Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Captura de ecrã 2020-11-11, às 12.09.13.jpg

Fonte da imagem: iStock


«Eu não sou leitora/a». Esta é uma frase comum que Julia Torres, professora bibliotecária em Denver, tem ouvido ao longo da sua carreira de 16 anos. Já viu alunos a destruir livros, a deitá-los fora ou a requisitá-los e devolvê-los logo de seguida, apenas porque não confiam na sua capacidade para ler.

Enquanto bibliotecária, Julia sente que as bibliotecas devem ser espaços de emancipação, espaços onde os alunos possam desenvolver o gosto pela leitura em qualquer altura. A leitura é uma competência pela qual todos se podem apaixonar, mas experiências negativas durante a infância podem resultar em traumas que se manifesta na forma de aborrecimento, apatia ou mesmo raiva. Quando um aluno tem uma má experiência, como ser envergonhado pelo que escolheu ler, pode começar a associar a leitura a sensações dolorosas de insegurança, humilhação ou stress tóxico. Estas experiências negativas podem começar no jardim de infância e ter impacto na autoimagem da criança ao longo do seu percurso educativo.

Numa palestra dinamizada na Associação Americana de Bibliotecas - Healing Reading Trauma : Rebuilding Love of Reading Through Libraries for Liberation - , Julia Torres e Julie Stivers, professora bibliotecária na Mt. Vernon Middle School, na Carolina do Norte, exploraram o modo como o trauma da leitura se inflige nos alunos e o que os bibliotecários podem fazer para interromper ou impedir que esse trauma aconteça.

O que causa o trauma da leitura?

De acordo com as duas (professoras) bibliotecárias, algumas práticas que causam trauma da leitura são:

Submeter os alunos a exames/testes, que os encorajam a regurgitar as respostas que pensam que os professores querem ouvir/ler.
Dar prioridade aos «clássicos», que foram, na maior parte das vezes, escritos por homens mortos, brancos e heterossexuais. Muitos dos nossos alunos não leem esses livros, porque não sentem que os mesmos se relacionem com as vidas que eles vivem, disse a Julia Torres, referindo que os livros mais lidos pelos alunos recentemente são Long Way Down, The Hate U Give e The Poet X, assim como poesia, manga e novelas gráficas.
Fazer os alunos sentirem vergonha pelas leituras escolhidas ou fazer julgamentos sobre o que pretendem ler. Se dissermos aos alunos que aquilo que pretendem ler não interessa (banda desenhada, manda e fan fiction, por exemplo), eles podem deixar de se envolver e perder a sua identidade como leitores.
Atribuir um nível de leitura aos livros, o que normalmente é feito por um computador que pode avaliar incorretamente a complexidade do tema e da linguagem. «Temos de ser cuidadosos e ter em conta que a atribuição de níveis aos livros é feita para uso dos professores e não tanto para os alunos se posicionarem», referiu Julia Torres. Quando os alunos sentem que não estão a ir ao encontro das expetativas dos professores ou sentem que não estão no nível em que deveriam estar, isso pode ser motivo de trauma.

O que é que os bibliotecários podem fazer para interromper o trauma da leitura?

Evitar o trauma da leitura está relacionado com a responsabilização que incutimos no aluno. «Não queremos que os alunos dependam sempre de nós para desenvolverem a leitura ao longo da vida», disse Julia Torres. Para interromper práticas traumáticas, os bibliotecários podem:
Construir uma biblioteca inclusiva. Assegure-se de que a coleção da sua biblioteca é o mais inclusiva e diversificada possível. Organizar a coleção por géneros pode facilitar a procura dos alunos e ajuda o professor bibliotecário a identificar falhas na coleção. Julie Sivers pediu a um aluno para encontrar um livro cuja capa fosse parecida com ele. O aluno encontrou o livro em dois minutos. Os seus alunos seriam capazes de encontrar livros, numa exposição, que fossem parecidos com eles? Descubra livros que proporcionem representações autênticas e positivas dos seus alunos.
Reavalie o seu papel e as suas prioridades. «Não somos guardiães dos livros», disse Julie Stivers. «Esse não é o nosso papel. Prefiro perder um livro a perder um leitor.» Consegue responsabilizar os seus alunos de modo a que assumam o controlo da sua biblioteca e tenham uma palavra a dizer na hora de atualizar a coleção? Lembre-se de que não é o salvador de ninguém, advertiu Julie Stivers. «Não estou a resgatar as minhas crianças dirigindo-as para a leitura dos livros de Jason Reynolds ou Angie Thomas. Não estou a fazer coisas para elas; estou a fazer coisas com elas.»
Verifique os regulamentos. Abula multas, prazos de entrega rígidos, portões de segurança e regras punitivas.
Organize uma programação inclusiva. Por exemplo, na biblioteca de Julie Stivers, ela e os alunos criaram um conjunto de orientações para o desenvolvimento da coleção chamado #LibFive, o qual inclui princípios como «Novelas gráficas e manga não são extras» e «Mostra como gostas das nossas histórias.» Em vez de organizar feiras do livro tradicionais, a sua biblioteca organiza uma feira na qual os alunos são convidados a escolher os livros de acordo com os seus interesses e sem custos. Leia o que os seus alunos estão a ler. Dizer que as novelas gráficas também são leitura verdadeira não vale de nada se o professor bibliotecário não ler também novelas gráficas.
Redefina aquilo que entende por leitura. Julia Torres acredita convictamente nas competências pedagógicas, não em textos. Ela encoraja os alunos, mesmo os da escola secundária, a ouvirem audiolivros ou a ler livros ilustrados. Encontre uma forma de ensinar competências como a compreensão e o pensamento crítico através dos textos que suscitam entusiasmo e interesse aos alunos.

Dicas adicionais para criar espaços virtuais

● Proporcione momentos de aproximação aos autores através das redes sociais. Encoraje os alunos a interagirem com os autores e a inspirarem-se para ler e escrever. Aplicações como a GoodReads, o Twitter ou o Instagram podem ser espaços virtuais ótimos para conversar sobre as obras com os autores e outros leitores.
● Siga os autores nas redes sociais e encoraje os alunos a fazerem o mesmo.
● Organize círculos de leitura online.
● Recolha dados sobre a circulação de livros e aplique questionários aos alunos, perguntando-lhes o que estão a ler e qual a qual o posicionamento face à leitura durante estes tempos.

O artigo When Kids Say ‘I’m not a reader’: How Librarians Can Disrupt Traumatic Reading Practices foi originalmente publicado na rubrica MindShift da KQED News. Texto traduzido livremente a partir do inglês.

Etiquetas:



RBE


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Blogue RBE em revista

Clique aqui para subscrever


Twitter



Perfil SAPO

foto do autor