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Blogue RBE

Qui | 08.01.26

Mais bibliotecas no 1.º ciclo, melhores leitores

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A aprendizagem da leitura no 1.º ciclo é um processo fundacional, mas, como é amplamente reconhecido, não se limita à descodificação das primeiras palavras. Ler é desenvolver a capacidade de compreender, interpretar, imaginar e relacionar informação e experiências. Esse desenvolvimento tem de começar cedo, porque as competências leitoras se constroem de forma progressiva, cumulativa e em permanente interação com aquilo que a criança lê, com a frequência com que lê e com o valor afetivo e cognitivo que atribui à leitura.

A consolidação da literacia leitora depende de uma tríade que se interinfluencia: hábitos de leitura, gostos leitores e competências de leitura. Estes três vértices não evoluem de forma isolada, pelo contrário reforçam-se mutuamente. As competências desenvolvem-se quando existem hábitos; os hábitos mantêm-se quando existem gostos; e os gostos formam-se quando há encontros significativos com livros diversificados, acessíveis e de qualidade. É uma tríade dinâmica: lê-se melhor porque se lê com frequência; lê-se com frequência porque se lê com gosto; e lê-se com mais gosto porque se lê melhor. Quando um dos vértices se fragiliza, os outros ressentem-se. Quando um se fortalece, todos avançam.

Para que esse desenvolvimento aconteça com profundidade, é essencial que as crianças tenham, desde muito cedo, acesso regular a livros diversificados e de elevada qualidade: narrativas literariamente ricas, livros-álbum que educam o olhar, poesia que treina o ouvido e a sensibilidade linguística, obras informativas rigorosas que respondem à curiosidade científica, mitos e biografias que ajudam a construir referências culturais, narrativas que convocam a empatia, a diversidade cultural e a imaginação, banda desenhada que apoia a compreensão sequencial e a leitura multimodal…

A diversidade e qualidade dos materiais de leitura disponíveis em número adequado é crucial, pois é no contacto com textos exigentes e plurais que o vocabulário se expande, que a compreensão leitora se constrói e reforça e que o pensamento crítico começa a ganhar forma.

Quando este encontro com os livros acontece numa biblioteca escolar, o acesso transforma-se numa experiência com intencionalidade pedagógica. As bibliotecas escolares do 1.º ciclo integradas na Rede de Bibliotecas Escolares são ambientes estruturados, organizados e mediados por profissionais especializados (os professores bibliotecários) que asseguram a curadoria das coleções, o equilíbrio temático do fundo documental e uma mediação leitora com resultados expressivos do ponto de vista educativo, mas sem pressões classificatórias.

Não se trata apenas de disponibilizar livros, mas de criar condições para que cada criança se reconheça, se questione, se desafie e avance como leitora, pois é na biblioteca que cada criança encontra livros com vozes múltiplas, se reconhece em histórias diversas, aprende a comparar narrativas, a fazer perguntas, a criar inferências e a construir significado próprio.

Nas escolas que dispõem de bibliotecas ativas, a leitura deixa de ser episódica e torna-se prática quotidiana, circula entre pares, articula-se com o currículo, estende-se às famílias, reforça a equidade no acesso ao livro currículo e torna-se um eixo quotidiano da vida escolar, plural, democrático e pedagogicamente exigente.

O ano de 2026 será um marco no compromisso nacional com a leitura. Está prevista a instalação de 434 novas bibliotecas escolares em escolas de 1.º ciclo. Este processo já teve início, encontrando-se em curso as primeiras etapas de planeamento, avaliação de espaços, organização de coleções e acompanhamento técnico e pedagógico junto das escolas envolvidas. A rede cresce, mas cresce com critério e com a qualidade que a caracteriza há perto de 30 anos: cada nova biblioteca é um novo compromisso com as orientações claras que a RBE define, de acordo com padrões internacionais, sempre tendo em vista o desenvolvimento das literacias, a equidade no acesso à leitura e a criação de ambientes que tornam possível aprender a ler e ler para aprender.

Esta expansão representa um reforço histórico da rede de bibliotecas no 1.º ciclo, garantindo-se que mais crianças passam a dispor de acesso diversificado e qualificado ao livro e à leitura mediada em contexto escolar.

Ao assegurar coleções plurais e espaços de leitura organizados e curricularmente implicados no 1.º ciclo, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação, através da Rede de Bibliotecas Escolares, reforça um princípio claro: nenhuma criança deve crescer sem acesso a bons livros, a boas histórias, a boa linguagem e a uma boa competência de leitura, infraestrutura essencial de todas as aprendizagens, condição de autonomia e liberdade.

Deste modo se dá continuidade à missão inscrita no Quadro Estratégico 2021-2027:

"O Programa RBE cria condições para que todas as comunidades educativas tenham excelentes bibliotecas escolares, que respondam de forma eficaz e inovadora aos desafios colocados à educação e à escola, garantindo a todos, e com todos, ambientes de informação e conhecimento, conducentes ao desenvolvimento dos saberes e competências indispensáveis numa sociedade cada vez mais dinâmica, imprevisível, digital e global."

Investir em bibliotecas escolares no 1.º ciclo é investir na construção de cidadãos informados desde os primeiros anos de escolaridade.

📷 Imagem de freepik

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0