas as funções”.

6. IA e tecnologias emergentes

“As bibliotecas podem, por isso, ajudar a implementar iniciativas de literacia mediática e informacional, bem como ações de desenvolvimento de capacidades e campanhas de sensibilização para que as comunidades adquiram uma melhor compreensão das vantagens e dos riscos de utilização de ferramentas de IA”. 

O Roteiro de Políticas propõe 56 recomendações que incluem integrar formalmente as bibliotecas em estratégias nacionais de transformação digital e TIC, investir em infraestrutura, financiar recursos digitais (incluindo formatos acessíveis) e fortalecer a formação dos profissionais. Dois estudos-caso - África do Sul, com bibliotecas rurais a apoiar competências digitais e empresariais de agricultores e Tunísia, onde bibliotecas reforçam oportunidades para mulheres - ilustram como estas orientações podem ser operacionalizadas.

O Roteiro sublinha a necessidade de os governos – e bibliotecas e outros parceiros - “adotarem uma abordagem baseada em evidências [evidence-based approach] e desenvolverem métricas e indicadores para avaliar o acesso significativo e a divisão de género [e de outros grupos sub-representados], bem como monitorizar a eficácia e o impacto das iniciativas de inclusão digital lideradas por bibliotecas” (p. 10). 

Na sequência do Manifesto da IFLA-UNESCO sobre Bibliotecas Escolares (2025) e do Manifesto da IFLA-UNESCO sobre Bibliotecas Públicas (2023) e “À luz dos desafios digitais urgentes da atualidade, a UNESCO está empenhada em promover parcerias entre múltiplas partes interessadas e capacitar as bibliotecas para permitir o acesso à informação como um bem público, beneficiando, em última instância, a todos” (p. 2).

Referência

[1] IFAP. (2025). Global Network of Libraries and Local Impact: A Policy Roadmap to Build an Inclusive Digital Future. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000396214.locale=en

📷 Fonte da imagem [1].

 

 

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0