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Blogue RBE

Sex | 24.03.23

OCDE: A persistência das diferenças de género na educação e competências

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No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico lança o relatório Gender, Education and Skills: The persistence of gender gaps in education and skills/ Género, Educação e Competências [1]: A persistência das diferenças de género na educação e competências de Marta Encinas-Martín, embaixadora da OCDE para a educação em género e Michelle Cherian, consultora da OCDE para a educação.

Os dados apresentados provêm do Programa Internacional para a Avaliação dos Estudantes da OCDE (PISA), de Education at a Glance (EAG) e do Survey of Adult Skills (PIAAC).

Com base no seu Editorial, organizamos as principais conclusões do Relatório como resposta a três questões. No final, apresentamos sugestões de trabalho e discussão com a biblioteca escolar.

 

A. Qual é o desempenho de rapazes e raparigas na escola (ensino secundário e universidade), no mercado de trabalho e ao longo da vida?

1. Em todos os países representados no PISA as raparigas de 15 anos superam os rapazes ao nível do desempenho na leitura. Por exemplo, em 2018 tiveram em média 30 pontos acima dos rapazes.

A forma como os estudantes passam o tempo fora da sala de aula tem efeitos dentro da sala de aula. O gosto pela leitura enriquece o vocabulário e a compreensão de todas as matérias e, em média, em todos os países, as raparigas relatam níveis de prazer de leitura muito superiores aos rapazes. Por exemplo, no PISA 2018, 44% das raparigas e 24% dos rapazes de 15 anos dizem que “a leitura é um dos meus passatempos favoritos”.

Acresce que os rapazes “passam menos tempo a fazer os seus trabalhos de casa e também utilizam a Internet para o lazer durante mais horas do que as raparigas” e também são eles que, mais frequentemente, não concluem o ensino secundário - mais de 80% das raparigas conclui. Em geral, o PISA constata que “aos 15 anos os rapazes são mais propensos do que as raparigas a ter baixos resultados nos três domínios avaliados: leitura, matemática e ciência”.

2. Por contraste, nos melhores desempenhos de matemática e ciências as raparigas estão sub-representadas – por exemplo, no PISA 2018, 12% dos rapazes e 9% das raparigas atingiram os níveis mais elevados de desempenho matemático. No entanto, em geral “os rapazes superam as raparigas em matemática por uma margem muito menor do que as raparigas superam os rapazes em leitura” - a diferença de género nos resultados em ciências é mais estreita do que na matemática.

As raparigas relatam menor autoconfiança nas suas capacidades, medo em fracassar e sentimentos de ansiedade que, segundo este relatório, “estão frequentemente ligados aos estereótipos de género que persistem nas famílias, na escola e nas comunidades”. Por exemplo, no PISA 2012 “os pais tinham mais probabilidades de esperar que os seus filhos, em vez das suas filhas, trabalhassem numa área relacionada com ciência, tecnologia, engenharia ou matemática (STEM)”.

Há expetativas mais baixas para as raparigas e mulheres relativamente às STEM e isso influencia o seu desempenho, aspirações académicas e de emprego, rendimentos e perspetivas de realização e saúde/ bem-estar, bem como de contribuição efetiva para a economia do seu país ao longo da vida. O PISA 2018 evidencia que apenas 14% das raparigas de 15 anos com melhor desempenho em ciência e matemática esperam trabalhar nessas áreas; para os rapazes este valor é de 26%. 

3. O Relatório refere que “Em 2020, em quase todos os países, as mulheres tinham mais probabilidades do que os homens de completarem o ensino superior” e que as mulheres com formação superior têm mais probabilidades de estarem empregadas e ganharem mais ao longo da vida. A média da OCDE para mulheres licenciadas de 25-34 anos, relativamente às que têm o ensino secundário, é de ganharem 52% mais - este valor para os homens é 39%.

Na universidade as mulheres escolhem áreas de estudo associadas a empregos com salários mais baixos: educação (80%), saúde (80%) e ciências sociais (70%). Entre 2005 e 2020 apenas 25% das novas licenciadas em engenharia, fabrico e construção eram mulheres e em TIC a percentagem era mais baixa.

