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Fonte: https://www.unicef.pt/actualidade/publicacoes/covid-19-e-o-trabalho-infantil/

Retrocesso! A palavra que nenhum projeto válido mereceria enfrentar. Mas é disso que se trata. Nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, o mundo comprometeu-se a pôr fim a todas as formas de trabalho infantil até 2025. E segundo o relatório UNICEF de abril de 2020, nas últimas duas décadas houve menos 94 milhões de crianças em situação de trabalho infantil.

E agora… De acordo com o relatório COVID-19 e o Trabalho Infantil: um momento de crise, o momento certo para agir[1], o risco de retrocesso é claro. Não precisamos de números exatos para identificar fatores ameaçadores: agravamento das condições de vida, deterioração do emprego, aumento da informalidade… e, claro, encerramento das escolas. É certo que muitos governos começaram a disponibilizar ensino online, mas uma enorme percentagem de crianças no mundo não tem acesso à internet. Ficam disponíveis para serem utilizadas pelas famílias como recurso de compensação pela perca de rendimentos. Tal como foi dito por uma criança: “Muitos pais no meu bairro aproveitaram estas ‘férias’ para mandarem os filhos para a cidade para venderem fruta e legumes”.

As escolas oferecem às crianças muito mais do que o ensino. Garantem recursos essenciais como alimentação, identificação de situações de abuso, defesa relativamente à vulnerabilidade... Quando ocorrer, a reabertura das escolas, está longe de resolver ou repor a situação anterior. Por experiência de anteriores situações de crise, sabemos que, quando as escolas reabrem, muitas famílias já não têm a capacidade financeira para mandarem os filhos à escola.

Por todos os motivos, esta é a hora de agir! As medidas de proteção social são o pilar para qualquer resposta política coordenada às crises: disponibilização do acesso a cuidados de saúde, apoio ao emprego, ao rendimento e à segurança alimentar, reforço da inspeção do trabalho e aplicação da legislação laboral, entre tantas outras. Mas as economias emergentes e em desenvolvimento são aquelas que, em situação de crise, tem maiores dificuldades na reafectação de recursos financeiros para respostas de emergência.

A resposta à crise da COVID-19 exige diálogo social e cooperação entre governos e países. O alerta principal é este: deve ser dada uma atenção particular ao período imediatamente a seguir ao confinamento. Será uma janela crucial para ajudar as crianças a regressar à escola e evitar o abandono escolar definitivo. A médio prazo, campanhas de sensibilização ativa devem incentivar os pais a permitirem o regresso dos filhos à escola, incluindo - ou sobretudo - aqueles que, entretanto, começaram a trabalhar. Medidas de transferência monetária ou outras prestações sociais podem compensar as famílias vulneráveis pelo rendimento ou produção das crianças.

Mas uma das medidas mais importantes – com a qual o relatório termina – é promover a mudança na forma de pensar. É essencial ‘educar’ os pais e as comunidades no sentido de mudar normas sociais que consideram o trabalho infantil como aceitável. Tal pode exigir a adoção de soluções de comunicação inovadoras e remotas. Mas de novo, como promover estratégias de comunicação remotas em regiões sem internet? O desafio é enorme, complexo, mas urgente.

 

Referência

[1] Organização Internacional do Trabalho e Fundo das Nações Unidas para a Infância. (2020). COVID-19 e o Trabalho Infantil: um momento de crise, o momento certo para agir. https://www.unicef.pt/actualidade/publicacoes/covid-19-e-o-trabalho-infantil/

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Photo by Headway on Unsplash

“O meu trabalho é só a minha relação com tudo”. Cada vez mais pessoas poderiam subscrever esta frase atribuída a Federico Fellini. O trabalho tem um peso crescente na nossa vida, no nosso tempo, na nossa construção identitária. Razão suficiente, se outras não houvesse, para que os jovens se interroguem sobre os empregos do futuro. E para que as famílias se inquietem. E para que a escola tenha uma responsabilidade acrescida na forma como os prepara e os apetrecha.

Em outubro último, o Fórum Económico Mundial (WEF) publicou o relatório The future of jobs Report 2020. Ora, o futuro dos empregos diz respeito aos jovens, que estão ainda em processo formativo, e diz respeito aos profissionais da educação, cujos modelos de trabalho estão em plena transformação. É nesta dupla perspetiva que este balanço interessa a toda a comunidade escolar.

 

A situação atual
Como é natural, o quadro geral aqui traçado é fortemente marcado pelos efeitos da pandemia. Menos de um ano depois de se terem multiplicado medidas de confinamento, já é possível reconhecer a força e a extensão das suas implicações e elencar algumas respostas que foram sendo encontradas.

