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Blogue RBE

Qua | 28.12.22

“Não basta criar oportunidades iguais”

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Quando queremos educar para um modo de vida democrático, alicerçado no envolvimento e participação quotidiana dos cidadãos na vida pública e motivado por valores que visam o bem comum, Michael Sandel é referência incontornável.

Com base na série de pequenos vídeos da Fundação Francisco Manuel dos Santos [1] destacamos ideias fundamentais deste pensador político.

A desigualdade e a falta de coesão social

Sob um ponto de vista ético e político, o maior desafio que enfrentamos na atualidade é a desigualdade entre ricos e pobres. Este é um problema de justiça e equidade, para cuja resolução os cidadãos e o Estado devem contribuir, de modo a proporcionar a todas as pessoas uma vida digna.

Segundo Sandel, esta situação é preocupante porque “Quando as desigualdades são muito elevadas, ricos e pobres começam a viver vidas separadas e há menos espaços públicos/ em comum onde nos possamos todos encontrar” [2].

Nas sociedades cosmopolitas e multiculturais em que vivemos este segundo problema da falta de coesão/ fragmentação social é experienciado em elevada escala e só pode ser invertido quando ricos e pobres desenvolvem uma vida em comum e partilham reciprocamente problemas e responsabilidades.

Meritocracia

Para combater as desigualdades sociais, os governos procuram criar oportunidades iguais para todos os cidadãos [3].

Segundo Sandel esta medida é ineficaz porque, apesar da ideia de mérito ser aparentemente boa - se todos tiverem as mesmas oportunidades, os que trabalharem mais, merecem maior sucesso –, a premissa da igualdade de oportunidades é falsa, não corresponde à realidade, pois assenta num sistema invisível de privilégios e hierarquias – económicas, de educação, cidadania, género, identidade, idade – normalizadas e que se transmitem de pais para filhos, impedindo a mobilidade social.

Neste contexto, compreende-se porque é que os alunos das mais prestigiadas universidades americanas fazem quase todos parte do 1% das famílias com maior rendimento e porque a maioria dos empregados de limpeza são mulheres e de minorias étnicas.

Para Sandel o mérito não é um critério justo, que possa ser usado para redistribuição de riqueza porque leva a pensar que “aqueles que foram deixados para trás são responsáveis pela sua situação”, alargando a divisão e separação entre pobres e ricos. “A meritocracia cria arrogância entre os vencedores e humilhação para os que ficaram para trás” e indiferença e desresponsabilização dos mais ricos perante os mais vulneráveis. Estes reagem apoiando partidos políticos populistas, nacionalistas, autoritários e discriminatórios da população que, historicamente, tem sido esquecida, silenciada e marginalizada. America First de Donald Trump e Brexit da Grã-Bretanha são respostas dos mais pobres ao poder das elites.

O bem comum

Segundo a Ética a Nicómaco de Aristóteles, viver bem implica que o ser humano desenvolva, em pleno, as suas capacidades. Refletir criticamente sobre o que é certo/ justo e errado/ injusto e dedicar-se aos assuntos públicos, da cidade, são aspetos necessários para viver bem e ser virtuoso.

A virtude não pode ser alcançada vivendo isoladamente ou indiferente aos problemas políticos, da vida comum. Implica, na perspetiva aristotélica defendida por Sandel, reflexão e decisão com os outros cidadãos e “partilha de responsabilidades sobre o destino da comunidade como um todo. Só dedicando-nos a esta prática e deliberação política, sentindo o peso da responsabilidade sobre a comunidade como um todo, é que desenvolvemos em pleno as nossas capacidades humanas” [4].

A profissionalização da política - aparelhos partidários, politólogos, comentadores, influenciadores… - tem vindo a quebrar o propósito original da atividade política: cultivar o caráter, refletir sobre o significado de viver bem em comunidade e de deliberar sobre as coisas que têm valor na vida pública. Sucedem-se casos de corrupção, superficialidade da vida política, reduzida a fonte de entretenimento e espetáculo, divisão/ fragmentação partidária baseada em decisões a curto prazo, eleitoralistas e pouco sustentáveis.

