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Artigo de Teresa Carvalho

O bem-amado

Poeta de inegável presença canónica na poesia portuguesa do século XX, Eugénio de Andrade fez das palavras o ofício de uma vida e da poesia uma «arte de música». Faria hoje 94 anos (19/01/2017).

O autor de Ostinato Rigore comparava o seu trabalho de poeta ao ofício de pedreiro que fora o do avô, concluindo a aproximação nos seguintes termos: «Ele usava o granito como material, as suas casas estão ainda de pé; o neto trabalha com poeira, sem nenhuma pretensão de desafiar o tempo». A verdade é que são muitas as vozes que dizem que terá construído um monumento perene.

«No prato da balança um verso basta/ para pesar no outro a minha vida» - escreveu Eugénio de Andrade num breve poema, consciente do desacerto que há entre a vida e a poesia, que nele não diferiam.

António Ramos Rosa chamou-lhe rei Midas do verbo: palavra que tocasse virava ouro de lei. E tocou algumas. Palavras «nuas e limpas» que apelam aos sentidos e se combinam em exercício conjugado da inteligência e da emoção – o imenso tesouro de Eugénio de Andrade, herdeiro de «um desprezo pelo luxo» que, nas suas múltiplas formas, considerava uma degradação.

Revelado em 1948 com As Mãos e os Frutos, o seu mais emblemático livro, que então impressionava pela afirmação da corporalidade e do desejo, estreia-se com Adolescente (1942), volume que depois retirou da sua bibliografia por considerar que o verdadeiro timbre da sua voz poética estava ainda ausente.

Definiu-se como «um poeta solar» e respondia mais depressa à chamada da «luz limpa do sul» com que incendiava os seus versos que ao nome de baptismo: José Fontinhas, nascido na Póvoa da Atalaia, uma pequena aldeia da Beira Baixa, situada entre o Fundão e Castelo Branco, cidade de onde foi levado para Lisboa, aos sete anos, pela mão da mãe Maria dos Anjos, figura tutelar da sua vida e presença central da sua poética. Uma poética que os títulos em prosa – Memória Doutro Rio (1978), Vertentes do Olhar (1987) – realizam com igual fulgor.

Da primeira infância reterá, para além das feridas pela ausência do pai, figura que recusou «a vida inteira. Inteiramente», o berço camponês de nascimento, uma «arquitectura extremamente clara e despedida», que os seus poemas tanto reflectem, lugares selectos, despertares, incluindo o da poesia.

Em 1947, já regressado de Coimbra, onde permanece entre 1943 e 1946, estreitando relações de amizade com Miguel Torga e estabelecendo um diálogo cultural com figuras de sucessivas gerações (Afonso Duarte, Paulo Quintela, Eduardo Lourenço, Carlos de Oliveira), torna-se funcionário público, passando a trabalhar como inspector administrativo nos Serviços Médico-Sociais, cargo que exercerá ao longo de 35 anos. Resolvida a questão económica, pôde prosseguir assim o seu ofício poético, a busca rigorosa da linguagem, sem pressa, seguindo, de resto, o «Conselho» metaliterário que a si mesmo dera na colectânea que o impõe como poeta: «Sê paciente; espera/ que a palavra amadureça/ e se desprenda como um fruto/ ao passar o vento que a mereça». O segundo livro de poesia, Os Amantes Sem Dinheiro, surgia em 1950.

Neste mesmo ano, a sua vida profissional na Inspecção Administrativa condu-lo ao Porto, cidade que adopta como a sua terra e onde viverá até à morte, sempre ao abrigo da vida social, literária e mundana, atento às coisas simples e às palavras que as dizem: neve, água, mar, navio, vento, fruto, terra, ave, boca – eis o seu léxico, de larga fluência metafórica, rigorosamente eleito e carregado de uma singular energia sémica que se expande e reformula. 

As Palavras Interditas (1951), Ostinato Rigore (1964), Obscuro Domínio (1971), Limiar dos Pássaros (1972), Matéria Solar (1980), O Sal da Língua (1995), Os Lugares do Lume(1998) são alguns dos mais conhecidos títulos que lhe compõem o vulto de poeta ímpar.

