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Blogue RBE

Qua | 25.01.23

Já há máquinas que escrevem e desenham como os humanos! E agora?

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A inteligência artificial (IA) é uma tecnologia em rápido desenvolvimento que tem o potencial de melhorar significativamente a qualidade de vida das pessoas, mas também levanta questões éticas e legais importantes.

Como o aparecimento de plataformas e ferramentas de IA tem proliferado, para os mais variados serviços e áreas do conhecimento, é fundamental que os professores bibliotecários estejam atentos às tendências mapeadas pelas grandes organizações da área [p.ex. Center for the Future of Libraries - ALA; Federação Internacional das Associações e Instituições Bibliotecárias - IFLA] , que possuam conhecimentos básicos acerca dessas realidades e mantenham as bibliotecas como fontes atualizadas e preparadas para as mudanças e cenários futuros que as envolvem.

A IA já atua de forma invisível no nosso quotidiano e, subtilmente, vai dando forma a novas experiências de relação dos humanos com máquinas e/ou ferramentas digitais. Já estamos familiarizados, por exemplo, com o uso de assistentes virtuais que ajudam as pessoas no quotidiano a realizar tarefas específicas [Amazon Alexa; Google Assistant; Apple Siri; Chatboots como o LibAnswers ou o Bibliocommons;  etc.] e/ou que promovem a acessibilidade e a inclusão [p.ex: VLibras; VirtualSign; Voiceitt; etc.]

Não obstante, há inovações que nos surpreendem, sobretudo, quando as máquinas são capazes de realizar tarefas que simulam o pensamento humano e o reproduzem em atividades, como reconhecimento de padrões, planeamento e/ou raciocínio.

O recente ChatGPT  é disso exemplo, por ser capaz de gerar textos que aparentam ter sido escritos por humanos, ou ferramentas como o DALL.E e o Midjourney que são capazes de criar imagens geradas por prompts (comandos de texto).

Estes são exemplos de aplicação de inteligência artificial, quer na área de processamento de linguagem, onde a IA é aplicada para compreender e gerar texto natural, quer na área de composição visual, onde o algoritmo ao pesquisar uma extensa base de dados de ilustrações, fotografias, pinturas, em domínio público ou não, cria imagens surpreendentes.

Assim, através desses modelos de linguagem de IA, é possível, sem intervenção humana, gerar texto como notícias, artigos científicos, descrições de produtos e até mesmo histórias e poesias (ChatGPT) e/ou criar imagens/arte realista, onde é possível combinar conceitos, atributos e estilos (DALL.E; Midjourney).

As potencialidades destas plataformas podem ser observadas em vídeos (por exemplo End of An Artist's Career? A.I. Creates Art for You!), em galerias de imagens ou capas de revistas totalmente produzidas por IA, que facilmente atribuímos a um autor humano. Veja-se, a título de exemplo, a imagem de capa deste artigo.

Esta é uma tendência com potencial para crescer, devido à rapidez, praticidade e facilidade do processo de criação, mas que, simultaneamente, suscita várias interrogações e múltiplas inquietações, umas de natureza ética e outras de natureza legal.

Como podemos observar, através da exploração dos exemplos referidos, a IA pode ter um impacto significativo, não só na indústria criativa, pois tem potencial para mudar a maneira como os humanos criam conteúdos e, ainda, suscita preocupações sobre a autenticidade e a originalidade dos produtos gerados.

A lei dos direitos de autor protege as obras criadas por seres humanos. No entanto, com a geração automática de conteúdos pela IA, há questões que ficam por responder, sobre quem deve ser considerado o autor de uma obra e de como esses direitos devem ser protegidos. Atendendo a este contexto, é muito provável que os sistemas de citação e referenciação bibliográfica tenham de acomodar estas novas fontes e, por outro lado, ferramentas como as que detetam o plágio possam incorporar pesquisas capazes de avaliar se os textos foram produzidos por humanos ou por máquinas.

Para além destas questões, podemos inventariar uma série de outras preocupações com a IA, já que tais tecnologias podem:

  • gerar desinformação, de alta qualidade e em grande quantidade (como os deep fakes, que são muito difíceis de distinguir de gravações ou vídeos autênticos);

  • ser utilizadas de forma discriminatória (algoritmos treinados com dados que refletem preconceitos existentes na sociedade);

  • levar a decisões injustas ou mesmo prejudiciais (entrevistas para obtenção de empregos realizadas por máquinas);

  • limitar a liberdade individual e a privacidade (sistemas de vigilância com IA que rastreiam as pessoas sem o seu consentimento);

  • branquear questões de responsabilidade (se uma decisão automatizada causar danos a alguém, quem será responsável pelos danos?).

Face a este tipo de preocupações, a Comissão Europeia já deu os primeiros passos ao elaborar uma proposta de regulamentação para a IA, visando garantir que esta seja usada de forma segura e ética. Tal proposta inclui medidas que visam garantir a transparência, explicabilidade e segurança dos sistemas de IA e proteger os direitos fundamentais das pessoas.

A ironia está em que a digitação nos dá acesso a mais informação, mas está a reduzir o espaço para o pensamento profundo e para o raciocínio, pois diminui o papel dos indivíduos na análise e interpretação da informação.

Para terminar, e como forma de testar e ilustrar as potencialidades da IA, solicitou-se ao ChatGPT que redigisse um poema sobre a inteligência humana. O resultado foi o seguinte:

                    “A inteligência humana, tão sofisticada e profunda
                    Com a sua capacidade de raciocinar, criar e compreender
                    É uma força a ser admirada
                    Uma fonte de conhecimento e sabedoria
                    É a chave para desvendar os segredos da natureza
                    E construir sociedades complexas e avançadas
                    É a luz que ilumina o caminho para o progresso
                    E nos permite sonhar com um futuro melhor
                    É a ferramenta que nos permite comunicar
                    E partilhar os nossos pensamentos e emoções
                    É a força que nos impulsiona a buscar a verdade
                    E a buscar significado na vida
                    A inteligência humana, tão sofisticada e profunda
                    É a nossa mais valiosa posse
                    É a fonte da nossa criatividade, do nosso conhecimento e da nossa consciência
                    É o que nos faz humanos e nos diferencia dos outros seres vivos.”

                                                                                                                   Fonte?/ Autor?: ChatGPT

E agora?

Agora, não sabemos se poderemos ficar tranquilos por a inteligência artificial nos reconhecer tal poder e tais virtudes.

Podemos, no entanto, confiar que seremos capazes, se usarmos os nossos recursos mais sofisticados, de adaptar a nossa relação com a tecnologia, para que a realidade permaneça humana, ou, parafraseando Eugénio de Andrade (Rosto Precário), “Deixe-me pois pensar que o homem ainda tem possibilidades de se tornar humano.”

Notas:

  1. A Rede de Bibliotecas Escolares tem publicado recentemente, neste blogue, vários textos sobre inteligência artificial. Pode aceder a esses textos seguindo esta hiperligação.

  2. A curadoria de artigos proveniente de fontes muito diversificadas permitiu igualmente criar a revista digital Inteligência Artificial.

Fonte das imagens: DALL.E; comando de texto: A picasso oil painting with a dog robot writing on a computer

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