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2021-04-07 Imagem meme.png

Meme é um conceito inicialmente cunhado, em 1976, pelo biólogo Richard Dawkins, no seu livro O Gene Egoísta e é para a memória o análogo do gene na genética. Enquanto os genes são replicadores biológicos, responsáveis pela transmissão das características herdadas geneticamente, os memes são definidos, por Dawkins, como pequenas unidades culturais de transmissão que se propagam de pessoa para pessoa. Exemplos de memes podem ser ideias ou partes de ideias, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra informação que possa ser transmitida como unidade autónoma, como p.ex. a ideia de Deus. [Cf. vídeo de Dawkins.  Oxford Union, Fevereiro de 2014]

Quando usado num contexto informal e não científico, o termo meme pode significar apenas a transmissão de informação de uma mente para outra. De acordo com Knobel e Lankshear, citados por Shifman (2013), a palavra meme é empregue por utilizadores da internet principalmente para descrever a rápida aceitação e disseminação de uma “ideia particular, apresentada como um texto escrito, imagem, 'movimento' de linguagem ou alguma outra unidade de 'material' ‘cultural”.

O conceito, desde que foi apropriado pelos internautas, afastou-se do propósito original de Dawkins. Este explica como um "meme da internet" é um sequestro da ideia original, já que, em vez de se replicar por autopropagação, é alterado deliberadamente pela criatividade humana [cf. vídeo, Just for Hits, Richard Dawkins]. Ou seja, por detrás da sua replicação está a participação das pessoas que se posicionam, não como vetores naturais de transmissão cultural, mas como agentes que alteram intencionalmente conteúdos. Este fenómeno é bem visível quando examinamos casos nos quais o significado inicial de um meme foi dramaticamente alterado no decurso da sua difusão.

Um meme pode ser uma imagem, uma ideia, informação ou comportamento que geralmente corresponde à sua reutilização ou alteração e que, gradativamente, se transforma num fenómeno de partilha na Internet. Se o meme da internet ganha vida própria no universo digital, caso os internautas assim o decidam, a sua plasticidade é concedida pelas alterações que estes introduzem e pela natureza aleatória e espontânea de todo este processo que, apesar de tudo, segue alguns critérios - para o sucesso de um meme é necessário um toque de ironia e de absurdo, algum humor ou sátira, crueza ou espírito transgressivo.

A apropriação dos memes pelos internautas torna-se bem visível numa simples pesquisa no google - museus, coleções, temas, vídeos, ferramentas , calendários , cartões, etc.

De acordo com Limor Shifman (2013), existem três atributos principais atribuídos aos memes que são de particular relevância para a análise da cultura digital contemporânea.

Os memes transformaram-se num fenómeno social partilhado (favorecido pela forma como a cultura é veiculada na Web 2.0, através de plataformas como o YouTube, Twitter, Facebook, Wikipedia ou outros), reproduziram-se por vários meios de imitação e remix (já que uma infinidade de aplicações amigáveis permitem que as pessoas baixem, reeditem e distribuam conteúdo com muita facilidade), e a sua difusão permite uma investigação sem precedentes (já é possível rastrear na internet a sua propagação e evolução, através das metainformações que se estão a tornar, cada vez mais, uma parte visível do próprio processo).

O surgimento da cultura digital aumentou exponencialmente a circulação de informação e alterou a produção do conhecimento. A convergência de medias permitiu a interferência direta do público na produção e partilha de dados à escala global, o aparecimento de novas linguagens, de novos suportes e de novas formas de relação com o conhecimento.

O ambiente digital instaurou uma relação com textos e códigos diferente das conhecidas e praticadas [Hastags (#), ganham expressão quando associados a assuntos ou discussões que se deseja indexar em redes sociais; emoticons, modificam a mensagem nas quais são incluídos e dão um sentido de proximidade ao emissor a ao recetor das mensagens; ícones, passaram a ser utilizados como forma de executar aplicações e/ou determinadas tarefas, etc.].

Ou seja, todas estas ações, subentendidas na leitura e na escrita em contexto digital, transformaram-se em modos de ler e interpretar, escrever, colaborar e difundir informação, incorporando, simultaneamente, um repertório de novas formas discursivas e de traços comportamentais próprios de relacionamento online.

É nesta vertente discursiva, social e cultural que antevemos potencialidades didáticas para uma exploração dos memes em contexto educativo. Particularmente em três dimensões: a primeira diz respeito principalmente ao conteúdo dos memes (tanto às ideias quanto às ideologias por ele veiculadas); a segunda relaciona-se com a forma (a dimensão física da mensagem - aspetos visuais/auditivos específicos) e, finalmente, a dimensão comunicativa (o tom, o estilo, as maneiras pelas quais o sujeito se posiciona em relação ao texto e toma decisões).

A exploração didática dos memes pode ajudar o aluno na compreensão da cultura digital, da dimensão participativa e ativa dos sujeitos nas redes sociais e no processo de construção de conhecimento, capacitando-o na apropriação de uma diversidade dos géneros e medias digitais e no desenvolvimento de posturas éticas e de competências críticas face à informação que consome, aos conteúdos que cria, remixa ou replica na internet.

A integração das multiliteracias e de práticas da cultura digital no ensino, contribui para uma participação mais efetiva e crítica por parte dos alunos e amplia de forma significativa a produção de novos conhecimentos, muito associados à criatividade e inovação. Os memes, enquanto artefatos da cultura digital, funcionam como micronarrativas colaborativas, marcadas pela inovação no formato, com alto poder de síntese e pelo exercício da transposição da comicidade.

Assim, a escola pode desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento de uma cultura digital, mediando a relação do aluno no processo de compreensão da realidade e da construção do conhecimento. Por que não começar pelos memes?

 

Destaques

Veja as propostas pedagógicas disponíveis em Aprender com a biblioteca escolar- atividades e recursos: #EntenderMemeASério; #MemesNossosDeCadaDia.

Explore as ferramentas para elaboração de memes que encontra na biblioteca escolar digital.

 

Referência

Shifman, L. (2013). Memes in a Digital World: Reconciling with a Conceptual Troublemaker. Journal of Computer-Mediated Communication, Volume 18, Issue 3, 1 April 2013, Pages 362–377, https://doi.org/10.1111/jcc4.12013

 



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