Segundo as 10 principais descobertas do Edelman Trust Barometer 2022, a desconfiança é o padrão e as pessoas confiam mais nos negócios (61%) do que nas ONG (59%), nos governos (52%) ou meios de comunicação social (50%). Governo e media/ jornalistas são os líderes sociais menos confiáveis: respetivamente, 48% e 46% dos inquiridos encaram governo e meios de comunicação social como “forças que dividem a sociedade”. A quebra de confiança nas democracias conduz a um deslocamento do poder para a extrema-direita populista.

Educação para a cidadania democrática

A educação para a cidadania democrática é a estrutura universal e global que permite inverter o descrédito no sistema democrático.

Para as crianças e jovens, pensar estas questões em termos globais é difícil - o global é uma ideia abstrata, da imaginação -, mas podem fazê-lo a partir de exemplos do seu dia a dia, da sua experiência direta. 

No contexto da biblioteca escolar o professor bibliotecário pode proporcionar às crianças e jovens oportunidades para:

- se conhecerem e criarem laços de amizade, trabalho, cooperação e solidariedade; se informarem;

- discutirem valores, direitos e responsabilidades, individuais e coletivos e criarem, localmente, uma visão para o bem comum que abranja os mais desfavorecidos;

- conhecerem o que o governo local, nacional e internacional faz por elas e de que modo podem participar nas decisões que as afetam;

- compreenderem as razões e consequências do crescimento do populismo e dos movimentos inorgânicos, bem como de conflitos armados.

Identificação e discussão de notícias, concurso de argumentação, entrevistas a governantes locais, levantamento de dados e inquéritos na comunidade, mapa de ideias, diário gráfico, teatro-fórum são estratégias informais que podem ser usadas para trabalhar estas questões.

Michael Sandel

Professor de filosofia política da Universidade de Harvard, Michael Sandel parte de problemas concretos da atualidade e relaciona-os com os temas fundamentais do pensamento político e ético.

O seu curso sobre Justiça [5] foi o primeiro de Harvard a estar disponível gratuitamente na internet e na televisão, sendo visto por dezenas de milhões de pessoas em todo o mundo e a sua série de programas com a BBC Radio 4 transformaram The Public Philosopher em The Public Philosopher [6].

 

Propostas de leitura sobre este tema:

Que papel têm os jovens na governação?

A informação objetiva é uma impossibilidade

“Uivemos, disse o cão – Livro das Vozes”

 

Referências

1. Fundação Francisco Manuel dos Santos. (2022). Michael Sandel. Portugal: FFMS. https://www.fronteiras.com/descubra/pensadores/exibir/michael-sandel

2. Fundação Francisco Manuel dos Santos. (2017, jul.). Democracia para pensar as desigualdades. Portugal: FFMS. https://www.fronteiras.com/assista/exibir/democracia-para-pensar-desigualdades

3. Sandel, Michael. (2022). Sem tributar especulação, oportunidades iguais não bastam contra desigualdades. https://www.fronteiras.com/leia/exibir/sem-tributar-especulacao-oportunidades-iguais-nao-bastam-contra-desigualdades

4. Fundação Francisco Manuel dos Santos. (2017, jul.). Democracia, justiça e bem-viver [vídeo]. Portugal: FFMS. https://www.fronteiras.com/leia/exibir/a-arrogancia-meritocratica-por-michael-sandel

5. Sandel, Michael. (2022). Justice: An introduction to moral and political philosophy. Massachusetts, EUA: Harvard Kennedy School. https://www.harvardonline.harvard.edu/course/justice

6. Sandel, Michael. (2022). The Public Philosopher. USA: BBC Radio 4  https://www.bbc.co.uk/programmes/b01nmlh2/episodes/player

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