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Blogue RBE

Seg | 26.02.24

Otimizar a aprendizagem invertida com microaulas

Por Tolulope Noah*

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Palestras curtas e gravadas que se concentram num conceito ou competência podem ser ferramentas de ensino poderosas.

A aprendizagem invertida vira o modelo tradicional de ensino de pernas para o ar. Robert Talbert, autor de Flipped Learning, explica que num ambiente invertido, o "primeiro contacto dos alunos com novos conceitos passa do espaço de aprendizagem em grupo para o espaço de aprendizagem individual". Por outras palavras, os alunos aprendem primeiro os novos conteúdos através de trabalho individual, para que o tempo que passam com o professor e os colegas possa ser dedicado a atividades mais complexas e interativas, nas quais podem beneficiar do apoio dos outros.

No seu livro In-Class Flip, Martha A. Ramírez e Carolina R. Buitrago referem que pode ser utilizada uma variedade de conteúdos para facilitar a aprendizagem no tempo individual, incluindo vídeos, leituras, rascunhos, infografias, podcasts e HyperDocs [nt1]. Talbert explica que as tarefas do tempo individual devem ser bem estruturadas, orientando os alunos no processamento e na compreensão dos novos conteúdos. Os três autores também discutem a importância de incorporar a responsabilidade nas tarefas de tempo individual, pedindo aos alunos que completem notas, questionários, exercícios práticos ou outras atividades.

Ao utilizar conteúdos de vídeo para a aprendizagem invertida, uma estrutura útil que os educadores podem utilizar são as microaulas, que são vídeos educativos que se centram num determinado conceito ou competência. (Para um exemplo concreto de uma microaula, veja este vídeo para professores em formação). O designer educativo Hua Zheng explica que as microaulas têm três características principais:

  • Duram menos de 10 minutos. (De facto, a investigação indica que seis minutos é o tempo ideal para manter o interesse dos alunos);
  • Promovem a ligação entre os alunos e o professor;
  • Levam os alunos a envolverem-se ativamente com o conteúdo em vez de o absorverem passivamente.

Os educadores podem utilizar a abordagem da microaula para criarem conteúdos enriquecedores e invertidos com os quais os alunos se possam envolver durante o seu tempo individual.

Princípios de conceção de vídeo e acessibilidade

Ao criar microaulas, é importante ter em conta os princípios de conceção de vídeo evidenciados pela investigação. A professora da Universidade de Vanderbilt, Cynthia J. Brame, destaca quatro princípios que podem ser particularmente úteis para gerir a carga cognitiva:

Destacar. Aponte as ideias-chave do vídeo. Isto pode ser feito através de ênfase verbal em certos conceitos ou através de pistas visuais (como setas ou destaques).

Segmentar. Divida o conteúdo em partes facilmente manuseáveis. Desta forma, é mais fácil para os alunos acompanharem e verem como os conceitos se estão a desenvolver uns sobre os outros.

Desbastar. Omita qualquer informação desnecessária que não se alinhe com o(s) objetivo(s) de aprendizagem e quaisquer elementos visuais que possam distrair os alunos. Isto inclui áudio (como música de fundo) e imagens (como gráficos desnecessários ou diapositivos muito movimentados).

Combinar. Forneça informações em vários formatos. Por exemplo, transmita informações tanto a nível auditivo como através de imagens no ecrã.

Para além disso, é importante garantir que as suas microaulas são legendadas com precisão para fins de acessibilidade e outros. A aplicação Clips para iPad e iPhone, por exemplo, facilita a gravação de vídeos com legendas precisas e incorporadas (através da funcionalidade Live Titles). Com o Flip, pode editar as legendas através da Web, e o Loom permite-lhe editar a transcrição do vídeo, que também atualiza automaticamente as legendas.

Mantê-lo ativo

Existem várias formas de criar interatividade, estrutura e compromisso nas suas microaulas. Por exemplo, plataformas como Edpuzzle e PlayPosit permitem-lhe incorporar perguntas interativas nos seus vídeos. Zheng observa que também pode simplesmente dizer aos alunos para pausarem o vídeo e realizarem uma atividade ou utilizar um temporizador. Por exemplo, pode incorporar facilmente um temporizador do YouTube no Google Slides, PowerPoint ou Keynote e reproduzi-lo sempre que quiser que os alunos concluam uma atividade.

Início da microaula: Ative os conhecimentos prévios dos alunos e desperte o seu interesse pelo novo conteúdo, pedindo-lhes que completem uma atividade de prática de recuperação [nt2], escrita rápida [nt3], bilhete de entrada [nt4], guião de antecipação [nt5], gráfico Sabe-Pergunta-Aprende [nt6], brainstorming, sondagem ou rotina de pensamento [nt7] (como Ver, Pensar, Perguntar ou Ponte 3-2-1) [nt8].

