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Blogue RBE

Ter | 10.02.26

Segurança na Internet: proteger e capacitar

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Hoje é o Dia da Internet Mais Segura, uma data que, desde 2004, convida à reflexão sobre a forma como habitamos o espaço digital e sobre a responsabilidade coletiva de nos protegermos e de apoiarmos as nossas crianças e os nossos jovens nesse percurso.

No contexto atual, em que a internet está profundamente integrada na aprendizagem, na comunicação e no lazer, falar de segurança online continua a ser não apenas atual, mas indispensável.

De que falamos quando usamos a expressão “segurança na internet”?

Contrariamente à ideia preconcebida de muitos, a segurança na internet implica ir muito além das questões técnicas. A proteção de dados pessoais e a gestão de palavras-passe são importantes, mas insuficientes.
A segurança digital envolve também o bem-estar emocional, a forma como se lida com a exposição online, a capacidade de reconhecer conteúdos manipulados ou falsos, as diferentes formas de assédio on-line, o contacto com discursos de ódio, a gestão das interações nas redes sociais e, cada vez mais, a compreensão do impacto da inteligência artificial na informação que circula.
Este não é um desafio exclusivo de crianças e jovens e todas estas dimensões exigem abordagens diferenciadas, adequadas à idade e aos contextos, mas sempre orientadas para a autonomia, a responsabilidade e a capacidade de tomar decisões informadas.

Crianças e jovens: do risco à capacitação

Crianças e jovens crescem rodeados de tecnologia e usam-na com grande naturalidade, revelando muitas vezes um domínio operacional que parece ultrapassar o dos próprios adultos, incluindo professores e outros adultos. No entanto, essa aparente familiaridade técnica não significa que saibam avaliar riscos, reconhecer intenções ou antecipar consequências.

É aí que entra a tentação de proteger pela restrição. No mundo analógico, enquanto adultos, damos progressivamente às crianças por um lado, a noção dos perigos existentes fora do lar e da escola e, por outro lado, autonomia para enfrentarem riscos cada vez mais complexos. Embora por vezes tenhamos a vontade de os manter em casa, quentinhos e protegidos, sabemos que precisamos de os preparar para vida e tornar resilientes.

Do mesmo modo, a resposta educativa aos riscos on-line não pode assentar no alarmismo ou na restrição absoluta, mas sim na capacitação progressiva, sustentada numa convicção coletiva de que esta resposta é indispensável.

Para lá da fragmentação do saber decorrente da organização do ensino por áreas disciplinares, é necessário que toda a escola dê as mãos e assuma este desafio coletivo: não basta dominar Português, Geografia, História ou Ciências, nem desenvolver competências artísticas ou assegurar um desempenho físico saudável. Temos também de ser capazes de integrar estas aprendizagens numa compreensão crítica, ética e responsável do mundo digital.

Promover a segurança online implica assegurar que crianças e jovens dispõem das ferramentas necessárias para compreenderem o ambiente digital em que se movem e os perigos que nele espreitam, desenvolvendo competências como o pensamento crítico, a autorregulação, a empatia no contexto digital e a capacidade de pedir ajuda quando algo corre mal.

Implica também criar espaços seguros de diálogo, onde dúvidas, experiências e preocupações possam ser partilhadas.

Escola e biblioteca escolar: um papel central

A segurança na internet é, portanto, uma responsabilidade educativa transversal e a escola tem um papel insubstituível neste processo. A biblioteca escolar, em particular, assume-se como um espaço privilegiado para desenvolver ações de literacia digital e mediática, promovendo o acesso à informação, a reflexão crítica e o uso ético dos recursos digitais.

Enquanto lugar de mediação, a biblioteca escolar acolhe conversas orientadas, atividades de análise de conteúdos digitais, debates sobre comportamentos online e projetos que articulem leitura, informação e cidadania digital, em estreita ligação com o currículo.

Há mais de 15 anos que a Rede de Bibliotecas Escolares vem orientando as bibliotecas neste domínio, afirmando a segurança e a literacia digitais como dimensões essenciais da formação dos alunos.

Esse trabalho, com uma natureza necessariamente inacabada e insuficiente face à rapidez das transformações, tem sido sustentado por um referencial de aprendizagens associadas ao trabalho das bibliotecas escolares na educação pré-escolar e nos ensinos básico e secundário que enquadra estas competências ao longo do percurso escolar e pela disponibilização de Aprender com a biblioteca escolar: atividades e recursos, um repositório diversificado de propostas de atividades, concebidas para apoiar os professores bibliotecários na ação colaborativa com todos os docentes.

Promover a segurança online passa por agir de forma ativa. Sessões de análise crítica de notícias e conteúdos digitais, debates orientados, construção de guias de boas práticas ou trabalho com situações-problema reais são exemplos de ações simples, mas com impacto significativo. Muitas escolas e bibliotecas escolares desenvolvem práticas relevantes nestas áreas, as quais importa valorizar, partilhar e disseminar.

Embora muito permaneça por fazer, os resultados alcançados têm sido significativos, como evidencia, entre outros, o 2.º Relatório Nacional sobre Literacia Mediática, recentemente publicado pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) sobre medidas (e atividades) de promoção e desenvolvimento da literacia mediática. Este documento deixa claro que as bibliotecas escolares desempenham um papel fundamental e estruturante na promoção da literacia mediática em Portugal, sendo consideradas agentes-chave para a capacitação de alunos em idade escolar e de professores.

Educar em rede: o papel dos adultos

A promoção da segurança na internet exige coerência entre os diferentes contextos educativos. Se é comum afirmar-se que é necessária toda uma aldeia para educar uma criança, a capacitação para a vida online não é exceção e convoca para uma responsabilidade partilhada. Escola, família e comunidade devem partilhar princípios e mensagens, privilegiando o diálogo em detrimento da vigilância constante, manifestamente ineficaz.

Os adultos são sempre modelos de comportamento e, naturalmente, isso acontece também no ambiente digital. A forma como usam a tecnologia, como comunicam online e como reagem a situações de risco influencia diretamente crianças e jovens. Por essa razão, envolver pais, assistentes operacionais e parceiros locais é fundamental para construir uma abordagem comum, coerente, consistente e eficaz.

Segurança como base da cidadania digital

Proteger crianças e jovens no ambiente digital não é afastá-los desse universo nem limitar a sua participação, mas criar condições para que possam exercer uma cidadania digital informada, responsável e ativa.

Não usufruir da internet ou dela ser afastado, constitui também um risco real de exclusão social, cultural e cívica, que importa igualmente combater. A capacitação é, por isso, condição para a autonomia, para a liberdade de expressão e para a participação consciente na vida em sociedade.

Para além de uma data anualmente assinalada, o Dia da Internet Mais Segura deve ser entendido como um ponto de partida para um desígnio comum, assumido de forma partilhada e sustentada. 

A Rede de Bibliotecas Escolares, através das bibliotecas nela integradas, continuará assumir este compromisso, ao longo de todos os outros dias do ano, e a promover práticas educativas que ajudem a compreender, questionar e usar a internet de forma segura, crítica e responsável.

📷 Imagem criada com ChatGPT

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0