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Blogue RBE

Seg | 19.01.26

Literacia – perspetivas globais (1.ª Parte)

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Libraries Empowering Society through Digital Literacy/Bibliotecas empoderando a sociedade através da literacia digital é o mais recente livro lançado pela IFLA (De Gruyter, 2026) [2] que explora conceitos, quadros de referência (frameworks) e exemplos práticos para tornar a literacia digital acessível, significativa e universal e eficaz. 

“A conectividade de alta velocidade, o crescimento massivo das redes sociais, a omnipresença dos dispositivos móveis e o surgimento da inteligência artificial levaram à confusão, ao caos e à complexidade da informação” e a “novas formas de interação entre humanos e máquinas”. Neste contexto, as bibliotecas assumem um papel central na formação de cidadãos digitalmente competentes, devendo adaptar-se aos diversos públicos e contribuir para reduzir a desigualdade e divisão digital. 

Nos termos do livro, estes públicos organizam-se em 3 perfis: 

  • Nativos digitais: cresceram a usar computadores e smartphones;

  • Imigrantes digitais: formaram-se antes da omnipresença da tecnologia de informação e adquiriram competências ao longo do tempo;

  • Refugiados digitais: perderam empregos devido às novas tecnologias e não conseguem ou não querem usá-las eficazmente. 

Originalmente, este livro deveria ter por tema a transliteracia, mas as profundas transformações tecnológicas e sociais recentes fez com que passasse a focar-se na literacia digital. 

Trata-se de uma obra coletiva, com autores de todo o mundo, que se concretizou a partir de uma chamada para capítulos lançada em fevereiro de 2022, concluída em 2023, e que foi editada e publicada pela De Gruyter Saur em dezembro de 2025. 

Organiza-se em 3 seções - bibliotecas públicas e escolares, bibliotecas académicas e a influência da informação digital – e tem um capítulo introdutório, Digital Literacy: An Overview and Introduction/ Literacia Digital: Uma Visão Geral e Introdução sobre literacia digital e frameworks internacionais, da autoria de Prudence Dalrymple, Luisa Marquardt, Janine Schmidt e Ning Zou, principais editores desta obra. O presente artigo – que tem continuidade no post seguinte - é uma síntese e reflexão sobre este capítulo introdutório, o único escrito por elas. 

O que é a literacia/ competência digital? 

A literacia digital é uma área em rápida mudança com uma variedade de quadros de referência e cujo denominador comum é o pensamento crítico

Tem sido crescentemente valorizada na definição de políticas e o sucessivo alargamento, das competências e conhecimentos que abrange, tem resultado de um sentido de urgência:

“O mundo está assolado de crises energéticas, ambientais, económicas, de saúde, sociais e políticas [e de um declínio da confiança nas instituições, nos meios de comunicação e nas inovações digitais, como a IA]. Simultaneamente tornou-se uma vila global com oportunidades de comunicação significativamente melhores. Está disponível uma abundância de fontes de informação; os formatos e meios de transmissão da informação multiplicaram-se; qualquer um pode ser um produtor de informação; e nunca foi tão importante ou talvez tão desafiador descobrir, aceder e usar informação precisa e confiável”. 

A definição de Literacia Digital emergiu nos anos 90, constituindo uma referência fundamental Paul Gilster que, no seu livro com o mesmo nome, a designa como a “capacidade de compreender e utilizar informações em vários formatos provenientes de uma ampla variedade de fontes quando apresentadas por meio de computadores” (1997). 

Desde então, passou a acrescentar-se à paisagem da literacia digital outros aspetos, como: 

  • Consciência dos desafios da cibersegurança, riscos de privacidade e ferramentas e práticas para permanecer seguro online;
  • Conhecimento legal e ético para uma cidadania global e respeito pelos direitos humanos; 
  • Habilidade para usar tecnologia criativamente para educação, profissão e realização pessoal; 
  • Fazer ouvir a sua voz, participar, publicamente.

Na literatura recente, a literacia digital é progressivamente articulada à cidadania digital, à literacia da informação, dos media e a muitas outras formas de literacia - como literacia visual, cultural, verde, dos dados, em IA e algorítmica – que se tornaram muito relevantes na era digital - “A literacia na era digital requer uma definição expandida”. 

Todd, Dalrymple, Marquardt e Zou destacam a agência informada dos cidadãos, propondo na atualidade a seguinte definição: “Literacia digital não é apenas compreender e usar efetivamente tecnologia; é sobre tomar controlo da tecnologia e aproveitar o conhecimento que ela cria e disseminá-lo para desenvolvimento pessoal, progresso social e tomada de decisões informadas”

As principais perspetivas globais sobre literacia/competência digital, que desenvolveremos no próximo post, mostram que esta deixou de ser pensada apenas como um conjunto de competências de uso de tecnologias digitais para se tornar um conceito normativo, que indica que tipo de cidadão devemos formar - confiante, crítico, responsável, ético e resiliente – e que tipo de sociedade devemos construir - democrática, inclusiva e sustentável

IFLA, Comissão Europeia, UNESCO e UNICEF descrevem conjuntos de competências e produzem definições e quadros que funcionam como tecnologias de (auto-) governação que estruturam políticas de educação e qualificação (Comissão Europeia e DigComp), agendas globais de realização dos ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável), de trabalho digno e resiliência à desinformação e ao ódio (UNESCO), quadros de direitos das crianças em ambientes digitais (UNICEF) e estratégias de inclusão e empoderamento mediadas por bibliotecas (IFLA). 

A literacia digital surge, assim, como campo onde diferentes atores globais procuram ancorar, sob o mesmo rótulo, projetos distintos de cidadania, desenvolvimento e regulação da vida social em contexto digital.

Referências

  1. Fonte da imagem: Todd, H., Dalrymple, P., Marquardt, L., Zou, N. (Ed.). (2026). Libraries Empowering Society through Digital Literacy. De Gruyter Saur. https://repository.ifla.org/rest/api/core/bitstreams/8996c5f3-6c15-4c71-8ab7-1fd06f94986d/content
  2. Todd, H., Dalrymple, P., Marquardt, L., Zou, N. (Ed.). (2026). Libraries Empowering Society through Digital Literacy. De Gruyter Saur. https://doi.org/10.1515/9783110533583

 

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0