Os principais temas deste retrato não surpreendem: a subida do papel fulcral da tecnologia, os problemas da deriva para o trabalho a distância, seja em modelo totalmente remoto, seja em modelo híbrido; e o acentuar das desigualdades. Estas últimas, facilmente identificáveis, com o desemprego e a instabilidade laboral a penalizar grupos específicos: de género (mulheres), de âmbito profissional (setores das artes, cultura e turismo/ restauração); e de qualificações (pessoas com níveis mais baixos de escolaridade).

Os dados apresentados a este respeito (referentes aos EUA, mas em proporções semelhantes para os países europeus) mostram que o desemprego em 2020, entre as pessoas com ensino universitário atingiu um máximo de 8%, ao passo que, para quem ficou pelo ensino secundário, subiu até cerca de 17%, e sem o ensino secundário chegou perto do 22%.

Em Portugal, dados publicados pelo INE, ou pela recém-criada DataLABOR, apresentada na Fundação Calouste Gulbenkian a 6 de novembro, revelam bem as consequências socioeconómicas da COVID-19 e a sua desigual distribuição. Motivos que reforçam o imperativo de combater o insucesso escolar e o seu corolário extremo - o abandono precoce. Com baixos níveis de escolaridade, a fragilidade face ao desemprego e, portanto, à pobreza, é exponencialmente maior.

Se a presença da tecnologia no mercado de trabalho era já uma tendência crescente, com a pandemia ela tornou-se uma necessidade e uma urgência. Este processo tornou visível como essa mudança vinha sendo feita a ritmos bem diferenciados, consoante os setores profissionais. E mostrou, igualmente, que o uso das tecnologias digitais para fins lúdicos ou de pura socialização não significavam o domínio de ferramentas para uso profissional.

 

Apontando o futuro
O aspeto mais relevante deste estado da arte sobre o trabalho e o emprego é o que diz respeito à bagagem para nele singrar. Bagagem que o relatório traduz, não num conjunto de saberes ou conhecimentos especializados, mas num conjunto de competências. Com base na investigação que o suporta, este estudo aponta as 15 mais importantes:

1 Pensamento lógico e inovação
2 Aprendizagem ativa e estratégias de formação
3 Resolução de problemas complexos
4 Pensamento crítico e análise
5 Criatividade, originalidade e iniciativa
6 Liderança e influência social
7 Uso da tecnologia, monitorização e controle
8 Design tecnológico e programação
9 Resiliência, tolerância ao stress e flexibilidade
10 Raciocínio, conceptualização e apresentação de ideias
11 Inteligência emocional
12 Resolução de conflitos e experiência de participação
13 Orientação para o serviço
14 Análise e avaliação de sistemas
15 Persuasão e negociação

Quando olhamos com atenção, encontramos, nestas 15 competências-chave, dois grandes grupos:

• Um grupo de competências que tem a ver com os modos de pensar e de idealizar - em que a análise de factos ou situações, a compreensão crítica, o raciocínio lógico, surgem associadas à capacidade para criar soluções, através da criatividade, da originalidade, da resolução de problemas complexos, do design tecnológico…

• Um outro grupo de competências que tem a ver com o campo da gestão emocional – seja na relação consigo mesmo, através do autocontrolo, resiliência, flexibilidade, estratégias de aprendizagem ativa, etc., seja na relação com os outros, ao nível da liderança, influência, persuasão, gestão de conflitos…

Os empregadores e as empresas têm uma perceção clara relativamente à necessidade de requalificação dos seus recursos humanos. Muitos estão empenhados nesse processo, como veículo para a reconversão das suas estruturas.

Isto é muito patente num documento que deve ser lido em paralelo com este The Future os Jobs Report, o Closing the Skills Gap: Key Insights and Success Metrics, igualmente publicado pelo Fórum Económico Mundial, em 30 de novembro de 2020. Nele se afirma o compromisso das empresas em ‘colmatar o intervalo’ (closing the gap) que existe entre as competências que os recursos humanos apresentam hoje, e as que deverão, quanto antes, apresentar.

Ambos os relatórios se enquadram na Reskilling Revolution, uma iniciativa já lançada no início de 2020 com o objetivo de apetrechar um bilião de pessoas com melhor educação, competências e emprego.

Revolução da renovação de competências. Já não estamos perante uma tendência gradual, evolutiva, no âmbito da aprendizagem ao longo da vida, mas no seio de uma transformação acelerada, que obriga a repensar os próprios conceitos.

