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Blogue RBE

Ter | 27.01.26

Ensinar e gostar de bibliotecas: será uma questão genética?

por Sandra Marques, professora bibliotecária do AE António de Ataíde, Vila Franca de Xira

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Sou professora há 30 anos, Professora Bibliotecária em 17 desses 30.

Pode parecer estranho dizer isto, mas olhando para estes meus 51 anos de vida, sinto que nasci para ser professora e bibliotecária. É como se o meu ADN trouxesse dois carimbos com uma classificação difícil de decidir. Será da classe 0, por ser um ser generalista? Ou da classe 9, por querer conhecer como é o mundo ou por escrever as linhas da vida de uma PB? Talvez da classe 8, por ser uma obra baseada em factos reais de alguém que sempre adorou livros e ensinava as suas bonecas a ler?

Sempre me lembro de gostar de estar entre livros, mesmo numa casa onde, no meu quarto, só havia três: um da Anita (que eu copiava para um caderninho mesmo antes de saber ler e escrever), um sobre abelhas e outro sobre o ouriço-cacheiro. Em compensação, havia uma pequena sala de estar com um móvel cheio de livros do Círculo de Leitores e das Seleções do Reader’s Digest. 

Nessa altura, a terminar a década de 70, quando passava no Largo do Pelourinho, pequenina e de mão dada com a minha mãe para ir para a fila do leite, sentia uma curiosidade enorme por entrar na Biblioteca Bento de Jesus Caraça, onde não havia lugar para crianças. Apenas para pessoas “crescidas”. Um público maioritariamente masculino, com óculos e um ar fechado. Tão fechado como o espaço da biblioteca. Uma pequena sala, que eu viria a explorar anos mais tarde. A desilusão começou no primeiro dia em que entrei naquela sala. Um espaço de 20 m2 com 3 armários fechados à chave, cautelosamente guardados por um bibliotecário de óculos e de cara… fechada.

E bibliotecas nas escolas? Um sonho para meninas como eu — e apenas isso. Havia, na sala da diretora, um armário fechado com alguns livros, e uma biblioteca de sala de aula, porque felizmente a minha professora teve essa excelente e audaz ideia de pedir para trazermos alguns livrinhos de casa para partilharmos. Confesso que não fui capaz de levar os meus três livrinhos, que amava com paixão desmedida, mas li todos os que os meus colegas trouxeram. Em casa, se queria variar, tinha de ler Os Lusíadas, a lírica de Camões, Grandes Vidas, Grandes ObrasViagens sem Fronteiras ou O Livro da Saúde, entre outros livros de capas bonitas que decoravam a sala.

Quando passei para o “ciclo preparatório”, nos anos 80, descobri que uma das salas tinha sido transformada numa biblioteca. Já com estantes e muitos livros apetecíveis. Foi lá que aprendi, verdadeiramente, a amar ler. Passava lá grande parte do tempo e até podia requisitar livros para levar para casa. Haverá algo melhor do que isso? Levar e ler em casa Os CincoOs Sete e a grande novidade do momento: Uma Aventura! Para mim, aquele espaço era perfeito, com duas pessoas muito simpáticas: uma professora com fragilidades emocionais e uma assistente operacional que perdera a mobilidade no braço direito.

A partir daí, todas as escolas por onde passei tinham bibliotecas e “bibliotecários” com características semelhantes: não podiam dar aulas nem prestar uma assistência eficaz.

Chegados os anos 90, algo de maravilhoso começou a acontecer, a que esta pessoa que vos escreve teve o privilégio de assistir: bibliotecas municipais amplas, com várias salas e estantes de acesso livre. Na minha cidade, a biblioteca foi montada num centro comercial. Haverá algo mais inovador e criativo? Na escola secundária vi a biblioteca descer do primeiro andar e ocupar um novo espaço num novo bloco.

Foi então que pensei como gostaria de ser bibliotecária e trabalhar todo o dia entre livros, para as pessoas. Mas… lembram-se dos carimbos de que vos falei? Um deles é da classe 37, sem qualquer dúvida. Continuava a ser aquela menina que gostava de ensinar as bonecas a ler e a escrever. Tinha de fazer a minha opção.

No meu quinto ano de serviço, corria o ano de 1999, encontrava-me numa escola que ousara concorrer à Rede de Bibliotecas Escolares. Fiz parte da equipa que sonhou a candidatura e também de um projeto de inclusão – Todos Diferentes, Todos na Escola –, cujo ponto de partida foi uma simples sala de aula, transformada em biblioteca provisória, enquanto aguardávamos, expectantes, o resultado. Éramos um punhado de jovens professoras, animadas pela urgência dos sonhos e pela vontade ardente de lhes dar corpo.

A partir daí, dediquei a maior parte da minha experiência ao trabalho com bibliotecas, ora como professora titular, ora como professora bibliotecária.

Hoje, as Bibliotecas Municipais e as Bibliotecas Escolares são espaços vivos, que caminham de braço dado com o foco nos seus utilizadores. Não são uma sala. São salas para todos os gostos e feitios. São locais inovadores, de aprendizagem e entreajuda. Continuam a ter pessoas simpáticas, mas que investiram na sua formação para melhor fazer bombear o coração de uma escola ou de uma comunidade. 

As bibliotecas são um bocadinho de mundo perfeito, construído por pessoas que, com toda a certeza, têm no seu ADN um carimbo que diz: “Bibliotecário(a) Assumido(a) e Por Sua Livre Vontade.”

Por que vos contei a minha vida neste retalho da vida de uma professora bibliotecária? Porque a minha linha do tempo é, na minha singela opinião, compatível com a linha do tempo das bibliotecas portuguesas.
E que evolução bonita, não acham?

por Sandra Marques
Professora Bibliotecária
AE António de Ataíde, Vila Franca de Xira

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  1. Qualquer semelhança entre o título desta rubrica e a obra Retalhos da vida de um médico, não é pura coincidência; é uma vénia a Fernando Namora.
  2. Esta rubrica visa apresentar apontamentos breves do quotidiano dos professores bibliotecários, sem qualquer preocupação cronológica, científica ou outra. Trata-se simplesmente da partilha informal de vivências.
  3. Se é professor bibliotecário e gostaria de partilhar um “retalho”, poderá fazê-lo, submetendo este formulário.

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Este trabalho está licenciado sob licença: CC BY-NC-SA 4.0