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Blogue RBE

Seg | 21.02.22

“Uivemos, disse o cão – Livro das Vozes”

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José Saramago tem uma visão crítica do jornalismo e media, decorrente da sua profunda experiência, vida inteira ligada à imprensa escrita:

- Entre 1968 e 1978 publicou crónicas literárias e políticas, principalmente em A Capital, Jornal do Fundão e Diário de Lisboa [1];
- Exerceu funções de editorialista (Diário de Lisboa, 1973) e de diretor-adjunto (Diário de Notícias, 1975);
- Deu inúmeras entrevistas em todo o mundo: “Creio que me fizeram todas as perguntas possíveis. Eu próprio, se fosse jornalista, não saberia o que perguntar-me” [2].

Por nunca ter trabalhado exclusivamente como jornalista de redação, considera que “nunca fui um verdadeiro jornalista. Nunca escrevi uma notícia, nunca fiz uma entrevista, nunca fiz uma reportagem.” (Aguilera, 2010 [p. 85]).

O romance Ensaio sobre a Lucidez aborda jornalismo e media num cenário distópico: a maioria da população vota em branco.
Trata-se de uma reflexão crítica sobre a sociedade atual que levanta questões:
- Questões sobre a natureza egoísta, passiva e indiferente do ser humano: “votei [em branco] como me apeteceu dentro da lei, agora vocês que se amanhem” [3]:
Quando todos os candidatos às eleições não têm qualidade para o cargo que pretendem vir a ocupar, é lúcido votar-se?
Não se respeitando e cumprindo um direito (por exemplo, ao voto), através do dever respetivo, esse direito continua a existir?
Os direitos humanos são individuais e formais?
Que estratégias devemos adotar para a valorização da vida política e instituições?
A participação política (dar voz) integrada/ multidimensional dos cidadãos, através da discussão de problemas de âmbito local, fortalece a democracia?

“Movidos pela compreensível ansiedade de disparar e caçar em todas as direções, houve jornais que pensaram poder lutar contra o absentismo dos compradores salpicando as suas páginas de corpos despidos em novos jardins das delícias [… mas os leitores] continuaram pelo alheamento, pela indiferença e até mesmo pela náusea, a fazer descer tiragens e vendas.” (Saramago, 2020 [p. 49]).
Como é que pode haver interesse pelo jornalismo quando as empresas jornalísticas…
… Vivem da procura de audiências/ likes, através do sensacionalismo e da polémica?
“Os títulos de abertura atraíam a atenção dos curiosos, eram enormes, garrafais, outros, nas páginas interiores, de tamanho normal, mas todos pareciam ter nascido da cabeça de um mesmo génio da síntese titulativa” (Saramago, 2020 [p. 109]).
… Através da publicação de informação inútil e de entretenimento, impedem o leitor de focar-se e pensar criticamente os problemas, a realidade?
“Precisamente o que, arrebatados por entusiasmo profissional e de imparável ansiedade informativa, já andam a fazer os jornalistas da imprensa, da rádio e da televisão, correndo de um lado para o outro, metendo gravadores e microfones à cara das pessoas, perguntando, Que foi que o fez sair de casa às quatro horas para ir votar, não lhe parece incrível que toda a gente tenha descido à rua ao mesmo tempo, ouvindo respostas secas ou agressivas como […] Quanto lhe pagam para fazer perguntas estúpidas” (Saramago, 2020 [p. 23]).
“[…] o que importa é que a notícia da comunicação ao país seja anunciada já e repetida minuto a minuto” (Saramago, 2020 [p. 168]).
Estas estratégias, a par da desinformação (fake news), são novas formas de censura - controlo, manipulação e silenciamento?
Como tornar os jornalistas responsáveis pela denuncia dos problemas sociais e melhoria do planeta?

Ensaio sobre a Lucidez (2004) tem por cenário a cidade de Ensaio sobre a Cegueira (1995), inclui personagens comuns, como a Mulher do Médico e os seus acontecimentos ocorrem quatro anos depois da situação de cegueira branca, apesar de ter sido escrito nove anos mais tarde.


“Uivemos, diz o cão” é a epígrafe do Ensaio sobre a Lucidez retirada de um livro imaginário, o Livro das Vozes, que instiga o leitor à reflexão e envolvimento.

Referências
1. As crónicas de José Saramago estão reunidas nos livros: Deste Mundo e do Outro (1971), A Bagagem do Viajante (1973), As Opiniões que o DL Teve (1974), Os Apontamentos (1976), Folhas Políticas (1999).
2. Aguilera, F. (2010, nov.). José Saramago nas suas palavras (2,ª Ed., p. 13). Alfragide: Editorial Caminho.
3. Saramago, J. (2020). Ensaio sobre a Lucidez (6.ª Ed., p. 133). Lisboa: Porto Editora.
4. Welsh, D. (2019, 17 nov.). Unsplash. https://unsplash.com/photos/zBU8dMscx4M

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