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Blogue RBE

Ter | 10.10.23

Raparigas adolescentes e saúde mental: qual o impacto das redes sociais?

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No início deste ano, concluiu-se que, em 2021, quase três em cada cinco raparigas adolescentes dos EUA se sentiam persistentemente tristes ou desesperadas – o dobro dos rapazes, representando um aumento de quase 60 % e o nível mais elevado registado na última década.

As redes sociais são normalmente responsabilizadas por este problema, embora a investigação indique que têm efeitos positivos e negativos no bem-estar dos adolescentes (e, em alguns estudos, nenhum), dependendo o seu impacto, em grande parte, do adolescente em questão. Neste debate sobre as redes sociais e o bem-estar dos adolescentes, as suas vozes raramente são ouvidas, embora seja sobre eles que as decisões dos adultos têm maior influência.

Common Sense Media, uma organização sem fins lucrativos que tem apresentado vários estudos sobre esta matéria, lançou recentemente Adolescentes e saúde mental: como as raparigas realmente se sentem em relação às redes sociais, um estudo que parte precisamente do questionamento às próprias adolescentes e que se concentra em cinco plataformas populares: YouTube, TikTok, Instagram, Snapchat e Aplicações de mensagens.

Não foi novidade que as raparigas entrevistadas usam muito as redes sociais e, apesar de os adultos temerem que isso as prejudique, não é o que elas pensam. Mais de 80% das adolescentes entrevistadas pela Common Sense Media disseram que as redes sociais têm um impacto positivo ou neutro sobre elas próprias e sobre os seus pares. A maioria disse que as suas vidas seriam “piores”, em vez de “melhores”, sem elas, e citam experiências positivas frequentes, referindo que as redes sociais as ligam aos amigos, as ajudam a encontrar uma comunidade e as expõem a mensagens positivas sobre identidade racial e sexual, notando até que estas as ajudam a encontrar recursos e informações sobre saúde mental.

Mas as suas experiências com as redes sociais são simultaneamente positivas e negativas:

📍 O impacto das redes sociais nas raparigas adolescentes (seja positivo ou negativo) está relacionado com o seu nível de depressão. Quase quatro em cada 10 raparigas (38 por cento) entrevistadas relataram ter sintomas de depressão. As que tinham níveis mais elevados de depressão (moderada a grave) “tinham maior probabilidade do que as raparigas sem sintomas depressivos de dizer que o YouTube (10% vs. 4%), o Instagram (26% vs. 17%) e as aplicações de mensagens (19% vs. 8 por cento) tiveram um impacto principalmente negativo nas pessoas da sua idade.” Este grupo também era “mais propenso a dizer que suas vidas seriam 'melhores' sem cada plataforma de rede social”. Por outro lado, as raparigas com sintomas depressivos ligeiros eram “mais propensas a dizer que as suas vidas seriam piores sem YouTube (53% vs. 38%), TikTok (41% vs. 33%), Snapchat (38% vs. 26%) e aplicações de mensagens (52% vs. 42%). Curiosamente, a rede social normalmente considerada como tendo um impacto negativo na saúde mental (Instagram) não está nesta lista.

📍 Adolescentes negras encontram experiências positivas e negativas. De acordo com o relatório, “a maioria das adolescentes negras relatou ter encontrado conteúdo positivo ou de afirmação de identidade relacionado com a raça em todas as plataformas”. Ao mesmo tempo, aproximadamente “dois terços das raparigas negras que usam o TikTok (66%) e o Instagram (64%) relatam já ter se deparado com conteúdo racista nessas plataformas, com uma em cada cinco afirmando que o encontra diariamente ou mais frequentemente.”

📍 As adolescentes LGBTQ+ também encontram experiências positivas e negativas online. O discurso de ódio relacionado com a identidade sexual e de género é frequentemente experienciado por raparigas LGBTQ+ que usam as redes sociais, de acordo com o relatório. No entanto, esta mesma população também é “mais propensa do que os seus pares não-LGBTQ+ a dizer que se relaciona frequentemente com outras pessoas que partilham os seus interesses ou identidades”.

