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Blogue RBE

Espaço da Rede de Bibliotecas Escolares para difusão de projetos, eventos e ideias em torno da leitura, do livro, das literacias e dos novos ambientes digitais de informação e de aprendizagem.

Qui | 06.05.21

Literacia emocional: as 5 componentes

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Fonte da imagem: Tejedor, A. (s.d.). Unsplash. https://unsplash.com/photos/yH18lOSaZVQ

Que fatores explicam que pessoas com um Quociente de Inteligência elevado fracassem na vida pessoal e no trabalho e outras com um QI modesto triunfem e se realizem? Na vida diária que inteligências são mais importantes? Podem ser aprendidas, estando ao alcance de todos?

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Fonte da imagem: Goleman, D. (1995). Emotional Intelligence – Why it can matter more than QI. Bantam Books. https://www.danielgoleman.info/books/emotional-intelligence/

Na vida académica e profissional tem prevalecido um sistema de seleção meritocrático, baseado no QI, teste de inteligência criado por Binet, destinado à quantificação da inteligência dos indivíduos, com base num fator único, verbal e lógico-matemático, adquirido por herança genética e que, segundo este psicólogo e pedagogo, não pode ser substancialmente modificado pela experiência e educação.

Igual para todos, tem sido questionado por ser injusto e parcial, ao não considerar outras capacidades e o modo diverso e, igualmente eficaz, como indivíduos agem no dia-a-dia diante de um problema e tarefa.

Howard Gardner apresentou no livro Frames of Mind, um modelo alternativo e pluralista da mente, segundo o qual o indivíduo tem diferentes competências/ talentos – verbal, lógico-matemático, visual, cinestésico, musical, interpessoal e intrapessoal - independentes entre si, em diversos graus e combinações, que marcam um estilo único de aprendizagem. São produto de herança genética, uma predisposição, mas podem ser desenvolvidas pela educação (Educar o desconhecido).

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Fonte da imagem: Gardner, H. (1983). Frames of Mind – The Theory of Multiple Intelligences. Basic Books. https://www.basicbooks.com/titles/howard-e-gardner/frames-of-mind/9780465024346/

Aplicado à educação, este modelo pode ajudar à identificação e desenvolvimento das diferentes potencialidades das crianças e jovens sem excluir ninguém, através da criação de ambientes de aprendizagem que as reconheçam, valorizem (e motivem) e sejam ricos em experiências e recursos e através do desenvolvimento da metacognição, consciência dos próprios processos mentais.

Segundo Daniel Goleman, a visão de Gardner, não obstante ampla e justa, segue um modelo cognitivista da mente, não reconhecendo que é a emoção que guia e move (‘emoção’, do latim 'movére', ‘movimento’) o processamento de informação e conhecimento e lhe dá significado, sabor. Em Gardner a emoção circunscreve-se às inteligências pessoais:

“A inteligência interpessoal é a capacidade de compreender as outras pessoas; o que as motiva, como é que funcionam, como trabalhar cooperativamente com elas. Os vendedores, políticos, professores, clínicos e líderes religiosos bem-sucedidos terão tendência para ser pessoas possuidoras de um elevado nível de inteligência interpessoal. (…) a inteligência intrapessoal – conhecimento dos aspetos internos da pessoa: acesso à própria vida dos sentimentos; ao próprio leque de emoções, capacidade de discriminar essas emoções e, eventualmente, de as rotular e utilizar como meio de compreender e orientar o próprio comportamento” 1.

Jornalista científico na área do comportamento humano, Goleman desenvolve e torna acessível o modelo de inteligência emocional criado pelos investigadores Peter Salovey e John Mayer, pioneiros em inteligência emocional, a partir das inteligências pessoais de Gardner. O artigo em linha, What Makes a Leader? (1998) 2 e o best seller internacional, Emotional Intelligence (1995) são fontes importantes desta redefinição em cinco componentes.

1. Conhecer as próprias emoções

Conhece-te a ti mesmo é o conselho que o oráculo de Delfos dá a Sócrates há mais de 2400 anos e que implica identificar e compreender as próprias forças e fraquezas, necessidades e motivações e de como estas podem afeta-lo, a si e aos outros, na vida pessoal e profissional.

Traduz-se na autoconsciência e permite reconhecer um sentimento quando ele ocorre (a partir de pistas vocais e faciais, linguagem verbal e comportamento), expressa-lo e avaliar a sua intensidade.

Esta componente é importante porque as emoções ocorrem rapidamente - acontecem-nos! - e resultam num juízo imediato e primário, feito por associação livre e, ao termos consciência delas, podemos, em certa medida, controlar o seu curso e expressão em nosso favor, acrescentando-lhes inteligência, razão.

Há agressores que interpretam hostilidade em expressões faciais neutras porque não sabem identificá-las e jovens que não sabem distinguir ansiedade e fome (distúrbios alimentares).

2. Gerir emoções

Desenvolver uma conversa interior (ou em voz alta), no sentido de se tranquilizar, afastando ou redirecionando a tristeza, ansiedade e irritabilidade, de forma a não ficar prisioneiro dos próprios sentimentos e impulsos, perdendo o controlo de si próprio e domínio dos acontecimentos.

Estados de espírito agradáveis aumentam a capacidade de pensar de forma complexa e encontrar soluções interpessoais. Questionar e interromper fluxos de pensamento pessimista pode ser aprendido.

