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 Download | Tese de Maria Elisabete da Silva Bárbara

 

A minha tese de doutoramento debruça-se sobre as traduções portuguesas dos contos de Perrault que foram editadas e circularam em Portugal no período do Estado Novo (1933-1974). Ao longo de oito anos de investigação, confrontei essas versões (depois, claro, de correr o espólio de muitas bibliotecas à sua procura) com os respetivos originais, de 1697, no intuito de perceber até que ponto o contexto de chegada – na interseção dos códigos político, ideológico, cultural e literário – determinou ou não a tradução e, eventualmente, a colocou ao serviço da ideologia do regime.

Não houve a intenção de respeitar o texto original do autor francês nem a preocupação de manter o duplo destinatário contemplado por Perrault (crianças e adultos); houve, sim, o propósito de traduzir para crianças, ou melhor, para crianças portuguesas. Houve o propósito de inculcar nos jovens leitores os valores do Estado Novo.

As versões portuguesas de Perrault, no Estado Novo, entre muitas outras alterações "profiláticas", redesenham o perfil das personagens e as relações de família, de modo a conformar os comportamentos aos papéis que a mundividência estado-novista entende como próprios de homens e de mulheres.

Lembro, por exemplo, o caso de Cendrillon (A Gata Borralheira): a heroína das versões portuguesas perde muito da sua afirmação individual. Perde traços de rebeldia e de iniciativa pessoal, tornando-se uma menina exemplar, recatada, cheia de virtudes, que sonha com o seu príncipe encantado e com um casamento de conto de fadas. Não lhe cabe manifestar o mesmo grau de iniciativa e de autonomia da protagonista de Perrault. E nunca se impõe ou sobrepõe ao elemento masculino.

Já o Capuchinho Vermelho, desde tenra idade, ajuda a mãe nas tarefas domésticas e é descrita como uma “mulherzinha”. Este estereótipo da mulher como mãe extremosa e dona de casa exemplar opõe a vida doméstica à vida exterior e pública. É deste modo que, nas versões portuguesas de Perrault, se desenham claras fronteiras: ao passo que a mulher está confinada ao espaço doméstico, ao homem está reservado o espaço exterior, símbolo de independência e de um espírito “naturalmente” aventureiro.

Lembro que, no Capuchinho de Perrault, existem três figuras femininas: a avó, a mãe e a menina. Não há nenhum pai nem nenhum marido. As versões portuguesas não acham bem e aumentam a família.

 

Síntese feita pela autora, Maria Elisabete da Silva Bárbara.

 

Referência: BÁRBARA, Maria Elisabete da Silva - Os contos de Perrault em Portugal no Estado Novo. Coimbra : [s.n.], 2014. Tese de doutoramento. Disponível na Internet em: <URL:http://hdl.handle.net/10316/23758>.

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