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Blogue RBE

Ter | 03.02.26

Inteligência artificial generativa na educação: novo relatório da OCDE

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Entre a polémica e a evidência: por que razão importa ler o relatório da OCDE?

A divulgação recente do Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa, que defende a suspensão do uso da inteligência artificial generativa (IAGen) nos processos de ensino-aprendizagem no ensino superior, veio intensificar um debate já presente nas escolas e nas instituições de ensino: como responder, de forma responsável, a tecnologias que se difundem rapidamente e interferem diretamente com práticas pedagógicas, formas de avaliação e processos de aprendizagem?

Num cenário marcado por posições polarizadas, entre a rejeição total e a adoção acrítica, documentos de enquadramento baseados em evidência tornam-se particularmente relevantes. 

É neste contexto que se destaca o relatório da OECD - Digital Education Outlook 2026: Exploring Effective Uses of Generative AI in Education -, publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). O documento procura esclarecer, de forma sistemática, em que condições a IAGen pode contribuir para a educação e quais os riscos que exigem atenção e regulação.

Um documento de referência para decisões informadas

O Digital Education Outlook é uma publicação de referência da OCDE sobre tecnologias digitais emergentes na educação. 

A edição de 2026 centra-se especificamente na IAGen e assume uma posição clara: a tecnologia, por si só, não melhora nem degrada/ ameaça a educação. O seu impacto depende das finalidades pedagógicas, das práticas concretas de utilização, das competências dos profissionais e dos quadros de governação que orientam a sua integração.

O relatório articula investigação científica recente, estudos empíricos, análises comparativas entre países e contributos de especialistas internacionais, oferecendo uma base sólida para reflexão e tomada de decisão por parte de educadores, dirigentes e responsáveis por políticas educativas.

Como está organizado o OECD Digital Education Outlook 2026?

O documento encontra-se estruturado em duas grandes partes. 

A primeira, dedicada à aprendizagem dos alunos,  explora o potencial da IAGen para apoiar o desenvolvimento de competências, a colaboração, a criatividade e novas formas de avaliação. 

A segunda parte centra-se no trabalho docente e no funcionamento das instituições educativas, analisando o papel da IAGen como apoio ao professor, os impactos na autonomia profissional e as implicações ao nível dos sistemas educativos.

A estas secções juntam-se capítulos de enquadramento concetual, entrevistas a investigadores de referência, estudos de caso e anexos com exemplos de estratégias nacionais adotadas por diferentes países. 

O conjunto permite uma leitura progressiva, acessível também a leitores não especialistas.

Quando a IA apoia a aprendizagem e quando a compromete?

Um dos contributos mais relevantes do relatório é a distinção clara entre o uso da IA para melhorar o desempenho imediato e o uso da IA para promover aprendizagens significativas e duradouras. 

A OCDE sublinha que a IAGen pode ser um recurso pedagógico valioso quando integrada como ferramenta de mediação, por exemplo através de sistemas de tutoria baseados no diálogo, feedback orientado ou apoio à reflexão dos alunos.

Em contrapartida, o relatório alerta para os riscos associados ao uso da IA como simples fornecedora de respostas prontas. Nesses casos, observa-se frequentemente uma redução do esforço cognitivo, da autorregulação e da aprendizagem profunda, mesmo quando os resultados imediatos parecem positivos.

Entre a evidência empírica mobilizada no relatório, destaca-se um estudo experimental realizado na Turquia, com estudantes universitários, que demonstra bem esta ambivalência. Nesse estudo, os alunos que tiveram acesso ao GPT-4 apresentaram melhorias significativas no desempenho imediato: cerca de 48% com a interface padrão e até 127% quando utilizaram uma versão com funções de tutoria orientadas para a aprendizagem.

Contudo, quando o acesso à ferramenta foi retirado, esses mesmos estudantes registaram um desempenho inferior em cerca de 17% face ao grupo de controlo. O estudo evidencia que o recurso à IAGen pode comprometer a aprendizagem a médio prazo se não for concebido explicitamente para apoiar a aquisição de competências e o esforço cognitivo autónomo.

Este exemplo, entre outros apresentados no relatório, reforça a ideia de que o desenho pedagógico e a intencionalidade educativa são determinantes.

A IA como apoio ao professor: ganhos, limites e riscos

No que respeita ao trabalho docente, o relatório identifica benefícios claros, sobretudo ao nível da produtividade. Estudos citados indicam reduções significativas do tempo dedicado ao planeamento de aulas, à criação de recursos e a tarefas administrativas, permitindo aos professores concentrar-se mais na interação pedagógica. O relatório destaca dados do inquérito TALIS 2024, indicando que 37% dos professores já utilizam IAGen para tarefas profissionais, como o planeamento de aulas, embora com variações significativas entre países.

Ao mesmo tempo, a OCDE alerta para riscos que não devem ser ignorados: a padronização excessiva das práticas, a dependência tecnológica e a possível erosão da autonomia profissional, caso a IA seja utilizada de forma acrítica ou como substituição do trabalho docente.

O relatório defende, por isso, uma abordagem de teacher-AI teaming ( Capítulo 7),  um modelo em que a IA desempenha um papel de apoio, complementar às competências humanas, mas o professor mantém o controlo pedagógico, ético e profissional e as decisões relevantes continuam a depender do julgamento profissional do docente.

Em síntese, a OCDE sublinha que a eficácia da IAGen em educação aumenta quando é integrada como parceira cognitiva e organizacional, e diminui quando é usada como substituto do trabalho intelectual do professor.

Impactos organizacionais e desafios de governação

Para além da sala de aula, a OCDE analisa o potencial da IAGen no apoio à gestão escolar, à análise curricular, à orientação vocacional e à produção de instrumentos de avaliação. Estes usos, porém, exigem quadros robustos de governação, nomeadamente no que respeita à proteção de dados, à transparência algorítmica, à mitigação de enviesamentos e à equidade no acesso.

A formação dos profissionais da educação surge como condição central para uma integração responsável da IAGen, permitindo escolhas informadas e contextualizadas.

O contributo das bibliotecas escolares num contexto em transformação

Neste cenário, as bibliotecas escolares devem assumir um papel estratégico. Enquanto espaços de mediação pedagógica, cultural e informacional, estão particularmente bem posicionadas para apoiar a literacia em inteligência artificial e algorítmica, a leitura crítica de documentos de referência e a reflexão ética sobre o uso da tecnologia. 

Cabe, pois,  às bibliotecas escolares contribuir para que alunos e professores compreendam como funcionam os sistemas de inteligência artificial generativa, quais os seus limites e riscos, e em que contextos o seu uso é pedagogicamente legítimo.

Entre a proibição total e a adoção acrítica, o relatório da OCDE aponta um caminho exigente, mas consistente, que a Rede de Bibliotecas Escolares subscreve. As bibliotecas escolares podem e devem assumir um papel ativo neste processo, enquanto espaços de mediação pedagógica, cultural e informacional. Ao promover a literacia em inteligência artificial, a leitura crítica de documentos de referência e a reflexão ética sobre o uso da tecnologia, as bibliotecas escolares contribuem para que a educação com IA seja, antes de mais, uma educação sobre a IA e com a IA, isto é,  consciente, crítica e humanamente orientada.

Referências 

OECD. (2026).  Digital Education Outlook 2026: Exploring effective uses of generative AI in education. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/062a7394-en

Por um Ensino Superior humanizado. (2026). Manifesto contra o uso da “inteligência” artificial generativa. WordPress. Consultado a 24 de janeiro de 2026, em https://humanizaroensino.wordpress.com/

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0