Retrato de uma vida ao serviço da biblioteca escolar
por Irene Bairros, Assistente Operacional da Biblioteca Escolar da EB de Santa Catarina

Tenho 53 anos, trabalho na Escola Básica de Santa Catarina há 31 anos e, há 26, como assistente na Biblioteca Escolar. Quando olho para trás, percebo que, mais do que um local de trabalho, a biblioteca se tornou uma parte essencial da minha vida. Foi aqui que cresci, aprendi, mudei e vi gerações inteiras de alunos passarem, cada uma com as suas histórias, as suas curiosidades e os seus sonhos.
Ao longo destes anos, aprendi que a biblioteca é muito mais do que um espaço cheio de livros. É um lugar vivo, onde se cruzam saberes, afetos e experiências. Todos os dias são diferentes. Há manhãs e tardes agitadas, cheias de alunos à procura de um livro, de um computador ou simplesmente de um canto tranquilo para estudar ou conversar. E há dias mais silenciosos, em que o som das páginas a virar é quase uma melodia de fundo.
O meu papel como assistente vai muito além da organização das estantes ou do atendimento. Faço parte de uma equipa educativa que acredita no poder da leitura e da informação. Colaboro com a professora bibliotecária, Eudora Pereira, em inúmeras tarefas — desde o apoio nas atividades de promoção da leitura e outros projetos, ao atendimento ao público e à catalogação. Recebo alunos e professores e estou sempre disponível para orientar quem procura um livro, para tirar uma dúvida, para ajudar no que for preciso.
Mas o que mais me marca é algo que nem sempre se associa de imediato a uma biblioteca: o contacto humano. A biblioteca é um refúgio para muitos alunos — um espaço onde se sentem seguros, acolhidos e ouvidos. Às vezes, basta um sorriso ou uma conversa breve para fazer a diferença no dia de alguém. Gosto de pensar que, de alguma forma, ajudo a tornar a escola um lugar mais humano e mais feliz.
Os desafios existem e, por vezes, torna-se difícil conciliar tudo o que há para fazer: apoiar atividades, manter o espaço organizado, responder às necessidades de alunos e professores, gerir empréstimos, catalogar livros e cuidar do ambiente da biblioteca. Outro grande desafio é motivar os alunos para a leitura num mundo cada vez mais digital. No entanto, é um desafio que me dá prazer. Ver um aluno descobrir o gosto por um livro e voltar a pedir outro é uma das maiores recompensas que posso ter.
Durante estes 26 anos, aprendi imenso — não só sobre livros e informação, mas sobretudo sobre pessoas. Aprendi a ouvir, a ter paciência, a respeitar diferentes ritmos e interesses. Aprendi que cada leitor precisa de um incentivo próprio, de um pequeno empurrão para entrar no mundo mágico das palavras e se deixar conquistar por elas.
A biblioteca tem um impacto muito importante na vida da escola. Observo isso nos projetos que realizamos com alunos, famílias e professores, nas leituras, desafios e exposições. É um verdadeiro ponto de encontro entre alunos e livros, entre professores e ideias, e entre gerações que aprendem juntas.
Sinto-me especialmente orgulhosa quando vejo antigos alunos regressarem e dizerem que a biblioteca foi um dos espaços mais marcantes da sua vida escolar. Isso mostra-me que o nosso trabalho deixa marcas — silenciosas, talvez, mas duradouras.
O que me move é o gosto por aprender e partilhar. Mesmo depois de tantos anos, continuo a descobrir novos livros, novas tecnologias e novas formas de envolver os alunos. A biblioteca mudou muito desde que comecei; hoje é um espaço dinâmico, aberto e digital, mas o seu espírito mantém-se: continua a ser o coração da escola.
No final de cada dia, quando fecho a porta e vejo o espaço arrumado, com livros à espera de novas mãos curiosas, sinto uma enorme gratidão. Sei que pertenço a um lugar onde se aprende todos os dias, não só com os livros, mas com as pessoas.
Trabalhar na biblioteca da Escola Básica de Santa Catarina é, para mim, mais do que uma profissão: é uma forma de cuidar da escola, de promover o gosto pela leitura e de contribuir para o crescimento de cada aluno. É um percurso de 26 anos que levo com orgulho e com a certeza de que, enquanto houver leitores e histórias, a biblioteca continuará a ser um lugar de luz, de descoberta e de vida.