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Blogue RBE

Ter | 05.12.23

Se numa Noite de Inverno um Viajante

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Neste ano de 2023, comemora-se o centenário de nascimento de Italo Calvino (1923-1985), um dos mais amados e apreciados escritores italianos do século XX, a sua obra é conhecida no mundo inteiro.

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A sua obra é extensa, a sua escrita fantástica, interventiva, caleidoscópica e considerada, por muitos, experimental e inovadora. Selecionar um livro para partilhar é tarefa difícil e redutora, mas arriscamos eleger Se numa Noite de Inverno um Viajante para partilhar na rubrica Tempo para Ler.

 Em 1979, Italo Calvino escreve Se numa Noite de Inverno um Viajante, um romance com uma arquitetura original: narrativas interligadas, ao longo de doze capítulos, numa estrutura não linear e numa cartografia de cruzamentos e desencontros, de histórias dentro de histórias, de surpresas deliciosas e desprezíveis, temos o prazer de conhecer os protagonistas, o leitor e a leitora, que pretendem desvendar o enigma dos romances inacabados e dos manuscritos roubados e falsificados.

Estás a começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. A porta é melhor fechá-la; lá dentro a televisão está sempre acesa. Diz aos outros: “Estou a ler! Não quero que me incomodem! (…) Arranja a posição mais cómoda: sentado, estendido, enroscado, deitado. Deitado de costas, de lado, de barriga. Na poltrona, no sofá, na cadeira, de baloiço, na cadeira de praia, no pufe. Numa cama de rede, ser tiveres alguma cama de rede, Em cima da cama, naturalmente, ou dentro da cama. Até podes pôr-te de cabeça para baixo, em posição de ioga. Com o livro virado ao contrário, bem entendido. (…) Bem, afinal, o que estás à espera?”

No cerne da trama encontra-se o personagem tradutor Hermes Marana, o qual serve não só como recurso narrativo para aumentar o grau de desconfiança do leitor e da leitora como também para questionar o papel do autor e do tradutor dentro do universo literário. Italo Calvino, por meio do personagem tradutor, ironiza a idealização do autor como criador absoluto do texto literário.  Num permanente jogo entre o “leitor”, a “leitora” personagens que estão no centro da narrativa e o leitor e leitora comuns, quer dizer nós, há um envolvimento cúmplice que permanece ao longo da deslumbrante leitura desta obra-prima pós-modernista.

 “Apareceste pela primeira vez ao Leitor numa livraria, ganhaste forma destacando-te de uma parede de estantes, como se a quantidade dos livros tornasse necessária a presença de uma Leitora”.

O leitor e a leitora têm como missão ler romances, embora tenham consciência de que “há livros com que simpatizo, e livros que não consigo suportar e que me vêm para sempre às mãos” e é neste encontro e desencontro de hectares e hectares de livros “que Podes Passar Sem Ler, os Livros Feitos Para Outros Usos Além Da Leitura, os Livros Já Lidos Sem Ser Preciso Sequer Abri-los Por Pertencerem À Categoria Do Já Lido Antes  De Ser Escrito (…) Livros Que Se Tivesses Mais Vidas Para Viver Certamente Lerias Também De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Tens Para Viver São Os Que Tens Contados ” , de géneros literários, preferências que oscilam entre o mistério, a angústia, a literatura erótica ou a de viagens, entre outras, que se constroem mapas literários inimagináveis.

Na leitura dá-se qualquer coisa sobre a qual não tenho poder”, o verdadeiro leitor apenas tem a certeza de que a leitura provoca inquietação e infinitas possibilidades para que se (re)comece um processo sempre inacabado de novos eus, vivências e novas geografias.

Ler Se numa Noite de Inverno um Viajante é um verdadeiro desafio para nós, leitores reais, incitados a (re)pensar a literatura com a própria literatura, bem como a envolver-nos com outros personagens que fazem parte do universo literário, tais como o tradutor, o agente literário, o editor, o crítico literário ou o próprio autor. Ao longo da leitura, compreende-se os desassossegos de Calvino, muito vanguardistas para a época, entrelaçando a metalinguagem com uma narrativa de amor, suspense, erotismo e paixão. Afinal, o que faz de um romance um bom romance?

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