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Blogue RBE

Espaço da Rede de Bibliotecas Escolares para difusão de projetos, eventos e ideias em torno da leitura, do livro, das literacias e dos novos ambientes digitais de informação e de aprendizagem.

Ter | 27.04.21

Educar para o desconhecido

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Foto de Sandra Seitamaa em Unsplash

 No mundo interconectado e em veloz transformação, não se pode esperar o futuro como extensão do presente, mas como incerteza, imprevisibilidade, da qual a pandemia Covid 19 é exemplo. É com lentidão que a educação se adapta às possibilidades da internet, à inteligência artificial e à Quarta Revolução Industrial. Daí perguntar-se: quando o conhecimento é omnipresente, gratuito e à medida de cada um, como educar para uma realidade que desconhecemos?

Provavelmente já não precisamos ensinar rios e montanhas de Portugal ou cronologia dos Descobrimentos, mas precisamos que as crianças e jovens aprendam a pensar e a desenvolver soluções criativas para um problema, identificar informação relevante e ler criticamente notícias, construir um portfólio e desenvolver um projeto, discutir e comunicar em público, falando fluentemente diferentes línguas e usando vários media, ajudar colegas e a associação local, nadar ou brincar.

Segundo Ken Robinson 1 para educar para a imprevisibilidade é preciso fomentar a criatividade - capacidade de ter ideias originais com valor social - e as artes, tão importantes como aprender a ler e escrever. Quando chegam à escola, as crianças são criativas, mas “a escola mata a criatividade” porque as prepara para um modelo de aprendizagem académico, verbal e lógico-matemático que incide a sua ação na cabeça, esquecendo o resto do corpo. É assim que currículos do mundo inteiro privilegiam matemáticas, ciências e línguas e desprezam educação física e artes e, dentro das artes, também criam hierarquias: artes visuais e música têm estatuto mais elevado do que teatro ou dança - “Não há um sistema educacional no planeta que ensine dança todos os dias às crianças da mesma forma que ensina matemática.  Por quê?  Por que não? 2

Para Howard Gardner, autor da Teoria das Inteligências Múltiplas (MI), a criatividade tem duas características principais: exige domínio aprofundado da matéria e é, não uma inteligência independente, mas uma característica da personalidade associada ao gosto em correr riscos, não ter medo de falhar e tentar novamente, ser atraído pelo desconhecido, ir além do status quo 4. Este traço de personalidade pode manifestar-se em diversas inteligências independentes entre si que, para o psicólogo da Harvard School of Education, são sete principais:

- Verbal ou linguística, manifesta em escritores como Agustina Bessa-luís ou jornalistas como Fátima Ferreira;

- Lógico-matemática, em cientistas como Elvira Fortunato ou Vítor Cardoso;

- Visual ou espacial, em pintoras como Sarah Afonso e arquitetos como Souto Moura;

- Musical, em maestros como Joana Carneiro;

- Cinestésica e física, em bailarinos como António Casalinho e futebolistas como Jéssica Silva;

- Interpessoal, em líderes como António Guterres;

- Intrapessoal [capacidade de se conhecer a si próprio], em terapeutas como Júlio Machado Vaz.

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Fonte da Imagem: Gardner, H. (2006). Multiple Intelligences. Basic Books. https://www.basicbooks.com/titles/howard-e-gardner/multiple-intelligences/9780786721870/

Segundo Gardner todos os seres humanos possuem todas estas inteligências/ talentos num certo grau, mas o modo, estilo e contexto com que cada um as combina e aprende é diverso, razão pela qual é preciso centrar a educação no indivíduo e suas diferenças, seguindo uma abordagem personalizada e desenvolver estratégias de aprendizagem diversificadas: histórias, debates, jogos, filmes, diagramas, exercícios práticos, dramatizações, visitas guiadas… Habitualmente estas inteligências manifestam-se de forma articulada - a inteligência tecnológica resulta da combinação entre as inteligências lógica, espacial e física e o humor das inteligências lógica e intrapessoal – e desta interação gera-se criatividade. Outro aspeto a destacar é que “As crianças [sobretudo as mais novas, abaixo dos 10 anos] aprendem melhor quando estão ativamente envolvidas na matéria; elas querem trabalhar diretamente com materiais e media; nas artes estas forças e inclinações traduzem-se quase sempre em fazer/ produzir algo” 5.  Também é importante que a aprendizagem seja significativa, que o currículo se enraíze em temas-problemas e materiais ligados à vida das crianças. Sobre a construção de portefólios -“processfolios”, termo que prefere - de que é adepto, Gardner sugere que integrem não apenas os melhores trabalhos, pelos quais o estudante seria julgado numa competição, mas o trabalho integral em curso - “esboços provisórios, críticas de si próprio e de outros, obras de arte de outros que admira ou não gosta”, devendo expressar a consciência sobre suas forças e fraquezas, capacidade de refletir com rigor, autocriticar-se e fazer uso de críticas dos outros, identificar e resolver novos problemas, estabelecer marcos de desenvolvimento pessoal 6.

Na escola, a biblioteca distingue-se dos outros espaços de sala de aula por dispor de oportunidades para desenvolver a inteligência de modo integral. Esta é a descrição de Gardner de uma das primeiras bibliotecas escolares MI 7:

“a expressão biblioteca de múltiplas inteligências parece um oxímoro porque as bibliotecas sugerem a hegemonia de livros e, portanto, de uma ou duas inteligências. De facto, a biblioteca MI [da New City School em St. Louis, Escola Básica do Estado de Missouri, EUA] tem generosamente guardados livros, quer para as crianças, quer para os pais e adultos interessados. Os livros são organizados tendo em vista as inteligências que o seu conteúdo implica. Mas o que torna a biblioteca diferente é o seu aprovisionamento de uma variedade de ambientes de aprendizagem nos quais as crianças podem exibir e desenvolver várias inteligências – áreas para desenhar e fazer construções tridimensionais; para criar em filmes e media digitais; para espetáculos de teatro; para explorações musicais; para trabalho de grupo para as crianças, tal como áreas confortáveis onde os adultos se podem sentar, relaxar (…) ler sozinhos ou com as suas crianças.”

Fundador do Projeto Spectrum 8, Gardner trabalha no sentido de desenvolver em cada criança um perfil de competências ou espectro de inteligências dinâmico, por meio da educação e ambientes ricos em recursos e atividades.

No futuro considera que o desafio da sociedade não está tanto em formar indivíduos mais inteligentes, mas em humanizar a inteligência, dando-lhe um sentido de responsabilidade ética, de modo a que os fins que a dirigem sejam orientados para a prática universal do bem 9. Desenvolver um modelo de aprendizagem holístico centrado no relacionamento deverá ser uma tendência a aprofundar.

 

Referências

1. Robinson, K. Blog. http://sirkenrobinson.com/blog/

2. Robinson, K. (2006). As escolas matam a criatividade? TED conference. https://www.ted.com/talks/sir_ken_robinson_do_schools_kill_creativity/transcript

3. Robinson, K. Sir Ken Robinson (still) wants an education revolution. TED [interview]. https://www.ted.com/talks/the_ted_interview_sir_ken_robinson_still_wants_an_education_revolution/transcript

4. Gardner, H. (2006). Multiple intelligences – New Horizons. Basic Books, p. 67.

5. Ibid., p. 153.

6. Ibid., pp. 161, 162.

7. Ibid., p. 250.

8. Harvard School of Education. Project Spectrum. Project Zero. http://www.pz.harvard.edu/projects/project-spectrum

9. Gardner, H. (2006), p. 240.