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Revista LER | Verão 2018

 

Novas formas de cerceamento da liberdade de expressão e artística em matéria de sexualidade, novas e cada vez mais finas abordagens de género, legislações restritivas, repressão social da pornografia e do livre arbítrio do comportamento sexual privado, censura de conteúdos programáticos nas escolas e universidades, acusações de assédio sexual sem exigência de ónus da prova – e a lista segue. Sofremos os efeitos secundários de mudanças sociais e correções políticas necessárias ou estamos a entrar numa nova era sexualmente restritiva?

 

Na terceira viagem ao que pensava ser a costa ocidental da Ásia, Cristóvão Colombo, talvez inspirado pela nudez das indígenas, anotou que o mundo não era afinal redondo, mas em forma de mama feminina, com o Paraíso por mamilo situado numa ilha, algures perto da atual Venezuela. Colombo ficou para a história como o descobridor da América e, progressivamente, também como o impulsionador do genocídio, estupro, tortura, comércio e repressão cultural dos povos nativos e o responsável pela primeira epidemia de sífilis de que há notícia na Europa. Se fosse hoje, Walt Whitman seria autorizado a louvá-lo como profeta («Prayer of Columbus»)? Muito provavelmente, não. Hoje, em cada vez mais cidades norte-americanas, o feriado nacional de 12 de outubro, instituído em 1932 em honra de Colombo, está a mudar de nome para Dia do Povo Indígena. Hoje, em cada vez mais editoras norte-americanas, recorre-se a sensitive readers para a leitura de originais e eventual higienização do texto quanto a eventuais ofensas a determinados grupos de leitores ou eventual revisão e inserção de texto que seja mais conforme com eles. Hoje, pelo menos metaforicamente, o mundo corre o risco de se tornar quadrado.

 

No final do século XIX, os contemporâneos do autor de Folhas de Erva consideraram a sua poesia ultrajante, pornográfica e imatura e criticaram-na e censuraram-na o mais que puderam. Whitman perdeu o emprego como escriturário público, por «falta de carácter moral», e viveu grande parte da vida na pobreza, ajudado por uns quantos amigos que reconheciam a grandeza da exuberância emocional e do radicalismo estilístico da sua obra. O próprio Ralph Waldo Emerson, pensador transcendentalista que inspirou e apoiou o auto-intitulado bardo da América, aconselhou-o a expurgar do poema «Filhos de Adão» o manifesto conteúdo homo-erótico.

 

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