Antologiador de Camões e de Pessoa, autor de uma recolha de poesia erótica contemporânea (Eros de Passagem, 1982) e de duas selecções de poesia e prosa dedicadas ao Porto e a Coimbra – respectivamente Daqui Houve Nome Portugal (1968) e Memórias de Alegria (1971) –, Eugénio de Andrade ofereceu-nos também um panorama geral da poesia portuguesa, desde os cancioneiros medievais até Ruy Belo. Entre os muitos prémios com que foi distinguido, figura o Prémio Camões (2001).

Morreu em Junho de 2005. Estava escrito: «Pela manhã de Junho é que eu iria/ pela última vez».

 

Referência: Eugénio de Andrade. O bem-amado. (2019). ionline. Retrieved 11 October 2019, from https://ionline.sapo.pt/artigo/544766/eugenio-de-andrade-o-bem-amado?seccao=Mais_i

 

Eugénio de Andrade completaria em janeiro de 2015, 92 anos. A RTP recorda o poeta.

 

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Nascida em Lisboa, em 1939, Luísa Ducla Soares tem mais de uma centena de livros publicados, a maioria dos quais prosa e poesia para crianças, influenciada pelas histórias de tradição oral e por temáticas do quotidiano.

Apesar de o impulso para a escrita ter surgido no final da infância, foi depois dos trinta que publicou o primeiro livro para crianças, intitulado "A história da papoila" (1972), e que lhe valeu um prémio do Secretariado Nacional de Informação, que recusou por objeção de consciência.

Depois desse livro, a autora publicou "Maria Papoila" e "O soldado João", pequenos contos que anos antes tinham sido totalmente censurados no Diário Popular, com o qual colaborava.

Licenciada em Filologia Germânica, trabalhou em jornais, editoras, no Ministério da Educação e na Biblioteca Nacional. Em 1996 recebeu o Prémio Calouste Gulbenkian pelo conjunto da obra.

Este ano é candidata ao prémio literário sueco Astrid Lindgren Memorial Award.

Quase a completar 80 anos, e com uma enorme bibliografia, Luísa Ducla Soares dedica grande parte dos dias à escrita e ao encontro com leitores, em visitas a escolas.

 

ReferênciaLuísa Ducla Soares edita uma história que escreveu na adolescência. (2019). DN. Retrieved 4 October 2019, from https://www.dn.pt/lusa/luisa-ducla-soares-edita-uma-historia-que-escreveu-na-adolescencia-10685751.html

 

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António Bessa

01.10.19

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Luis Sepúlveda

21.09.19

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Uma entrevista em que o autor fala de literatura, do ambiente, sustentabilidade e cidadania, em suma, de conhecimento.

 

Se preferir, oiça o podcast:

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Entre Deus e o Diabo

"Poemas de Deus e do Diabo" é o primeiro título assinado com o nome de José Régio, deixando o verdadeiro nome de batismo, José Maria dos Reis Pereira, entregue à mundanidade que a sua literatura ultrapassou, fixando-se como um marco de relevo.

A tese de licenciatura “As Correntes e as Individualidades na Moderna Poesia Portuguesa” relevava nomes praticamente desconhecidos à altura, como o de Fernando Pessoa ou o de Mário de Sá-Carneiro e a sua publicação dá-se apenas em 1941 sob o título de “Pequena História da Moderna Poesia Portuguesa”.

A atividade literária de registo inicia-se com “Poemas de Deus e do Diabo”, em 1925. Funda, juntamente com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, a revista Presença, marco do segundo modernismo português. Multiplica o nome em jornais e revistas, começa a lecionar Português e Francês num liceu do Porto e, em 1928, ruma a Portalegre, onde reside por quase quarenta anos, aí existindo, no edifício onde habitou, uma Casa Museu.

Na sua obra, assume relevo a reflexão sobre os conflitos surgidos entre Deus e o Homem, entre o indivíduo e o mundo em que se insere, coletivamente. Essa reflexão proporciona-lhe uma, por vezes dolorosa, auto-análise, que regista em literatura num tom misticista, escrevendo sobre a problemática da solidão e da complexidade das relações humanas. O seu talento estendia-se também ao gosto pelas artes plásticas, o que o levou a ilustrar os seus livros.

