Labirintos do Sentir
por Marta Freitas, Professora Bibliotecária do AE de Esmoriz, Ovar, entre 2017 e 2025

Movimentei-me durante oito anos no mundo das bibliotecas escolares. Falar sobre esta viagem não é tarefa fácil, como tudo na vida, mas certezas há, que posso partilhar aqui.
Uma Biblioteca não é um espaço, está muito além disso. Uma biblioteca é um lugar! Um lugar labiríntico, é certo, que permite uma procura, um encontro e desencontro connosco. Para mim foi um labirinto de procura, de preparação, de projetos, de análise, de reflexão, de avaliação, mas principalmente de crescimento. Foi um turbilhão de ação/reação. Percorri cada corredor confiando, no caminho a seguir.
No início de cada ano, sentia sempre, penso eu, o mesmo que um pintor quando vê a tela em branco. E agora?… Os materiais estavam todos ali, mas era preciso dar luz, forma e corpo àquele lugar. Esse era um misto de adrenalina e ansiedade, que todos os anos me empurravam para a viagem. Nem sempre tranquila, ora mais calma, ora mais turbulenta, o barco ondulava ao som e ritmo das marés. O Professor Bibliotecário, esse, é sempre o Homem do Leme. Confiante, mesmo nos momentos mais desafiantes.
O labirinto amplia a sua sinergia, quando esse lugar é ocupado pela partilha de um livro, de uma leitura, de uma conversa, que nos mostra que há mais vida para além da vida contida na história. Cada história contém um pouco de nós, do amigo, do colega, do aluno, permitindo a criação de círculos concêntricos, no labirinto, acionados pela escrita de um autor, que afinal, também, fala daquilo que eu sinto. Sentimos que não estamos sós, que a nossa encruzilhada caminha paralelamente à encruzilhada do outro. E é este lugar que nos faz Homens, como diz Afonso Cruz, «Porque um Homem é feito de histórias, não é de adê-énes e minúsculos ossos. Histórias» in “Os Livros que Devoraram o meu Pai”.
Esta foi a minha maior missão, como professora bibliotecária, permitir que cada um encontrasse a sua história ou histórias, os seus dilemas, as suas angústias, ou mesmo as suas felicidades e o seu pedaço de céu. Proporcionar esses encontros, sugerir caminhos, mesmo estando eu, também, perdida no labirinto. Sem dúvida que esta foi a minha maior batalha, mas é uma batalha que vale a pena.
Falar de bibliotecas é falar em muito mais do que livros, mas acabo sempre por cair na tentação de os enaltecer, porque são eles a minha paixão.
Há dias, lia, algures, que os livros são os primeiros alvos a abater pelos ditadores. É do senso comum, que os livros são portas abertas para o mundo crítico do pensamento. Sendo as bibliotecas pássaros da alma e como matar uma alma é muito mais que eliminar um corpo é, em última instância, anular a essência da humanidade.
Quando uma criança vem, pega num livro e se senta a ler, atinge-se o êxtase máximo do sentido da vida e da missão das nossas bibliotecas.
por Marta Freitas
Professora Bibliotecária do Agrupamento de Escolas de Esmoriz, Ovar (2017 – 2025)
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- Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
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