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Blogue RBE

Sex | 02.02.24

Era uma vez…

por Olívia Brandão, Professora bibliotecária do AE de Arrifana, Santa Maria da Feira

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Era uma vez...

Eis a fórmula mágica que nos faz viajar pelo mundo das histórias, um mundo novo, cheio de magia, que estimula a imaginação, a criatividade e curiosidade, abrindo caminhos infindáveis…

8h da manhã… Hoje, avizinha-se um dia intenso… Tiro estes breves momentos, antes da azáfama do dia, para contar um pedacinho, ou se assim o entenderem, um retalho da minha história, ou melhor dizendo, da nossa história. Nossa, sim, pois nesta história eu não sou a personagem principal. Quem tem esse papel são todas as crianças e alunos do Agrupamento de Escolas de Arrifana, Santa Maria da Feira. É em torno delas e deles que gira toda a ação. São elas e eles os agentes, os fazedores, os verdadeiros construtores do conhecimento. Eu sou apenas uma personagem secundária, que incentiva, que cria oportunidades, que cria teias de conhecimento e de colaboração, que abre novos caminhos para a construção plena delas e deles, enquanto seres pensantes, ativos, críticos e cívicos numa sociedade exigente e complexa.

Claro que existem muitas fadas madrinhas! Sem elas, esta história não teria um final feliz… Todas as educadores e docentes do Agrupamento, a Diretora e sua equipa, a equipa da biblioteca (pessoal docente e não docente), a CIBE, a Biblioteca Municipal, a RBE, a autarquia e todos os outros parceiros locais, nacionais e internacionais (Erasmus+)… Com as suas varinhas de condão, proporcionam um trabalho, retifico, uma magia articulada, concertada e sustentada no tempo…. Sim, a nossa (minha) história não tem uma unidade temporal. Ela tem vindo a desenrolar-se ao longo dos últimos 22 anos e prevê-se a sua continuidade por muitos e muitos anos…

Apesar de não ser a personagem principal, por vezes, sinto-me uma verdadeira heroína! Não no sentido de super-herói, cujos poderes transformam o mundo e consertam tudo, mesmo o impossível. O meu superpoder é mais modesto e é alimentado pela energia que recebo em cada espaço por que passo. Já me esquecia, e desculpem-me mais este parêntesis... (A nossa história também não tem uma unidade espacial. Ela percorre todos os jardins e escolas do nosso agrupamento com e sem biblioteca, num total de 15, espalhados por cinco freguesias… Um verdadeiro périplo!). Regressando ao meu superpoder, e como estava a narrar, é tão bom, tão gratificante chegar às escolas e ter tantas crianças a correr na minha direção, a chamar pelo meu nome, a dar abraços atrás de abraços, a bombardear-me com perguntas ansiosas e entusiásticas “Vens contar-nos uma história?” (- Não. respondo eu), “Vamos brincar com a matemática?” (- Não.), “Vamos criar avatares?” (- Não.), “Então, o que vamos fazer?” Naquele dia, vou estar sozinha. Sim, sozinha! Há momentos mais solitários, indispensáveis para tratar de um dos objetos mais valiosos da nossa história – os livros, de forma a que possam sair das estantes, das caixas itinerantes e viajem em sacos próprios, pelas mãos delas e deles, até junto das suas famílias. Famílias que me vão conhecendo pelas minhas dinâmicas, pela voz delas e deles em encontros fortuitos, por exemplo, num supermercado. E peço desculpa por mais este parêntesis… (“- Olá, professora Olívia!”. Perante o olhar inquiridor do adulto, ela ou ele, com um rasgado sorriso na cara, exclama “É a professora da Biblioteca!”). É este o meu superpoder! Sentir que deixo a minha marca, uma marca positiva, nelas e neles, com a minha ação.

E como toda a história tem uma ação, a nossa está recheada de múltiplas sequências narrativas todas elas principais, em termos de relevo, que abrangem múltiplas áreas de intervenção (literacia da leitura e escrita, literacia da informação, literacia mediática, literacias digitais, cidadania, currículo, skills for lifeMakerspaces…), sempre abertas a novos desafios (Inteligência Artificial) e projetos (nacionais e internacionais). Por isso, a ação da nossa história não tem um desfecho fechado, mas sim aberto… Ela pretende, acima de tudo, criar momentos contínuos em que se possa afirmar convictamente “E viverão felizes para sempre!”

Vitória, vitória… História contada, mas não acabada!

Olívia Brandão,
Professora bibliotecária
Agrupamento de Escolas de Arrifana, Santa Maria da Feira

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  1. *Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
  2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
  3. Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.

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