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Blogue RBE

Seg | 20.06.22

Mental Health Europe: É tempo de falarmos…

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Leitura: 6 min |

Maio é mês de saúde mental há mais de sete décadas, tendo sido o primeiro anúncio feito em 1949 pela ONG centenária e sem fins lucrativos, Mental Health America. A celebração tem recebido crescente interesse por formuladores de políticas e sociedade civil, particularmente no Reino Unido, onde há um ministério da solidão, atualmente presidido por Baronesa Barran, que trabalha para diminuir o preconceito à volta do tema, incentivar a procura de ajuda e a incorporação da solidão ou relações sociais nas políticas públicas e promover a realização de estudos que aprofundem a sua compreensão e combate eficaz [1].

A Semana de Conscientização da Saúde Mental realizou-se em maio em diferentes datas consoante país e organização responsável. Por exemplo, no Reino Unido a Mental Health Foundation comemora-a na terceira semana há mais de 20 anos e em 2022 criou uma publicação com 10 dicas para cuidar da saúde mental [2]:

1. Fale sobre os seus sentimentos;

2. Mantenha-se ativo;

3. Coma bem;

4. Beba com moderação;

5. Mantenha contato com pessoas;

6. Peça ajuda;

7. Faça uma pausa;

8. Faça algo em que seja bom;

9. Aceite quem você é;

10. Cuide dos outros.

Na Europa esta semana foi criada e posta em prática, pelo terceiro ano consecutivo, pela Mental Health Europe. Este ano realizou-se entre 9 a 13 de maio, subordinou-se ao tema “Fale pela Saúde Mental” - #SpeakUpForMentalHealth #EuropeanMentalHealthWeek – e destacou a saúde mental dos jovens como desafio central da sociedade, disponibilizando materiais editáveis para cidadãos e instituições se fazerem ouvir nas suas comunidades [3].

Porquê destacar a saúde mental dos jovens?

Em Portugal, o estudo publicado a 27 de maio pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, Um Novo Normal? Impactos e Lições de Dois Anos de Pandemia em Portugal, conclui que, de todos os grupos etários avaliados, os jovens são os que têm “menor sentimento de bem-estar, menor satisfação com a vida e mais níveis de depressão, ansiedade e stresse” e, no geral, pior qualidade de relações pessoais e menor satisfação com a vida. Na pandemia “um em cada dez jovens refere que passou a consumir calmantes, tranquilizantes ou outros fármacos com efeito psicotrópico”. Para responder a esta situação os “investigadores apontam ausência de medidas governamentais” e, no entanto, os jovens “devem ser encarados como um grupo de risco no futuro”. O estudo revela ainda que “são os jovens que apresentam menores índices de confiança no governo e na ciência” o que poderá ter implicações nas políticas públicas e democracia.

No relatório do Fórum Europeu da Juventude 2021 [4] baseado num inquérito a 4500 jovens europeus, concluiu-se:

Quase dois terços dos jovens podem ser afetados por questões de saúde mental e bem-estar na pandemia. Saúde mental e bem-estar das jovens mulheres era pior do que o dos homens jovens. Jovens em situações marginalizadas são também mais afetados. Fatores que afetam saúde mental foram, sentimento de solidão, incerteza sobre o trabalho ou a escola, infelicidade com mudanças no trabalho, educação ou circunstâncias de vida, ansiedade geral relacionada com pandemia” e decisores de políticas não apresentam respostas eficazes para o problema.

O Atlas de Saúde Mental 2020 da Organização Mundial de Saúde afirma que apenas 25% dos países-membros integram a saúde mental nos seus sistemas universais de saúde, deixando a maioria dos doentes sem tratamento, não obstante os encargos económicos destas doenças corresponder em média a 4% do PIB. Aqueles que são tratados são ainda muitas vezes alvo de discriminação e preconceito e de maior violação de direitos humanos.

Na página reservada à Saúde Mental, a OMS refere que em 2019 o suicídio era a quarta principal causa de morte de jovens entre 15 a 29 anos. 

Segundo a revista britânica The Lancet, a pandemia aumentou drasticamente o número: mais 53,2 milhões de casos de transtorno depressivo e mais 76,2 milhões de casos de transtornos de ansiedade no mundo, sendo mulheres e jovens os mais afetados [5].

E ainda não conhecemos os efeitos da guerra desencadeada pela Rússia contra a Ucrânia, que provavelmente aumentará a gravidade do problema.

Porque é que é vital falarmos de doença mental na biblioteca escolar?

1. Porque a saúde mental deve ser trabalhada em todos os setores, inclusive na educação porque não é apenas o tratamento especializado que contribui para a sua diminuição da doença, mas também aspetos sociais e económicos, como educação, trabalho, habitação. Neste contexto a Organização Mundial de Saúde reconhece que as metas da saúde e bem-estar – ODS 3: “Garantir o acesso à saúde de qualidade e promover o bem-estar para todos, em todas as idades” - podem ser alcançadas através de outros objetivos para o desenvolvimento sustentável.

2. Porque a biblioteca escolar é um espaço seguro, de inteira liberdade - sem preconceito - e que pode disponibilizar recursos, atividades e contactos para falar de sentimentos, abordar temas difíceis e pedir ajuda. Em maio de 2022 uma das iniciativas da britânica Mental Health Foundation foram histórias de solidão que podem ser desenvolvidas com a biblioteca [6].

A prevenção da doença e a construção de sociedades saudáveis e resilientes exige que este seja um tema fundamental da leitura, conforme recomenda a IFLA em 2022.

Deixamos excerto da mensagem de Kehlani, jovem compositora e cantora de R&B e Hip Hop, da música Bright:

“Você é o que escolhe ser

Isso não cabe a mais ninguém

Portanto, seja grande, seja amável consigo

Não os deixe diminuir a sua luz

Porque um ser humano como um sol deve permanecer sempre brilhante”.

 

Referências

1. House of Commons Library. (2022, 9 May). Mental Health Awareness Week 2022: Loneliness. UK Parliament. https://commonslibrary.parliament.uk/mental-health-awareness-week-2022-loneliness/

2. Mental Health Foundation. (2022). How to look after your mental health. UK: MHF. https://www.mentalhealth.org.uk/publications/how-to-mental-health

3. Mental Health Europe. (2022). European Mental Health Week [vídeo]. Europe: MHE. https://www.mhe-sme.org/emhw/

4. Moxon, D., Bacalso, C., Șerban, A., Ciuciu, A. & Duncan, V. (2021, 17 Jun.). Beyond Lockdown: the ‘pandemic scar’ on young people - The social, economic and mental health impact of COVID-19 on young people in Europe. Brussels: European Youth Forum. https://www.youthforum.org/files/European20Youth20Forum20Report20v1.2.pdf

5. The Lancet. (2021, 8 Oct.). Global prevalence and burden of depressive and anxiety disorders in 204 countries and territories in 2020 due to the COVID-19 pandemic. UK. Elsevier. https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(21)02143-7/fulltext

6. Mental Health Foundation. (2022). Stories of loneliness. Europe: MHE. https://www.mentalhealth.org.uk/campaigns/mental-health-awareness-week/stories-of-loneliness

7. Fonte da imagem: Mental Health Europe. (2022). European Mental Health Week 2022: Speak up for mental health [vídeo]. Europe: MHE. https://www.youtube.com/watch?v=biIrCejdwm0

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