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Blogue RBE

Sex | 15.09.23

O Papa Francisco e a Ecologia Integral

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No documento de trabalho Pacto Educativo Global: Instrumentum Laboris (“O contexto”), o Papa Francisco afirma que há “necessidade de uma educação ecológica integral”, que pense a natureza na sua relação e interdependência com o ser humano e que esta educação faz parte do Pacto Educativo Global.

A crise ecológica atual, que compromete o futuro das gerações e do planeta, resulta da quebra de relação do ser humano com a natureza e é um problema essencialmente antropológico. No Ocidente e, sobretudo a partir da Modernidade, considera-se “a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida”, como sendo exterior ao ser humano e podendo ser usada como recurso ou instrumento, numa lógica extrativa e cumulativa que conduziu ao individualismo e desequilíbrio ambiental:

“Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. […] Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra (Génesis 2,7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar permite-nos respirar, e a sua água vivifica-nos e restaura-nos” (Laudatio Si § 2) [2].

A ecologia integral “nasce da plena consciência de que ‘tudo está interligado’, ‘tudo está relacionado’”, que o ser humano é parte da natureza. Desta consciencialização decorre um compromisso com as futuras gerações e as pessoas mais pobres - as mais afetadas pela crise ambiental - e com o planeta e uma mudança no estilo de vida. De acordo com esta abordagem, é possível redescobrir “um mistério a contemplar numa folha, numa vereda, no orvalho, no rosto do pobre. O ideal não é só passar da exterioridade à interioridade para descobrir a ação de Deus [ou da transcendência] na alma, mas também chegar a encontra-Lo em todas as coisas (LS§ 233)”.

Laudato Si’/ “Louvado Sejas” é uma encíclica, carta pública, do Papa Francisco dirigida a “todas as pessoas que habitam este planeta” (LS § 3) e resulta da contribuição de números cientistas, filósofos, teólogos e organizações sociais.

Principia com os versos do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis que lembra que devemos respeitar a Terra e louvar e honrar Deus através da sua criação: “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a mãe terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras”.

A Encíclica divide-se em seis capítulos, dos quais gostaríamos de destacar o primeiro, “O que está a acontecer à nossa casa”, possível fonte de reflexão e discussão dos jovens, que faz um diagnóstico dos problemas atuais: poluição atmosférica que “produz uma vasta gama de efeitos sobre a saúde, particularmente dos mais pobres, e provocam milhões de mortes prematuras” (LS 20) e poluição produzida pelos resíduos:

“Produzem-se anualmente centenas de milhões de toneladas de resíduos, muitos deles não biodegradáveis: resíduos domésticos e comerciais, detritos de demolições, resíduos clínicos, eletrónicos e industriais, resíduos altamente tóxicos e radioativos. A terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo”.

Estes problemas decorrem de uma “cultura do descarte” e do desperdício, gerada pelo consumismo e atitude de indiferença pelo bem comum. Afeta “tanto os seres humanos excluídos como as coisas que se convertem rapidamente em lixo. […] Ainda não se conseguiu adotar um modelo circular de produção que assegure recursos para todos e para as gerações futuras e que exige limitar, o mais possível, o uso dos recursos não-renováveis, moderando o seu consumo, maximizando a eficiência no seu aproveitamento, reutilizando e reciclando-os” (LS § 22).

Reconhece que “O clima é um bem comum” e, neste contexto, lembramos que, a 8 de outubro de 2021, o Conselho de Direitos Humanos da ONU reconheceu (resolução 48/13) que “ter um meio ambiente limpo, saudável e sustentável é um direito humano”.

Por conseguinte, clima e ambiente são da responsabilidade de todos: ”Quem possui uma parte é apenas para administrá-la em benefício de todos “(LS, § 95). Sublinha que “A humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento [global] ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam” (LS 23). E destaca que os países em vias de desenvolvimento são os mais afetados (LS 25), apelando a uma ética do cuidado e à cooperação internacional - problemas ambientais têm um âmbito transfronteiriço, global.

Aborda a questão da água: o acesso a água potável e segura, negado a muitas pessoas pobres – “é um direito humano essencial, fundamental e universal, porque determina a sobrevivência das pessoas” (LS § 30) - e a da sua qualidade – “Entre os pobres, são frequentes as doenças relacionadas com a água, incluindo as causadas por microrganismos e substâncias químicas” (LS § 29).

Levanta o problema da perda de biodiversidade: florestas - “implica simultaneamente a perda de espécies que poderiam constituir, no futuro, recursos extremamente importantes não só para a alimentação, mas também para a cura de doenças e vários serviços” (LS § 32) e milhares de espécies da flora e da fauna, devido à atividade humana (LS § 33) – “Visto que todas as criaturas estão interligadas, deve ser reconhecido com carinho e admiração o valor de cada uma, e todos nós, seres criados, precisamos uns dos outros” (LS § 42).

A abordagem ecológica “deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS § 49) e sugere que os países privilegiados, que mais recursos extraíram e mais CO2 produziram, deem assistência financeira aos mais pobres para que eles possam fazer a transição para práticas sustentáveis (LS § 25).

A ecologia integral assenta em valores como o respeito com a natureza, a finitude/ sobriedade, a solidariedade universal e o futuro da sociedade/ intergeracionalidade. É uma componente da educação integral que ajuda a formar pessoas comprometidas com o cuidado da casa comum e com a justiça ambiental e social.

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Referências

  1. Fonte da imagem: Vaticano, (2021. Plataforma de Ação Laudato Si. Itália: Vaticano. https://plataformadeacaolaudatosi.org/mais-informacoes/
  2. Papa Francisco (2015). Carta Encíclica Laudato Si’ - Sobre o Cuidado da Casa Comum. Itália: Libreria Editrice Vaticana. https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html 

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