Suspender o juízo, pesquisar mais informação, escutar os outros e pensar antes de agir conduz à auto-regulação emocional que está na base da confiança, integridade, capacidade de lidar com a mudança, características pessoais e organizacionais fundamentais.

“Não há sentimentos que não se devam ter”, há é reações corretas e outras não: “Qualquer um pode zangar-se – isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na justa medida, no momento certo, pela razão certa e de certa aneira – isso não é fácil”, diz Aristóteles em Ética a Nicómaco 3.

Quando se torna difícil o controlo emocional, esfriar (por exemplo, dar uma volta, ir fazer bricolage), distrair-se (ler um livro, ouvir música, jogar, fazer exercício físico), conviver (ir ao cinema com família ou amigos), satisfazer prazeres sensuais (comer o prato favorito, tomar um banho quente) ajudam a modificar o estado de espírito e podem ser mais eficazes do que chorar (tende a aumentar a ruminação e estado de mal-estar) e explodir (aumenta o estado de entropia do cérebro, levando por vezes as pessoas a sentirem-se mais zangadas) – a catarse, libertação de sentimentos socialmente prejudiciais, como medo ou fúria, valorizada por Aristóteles, tem benefícios quando orientada para atividades socialmente valorizadas, como artes ou desporto.

Alguém emocionalmente perturbado tem dificuldade no desempenho porque as emoções afetam a concentração e memória de trabalho, responsável pela informação dirigida à tarefa.

3. Motivar-se

Prosseguir objetivos com energia e persistência, controlando a impulsividade e adiando a recompensa, trabalhando por razões além de dinheiro e estatuto (fatores externos), para alcançar a realização, pessoal e do grupo, é próprio de pessoas apaixonadas por aprender e trabalhar, persistentes e que procuram desafios criativos e superação. Estas controlam e mobilizam as emoções, colocando-as ao serviço da tarefa e, nestes momentos, desenvolvem total concentração, ficando alheadas da realidade, perdendo a consciência de si (autoesquecimento). Estes momentos, estudados e descritos pelo psicólogo croata Mihaly Csikszentmihalyi, como estado de fluxo, correspondem ao limite positivo da aplicação da inteligência emocional.

Geralmente as pessoas que se motivam facilmente possuem elevado nível de esperança, não se deixam dominar por uma atitude derrotista ou ansiosa e encontram formas flexíveis de alcançar o objetivo. A esperança e otimismo são atitudes emocionalmente inteligentes que podem ser aprendidas e um certo grau de preocupação e ansiedade fazem parte da motivação e são benéficos para o desempenho.

4. Reconhecer as emoções dos outros

A empatia traduz-se na capacidade de identificar e compreender as emoções dos outros, adaptando o próprio comportamento às reações deles. Uma pessoa empática não é a que tenta agradar a todos, mas a que, nas suas decisões, tem em conta os sentimentos e pontos de vista de todos os elementos da equipa, mantendo-a coesa. Inclusive, se for o caso de criticar/ elogiar, faz com que a crítica seja específica, propõe uma solução, fá-lo em presença e em privado e é sensível às reações da outra pessoa.

É fundamental para:

- Cooperação e trabalho em equipa;

- Altruísmo, compaixão e solidariedade;

- Lidar com as diferenças e preconceitos na vida diária das sociedades interculturais, geradas pela mobilidade e globalização.  

5. Gerir relacionamentos

Tal como a empatia, a competência social é uma habilidade para se relacionar com os outros, movendo-os na direção pretendida, sob o pressuposto de que sozinho não se chega longe. É particularmente importante nos líderes, mas também nas relações pessoais, fazendo amigos.

Falar e fazer perguntas aos colegas durante a brincadeira, escutar e observa-los para ver como se comportam, dar-lhes um elogio quando tiveram bom desempenho e palavras de encorajamento quando vão realizar uma prova difícil, sorrir e oferecer ajuda, podem ser formas de estreitar amizades.

 

Estas cinco competências são fundamentais porque:

- Preparam para as vicissitudes da vida diária e relacionamentos;

- Afetam o bem-estar, desempenho e, inclusive, posições éticas;

- Níveis académicos elevados e progresso tecnológico, não tem resultado em melhores níveis de equilíbrio emocional, satisfação e solidariedade social. As perturbações mentais aumentam com a idade, mas os jovens, a partir dos 14 anos, são quem regista maior acréscimo de perturbação 4.

Estas competências podem ser aprendidas em contexto escolar e Goleman influencia a criação de programas educativos para bem-estar ou autoregulação emocional e sucesso académico, como PATHS (Parents and Teachers Helping Students) 5.

 

Referências

1. Gardner, H. (2006). Multiple intelligences – New Horizons. Basic Books, pp. 15, 17.

2. Goleman, D. (1998). What makes a líder? Harvard Business Review. https://thisisthrive.com/sites/default/files/What-Makes-a-Leader-Daniel-Goleman.pdf

3. Goleman, D. (2020). Inteligência emocional. (26.ª ed.). Temas e Debates, pp. 293, 9.

4. Ibid., p. 255.

5. Kusché, C., Greenberg, M., Domitrovich, C, Cortes, R. et al. (s.d.). PATHS Program LLC. https://pathsprogram.com/paths-program-pk5