Sem revistas para jovens: um desafio para a literacia mediática

Nas nossas deambulações pelas páginas das bibliotecas escolares deparámo-nos com uma questão tão simples quanto decisiva.
Depois de analisarmos como os assistentes de IA tratam a atualidade informativa — e de concluirmos, com base no estudo internacional da BBC e da EBU, a urgência de formar os nossos jovens para um consumo crítico de informação jornalística proveniente de fontes acreditadas —, poderíamos supor que o caminho passaria, naturalmente, por reforçar o contacto direto com publicações de qualidade.
As bibliotecas escolares estão mobilizadas para isso: promovem jornais escolares, desenvolvem projetos de literacia mediática, criam oportunidades para que os alunos leiam, comparem, verifiquem e discutam notícias reais.
No panorama atual, existem recursos muito relevantes: o Expressinho, suplemento do semanário Expresso, que continua a ser publicado em formato papel e digital; e as Notícias PÚBLICO na Escola para a sala de aula, recentemente disponibilizadas pelo projeto PÚBLICO na Escola, que oferecem semanalmente conteúdos jornalísticos on-line atualizados e pensados para o trabalho pedagógico.
Contudo, mesmo com estes contributos importantes, sobressai uma limitação séria no mercado editorial português: faltam revistas de atualidade dirigidas especificamente a crianças e jovens, com regularidade, acessibilidade e enfoque pedagógico consistente.
Uma reflexão recente da Biblioteca da EBS de Caminha evidencia bem este vazio, que empobrece o ecossistema informativo dos mais novos e dificulta o trabalho das escolas.
Num momento em que tanto se exige às novas gerações em termos de leitura crítica, contacto com fontes fidedignas e compreensão informada do mundo, esta ausência torna-se especialmente preocupante.
A criação de mais uma publicação periódica juvenil, em papel, rigorosa, acessível e orientada para a atualidade será, sem margem para dúvida, um verdadeiro serviço público.
O paradoxo do regresso das revistas juvenis em papel
por Paulo Bento, Professor Bibliotecário do Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha
Com a proibição do uso de telemóveis na escola, os alunos do 2º ciclo que visitam regularmente a Biblioteca da EBS de Caminha regressaram a (bons) hábitos entretanto perdidos, como o da consulta e leitura de revistas em papel, paradoxalmente quando estas estão a desaparecer.

É o caso da Visão Júnior, a única revista portuguesa de informação dirigida a crianças e jovens entre os 6 e 14 anos, fundada em 2004, que foi recentemente descontinuada na sequência da falência da editora Trust in News e cujo último número saiu em maio deste ano.
O mesmo destino, e na mesma altura, teve a SuperInteressante, outra revista que agradava aos mais novos, que também assinámos por muitos anos. Já para não falar da Quero Saber, uma revista de Ciência dirigida aos jovens, que entre 2010 e 2018 foi comercializada, até que foi também descontinuada, e mesmo do Nosso Amiguinho, publicação de origem brasileira e ligada a uma confissão religiosa (sem ser propriamente confessional no seu conteúdo), que chegou a ter uma edição portuguesa com larga implantação nas nossas escolas do ensino básico.
Todas estas publicações juvenis em papel desapareceram, pelo que apesar de não ser dirigida especificamente a este público, resta a National Geographic — com as suas reportagens sobre o mundo natural, ilustradas com belas fotografias — e, sobretudo, o recurso a edições passadas das publicações acima referidas, felizmente guardadas no arquivo da Biblioteca, que revivem agora nas mãos de novos leitores.
Nota:
Este artigo foi publicado originalmente no site das Bibliotecas Escolares do Agrupamento de Escolas do Concelho de Caminha: https://bibcouraminho.webnode.pt/products/o-paradoxo-do-regresso-das-revistas-em-papel/
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