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Blogue RBE

Qui | 06.11.25

Narrativas Multimodais: A Biblioteca como Espaço de Convergência

Narrativas Multimodais A Biblioteca como Espaço d

🟥Contranarrativas

Experienciamos na atualidade uma crise da argumentação e da racionalidade discursiva. 

O discurso é usado de forma violenta e radical, recorre à desinformação (tantas vezes repetida que se confunde com a realidade), manipulação e ódio contra grupos vulneráveis, como os migrantes e as mulheres. 

Não levanta questões ou dúvidas, as opiniões que afirma são superiores e não está disponível para escutar, discutir e aprender com o outro. 

Mudar de opinião significa trair o grupo a que pertence nas redes sociais, cuja solução final será o cancelamento público. 

Cumpre-se o provérbio “eu tenho a minha ideia e tu a tua" ou o preceito bíblico "Quem não é comigo é contra mim”. Encerra-se o diálogo, a argumentação e degrada-se a vida pública e a democracia.

Cumpre-se a sentença de G. Orwel em 1984

“O poder de manter duas crenças contraditórias [Doublethink] na mente ao mesmo tempo, de contar mentiras deliberadas e ao mesmo tempo acreditar genuinamente nelas, e esquecer qualquer facto que se tenha tornado inconveniente”. 

🟥Storytelling 

Neste regime hostil ao exercício do livre pensamento e da palavra, há velhas e poderosas formas de comunicar e de lutar, expressar resistência. 

Como por exemplo, contar histórias, expressar-se através da música ou da dança, revelando uma linguagem universal, celebrada numa comunidade de pessoas com diferentes vozes e culturas, que ajuda a reconstruir o diálogo, a confiança e a esperança na democracia e na paz, valores últimos da biblioteca escolar. 

Em vez de factos e estatísticas, apresentem-se histórias e cultura. 

Para José Saramago a literatura e a cultura não mudam o mundo, mas podem mudar a mentalidade das pessoas que mudarão o mundo. 

 

🟥Literacias 

A experiência que hoje temos do storytelling e da cultura (e da internet) é cada vez menos humanizada.

Tecnologias de IA (Inteligência Artificial) medeiam o acesso, curadoria, criação, partilha, publicação e reconhecimento de histórias e cultura. 

Ao fazê-lo, não são neutras. São moldadas por interesses comerciais das grandes empresas tecnológicas que enriquecem com desinformação, raiva e discurso de ódio, que capta mais a atenção e gera mais envolvimento [circulam 6 vezes mais depressa do que os pontos de vista que expressam factos e moderação] e cliques, aumentando o lucro dos seus proprietários. É esta a estrutura do capitalismo digital. 

O algoritmo destas empresas está moldado para priorizar o 1% dos criadores mais influentes, reforçando a desigualdade cultural e social. 

Paradoxalmente, os algoritmos reduzem, em vez de expandir, a exposição cultural coletiva. A mediação por IA a que temos acesso não é representativa da diversidade cultural global, excluindo ou não dando a justa visibilidade a muitas pessoas, histórias, idiomas, culturas e sistemas de conhecimento. Nelas vigora o regime da monocultura.  

Outras das vertentes da desumanização do storytelling e da cultura que experienciamos são o extrativismo cultural, que se apropria do capital criativo sem consentimento nem compensação justa aos criadores e a erosão da criatividade e das competências cognitivas humanas, à medida que cresce a dependência excessiva de IA.  

Ao contrário de H. Arendt, a biblioteca escolar não quer concluir que a tecnologia há muito abandonou o ser humano. Quer voltar a ter fé no humano e na tecnologia, priorizando a agência criativa humana fomentando a literacia digital, da informação e media e o pensamento crítico que os professores bibliotecários incansavelmente trabalham com os seus alunos. Só na base deste serviço público – e da regulação do setor digital por parte dos governos – é possível que a tecnologia sirva a humanidade. 

 

Nota
Este foi o texto de abertura da Rede de Bibliotecas Escolares na XIV Jornadas da Rede de Bibliotecas da Maia, a 24 de outubro no Fórum da Maia.

 

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0