O ser humano é, antes de tudo, um animal narrativo
por Júlia Martins*

“A vida humana está tão enredada em histórias que ficamos completamente anestesiados em relação ao seu estranho e enfeitiçante poder. “
“(…) Mas aquilo que é mais impressionante, embora mais difícil de ver, é a forma como as histórias estão constantemente a exercer a sua ação sobre nós, esculpindo-nos da forma como o fluxo de água acaba por esculpir a rocha.”
Jonathan Gottschall, no livro Storytelling: Como as histórias nos tornam humanos (Vogais, 2025), parte de uma ideia tão simples quanto profunda: o ser humano é, antes de tudo, um animal narrativo. Contamos histórias para viver, para aprender e ensinar, para nos reconhecermos uns nos outros, para imaginar, para conhecer o mundo, para mapear e descobrir o mundo, entre muitas outras descobertas. Longe de serem apenas entretenimento ou ornamento cultural, as histórias ocupam um lugar central na formação da mente humana e na organização da vida social e cultural.
A tese apresentada por Gottschall é que a nossa atração quase irresistível por narrativas tem raízes biológicas, cognitivas e evolutivas. Desde os mitos ancestrais até os romances contemporâneos, das histórias contadas à volta da fogueira às séries consumidas em plataformas digitais, o impulso narrativo atravessa épocas, culturas e suportes. Para Gottschall, isso não é coincidência: é sinal de que contar histórias foi — e continua a ser — uma vantagem adaptativa.

Ao leitor de histórias é oferecido a possibilidade de viver experiências únicas – emocionais, sociais, morais, políticas e muitas outras - sem sofrer as suas consequências reais. Ao acompanhar vivências, conflitos, dilemas e decisões dos personagens, o cérebro humano ensaia respostas para compreender, adaptar-se e viver no mundo real. Possibilita exercitar o pensamento, (re)pensar, escutar e questionar. Nesse sentido, a narrativa funciona como uma poderosa ferramenta de aprendizagem, de alavanca para exercitar o pensamento crítico e de alteridade.
Gottschall mostra ainda que não vivemos apenas rodeados de histórias: nós pensamos em forma de histórias. Organizamos memórias como enredos, transformamos acontecimentos caóticos em sequências com sentido e interpretamos o mundo por meio de narrativas. Mesmo áreas aparentemente distantes da ficção como o desporto, o direito, a política ou a ciência recorrem a estruturas narrativas para produzir significado e persuasão. Essa ubiquidade revela algo essencial para quem trabalha com livros, bibliotecas e educação: a leitura não é uma atividade artificial imposta à mente humana, mas uma extensão natural de uma capacidade cognitiva profunda. Ler histórias é dialogar com um modo de funcionamento básico do cérebro.
Outro ponto central do livro é o papel das histórias na construção da empatia. Ao entrar na perspetiva de uma personagem, o leitor é convidado a experimentar emoções, motivações e conflitos diferentes dos seus. Estudos citados por Gottschall sugerem que a imersão narrativa pode aumentar a sensibilidade emocional e a compreensão do outro. Não esquecendo a função coletiva das histórias: permitem criar laços, reforçar valores e construir identidades partilhadas. Comunidades humanas sempre se organizaram em torno de narrativas comuns — mitos fundadores, histórias nacionais, memórias coletivas. Bibliotecas, enquanto guardiãs dessas narrativas, tornam-se espaços privilegiados de preservação e circulação de sentido.
Storytelling: Como as histórias nos tornam humanos é um livro sedutor, apesar de não refletir sobre a importâncias dos contextos e das diferenças culturais, uma vez que as narrativas não neutras nem descontextualizadas. O leitor também não deverá esquecer que se os poderes das histórias, dos livros, educam e humanizam, também podem manipular, distorcer e reforçar preconceitos. Assim, cabe aos educadores e aos mediadores desenvolverem leitores competentes e críticos.
Gottschall defende uma grande ideia: não contamos histórias apenas para passar o tempo, mas sim para nos tornarmos humanos.
Para quem pretender explorar e refletir sobre a importância das histórias, da leitura e da sua presença nas nossas vidas, tanto no plano pessoal, académico ou profissional, aqui ficam algumas sugestões de leitura que considero altamente recomendáveis:
- Desmurget, Michel (2024). Ponham-nos a Ler! – A leitura como antídoto para os cretinos digitais. Lisboa: Contraponto Editores.
- Petit, Michèle(2024). Somos Animais Poéticos. Lisboa: Faktoria K de Livros.
- Petit, Michèle (2024). Ler o mundo: Experiências de transmissão cultural na actualidade. Lisboa: Faktoria K de Livros.
- Rodríguez, J. (2021). La Furia de la Lectura – Por qué seguir leyendo en al siglo XXI. Barcelona: TusQuets Editores.
- Villoro, Juan (2025). Não sou um robô: A leitura e a sociedade digital. Lisboa: Livros Zigurate
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* Júlia Martins
Acredita no poder da leitura. Dar a ler é um desafio que gosta de abraçar. É leitora e frequenta, de forma assídua, Clubes de Leitura.Saiba mais
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