 

"As mulheres e meninas trazem mais diversidade à investigação, aumentam o leque de profissionais na área e proporcionam novas perspetivas à ciência e tecnologia, beneficiando todos”

Palavras do Secretário-Geral das Nações Unidas no Dia Internacional das Mulheres e Raparigas na Ciência que se celebra a 11 de fevereiro.[2] Este Dia, instituído através da Resolução 70/212 da Assembleia Geral das Nações Unidas (2015, 22 dez.), teve por tema, em 2023, Innovate. Demonstrate. Elevate. Advance - IDEA, trazer as comunidades para um desenvolvimento sustentável e equitativo.

 

B. Quais são as principais causas das disparidades de género nos estudos, emprego e remuneração?

1. São estereótipos de género e convenções sociais que induzem ao (auto-) afastamento dos estudos STEM, tão necessários no contexto da quarta revolução industrial. As decisões sobre a área da licenciatura têm efeitos na disparidade de género, quer no trabalho – “em todos os países e economias PISA há muito menos mulheres do que homens empregados nestes sectores” - quer na remuneração e perspetivas ao longo da vida. Em média as mulheres licenciadas ganham 76% do que os seus pares masculinos. Os homens são mais propensos a decidir por áreas de estudo com rendimentos elevados como engenharia, fabrico e construção e TIC.

2. Necessidade de as mulheres terem que conciliar a carreira profissional com a vida familiar e doméstica, obrigando-as a aceitar empregos com flexibilidade de horários e mais baixos rendimentos do que os homens com igual nível de escolaridade e a não exercerem cargos de liderança.

Em geral, o Relatório apresenta evidências que corroboram a sub-representação contínua/ estrutural das mulheres em áreas de estudo e carreiras STEM e as disparidades de género no mercado de trabalho, em cargos de liderança e nos salários.

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As mulheres cientistas representam 45% do total de investigadores em Portugal.

Depois dos lançamentos de 2016, 2019 e 2021, o livro Mulheres na Ciência reúne, em 2023, mais 101 retratos de investigadoras de diferentes gerações e áreas do conhecimento. Seguindo a ligação pode ter acesso a todas as cientistas retratadas neste livro [3].

 

C. Como é que os vários setores, educação - e biblioteca escolar, governação, empresas, podem contribuir para reduzir as disparidades na educação, no mercado de trabalho e nos salários?

1. Sensibilizar/ Tomar consciência e questionar preconceitos de género na escola e na comunidade, envolvendo pais, professores, empresas, dirigentes de governação e imprensa. Segundo o Relatório “A eliminação de preconceitos de género nos currículos poderia encorajar mais raparigas a melhorar as suas capacidades numéricas e mais rapazes a melhorar as suas capacidades de leitura”.

2. Informar os estudantes, atempadamente, sobre “os estudos necessários para carreiras específicas e os rendimentos que podem esperar dessas carreiras”, para que possam tomar decisões informadas sobre o seu futuro.

3. Dar visibilidade a mulheres que estudam e trabalham na área das STEM, pois a falta de modelos “significa que as jovens têm poucas provas tangíveis para refutar a noção de que a matemática e as ciências são de alguma forma disciplinas mais ‘masculinas’.”

4. Políticas específicas de transparência salarial que façam com que “as empresas reconheçam a dimensão das suas disparidades salariais em função do género” baseadas em estudos, com recolha de dados e informação e na sua partilha com todos os trabalhadores, auditores governamentais e consumidores/ público.

 

Recursos e propostas de aprendizagem e discussão:

Documentos de apoio: Igualdade de Género

Álbuns

Dia Internacional da Mulher: 8 de março

Ser quem quiser e Namorar dÁ que falar

Os vídeos premiados das e dos jovens que dizem não ao sexismo!

 

Referências

1. Encinas-Martín, Marta & Cherian, Michelle. (2023, 2 Mar.). Gender, Education and Skills: The Persistence of Gender Gaps in Education and Skills. Paris: Organisation for Economic Co-operation and Development. https://www.oecd-ilibrary.org/education/gender-education-and-skills_34680dd5-en

2. ONU News. (2023, 10 fev.). Mulheres e Meninas na Ciência trazem ainda mais resultados, diz ONU. USA: ONU. https://news.un.org/pt/story/2023/02/1809607

3. Ciência Viva. (2023). Mulheres na Ciência. Portugal: Ciência Viva. https://www.cienciaviva.pt/divulgacao-cientifica/mulheresnaciencia/dia-internacional-da-mulher/2023

4. Fonte da imagem: [1]

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