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No início, … bem no início, não foi o verbo. Antes uma imagem. Melhor, um boneco em pasta de papel, articulado, tamanho natural, sentado na cadeira de realizador, na zona dos filmes da biblioteca. Não lhe faltava nada: o chapéu, a bengala, uma bobina, uma claquete, até um foco de luz. Mas ainda não tinha voz. Era necessário animar aquele boneco, dar-lhe alma, fazê-lo comungar do espírito daquele espaço. Foi então que surgiu a ideia de lhe atribuir uma tarefa que, não só o mantivesse ativo, como também ao serviço da biblioteca. Os tempos eram duros, o vírus circulava, poucos clientes apareciam e um agente de marketing vinha mesmo a calhar. Foram definidas as linhas de intervenção: escreveria crónicas regulares, publicaria no Facebook da Biblioteca e faria os desabafos que entendesse deste que mencionasse sempre um livro, um filme ou uma atividade da biblioteca. Como veem, um pacto justo: dava liberdade ao artista, mas simultaneamente impunha-lhe algumas obrigações. Contrato feito. Luz, ação: click! Tirámos fotos (… e o jeito que ele tinha para a câmara, quem diria?!), fizemos revisão de provas e as crónicas começaram a sair, uma, duas, … já vai na 11.ª! Porquê “CC”? Porque em junho de  2020, antes de arrancamos com a 1.ª crónica, criámos um momento de intriga, desafiando os seguidores a identificarem o cronista através dos olhos e as iniciais CC do seu nome. O jogo pegou e já não voltámos atrás: passaria a ser o CC.

Para seguir as crónicas: https://www.facebook.com/becre.sequeira/

 

CC – crónica 11

Imagem1.jpgSaúdo todos os que me leem, vocês são a minha tábua de ligação com o mundo nesta fase de isolamento, fatal para uma alma de artista. Mesmo na condição de imortal, habituámo-nos à exposição, ao palco, às palmas (e assobios), à tela, aos flashes das fotos, às primeiras páginas e é difícil apagar tudo isso e estar aqui sentado na cadeira de realizador. Claro que os livros são boa companhia, mas muitas vezes “ler é maçada”, como dizia Fernando Pessoa. 

Carl_Spitzweg_021.jpegEntão, levanto-me e ando por aí entre as estantes à procura de outra alma. Às vezes encontro-a, como aconteceu há dias com o “Guarda-Livros Jerónimo”. Guarda-Livros Jerónimo? O que é isso? perguntam vocês. Pois, há por aqui uns fantasmas, principalmente à noite, quando… Aeih! Aeih! O que vai aí de histórias! É o que dá estar sozinho! Nada disso, aqui não há fantasmas, repito, aqui não há fantasmas, e este “Guarda-Livros Jerónimo” é o nome que as professoras da casa deram a uma gravura de Carl Spitzweg que têm emoldurada na parede e a quem chamam do seu padroeiro. Segundo me explicaram, o S. Jerónimo é considerado o padroeiro dos bibliotecários e dos livreiros e lá acharam que aquela figura do criado, em cima do escadote a ler em vez de limpar, se encaixava mais com um amante de livros do que aquele teólogo e historiador da antiguidade, S.Jerónimo de Estridão, que ficou conhecido pela sua tradução para o latim da Bíblia e pela sua extrema dedicação ao trabalho intelectual. Quando andam a fazer uma visita guiada aqui na biblioteca, oiço-as sempre dizer com uma pontinha de orgulho: “… e aqui nesta parede, está o nosso padroeiro, o guarda-livros Jerónimo!” Só falta colocarem lá um vaso com flores, mas adiante… a verdade é que eu e o Guarda-Livros Jerónimo estivemos, há dias, em amena cavaqueira e até descobrimos umas coisas que, se não repõem a verdade dos factos e dos nomes (sabe-se lá o que é isso de verdade!), pelo menos acrescentam mais variações e versões. É que aquele “criado-guarda-livros” não gosta lá muito do nome de “Jerónimo” e até acha que, a haver um padroeiro dos bibliotecários, ficaria melhor entregue a S. Lourenço de Roma que foi morto pelos romanos em 258 d. C. por negar-se a entregar a coleção de tesouros e documentos do cristianismo os quais ele estava encarregado de guardar. Bem… eu ouvi-o e não discuto estes direitos quando envolvem mártires de causas, mas julgo que há uma figura da antiguidade clássica mais apropriada: é Calímaco de Cirene, poeta e bibliotecário na grande biblioteca de Alexandria que se encarregou do seu catálogo no século III a.C. Li esta informação no livro “O infinito num junco” da investigadora espanhola Irene Vallejo (em destaque na crónica anterior).