Recebeu, em 1970, o Prémio Nacional de Poesia. Também a sua casa de Vila do Conde, para onde foi após a reforma, figura hoje ainda como Casa Museu.

 

ReferênciaJosé Régio, entre Deus e o Diabo. (2019). José Régio, entre Deus e o Diabo. Retrieved 17 September 2019, from http://ensina.rtp.pt/artigo/jose-regio/

 

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Reconhecido como um dos maiores poetas portugueses contemporâneos, Herberto Helder é apontado como uma referência na poesia portuguesa depois de Fernando Pessoa. O universo enigmático e metafórico da sua poesia invoca muitas vezes uma dimensão cósmica.

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Herberto Helder nasceu na Madeira em 1930 e virou costas à ilha para partir à aventura pela Europa. Passou pela Universidade de Coimbra, mas desistiu por achar que isso não acrescentava nada à sua formação. Andou à deriva por vários países europeus onde teve profissões tão variadas como guia de marinheiros em bairros de prostitutas, cortador de legumes, empacotador de aparas de papel ou estivador. Deu largas à imaginação nas retretes privadas de Paris, mas viveu momentos de precariedade e chegou a passar fome. Regressou a Lisboa e passou a viver da própria escrita.

Marcadamente poeta, os livros que escreveu em prosa também marcaram a diferença, sobretudo pela linguagem ousada e sem preconceitos. É em obras como ‘Os Passos em Volta’ e ‘Photomaton & Vox’ que podemos encontrar um maior número de referências autobiográficas. Tal como a sua poesia, Herberto Helder é para o público uma personalidade enigmática. Recusou o Prémio Pessoa e com ele mais de 35 mil euros. Foi proposto pelo Pen Clube de Portugal como português candidato ao Prémio Nobel da Literatura. Mas ninguém duvida que, caso viesse a ganhar o mais alto galardão internacional da literatura, seria mais um autor a recusar o prémio, como fez  Jean-Paul Sartre.

 

Referência: Herberto Helder, um poeta obscuro. (2019). Herberto Helder, um poeta obscuro. Retrieved 29 July 2019, from http://ensina.rtp.pt/artigo/herberto-helder-meu-deus-faz-com-que-eu-seja-sempre-um-poeta-obscuro/

 

 

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"Quando me perguntam qual é o maior cientista de sempre, respondo: na minha área, é Shakespeare"


Cada vez mais biólogo e menos neurocientista, António Damásio insiste nas humanidades para formar homens e cientistas. No seu mais recente livro dá primazia aos sentimentos como formadores de consciência e motor da ciência, e refere a necessidade de um pacto global sobre educação.

O que leva um estudante a levantar a mão quando o professor lhe fala de um tema que o intimida? Como reagirão as gerações que cresceram com as redes sociais, quando precisarem de tempo, mais tempo, do que o imediato? Estamos a viver uma crise na actual condição humana diz António Damásio no seu mais recente livro, A Estranha Ordem das Coisas, que dá prioridade aos sentimentos. Na vida, na ciência, na cultura. Horas depois de aterrar em Lisboa não esconde a emoção perante a edição portuguesa da Temas e Debates. Sorri. Pega no livro de quase 400 páginas, olha a contracapa e retrai a vontade imediata de ver tudo ali. Mais tarde confessará que é um chato com o português. Escreve em inglês, pensa em inglês, mas o português é a sua língua. Quando, ao longo da conversa, na oralidade, lhe sai um vocábulo em inglês trata de arranjar a tradução certa, sobretudo se for para descrever um sentimento. É que são os sentimentos o que está antes de tudo no livro que dedica à sua mulher, Hanna Damásio, e na conversa onde haverá de dizer, já desligado o gravador, que também fala alemão e namora em italiano. "É a língua do amor", refere. Como aprendeu? "A ouvir as óperas de Verdi." 

 

 

Referência: Isabel Lucas, R. (2019). "Quando me perguntam qual é o maior cientista de sempre, respondo: na minha área, é Shakespeare". PÚBLICO. Retrieved 23 July 2019, from https://www.publico.pt/2017/11/05/ciencia/entrevista/antonio-damasio-1791116

 

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As pupilas do senhor reitor

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Primeiro publicadas em folhetim, no Jornal do Porto, As Pupilas de Júlio Dinis tiveram um sucesso tremendo quando saíram em livro, em 1887. O que teria de tão especial esta história passada numa aldeia minhota para se afirmar tão rapidamente como um romance essencial da literatura portuguesa? É o que ficamos a saber neste documentário.