A meio da microaula: Faça com que os alunos preencham um organizador gráfico [nt9] ou uma folha de anotações guiadas [nt10] à medida que aprendem o conceito ou a competência e dê-lhes oportunidades para se envolverem com o conteúdo. Por exemplo, os alunos podem fazer uma pausa no vídeo para criar esboços, resolver problemas de exemplo [nt11], preencher um miniquadro de escolhas [nt12], praticar uma competência e muito mais!

Fim da microaula: Peça aos alunos que façam uma verificação da compreensão e que pensem na sua aprendizagem. Por exemplo, podem preencher um bilhete de saída [nt13], uma reflexão com formas geométricas ou uma rotina de pensamento (como Antes pensava que... agora penso que... ou Conecto, Amplio, Desafio).

Os alunos podem realizar estas ações em papel ou através de ferramentas tecnológicas como o Mentimeter, Poll Everywhere, Google Jamboard, Padlet, Flip, Google Docs, Google Slides, Google Drawings, Mote ou Google Forms. Uma vantagem da utilização de ferramentas digitais é o facto de permitirem que os alunos expressem o que aprenderam utilizando ferramentas multimodais (como vídeo, gravações áudio, etc.). Pode fornecer acesso rápido a quaisquer tarefas digitais, incluindo um código QR e uma hiperligação abreviada na sua microaula (semelhante ao vídeo de exemplo na introdução).

Em alternativa, pode adicionar a microaula (juntamente com hiperligações descritivas para quaisquer tarefas digitais) a um Google Slide ou Doc; a um documento do Apple Keynote, Numbers ou Pages; a uma coleção Wakelet; a um Padlet; ou a uma página Web, para que os alunos tenham um “balcão único” para tudo o que precisam. Pode até adicionar a microaula a um Formulário Google para que os alunos possam ver o vídeo e responder às perguntas no mesmo sítio!

Próximos passos

Pronto para começar a criar microaulas para os seus alunos? Consulte este artigo que inclui um modelo de planeamento útil, sugestão de ferramentas para a criação de microaulas e outras dicas úteis. Além disso, esta rubrica de revisão por pares de microaulas pode ajudá-lo a avaliar e rever as suas microaulas para garantir que utiliza as melhores práticas de conceção de vídeo.

 

O texto deste artigo foi traduzido e publicado com a autorização da Edutopia:

Noah, T. (2023, 6 de julho). Enhancing Flipped Learning With Microlectures. Edutopiahttps://www.edutopia.org/article/flipped-learning-with-microlectures

📷 Foto de CoWomen: https://www.pexels.com/pt-br/foto/camera-de-video-preta-2041396/

 

Notas de tradução

Ao longo do texto são referidas várias metodologias ativas que serão aprofundadas em artigos posteriores.

[Nt1] HyperDocs

É uma abreviatura de "Hyperlinked Documents", que se refere a documentos digitais interativos que são projetados para transformar a experiência de aprendizagem dos alunos, especialmente em ambientes de ensino remoto ou híbrido. Os HyperDocs são criados usando plataformas como Google Docs, Google Slides ou outras ferramentas de criação de documentos digitais e são estruturados para envolver os alunos numa variedade de atividades, recursos e interações.

[nt2] Prática de recuperação

A prática de recuperação, ou retrieval practice em inglês, é uma estratégia de aprendizagem em que o aluno procura ativamente lembrar-se de informações da sua memória em vez de apenas as rever repetidamente. Pode resultar de uma tarefa ou exercício projetado especificamente pelo professor para ajudar os alunos a treinarem ativamente a recuperação das informações que estão a aprender. Essas atividades podem assumir várias formas, dependendo do que está a ser estudado. São preparadas para desafiarem a memória e ajudarem a recordar as informações de forma eficaz. Para isso, ajudam a fortalecer as conexões neurais associadas às informações que os alunos estão a aprender.

Nt3 Escrita rápida

Uma escrita rápida (quick write) é uma atividade de escrita breve e não planeada, na qual os alunos são solicitados a escreverem rapidamente sobre um tópico específico durante um curto período de tempo. Os alunos podem ser convidados a responder a uma pergunta, refletir sobre uma ideia, partilhar uma experiência pessoal, discorrer sobre um tema discutido em aula ou simplesmente expressar seus pensamentos e sentimentos sobre um assunto. A ênfase está na escrita contínua e rápida, sem preocupações com a qualidade da redação.

[nt4] Bilhete de entrada

Um bilhete de entrada (entrance ticket) refere-se a uma estratégia pedagógica em que os alunos respondem a uma pergunta ou realizam uma tarefa no início da aula para demonstrar o que já sabem sobre o tema que será abordado naquele dia.

[nt5] Guia de antecipação

Um guia de antecipação (anticipation guide) é uma ferramenta educativa usada para ativar o conhecimento prévio dos alunos, despertar seu interesse e prepará-los para um novo tema de estudo. Consiste numa lista de afirmações ou perguntas relacionadas com o tópico que será abordado numa unidade de ensino, capítulo de livro ou atividade específica. Os alunos são convidados a responder a essas afirmações ou perguntas antes de começarem a aprender sobre o tema em questão.