Imagem2.pngAproveitei para ler ao guarda-livros a passagem do livro da estudiosa: “Calímaco é considerado o pai dos bibliotecários. Imagino-o a preencher as primeiras fichas bibliográficas da História – que seriam tabuinhas – e a inventar algum antecedente remoto dos códigos. Talvez tenha conhecido o segredo das bibliotecas babilónicas e assírias e se tenha inspirado nos seus métodos de organização, mas chegou muito mais longe do que qualquer dos seus antecessores. Resolveu problemas de autenticidade e falsas atribuições. Encontrou rolos sem título que era preciso identificar.” (p.150)

Imagem3.pngO texto alonga-se com mais elogios e confesso que fiquei rendido àquela personalidade fascinante do passado. Acho até que ele está mais perto do trabalho real de uma biblioteca (e eu sei do que estou a falar porque bem observo as professoras aqui na sua lida diária). Chegámos a um acordo: o guarda-livros ficava aliviado do peso de “S. Jerónimo” e passava a chamar-se só “Guarda-Livros”, sem a carga do passado. 

Achei justo e quando mais tarde regressei ao meu posto, estava seguro de ter ali um amigo para conversar. Nessa noite, pareceu-me que, algures, num canto da biblioteca, decorria um concílio de sábios onde se esgrimiam nomes para o guarda-livros: “Lourenço! Não, Jerónimo! Calímaco é que é!” Deixei-os debater e fiquei no meu cantinho sem me mexer, nem respirar. Em matéria de fantasmas, como já disse, sou cético, mas pelo sim, pelo não… 

O vosso CC
 

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 LerFonte

 

Observatório da Imprensa abriga um extenso acervo de 22 anos de crítica de mídia no Brasil a partir do gesto inaugural do jornalista Alberto Dines que, em parceria com o então reitor da Unicamp Carlos Vogt, deu origem a criação de um espaço autônomo e plural de crítica do jornalismo. Na mesma Universidade onde o projeto do Observatório nasceu junto ao Labjor – Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo- foi lançada, na semana passada, a compilação “Observatório da Imprensa – Uma antologia de Crítica de mídia no Brasil de 1996 a 2018”, organizada pelos jornalistas Pedro Varoni e Lucy Oliveira e publicada em formato e-book pela editora Casa da Árvore. O lançamento fez parte do Simpósio do Projor – Instituto para o desenvolvimento do jornalismo durante o 5º Encontro de Divulgação de Ciência e Cultura.

(...)

 

Observatório da Imprensa foi criado na internet em 1996 para expandir-se gradativamente às outras mídias, convidando as pessoas a engajarem-se num fórum de ideias nitidamente progressistas, mas com um caráter apartidário e pluralista, a fim de combater a intolerância. Esse conteúdo resulta de um projeto editorial inovador e pioneiro em relação à crítica de mídia no Brasil.

 

A antologia constitui um documento de pesquisa para todos os interessados nas regularidades e mutações das relações entre jornalismo e poder no período que vai dos últimos anos do século passado a esse final da segunda década do século XXI.

 

Ler mais >>

 

Observatório da Imprensa lança e-book 'Uma antologia de Crítica de mídia no Brasil de 1996 a 2018' | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito

Referência: Observatório da Imprensa lança e-book 'Uma antologia de Crítica de mídia no Brasil de 1996 a 2018' | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito. (2018). Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito. Retrieved 7 May 2018, from http://observatoriodaimprensa.com.br/memoria/observatorio-da-imprensa-lanca-e-book-uma-antologia-de-critica-de-midia-no-brasil-de-1996-a-2018/

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"Falar de Memória" é um programa transmitido na Rádio Macau da autoria de Hugo Pinto e a participação do jornalista e investigador João Guedes. Semanalmente, revisitam o passado de Macau através das histórias que têm como protagonistas personagens e lugares que ainda perduram na memória.

(Texto retirado do blogue com ligeiras alterações).

Oiça os programas aqui.

 

Conteúdo relacionado:

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No quadriénio em que se comemora o centenário da 1.ª Guerra Mundial, o novo Workshop do Media Lab vai desafiar os alunos a serem “Repórteres de Guerra” através da análise de um dossier temático previamente preparado, em colaboração com a Associação dos Professores de História, com conteúdos de media e testemunhos da época. 

Alunos do 5.º ao 12.º ano poderão fazer a 1.ª página de Jornal ou um Suplemento de 4 páginas, no qual perceberão como os conteúdos de História são transversais aos temas do dia-a-dia, nomeadamente nas secções de Sociedade, Cultura, Economia, Desporto, Politica e Internacional.

O Media Lab conta consigo e com os seus alunos, a partir do 3º período, para o novo desafio Repórteres de Guerra: um Olhar sobre a I Guerra Mundial”. As inscrições podem ser feitas aqui >>.

 

Esclarecimentos:

Email: medialabdn@dn

Telefone: 210.997.026

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O jornal Público celebra hoje 25 anos de existência com uma edição especial sobre o tempo -

o tempo do Universo, o tempo do jornalismo, o tempo do ócio, o tempo para pensar.

 

Dirigida por João Magueijo, esta edição do Público é oferecida gratuitamente nas bancas a todos os leitores.

O programa de comemoração dos 25 anos inclui, ainda, um conjunto de iniciativas que se prolongam até 2016 e que começa por uma conferência no Centro Cultural de Belém, hoje, pelas 18h30. Intitulada  “Conversa sobre o Tempo” e de entrada livre, a conferência terá como oradores o físico João Magueijo, a cosmóloga Marina Cortês, o historiador Diogo Ramada Curto, o crítico de arte Alexandre Melo e o filósofo Nuno Nabais.


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