📍 As informações sobre saúde mental são tanto prejudiciais como úteis. O relatório conclui que “quatro em cada 10 raparigas que usam o Instagram (41%) e o TikTok (39%) relatam encontrar conteúdo prejudicial relacionado com o suicídio pelo menos uma vez por mês nessas plataformas”. Paradoxalmente, “a maioria das raparigas relata encontrar regularmente informações e recursos úteis sobre saúde mental... com mais da metade dos utilizadores do TikTok (60%), Instagram (56%), Snapchat (5) e YouTube (55%) dizendo que veem conteúdos desse tipo pelo menos uma vez por mês.” Além disso, as raparigas “com sintomas depressivos tinham maior probabilidade de se deparar com ambos, conteúdo prejudicial relacionado com o suicídio e conteúdo útil para a saúde mental, em comparação com raparigas sem sintomas depressivos.” (O que se deve possivelmente a algoritmos que detetam o seu interesse pelo assunto.)

O relatório também identifica o que as raparigas consideram “desafiador”. Por exemplo, dizem que se sentem “viciadas” no TikTok e que são “mais propensas a denunciar contactos indesejados de estranhos no Instagram e no Snapchat”. Elas também partilham opiniões sobre recursos de design, indicando, por exemplo, que “partilha de localização” e “contas públicas” são recursos que consideram “principalmente negativos”.

Afinal as redes sociais são benéficas ou prejudiciais para as adolescentes?

A grande conclusão deste relatório e a resposta a esta pergunta é que são ambos. Para cada rapariga que as redes sociais ajudam, há uma que prejudicam. Cada experiência positiva nas redes sociais parece ser contrabalançada por uma experiência negativa. E, muitas vezes, a mesma rapariga vivencia as duas situações.

Mas a verdade é que as redes sociais não irão desaparecer tão cedo. E mesmo que consigamos impedir que os adolescentes o utilizem hoje (pouco provável), é natural que mais tarde o utilizem, seja por prazer ou por trabalho (provavelmente ambos). Mas uma rapariga só prejudicada já é demais. É necessário fazer alguma coisa para tornar as redes sociais mais seguras para todos, especialmente para os mais vulneráveis.

Um caminho evidente é exigir que as empresas de redes sociais implementem as muitas mudanças e salvaguardas que têm sido pedidas. Mas esse caminho geralmente requer ação legislativa e fiscalizadora e nem sempre é tão rápido como desejável.

Uma outra abordagem é a educação. Temos de ensinar aos jovens como evitar muitos dos desafios dos quais este relatório mostra que eles estão claramente conscientes. Eles devem saber como gerir a sua privacidade, bloquear contatos indesejados, filtrar conteúdo questionável, ser mais esperto do que os algoritmos e usar as configurações de segurança que muitas redes sociais já oferecem. Os adolescentes capacitados com esse conhecimento serão capazes de tornar suas próprias experiências on-line mais seguras. Basta perguntar-lhes.

A organização promotora do estudo, Common Sense Media, tem trabalhado muito nesta direção, disponibilizando múltiplos recursos de apoio, quer para pais quer para educadores, para abordar estas matérias com os adolescentes, um manancial de propostas que vale bem a pena estudar.

Em Portugal, também as bibliotecas escolares têm dado enfoque a estas questões e têm colaborado com os professores das suas escolas para colocar na agenda o bem-estar digital dos alunos. Se procura sugestões, sugerimos que explore o recurso Saber usar os media. Certamente encontrará um bom apoio.

Referências

Nesi, J., Mann, S. and Robb, M. B. (2023). Teens and mental health: How girls really feel about social media. San Francisco, CA: Common Sense. https://www.commonsensemedia.org/sites/default/files/research/report/how-girls-really-feel-about-social-media-researchreport_final_1.pdf

Graber, D. (2023, 30 de março). New Report Reveals How Teen Girls Feel About Social Media. Psychology today. https://www.psychologytoday.com/us/blog/raising-humans-in-a-digital-world/202303/new-report-reveals-how-teen-girls-feel-about-social

📷 Omar Brito De Jesús por Pixabay

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