[nt6] Gráfico Sabe-Pergunta-Aprende

Um gráfico Sabe-Pergunta-Aprende (Know-Wonder-Learn chart) é uma ferramenta de aprendizagem que ajuda os alunos a organizarem seus conhecimentos prévios, questões e descobertas sobre determinado tema. É frequentemente usado como uma atividade para orientar a aprendizagem e a reflexão dos alunos antes e depois de um estudo ou experiência de aprendizagem.

[nt7] Rotina de pensamento

Uma rotina de pensamento (thinking routine) é um conjunto de passos ou procedimentos estruturados projetados para orientar os alunos na realização de processos de pensamento crítico e reflexivo.

As rotinas de pensamento são flexíveis e podem ser adaptadas a diversos contextos e conteúdos curriculares. Fornecem um quadro claro para os alunos explorarem e analisarem ideias, fazerem conexões, formularem perguntas significativas e comunicarem seus pensamentos de maneira clara e eficaz. Promovem a metacognição e a compreensão dos alunos sobre um assunto e desenvolvem competências de pensamento crítico e criativo.

[nt8] Ponte 3-2-1

É um exemplo de rotina de pensamento.

[nt9] Organizador gráfico

Um organizador gráfico é uma ferramenta visual usada principalmente no contexto educativo para ajudar os alunos a organizarem e estruturarem informações de forma clara e compreensível. Geralmente inclui elementos como diagramas, mapas mentais, tabelas, gráficos ou diagramas de Venn e é usado para representar visualmente conceitos, ideias e relações entre informações. Os organizadores gráficos são frequentemente usados para atividades como planificação de escrita, análise de texto, resolução de problemas e síntese de informações.

[nt10] Folha de anotações guiadas

Uma folha de anotações guiadas (guided notes sheet) é uma ferramenta projetada para ajudar os alunos durante as aulas, fornecendo uma estrutura organizada para tomarem notas. Essas folhas são pré-formatadas com espaços em branco para que os alunos os preencham enquanto o professor apresenta o conteúdo; geralmente incluem espaços para preenchimento, perguntas-chave, espaços para esboçar diagramas ou gráficos relevantes e outras formas para orientar os alunos.

[nt11] Problemas de exemplo

Problemas de exemplo (sample problems) são problemas ou exercícios práticos que são fornecidos aos alunos como exemplos para os ajudar a compreender um conceito ou a aplicar uma técnica específica. Esses problemas são projetados para ilustrar o modo como os conceitos teóricos ou as fórmulas matemáticas são aplicados na prática.

[nt12] Quadro de escolhas

Um quadro de escolhas (choice board) é uma ferramenta que oferece aos alunos uma variedade de atividades ou tarefas para escolherem, com base nos seus interesses, estilos de aprendizagem ou níveis de competência. Geralmente, um quadro de escolhas é organizado numa tabela, em que cada célula contém uma opção de atividade.

Essas atividades podem ser diferentes em termos de formato, conteúdo e nível de dificuldade, permitindo que os alunos escolham aquelas que mais lhes interessam ou que melhor atendem às suas necessidades de aprendizagem. Os professores podem incluir uma variedade de recursos, como leituras, problemas de matemática, experimentos científicos, projetos de escrita, atividades artísticas, entre outros.

[nt13] Bilhete de saída

Um bilhete de saída (exit ticket) é uma ferramenta usada pelos professores para avaliarem rapidamente a compreensão dos alunos sobre um conceito ou tópico no final de uma aula. Geralmente, consiste numa ou duas perguntas curtas que os alunos respondem antes de deixar a sala de aula. Essas perguntas são pensadas para verificar se os alunos atingiram os objetivos da aula, sintetizaram as informações apresentadas e identificaram os pontos principais.

Sobre Tolulope Noah

Tolulope (Tolu) Noah, Ed.D. é coordenadora de espaços de aprendizagem educativa na California State University, Long Beach, onde coordena o apoio ao desenvolvimento do corpo docente. Anteriormente, ela foi especialista sénior em aprendizagem profissional na Apple, professora associada no programa de formação de professores de graduação na Azusa Pacific University (APU) e professora do ensino fundamental e médio em Los Angeles. Tolu recebeu o Prémio de Excelência Docente de 2019 na APU e foi recentemente nomeada pela EdTech Magazine como um dos 30 Influenciadores de TI do Ensino Superior a seguir em 2023.

Tolu foi a palestrante principal e apresentadora em várias conferências sobre educação, como a Teaching Professor Conference e a Lilly Conference. Ela gosta de promover workshops e webinars interessantes e interativos para educadores do ensino fundamental e médio e do ensino superior. Pode contactar com Tolu no Twitter, LinkedIn ou através do seu sítio Web.

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