Note-se que, de acordo com o The Future of Jobs Report, os empregadores estão fortemente empenhados na requalificação técnica e tecnológica dos seus empregados, mas não tanto na que respeita às áreas da inteligência emocional ou do self-managment.

A procura a este nível surge, assim, mais por iniciativa dos próprios trabalhadores e ligada a plataformas e a dinâmicas de formação fora do contexto de trabalho. O próprio Fórum Economico Mundial divulga a recente iniciativa do Linkedin ao apresentar uma lista de soft skills essenciais e uma gama de cursos online para as desenvolver.

É preciso que a escola, escorada nas evidências recolhidas por estudos como estes, assuma um papel mais ativo na construção do perfil que os seus alunos terão de apresentar para o seu futuro desempenho como profissionais.

Certo é que não faltam convites à promoção da criatividade, da iniciativa, do pensamento crítico nos alunos; e exemplos de boas práticas neste âmbito - como aquelas que a plataforma da Comissão Europeia School Education Gateway tem por missão divulgar. E sabemos como as bibliotecas escolares são locais especialmente adequados ao seu desenvolvimento.

Igualmente importante - retomando a nota inicial – é notar que este Relatório inclui o trabalho educativo entre os setores de atividade que necessitam, com urgência, de estar apetrechados com as competências-chave acima listadas. Isto é, as destrezas pessoais, emocionais, relacionais, técnicas e tecnológicas que é preciso desenvolver nos alunos, são aquelas que os professores e educadores têm de adquirir para si próprios.

Duplo, difícil desafio. Mas o processo é coletivo e transversal. Está em curso, em todas as profissões, um movimento que o The Future of jobs Report 2020 esboça, com otimista suavidade, neste ‘Transitions into the jobs of the future’.


Referências:

Caldas, J. C., Silva, A. A., Cantante, F. (2020) As consequências socioeconómicas da COVID-19 e a sua desigual distribuição. Lisboa: CoLabor. Disponível em: https://colabor.pt/publicacoes/consequencias-socioeconomicas-covid19-desigual-distribuicao/

Fórum Económico Mundial (2020, outubro, 22). 5 charts showing the jobs of a post-pandemic future – and the skills you need to get them. Disponível em: https://www.weforum.org/agenda/2020/10/x-charts-showing-the-jobs-of-a-post-pandemic-future-and-the-skills-you-need-to-get-them

Fórum Económico Mundial (2020, setembro, 3). 15 skills LinkedIn say will help you get hired in 2020 - and where to learn them. Disponível em: https://www.weforum.org/agenda/2020/09/linkedin-online-elearning-skills-jobs-hiring

Fórum Económico Mundial (2020). Closing the Skills Gap: Key Insights and Success Metrics. Genebra: FEM. Disponível em: https://www.weforum.org/whitepapers/closing-the-skills-gap-key-insights-and-success-metrics

Fórum Económico Mundial (2020). The future of jobs Report 2020. Genebra: FEM. Disponível em: https://www.weforum.org/reports/the-future-of-jobs-report-2020

Fórum Económico Mundial (2020). Reskilling Revolution. Disponível em: https://www.reskillingrevolution2030.org/

INE (2020, novembro 4) Estatísticas do Emprego. Disponível em: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=415270477&DESTAQUESmodo=2

School Education Gateway (2020, outubro, 10). Enhancing creativity through a Project-Based Learning approach. Disponível em: https://www.schooleducationgateway.eu/en/pub/latest/practices/project-based-approach.htm

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A implementação do referencial "Aprender com a biblioteca escolar: referencial de aprendizagens associadas ao trabalho das bibliotecas escolares na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário" é acompanhada no terreno pelos Coordenadores Interconcelhios, sob supervisão do Gabinete Coordenador da RBE. Apresenta-se agora o relatório relativo à implementação deste documento pelas bibliotecas escolares durante o ano de 2019-2020.
Da análise da informação recolhida anualmente através da base de dados RBE, que consta dos relatórios que têm sido publicados em cada ano, se conclui que o recurso ao "Aprender com a biblioteca escolar" se tem alargado significativamente, esperando-se que todos os professores bibliotecários recorram cada vez mais a este referencial, colocando-o ao serviço dos desafios que se apresentam às escolas, através da colaboração intensa com outros docentes, órgãos de gestão e parceiros.

Artigo completo: Aprender com a biblioteca escolar

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O EU Kids Online disponibiliza aqui o relatório com os resultados mais recentes das pesquisas efetuadas nos 25 países abrangidos, os métodos usados e as recomendações do projeto. 

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