Na segunda metade do século XIX, quando este livro foi escrito, Portugal despontava para a modernidade. A literatura vivia anos dourados com Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Almeida Garrett e Alexandre Herculano. Mas nenhum destes escritores tinha até então conseguido retratar fielmente o país rural que existia.

 

 

Júlio Dinis o mito do natural ao serviço duma ideologia
 

Programa de caráter biográfico sobre Júlio Dinis, pseudónimo do escritor Joaquim Guilherme Gomes Coelho, com destaque para as temáticas abordadas e caraterísticas literárias presentes na sua obra.

 

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foto de Tiago Miranda | texto de Luciana Leiderfarb

 

No princípio era o verbo. Aos 72 anos, João Lobo Antunes voltou a ele como se volta a casa. No seu oitavo livro, defende a intensidade, a decência. A esperança. E com vertigem prepara os que hão de vir

 

Em sonhos ainda opera. Vê-se na sala de operações com uma coluna aberta e diz: sei fazer isto, mas estou cansado, não quero estar aqui. Quando acorda, verifica que era verdade. Já não quer estar ali. Retirado desde junho, e “sem lágrimas”, o que tinha a dizer nesse campo está dito e outras são as paisagens que agora lhe interessam. E onde se situam elas? Em que lugar do mapa? O livro que publicou há semanas, “Ouvir com Outros Olhos” (Gradiva), contém parte da resposta. São ensaios curtos sobre temas que o “obrigaram a pensar”. Alguns deles cortam, como bisturis. Outros arrumam, ordenam o caos. Mas não estão isolados. Inserem-se numa realidade de escrita mais plena que o autor sempre desejou e que uma profissão tentacular o foi deixando exercer até quase não se confundir dela — ele que é um médico de palavras e um dos maiores neurocirurgiões do mundo, um homem que jamais foge a uma pergunta, um professor, um ativo humanista e um ex-conselheiro de Estado, e mesmo assim, como generosamente afirma, um filho “derrotado” pelo pai.

 

Eis o presente de João Lobo Antunes, as palavras. As das memórias que anda a escrever e as de um ‘projeto secreto’: a tradução para português de 50 dos poemas em inglês que a filha Margarida lhe remete diariamente desde que soube da sua doença. Às Janelas Verdes, no escritório onde passa muitas das suas horas, Lobo Antunes dissecou esta nova condição. A de ser médico e estar doente. A de ter mais tempo. E a de ser nutrido — porque sempre foi um bom aluno — pelas experiências dos outros, dos que estavam do outro lado, sob as suas mãos.

 

Em “Ouvir com Outros Olhos”, diz que temeu ficar empedernido com a idade e que os anos o tornaram mais sensível. É o relato de uma mudança?
O título do livro recorre a uma sinestesia que envolve dois sentidos diferentes, o visual e o auditivo. O que eu queria dizer é que olho para as pessoas — e qualquer olhar é uma intrusão — com outra profundidade, para lá da superfície, tentando perceber a sua realidade, a sua identidade. Muita coisa é dita com o olhar. Há anos escrevi que não se pode dizer com os olhos aquilo que se nega com a palavra. Diria que foi a experiência da doença que me tornou mais sensível. Como se tivesse esticado a corda do violino e esta vibrasse ao menor toque, com maior intensidade e frequência. Por isso, mais do que uma mudança sofri uma evolução, que introduziu outra doçura na relação com as pessoas.

 

 

Referência: João Lobo Antunes: “O pessimismo é uma profecia que se cumpre”. (2019). Jornal Expresso. Retrieved 10 July 2019, from https://expresso.pt/sociedade/2015-12-31-Joao-Lobo-Antunes-O-pessimismo-e-uma-profecia-que-se-cumpre

 

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António Lobo Antunes visto por dentro na entrevista de Fátima Campos Ferreira feita ao escritor que recebeu a RTP na sua casa.

 

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